Capítulo 46




Pedalando tranquilamente com sua bicicleta em direção à Cidade de Mahogany, Vivian Chevalier, com cabelos ruivos que tocavam seus ombros, morava em Azalea, mas estava longe de casa naquele instante porque era em Mahogany onde vendia o raríssimo Rage Candy Bar, ingrediente importante da receita super-secreta passada de geração em geração da Lendária Torta de Azalea, que dizem ser tão saborosa, tão maravilhosa e tão suculenta que nem os mais renomados chefes de cozinha dos mais caros e finos restaurantes de Lumiose, em Kalos, conseguiram reproduzir a receita, muito menos descobrir como ela era feita. O vento batia em seu rosto enquanto ela avançava veloz em direção à cidade, já visível no horizonte.

O céu azul com um sol a pino que brilhava forte, em um instante, mudou de cor. Nuvens pesadas tomaram conta e uma virada do tempo inesperada fez a garota soltar uma exclamação audível. Raios e trovões violentos anunciavam que Raikou se aproximava. O Pokémon Lendário corria com velocidade pela Rota 43, passando por Pokémon que marchavam em direção ao grande lago que havia ao norte, como um grande exército que seguia ao chamado de seu líder.

— Quem é aquele Pokémon? — se perguntou a garota enquanto via o Pokémon sumir tão rápido quanto apareceu.

A garota perdeu o equilíbrio da bicicleta e estabacou-se no chão.

— Ai, ai, ai, ai! — Exclamava a menina ao levantar-se do chão e examinar as feridas nos cotovelos e nos joelhos.

A chuva começou a molhar o chão. As gotas tocavam o rosto de Vivian, que apressou-se em montar novamente na bicicleta e correr em direção ao Centro Pokémon de Mahogany, alguns minutos a frente.

Um urro agudo chamou a atenção da garota. O estranho barulho encontrava-se longe, mas atravessava as densas árvores dos bosques e montanhas que cercavam a cidade, chegando abafado aos ouvidos de Vivian. Ela hesitou por alguns instantes, mas continuou seu caminho sem olhar para trás.

***

Na televisão do quarto do hospital de onde Ethan se encontrava sob cuidados médicos sob a visita de Amy, a chamada do plantão extraordinário da emissora chamou a atenção dos garotos. A repórter estava sobrevoando um grande lago, onde um imenso Pokémon vermelho podia ser visto.

— Um Gyarados vermelho incontrolável está aterrorizando os moradores que vivem próximo ao Lago dos Magikarp! Vimos inclusive os lendários Raikou, Entei e Suicune aparentemente se dirigindo para o local, e também nosso helicóptero flagrou Bruno, da Elite 4, nas montanhas do Monte Mortar, também bem próximo ao local! Será que ele e os demais integrantes da Liga Pokémon estão indo controlar o Gyarados furioso? — Noticiava a repórter na TV, de forma eufórica.

Ethan e Amy soltaram uma exclamação alta quando imagens do Monte Mortar eram transmitidas ao vivo na televisão.

— Aquele é o Forrest?! — Exclamou Amy.

***

As portas do Centro Pokémon se abriram. Vivian, exausta e ensopada, empurrava sua bicicleta até o balcão da recepção com uma cara de muitos poucos amigos. A garota guiou a bicicleta até um dos bancos da recepção e a deitou no chão, sentando para descansar em seguida. A garota reparou em um aglomerado de pessoas próximo ao balcão do centro médico. Elas prestavam atenção nas imagens da televisão, que transmitia ao vivo o noticiário que relatava sobre o Gyarados Vermelho. Vivian soltou uma exclamação audível de espanto e curiosidade.

— Que Pokémon é esse...? — Perguntou a garota para si.

Amy apareceu correndo do corredor que dava para os quartos onde os pacientes humanos eram tratados. A garota se dirigiu até a porta automática que permitia entrar e sair do Centro Pokémon e, pelo vidro, viu a forte tempestade que caia do lado de fora. Ela hesitou por instantes e olhou ao redor. Seus olhos azuis encontraram os de Vivian, que estremeceu por alguns instantes.

— Onde é que você pensa que vai? Pode voltar agora pro quarto! — O tom zangado que a Enfermeira Joy falava chamou a atenção de todos os presentes.

Ethan, de avental cirúrgico, tentava aproximar-se do local onde Amy se encontrava. Uma Chansey aproximou-se do garoto, parou em sua frente e esticou os braços impedindo que o garoto continuasse o caminho.

— Me deixe passar, Chansey, eu preciso ir atrás do meu amigo.
— Eu não lhe dei alta! Faça o favor de voltar para a cama, agora! — Ordenou Joy com uma voz firme.

Ethan olhou para Amy, como se suplicasse sua ajuda.

— Você precisa ficar bom logo. Prometo trazer Forrest de volta. — Disse a garota.
— Mas, Amy...
— Eu volto depressa — ela sorriu de forma doce para Ethan.

Vivian observava atentamente, sem falar nada. Tomou um susto quando percebeu Amy aproximando-se.

— Essa bicicleta é sua?
— É sim. Por quê?
— Acredito que com o temporal lá fora, você não vai usá-la, certo?

Amy ergueu a bicicleta de Vivian e a fez soltar uma exclamação.

— Ei! O que você tá fazendo?!
— Depois eu te devolvo.

Amy correu em direção à porta, saindo por ela e subindo no banco da bicicleta de Vivian. Botou o pé nos pedais e acelerou em direção ao norte. Vivian correu atrás da garota.

— CÊ TÁ MALUCA? ESSA É A MINHA BIKE, VOLTA AQUI!

***

Forrest e Bruno rumavam em direção ao Lago dos Magikarp montados em Rhyhorn e acompanhados de perto pelos Pokémon do moreno, fora de suas PokéBolas. Não demorou muito para que avistassem ao longe o grandioso Pokémon disparando raios coloridos de sua boca. Sua ira era imensa. Por um instante, Forrest tremeu. O suor escorria por seu tronco nu misturado com as gotas da forte chuva que caia naquela rota e suas mãos escorregavam ao tentar segurar no pescoço de seu Pokémon. Sentiu algo aproximando com velocidade e ao olhar para trás, viu os lendários Raikou, Entei e Suicune correndo em direção ao lago. As três criaturas místicas passaram por Forrest e Bruno ignorando sua presença.

— Forrest! — Ao ouvir seu nome sendo chamado, o garoto olhou para trás mais uma vez. O moreno não pode deixar de soltar uma exclamação audível quando viu Amy chegando cada vez mais próximo de Rhyhorn.

Os olhos dos dois se encontraram, mas eles nada disseram. Continuaram rumando para o norte, onde já era possível sentir o cheiro da grama das margens do grandioso lago.

***

Com as roupas sujas de lama, cabelos desgrenhados e uma aparência nada feminina, Vivian Chevalier apoiava-se para descansar em uma árvore do bosque da Rota 43, xingando Amy de todos os nomes que conhecia. Mesmo com a respiração ofegante após correr atrás da ladra de sua bicicleta, ela não deixava de soltar maldições contra ela.

— Eu não achei que eu ia ficar tão feliz em encontrar você.

A voz de Ethan no meio da chuva fez Vivian soltar um berro.

— WAAAAAH!!! QUEM É VOCÊ E O QUE QUER DE MIM?!
— De você eu não quero nada! Eu quero saber é da Amy, aquela garota que estava com você. Pra onde ela foi?

A garota fechou a cara.

— Aquela cretina roubou a minha bicicleta! Eu não tenho certeza, mas ela foi em direção àquele lago de onde vêm os rugidos estranhos.
— Obrigado — Ethan passou por Vivian e seguiu seu caminho rumo ao lago.

A ruiva olhou fixamente para o garoto e pareceu refletir por alguns instantes, como se quisesse lembrar de algo.

— Ei, você não é aquele maluco que tentou fugir do hospital?

Ethan parou. Com um sorriso, virou-se para encarar a menina.

— Parece que a tentativa deu certo — ele ajeitou seu boné e retomou a caminhada. Não estava mais com o avental cirúrgico do hospital, mas não vestia camiseta alguma. A bermuda preta com o cinto afivelado e os tênis desgastados eram o único look que cobria o corpo do garoto.

Vivian ergueu o cenho e, visivelmente confusa, começou a tagarelar seguindo o garoto.

— Ei, mas como assim? Como você conseguiu? A Enfermeira Joy sabe que você fugiu? Cadê seus Pokémon? Você pode pegar uma gripe debaixo de uma chuva como essa! Atchim! Ai, porcaria... Ei, você não tá me ouvindo falar, não? Eu to falando com você, ô, mané!

***

Red e Lance encaravam atônitos o lago que agora não só tinha o Gyarados vermelho, mas outros quatro Gyarados azuis recém-evoluídos, todos muito nervosos. Os dois treinadores experientes não sabiam qual atitude tomar. Sem se darem conta da coincidência, os treinadores sentiam uma leve pontada de dor de cabeça ao mesmo tempo.

Podia ser devido a mudança brusca do tempo. O anúncio de um possível resfriado chegando? Talvez. No Centro Pokémon, pediriam analgésicos à Enfermeira Joy.

— Eu sei que é da natureza desses Pokémon a ira incontrolável, mas... Isso é um grande exagero — comentou Red. — Por que eles estão tão nervosos assim?
— Eu não faço ideia... Tem que ter alguma coisa que esteja alterando o comportamento desses Pokémon... Será que é a água?
— É um ótimo chute, mas... Não parece ser o caso aqui.
— Eu não consigo me lembrar... Por algum motivo, tem alguma coisa bloqueando. É como se eu soubesse a resposta, mas ela não me aparece de jeito nenhum...

Pokémon de todas as espécies começaram a surgir aos arredores. Eles eram muitos e, como se estivessem hipnotizados, seguiam para a margem do lago. Red e Lance olhavam um para o outro e não sabiam o que dizer. Ao examinarem os Pokémon que se aproximavam cada vez mais, percebiam que suas pupilas estavam dilatadas, que rosnavam baixo e caminhavam de forma ameaçadora, como um predador que cercava suas vitimas.

Raikou, Entei e Suicune surgiram em disparada na margem do lago, mas os dois rapazes que já estavam presentes ali se surpreenderam mais com Amy, Forrest e Bruno chegando em seguida.

— Bruno! O que faz aqui? — Perguntou Lance em tom surpreso.
— Assuntos de família. Mas parece que esse aqui me parece muito mais interessante... — Bruno encarou Red. — Bom te ver depois de tanto tempo, garoto.
— Digo o mesmo, senhor Bruno — cumprimentou o garoto.
— Acredito que não seja uma boa hora para cumprimentos — comentou Forrest, sério. — Controlar os Gyarados é a nossa prioridade.

Amy encarou o amigo. A expressão de surpresa em seu rosto era evidente, afinal ele não tinha por característica ser alguém metódico.

Lance levou a mão direita em direção à têmpora. A dor de cabeça começava a incomodar.

— Enxaqueca logo agora...? Droga.

Red olhou para o homem e também percebeu que em sua cabeça, uma incômoda latência chamava sua atenção.

— Agora que você falou... Coincidentemente estou começando a ficar com dor de cabeça também...

Um poderoso trovão caiu próximo às águas cristalinas do lago. Lance, Red, Amy, Forrest e Bruno cobriram os ouvidos com as mãos para tentar aliviar do imenso barulho que ocorreu imediatamente. Raikou encarava os Gyarados com ódio. O de cor vermelha colocou-se em frente aos outros e retrucava o olhar do lendário Pokémon de forma semelhante, como um general protegendo seu exército. O Gyarados Vermelho disparou o Dragon Rage na direção do poderoso oponente, mas o golpe foi bloqueado quando Raikou usou seu movimento Reflect. Uma forte onda de vento e fumaça espalhou-se pelo lugar, fazendo as hordas de Pokémon moverem-se alguns centímetros dos lugares onde assistiam, calados, os eventos que se desenrolavam ali.

— Acho que os Gyarados se tornaram o menor dos nossos problemas... — comentou Lance, encarando o lago de forma séria.

Red soltou uma exclamação ao ouvir Forrest berrar de repente.

— Mas o que diabos está acontecendo aqui?!

O corpo de Rhyhorn emitiu um brilho forte. Começou a ficar maior e mais musculoso, subitamente apoiando-se nas duas patas traseiras e erguendo-se de forma ereta. O chifre entre seus olhos também cresceu e ficou pontudo, tomando a forma de uma broca. Saliências surgiram em sua cabeça e ao lado de suas orelhas triangulares, formou-se uma crista larga e ondulada e sulcos pontiagudos em suas bochechas. Ganhara olhos ainda mais vermelhos, cor de sangue e uma fileira de espinhos pontiagudos nas costas, que terminava em uma longa cauda com listras pretas e finas. Não era apenas o Pokémon de Forrest que havia evoluído. Dezenas de Pokémon passavam pelo mesmo processo ao mesmo tempo. O Lago dos Magikarp também emitia um forte brilho branco que vinha do fundo de suas águas, onde mais alguns Gyarados enfurecidos emergiam para a superfície.
File:112Rhydon.png


— Todos esses Pokémon evoluíram... Ao mesmo tempo?! — Exclamou Amy.
— É a primeira vez que eu vejo isso... Isso não é algo convencional! — Lance sentiu medo pela primeira vez.

Red gritou de dor e ajoelhou-se na grama verde. Levava as duas mãos à cabeça, que parecia que iria, literalmente, explodir a qualquer instante. As lágrimas de desespero do garoto escorriam pelo seu rosto, traçando o contorno do pânico que ele sentia naquele instante.

— Alguém faz parar essa dor... Eu imploro...

No lago, os Gyarados em conjunto começaram a fazer uma dança estranha. Rodavam hipnoticamente dentro de um grande eixo e iam acelerando cada vez mais. Um imenso tornado foi sendo produzido e, de uma vez, foi lançado em terra. Os Pokémon presentes, incluindo os cães lendários, foram arremessados para longe. O enorme ciclone ia aproximando-se cada vez mais veloz da direção onde Amy, Forrest, Red, Lance e Bruno permaneciam inaptos a fazer alguma coisa.

Mirror Coat e ThunderWave!

Dois estalos agudos foram ouvidos em sequência. Uma bolota azul emanando uma luz violeta pulou na frente do grupo e recebeu o iminente ataque em cheio.

Foi Amy quem primeiro percebeu que seus ossos não se partiram com o impacto de um ataque tão violento. Ao ter a coragem de abrir seus grandes olhos azuis, exclamou com surpresa ao ver Wobbuffet protegendo-a como os braços abertos, expelindo com força o poder do Twister de volta para o lago, em direção aos Gyarados furiosos. Ao seu lado, Magnemite produzia de seus imãs eletromagnéticos um raio elétrico que foi atraído pela água do lago, conduzindo-o diretamente para os Pokémon parcialmente submersos.

O ThunderWave paralisou o grupo de Gyarados selvagens. Amy voltou a atenção para a única pessoa que ela sabia que tinha aqueles dois Pokémon.

— Ethan!

O garoto sorriu ao ouvir seu nome sendo dito por ela.

— Fico feliz por ter chegado a tempo.

Ethan sentiu um soco no estômago ao ver Forrest, parado a alguns metros em sua frente. Os últimos dias longe do amigo pareceram uma eternidade. E agora, vê-lo ali tão próximo, era quase como se fosse uma assombração.

— Forrest...

O moreno olhou para o companheiro e encarou o chão, cerrando os punhos. Ele estava prestes a dizer alguma coisa quando um grito agudo o interrompeu.

— VOCÊ É A MALUCA QUE ROUBOU MINHA BICICLETA! ONDE FOI QUE VOCÊ A COLOCOU?!

Vivian Chevalier avançou ferozmente na direção de Amy que como se usasse um Pursuit, desviou agilmente das garras da ruiva, que deu de cara no chão.

— Eu não sei se você é maluca, mas não é o momento, e também não é aqui, que essa conversa deve acontecer.

Vivian ainda encarava Amy com raiva quando assustou-se outra vez.

Entei rugiu tão ferozmente que o chão começou a tremer, como um abalo sísmico. Humanos e Pokémon tombaram ao chão como se este fosse feito de sabonete. A fúria do cão lendário subitamente foi convertida em um poderoso lança-chamas disparado de sua bocarra enorme na direção de Gyarados Vermelho. O Flamethrower, porém, não pareceu surtir efeito algum.

Inúmeros Pokémon começaram a evoluir ao redor do lago ao mesmo tempo outra vez. Ethan e Vivian foram quem se surpreenderam dessa vez.

— Evolução? Todos eles? Mas como?! — Exclamou o garoto.
— Tem alguma coisa enorme induzindo a evolução desses Pokémon, e consequentemente sua fúria... Precisamos descobrir logo o que está acontecendo — comentou Lance.
— Não temos tempo de ficar pensando. É melhor fazermos algo antes que nós é que nos tornemos os alvos — Bruno sacou uma PokéBola do bolso de sua calça branca e arremessou ao ar.

Onix surgiu imponente. A enorme serpente de pedra urrou tão alto que imensas vibrações puderam ser sentidas sob os pés de todos ali, derrubando Vivian mais uma vez.

— Larvitar, você também! — Ethan convocou seu Pokémon arremessando sua PokéBola.
— Rocky, é com você! — A serpente metálica de Forrest que acompanhava tudo em silêncio ao lado do moreno prontamente atendeu ao pedido de seu mestre.
Sandstorm! — Bradaram os três simultaneamente.

Uma enorme tempestade de areia e terra subiu do chão. O redemoinho se ergueu e espalhou-se pelo campo, diminuindo a visibilidade do local. Se apenas um daqueles Pokémon já podia causar um efeito devastador com o golpe, os três combinados foram mais do que o suficiente para que diversos dos Pokémon ali presentes, entre Caterpie e Pidgey a Ampharos e Gyarados, além de Raikou, Entei e Suicune, fossem arremessados em diversas direções. O dano e o estrago que o Twister bloqueado a pouco não conseguiu, o Sandstorm combinado causou triplicado.

Ainda não se podia ver nada devido ao golpe. Os Pokémon estavam zonzos, tentando situarem-se em meio àquele caos. No entanto, Ethan não conseguiu prestar atenção no que acontecia ao seu redor, muito menos focou em procurar seus amigos. Larvitar gritava alto e o garoto tentava localizá-lo em meio à intensa poeira que o cercava.

Quis agradecer pela repentina luz que brilhou centímetros a sua frente, coincidentemente próximo aos gritos de seu Pokémon.

Mas coincidências não existiam.

Aquele brilho era o corpo de Larvitar transformando-se completamente. O Pokémon levitou alguns centímetros do chão e grandes pedaços de pedra e rocha foram arrancadas a força do solo ao redor, sendo atraídas com violência para seu corpo, o envolvendo completamente. Seus olhos vermelhos agora eram visíveis através de dois buracos formados na concha rochosa e parte superior do corpo agora havia ficado coberta por uma placa semelhante a uma máscara com quatro pontas grandes em ambos os lados enquanto três pontas adicionais se projetavam de sua testa, como uma crista enrijecida.


File:247Pupitar.png



Pupitar, um Pokémon Concha Dura. É a forma evoluída de Larvitar. Sua casca é tão dura quanto uma placa de gesso, e também é muito forte. Uma porrada dada por esse Pokémon pode derrubar uma montanha. Mesmo selado em sua concha, ele pode se mover livremente. Duro e rápido, tem um poder destrutivo excepcional — informou a PokéDex de Ethan.

Vivian sorriu.

— Seu Pokémon evoluiu! Agora eu to vendo vantagem! Vai lá e chuta a bunda deles!

Ethan não parecia estar contente.

— Eu não tenho certeza se o Larvitar estava pronto pra evoluir...

O garoto apenas acompanhou Pupitar cair ao chão, exausto. Recolheu-o para a PokéBola e a fitou por alguns instantes.

Icicle Spear.

Flechas de gelo foram disparadas de algum lugar atrás de Ethan e passaram por cima de sua cabeça. Não pareceu mirar em nenhum Pokémon ao redor ou nos Gyarados furiosos ao centro do lago.

A forte chuva que caía sob o local fez cessar a nuvem de poeira, areia e terra originada pelo Sandstorm. Os Pokémon que haviam sido arremessados para diversos lados nas margens do lago aos poucos iam se erguendo.

Ao levantarem, todos ali arregalaram os olhos surpresos.

Red já tinha visto aquela espécie de Pokémon diversas vezes durante sua jornada, mas nunca ouvira falar de um daquele jeito. O incômodo com sua enxaqueca pareceu diminuir no mesmo instante em que reparou naquele Pokémon.

Nem em um sonho mais louco, Forrest imaginaria ver algo do tipo.

Até mesmo Lance e Bruno, mesmo que já tivessem ouvido falar da existência daquele tipo de Pokémon, olhavam aquele espécime pela primeira vez.

Nenhum dos Pokémon que Amy vira na vida comparava-se àquele que estava a sua frente.

A cabeça de Ethan parou de funcionar por um instante que pareceu uma eternidade. Ele tinha um Pokémon daquele bem ali, no bolso de sua bermuda. Mas... Aquele Sandslash era muito diferente do que utilizava.

Aquele tinha uma pele azul e seus espinhos eram completamente feitos de gelo, aparentando ser bem maiores do que as de um Sandslash comum. Suas garras eram compridas, mais finas e enganchadas nas pontas.



File:028Sandslash-Alola.png


Apenas Vivian Chevalier pareceu não dar a mínima atenção para o Pokémon. Seus olhos encaravam um senhor de idade, com cabelos brancos como a neve, que estava parado logo atrás da ruiva. Usava uma blusa branca com gola até o pescoço com um suéter rubro, uma calça cáqui e um sapato de couro marrom. Devido à idade, o velho apoiava o peso do seu corpo em uma bengala, devido à fraqueza dos ossos.



HeartGold SoulSilver Pryce.png


— Vovô Pryce! — Exclamou a ruiva.

Pryce olhou de forma carrancuda para a menina.

— Vivian, você não deveria estar aqui. É muito perigoso, principalmente agora com os Pokémon fora de controle desse jeito.

A garota abaixou a cabeça, envergonhada.

— Me perdoe vovô. Não era minha intenção.

Pryce reparou nos demais.

— Elite 4. Ou metade dela, pelo menos. Vejo que vocês já estejam cientes de que a Equipe Rocket mantém um quartel general em algum lugar na minha cidade e instalaram essas torres de transmissão ao redor das montanhas — disse o velho, seco.

Red arregalou os olhos. Lance ergueu o cenho.

Memórias invadiram a cabeça de Amy como se as águas de uma represa tivessem sido liberadas todas de uma vez.

Red a encontrou no Monte Mortar. Após confrontá-la, ele havia mencionado algo sobre a Equipe Rocket.

— Enquanto vocês se mantiveram perdidos aqui dentro, eu continuei investigando a Equipe Rocket. Após o ataque na Rádio de Goldenrod, eu fiquei me perguntando o motivo do interesse por radiocomunicação. A resposta me apareceu quando eu percebi que as pessoas e os Pokémon começaram a agir estranhamente nos arredores de Ecruteak. Lance também mencionou que os moradores de Mahogany têm se queixado de que os Pokémon que moram próximos ao lago ao norte da cidade têm agido de maneira estranha, atacando a todos que passam por ali, se escondendo em suas tocas.

Amy encarou Red de forma séria.

— O que quer dizer com isso?
— Eles, de alguma maneira, estão controlando Pokémon à distância por ondas de rádio.

Um sopro de realidade tomou conta do íntimo dos três.

Amy sacou uma PokéBola da bolsa e liberou Pidgeot.

— O que você vai fazer? — Perguntou Ethan.
— É tudo culpa da Equipe Rocket! É por isso que os Pokémon estão fora de si, estão sendo controlados de alguma maneira! — Exclamou a garota montada nas costas da grande ave.

Lance aproximou-se de Pryce.

— Onde estão as torres? Precisamos destruí-las imediatamente!
— Não me diga... Se você ainda não percebeu, Sandslash derrubou uma.
— Ali em cima, olhem! — Apontou Vivian.

As árvores às margens do Lago dos Magikarp cresceram morro acima na localização da Rota 43. Escondida entre os troncos mais próximos da água, um pedaço de uma torre de transmissão era visível. Havia sido quebrada ao meio pelo Icicle Spear de Sandslash.

— Estão espalhadas por todo o lugar por entre os bosques... Devo proteger essa cidade com a minha vida, se necessário, e eu falhei em não perceber com antecedência o que esses malditos estavam fazendo...

Pryce apertou a mão com força contra o apoio da bengala. Lágrimas vieram molhar seus olhos e sua voz ficou embargada.

Amy decolou com Pidgeot. Ao passar por cima do lago, o Gyarados de cor vermelha encarou-a e ergueu-se ferozmente. Inalou uma enorme quantidade de ar e regurgitou um poderoso Dragon Rage na direção da garota, atingindo Pidgeot e fazendo a Pokémon e sua mestra caírem em queda livre em direção à água.

Ela não ouviu seu nome sendo gritado por seus amigos. Ela não viu o tempo passar. Em queda livre, sentia que aqueles poucos segundos até o impacto na água se tornavam uma eternidade. Seu inseparável chapéu, inclusive, delicadamente soltou-se de sua cabeça. Em um último ato de consciência, retornou Pidgeot para a PokéBola.

A garota fechou os olhos e sentiu seu corpo bater violentamente contra a água, afundando completamente.

Ethan soltou um berro desesperado e correu em direção ao lago. Suicune correu para a frente do garoto para impedi-lo de chegar até a água.

— SAI DA MINHA FRENTE!

Faísca, seu Magnemite, prontamente se colocou na frente de seu mestre e disparou um poderoso ThunderShock no oponente. Suicune, zonzo, não impediu Ethan de passar por ele.

Ethan não se importou com o fato de não saber nadar, muito menos na hipótese de que ele provavelmente pegaria um resfriado ou uma hipotermia devido à baixa temperatura da água. Ou quem sabe, morrer eletrocutado caso um raio vindo do céu caísse sobre o Lago dos Magikarp. Ter os ossos quebrados por um ataque furioso dos Gyarados perigosamente próximos não era problema com que se preocupar. Ele apenas queria salvar Amy, de qualquer maneira.

Mas, afobado, o garoto não conseguia mergulhar. Seu fôlego não permitia que ele chegasse sequer alguns metros debaixo d’água para salvar a garota, e odiava-se aquele instante por não ter trazido Quagsire consigo. Ele via o corpo de Amy, desacordada, ir cada vez mais para o fundo. O impacto da queda fez sua bolsa abrir e o garoto via alguns dos objetos que a garota guardava espalharem-se com ajuda da correnteza, incluindo suas PokéBolas, que por serem mais leves, flutuavam numa dança descoordenada próximo do garoto.

Na superfície, as demais pessoas agora observavam com atenção. O Sandslash de gelo permanecia lutando contra Pokémon selvagens que, tomados de ira, partiam para cima. O medo de ter os Pokémon descontrolados fazia os treinadores hesitarem em enviar os seus para se protegerem.

Mas Forrest estava pensando diferente. Olhava seus Pokémon que encontravam-se olhando para o abalado Rhydon, que não conseguia acostumar-se com seu novo corpo recém-adquirido. O moreno fechou os punhos com força.

— Eu não vou perdoar terem feito isso com o meu Pokémon... Eu achava que não era merecedor de ser um treinador após a batalha contra Argenta, mas...

Bruno colocou sua mão esquerda no ombro direito de Forrest e o apertou com força.

— Lembre-se de seu treinamento. Não treinamos força ou estratégia, treinamos a sua mente! Blinde sua mente contra qualquer tipo de interferência sentimental! Seja uma pedra e prove que você é merecedor da equipe que construiu em sua jornada. Mesmo abandonando seus Pokémon, eles vieram atrás de você, e isso só mostra o quanto eles confiam em você. Agora resta você mostrar o quanto confia neles, garoto.

Forrest sorriu.

— Obrigado, tio. Tá na hora de eu mostrar o que eu sei fazer.

Red deu um sorriso de canto de boca.

— Eu não sei o que estou temendo... A Equipe Rocket pode até controlar um exército de Pokémon, mas... Eles ainda estão controlando à distância — e sacou uma PokéBola. — Venusaur, Frenzy Plant!

Do enorme botão de flor em suas costas, grossas raízes saíram e penetraram o chão com violência. Uma aura de cor verde pareceu contornar seu corpo enquanto suas poderosas pernas eram fortemente pressionadas contra o chão. Raízes gigantes com espinhos quebraram o chão e espalharam-se rapidamente por todo o solo, derrubando diversos Pokémon ao mesmo tempo, jogando-os para cima ou fazendo-os tropeçar.

Forrest olhou para seus Pokémon de forma séria. Todos os seis olharam no fundo dos olhos de seu mestre e o aguardaram falar.

— Pessoal, eu não tenho tempo pra pedir desculpas a vocês, mas eu sinceramente gostaria de trabalhar junto com vocês agora. Será que vocês poderiam me dar uma forcinha?

Os Pokémon do garoto se entreolharam, mas fora Rhydon quem se levantou e se colocou perante ele. Eles se olharam por alguns segundos e, lentamente, caminhou até a frente do garoto. Seu antebraço brilhou e o Pokémon deu um poderoso soco no chão, desequilibrando um grupo de Pokémon que perigosamente aproximava-se dele.

Rhydon olhou para seu treinador. E por um segundo, Forrest pensou tê-lo ouvido falar com ele.

Vamos enfrentá-los juntos, mestre.

O garoto deu um passo para trás e achou que havia enlouquecido. Mas, ele tinha certeza de que, se aquilo fosse real, ele finalmente havia começado a entender o coração de seus Pokémon.

E sorriu.

— Obrigado... — Forrest limpou os olhos para impedir que lágrimas escorressem. — Vamos nessa, pessoal! Rhydon, Earthquake, Graveler, Magnetude!

Os dois titãs da equipe prontamente atenderam o pedido de seu treinador. Ao juntarem suas forças, um imenso terremoto de proporções catastróficas terminou de destruir o que insistia em permanecer intacto. Mais hectares do grande lago partiu-se no meio e mais Pokémon caiam derrotados.

Raikou, Entei e Suicune permaneciam desviando dos golpes, permanecendo o tempo todo próximo ao lago.

Lance aproximou-se de Pryce.

— Venha comigo procurar e destruir todas as torres de transmissão ao redor do lago. Preciso de sua ajuda para conseguir.

O idoso encarou de maneira fria o homem ruivo antes de responder.

— Tudo bem, acredito que será mais fácil dessa maneira. Sandslash, por favor.

O Pokémon de gelo desviando majestosamente dos grandes pedaços irregulares de terra, lama e pedra quebrada que ficava em seu caminho girou veloz até seu treinador. Lance invocou seu Dragonite e com Pryce montou em suas costas, alçando voo em direção às montanhas.

Ao ver o Pokémon se aproximando, Gyarados novamente pegou ar para soltar um novo Dragon Rage. No entanto, paralisou. Uma grossa camada de gelo o cobriu de baixo para cima, assim como a água ao seu redor, até congelá-lo por completo.

Dewgong alcançava a superfície com o corpo de Amy. Ethan apareceu logo em seguida, boiando em Wobbuffet.

Vivian correu para auxiliar os Pokémon a tirar os corpos da água. Tremendo de frio, tossindo muito e cuspindo água, Ethan mal deixou a garota terminar de puxá-lo.

— A Amy! Temos que ver como ela está!

Os dois soltaram uma exclamação ao notarem que o corpo de Amy estava gelado. Seus lábios estavam num tom azulado e grandes olheiras tomavam conta de seu rosto.

— Isso não é bom... — comentou Vivian.
— Amy, por favor... Você não pode morrer... Você... — O garoto gaguejava enquanto checava o pulso fraco da garota.
— Rápido, menino, faz uma respiração boca a boca!
— O quê?! Como assim, boca a boca?
— Eu vi num filme uma vez, pode dar certo! Rápido, antes que ela bata as botas de verdade!

Ethan olhou para o rosto da menina enquanto sua respiração ficava cada vez mais rápida. Fechou os olhos e encostou seus lábios nos de Amy. Seu coração parou por um segundo. Um fluxo ininterrupto de pensamentos preenchia sua cabeça enquanto ouvia explosões ao longe provenientes da destruição das antenas de radiotransmissão.

— ISSO É UM BEIJO, NÃO É UMA RESPIRAÇÃO BOCA A BOCA, SEU IDIOTA!

Vivian deu um tapa na cabeça de Ethan.

— Desculpe... Eu nunca fiz respiração boca a boca antes...

Entei aproximou-se do corpo de Amy. Os pelos no corpo do Pokémon se eriçavam devido ao intenso calor que produzia.

Vivian encarou admirada.

— Ele é o Pokémon mais bonito que eu já vi...

Ethan aproximou-se de Entei.

— Por favor, salve ela... Eu não sei se você consegue me entender ou tem poder pra isso, mas eu te imploro, não deixe a Amy morrer...

Vivian encarou o garoto de forma doce.

— Nossa, você é apaixonado por ela de verdade.

Ethan ficou mais vermelho do que o pelo no corpo de Entei.

— É o quê?! Eu não sou... Quer dizer, eu acho que... É....

O garoto calou-se imediatamente ao perceber Entei o olhando, como se estivesse lendo sua alma. Em seguida, olhou para Amy.

Não se sabe se foi pelo calor emanado por Entei, mas a garota se mexeu. Ela tossiu algumas vezes antes de começar a vomitar água. Ethan rapidamente a auxiliou, virando a cabeça da garota para o lado para ela não engolir a água de volta.

Forrest e Red aproximaram-se correndo acompanhados de Bruno.

— Amy, você está bem?! — Perguntou Forrest, preocupado.

A consciência da garota voltava aos poucos. O cheiro da grama molhada, a brisa que soprava do norte... Seus sentidos iam retornando às funcionalidades.

Ela abriu os olhos e reconheceu Ethan e Forrest.

— Meninos... O que aconteceu?
— Ainda está acontecendo... Você está bem? — Perguntou Lance.
— Estou um pouco zonza e... Tem água nos meus ouvidos. Mas eu acho que estou bem.

Amy tentou se levantar, mas seus músculos se recusavam a fazer qualquer tipo de movimento. Ela caiu sentada novamente.

O grupo assustou-se. Lance e Pryce pousaram alguns metros de distância deles e dirigiram-se até a margem do lago onde todos se encontravam.

— Acredito que derrubamos todas as torres, mas não é garantido — comentou o campeão.
— Como assim? Existem mais?! — Exclamou Ethan.
— Olhem ao redor. Com certeza isso foi apenas um experimento... Tenho certeza que ainda não acabou. Se quisermos parar de vez com essa crueldade, nós precisamos destruir a fonte desse poder — Pryce apoiava-se em sua bengala enquanto falava de forma fria.

As hordas de Pokémon derrotadas e espalhadas pelo chão ergueram-se. Balançaram as cabeças e tentaram localizar-se em meio àquela bagunça. Rapidamente, fugiram em debandada para os bosques da Rota 43.

Raikou rugiu pela última vez e também saíra dali, seguindo em direção ao desconhecido. Com Entei e Suicune o imitando, a chuva cessou.

Ethan sacou uma PokéBola e liberou Quilava. O Pokémon descongelou o lago e os Gyarados, incluindo seu líder de cor vermelha, encararam-se confusos e olharam para os humanos pela última vez antes de mergulharem para o fundo das águas cristalinas que chamavam de lar.

— O que me dá mais raiva é o fato dos porcos Rockets terem feito tudo isso com Pokémon inocentes... Os Pokémon não têm nada a ver com isso — comentou Lance em um tom de voz raivoso.
— É em Mahogany que eles se encontram. Devemos nos unir para acabar de vez com esse grupo de cretinos — Pryce também estava bastante irritado.

Amy foi auxiliada por Ethan e Forrest para poder se erguer do chão.

— Não se preocupem. Vocês serão vingados — disse Forrest com firmeza.

Ethan e Amy se olharam de forma séria, mas nada disseram naquele momento.

As ondas de radio que controlavam os Pokémon vinham de torres de transmissão derrubadas por Lance e Pryce, mas isso está longe de ter sido a solução do problema. Ethan e Amy reencontram com Forrest e mesmo que muita coisa ainda precise ser esclarecida, o foco dos garotos está na Cidade de Mahogany, onde suspeita-se de que a Equipe Rocket, responsabilizada pelo caos no Lago dos Magikarp, esteja escondida em um quartel general secreto na cidade. Com o auxílio de Red, Bruno e até mesmo da garota chamada Vivian Chevalier, as respostas nebulosas parecem ficar mais próximas de serem esclarecidas.


TO BE CONTINUED...





Especial: Aliança na Copa





Os protagonistas do Aventuras em Johto pararam tudo o que estavam fazendo para celebrar a magnífica Copa do Mundo, evento que acontecia a cada quatro anos e que, pela primeira vez, reunia grandes amigos para acompanhar todo o evento. Grandes personagens da Aliança se cumprimentavam pelos corredores, se abraçavam, falavam alto e faziam festa, com direito a churrasco, refrigerante para as crianças e até mesmo barris de cerveja para os adultos. Os times estavam surpreendendo, todos os jogos tinham resultados imprevisíveis e todos os favoritos estavam tendo dificuldades perante seleções que eram consideradas pequenas.

Treinadores e Pokémon acompanhavam o jogo do Brasil em uma grande TV de tela plana. Com a narração emocionante do Professor Birch e comentários de seus colegas Samuel Carvalho, Professor Kukui e Sycamore, nenhum lance passava despercebido. Claro que havia muita discussão em torno do famigerado Pokémon Telecaster, um dispositivo que a FIFA utilizava para auxiliar os juízes em campo para não deixar passar possíveis lances de pênalti ou má conduta dos jogadores. Acontece que muitos dos lances eram passíveis de bastante polêmica, para sofrimento dos personagens, que assistiam agoniados o jogo da seleção brasileira contra a Costa Rica. Em uma das cobranças de pênalti, o craque do Brasil, Aerus Draconeon, o Garchomp, foi derrubado na área do gol da Costa Rica por Oliver, o Goomy. Os comentaristas ficaram divididos.

— Claramente pênalti! — exclamava Kukui.
— É um lance de interprretación. Aerus se jogou, não é a primeira vez que ele faz isso nessa competição... — argumentava Sycamore, calmo.
— Menino Draconeon, craque do futebol brasileiro, derrubado, massacrado, apanhando dos oponentes, dá cartão, seu juiz! — ainda que tivesse de manter uma postura neutra, era clara a torcida de Birch para o Brasil.

Amy e Luke Wallers discutiam fervorosamente, enquanto Ethan e Dawn tentavam separar os dois, tentando prevenir uma agressão física.

— Esse seu Pokémon é fresco demais, Luke, só cai!
— Mas que porra é essa que cê tá falando aí, menina? Manja de nada de futebol e tá querendo dar pitaco, e ainda errado?!
— Eu vou te mostrar o quanto eu manjo de futebol! — se não fosse Ethan segurando-a com todas as forças que conseguia reunir, mesmo que tremendo, a garota teria socado todas as partes do corpo de Luke que seus punhos alcançassem.

O juiz apitou. Fim do primeiro tempo. Jogo empatado em zero a zero.

Os nervos foram sendo acalmados durante o intervalo. Mais carne sendo assada. Glenn Combs dando uma palhinha de alguns sucessos para animar o público enquanto o segundo tempo não começava. Forrest olhava o astro com os olhos brilhando, afinal, não era todo dia em que você estava no mesmo local que uma grande estrela. Camila dançava loucamente enquanto Ruby e Calem discutiam qualquer coisa sobre qual marca de álcool gel era mais efetiva contra bactérias. Sapphire, Serena, Lyra, Hilda e Hal olhavam hipnotizados para Lance e Cynthia, que debatiam sobre estratégias sobre batalhas Pokémon — e eles sabiam MUITO!

Início do segundo tempo. A Costa Rica avança com a bola, Akebia, a Roserade, agilmente passeia driblando os oponentes, cruzando para Fabi, a Pichu, que perigosamente chuta a bola para a trave do gol do Brasil. Os torcedores no estádio e na sala de reuniões da Aliança Aventuras suavam frio. Se o Brasil perdesse, seria eliminado.

O jogo continuou zero a zero. O juiz deu acréscimo de seis minutos. Os corações batiam tão forte que podia-se facilmente confundir quem escutasse com um desfile de escola de samba. Aerus tocou a bola para Theodore que tropeçou na chuteira e caiu de cara no chão. Barão Maximiliano rapidamente dominou, passando por Oliver, o Goomy, e Fabi, tendo apenas Akebia em sua frente. A Roserade não conseguiu desviar a bola. O Barão bateu com o pé direito para dentro da rede do gol da seleção oponente.

BRASIL 1 X 0 COSTA RICA

O público gritava. Até mesmo Red, que havia passado praticamente o jogo inteiro isolado dos amigos apenas analisando as posições táticas dos jogadores junto à Silver, soltou uma exclamação audível de alívio. O Brasil, enfim, não estava eliminado. Amy e Luke se abraçavam, pulando feito loucos na comemoração do gol.

O tempo havia passado. O jogo se aproximava dos 52 minutos.

— Pode apitar, seu juiz. Acaba o jogo, vamos! — pedia o Professor Birch.

A Costa Rica não deixaria barato. Akebia, quase como se utilizasse um Quick Attack, correu com a bola dominada nos pés, tocando para Oliver que mirou em Fabi. Theodore, no entanto, novamente tropeçou no cadarço da chuteira e caiu ao chão, em cima de Pichu, atrapalhando o passe. Barão Maximiliano furtou a bola e, veloz como um Agility, avançou livremente para o lado oposto. Aerus Draconeon olhou firmemente para os olhos do companheiro e recebeu a bola. Não pensou duas vezes, chutou na gaveta, no canto superior direito do gol onde goleiro nenhum alcançaria, mesmo se fosse um Staraptor poderoso.

Era inacreditável. O juiz apitou. O silêncio da incredulidade tomou conta do estádio e dos personagens da Aliança.

BRASIL 2 X 0 COSTA RICA

O som ensurdecedor tomou conta do ambiente. Birch berrava no microfone, mas ninguém conseguia ouvir suas palavras devido à euforia. Todos choravam, gritavam e se abraçavam, vibrando com a vitória difícil da seleção brasileira. Aerus Draconeon caiu de joelhos no meio de campo, chorando também. Após tanto criticá-lo, a torcida agora reconhecia novamente seu talento e o aclamava como o grande herói que era.

Capítulo 45



Bruno meditava. Era uma das coisas que mais gostava de fazer durante o período em que não precisava defender a Terceira Casa da Liga Pokémon. Claro que ele, a Muralha, nunca negava um desafio para uma batalha e não necessariamente esse desafio precisava vir do campeão da Liga Pokémon. Ele estava na Elite 4 justamente para poder desafiar treinadores poderosos, mas meditar era o que ele mais gostava de fazer, principalmente após as sessões de treinamentos duros que ele costumava submeter-se com seus Pokémon.  




Ele gostava de sentir a brisa do vento, o cheiro da terra, o calor do sol ou as gotas da chuva que tocavam em seu rosto. Mas, todos os desafios da Elite 4 eram feitos dentro do castelo onde a Liga Pokémon mantinha seu quartel-general de operações. Quando estava fora da época de desafios à Elite, ele costumava ficar dentro de seu escritório, lendo papeladas e mantendo-se em constantes reuniões com os demais membros da Elite. Sempre muito fechado, Bruno nunca era visto de conversa fiada. Basicamente, ele concordava ou discordava, argumentando sempre com poucas palavras. Ele era muito mais de usar a força bruta do que diálogos para resolver seus problemas, e isso desde criança. Não era do tipo que falava de seu passado. Diferente de seus colegas, não se sabia sobre seus feitos, nem de sua história de vida. Claro, sempre foi um exímio treinador, alguém que, em sua época, foi considerado o grande destaque da Liga Pokémon, sempre ao lado de seu time de Pokémon majoritariamente composto de tipos Pedra e Lutador, mas ninguém conhecia sua família ou sabia se mantinha relacionamento com alguém, se tinha filhos. Sempre focado, sempre concentrado. Sentado no meio da sala de quarenta metros quadrados, sobre o chão frio de mármore na posição de lótus, mantinha sua concentração para não pensar em nada, dessa forma, mantinha o foco em batalhas e concentrava-se em estratégias. Sempre que podia, entrava numa luta mano a mano com seus Pokémon, buscando assim fortalecer-se junto a eles.

 Ao seu redor, havia quadros de Pokémon espalhados pelas paredes, desde seus próprios Pokémon — Onix, Machamp, Hitmonlee e outros — até mesmo fotos de Pokémon que admirava, como Lucario. Em cima da mesa de madeira, próximo à janela que permitia quem a olhasse ter a visão do ponto exato onde Kanto e Johto se conectavam, havia um telefone, com um visor que permitia o usuário conversar em uma chamada de vídeo, caso o telefonema fosse feito de um Centro Pokémon, por exemplo. Também havia um porta-retrato que o fazia lembrar da infância. Cercado por Pokémon, ele criança, acompanhado de mais dois garotos, que se podia deduzir que eram seus irmãos, acompanhado de dois adultos, um casal, provavelmente seus pais. Ele mantinha aquele retrato ali como lembrança de que um dia a família havia sido unida. Alguns detalhes assim ainda permitiam que fosse enxergado no treinador tão fechado e ranzinza um resquício de compaixão.

O telefone tocou. Bruno fora despertado de seu transe. Ele tentou ignorar os irritantes e repetitivos toques melódicos, mas a cada vez que a ligação caia, o insistente do outro lado da linha discava o número de novo. Olhando zangado para o dispositivo, levantou-se do chão bufando. Foi até a mesa e, com uma certa ignorância, pegou o telefone com uma das mãos e, visivelmente mal-humorado, atendeu com sua voz grave.

— Alô?

A voz tremida do outro lado da linha fez com que Bruno erguesse as sobrancelhas, surpreso.

— Tio Bruno? Preciso de sua ajuda...

O sobrinho lembrava muito Bruno. Os cabelos crespos espetados, os olhos puxados, o rosto quadrado... Era inegável que eram parentes. O garoto, no entanto, estava bastante abatido. Ofegante, transpirava muito. Sua voz, tensa, passava a impressão de que ele estava fugindo de algo, ou alguém.

— Garoto, o que aconteceu? Está tudo bem? — Perguntou o treinador, agora preocupado.
— Tio, eu sei que o senhor e o papai não se falam, mas eu não sei mais a quem recorrer... Eu preciso muito do senhor agora... — Lágrimas começaram a correr pelo rosto do garoto.

Bruno engoliu em seco.

— Garoto, o meu problema é com seu pai, não com vocês. Diga o que precisa de mim.

O menino hesitou por um momento. Após um breve soluço, falou.

— Eu quero que o senhor me treine.

Bruno parou por um instante. Por alguns segundos, ele não sabia o que responder. Hesitou.

— Seu pai não vai gostar de saber disso.
— Por favor, tio... Eu não sei mais o que fazer. Eu me sinto um lixo.
— Você tem certeza? Você se lembra de como eu costumo fazer meus treinamentos, não é?
— Sim. Eu estou disposto a fazer qualquer coisa.

Muralha deu um sorriso de canto de boca.

— Onde você está agora?
— Na Cidade de Ecruteak.
— Entendi. Encontre-me no Monte Mortar. Esteja sozinho.

Forrest acenou com a cabeça em sinal afirmativo. Bruno desligou o telefone. Estralou os dedos das mãos e retirou-se de sua sala.

O corredor era longo. O castelo da Liga Pokémon era imenso e, nas paredes, retratos de treinadores com seus Pokémon, cópias das fotografias exibidas no Hall da Fama, almejado salão da grandiosa e luxuosa construção onde os vencedores da competição e suas equipes de Pokémon eram eternizados em imensos quadros para sempre, e que serviam de inspiração para jovens treinadores concorrerem a um lugar ali, onde só os melhores eram lembrados. Os imensos lustres banhados a ouro iluminavam as paredes brancas e o chão de piso de mármore. Ao fim do corredor, uma grande porta de madeira com desenhos talhados a mão em formato de dragões chamavam a atenção de qualquer um que passasse por ali. Ao abrir a porta, Bruno entrou na sala de Lance, que era enorme. Cercada de estantes repletas de livros, a sala do líder da Elite parecia uma enorme biblioteca que tratava dos mais diversos assuntos. Grande parte deles, claro, abordavam o assunto do qual Lance era especializado: Dragões. Ele sempre foi defensor da tese de que um grande treinador também era um grande professor, devia sempre manter um extenso conhecimento do maior número de áreas possível, então em sua biblioteca particular — que também era compartilhada com os demais membros da Elite — havia livros sobre teoria musical, matemática, física, química, biologia, história da arte e da humanidade, dentre outros assuntos.

Além das estantes, havia uma imensa janela, de onde se podia ver as enormes montanhas que cercavam Blackthorn, a cidade natal do Campeão. Um enorme pôster com a foto de Lance estava emoldurado e pendurado na parede. As excentricidades da chefia já não era mais novidade para os treinadores que conviviam com ele. A mesa de carvalho, em forma de meia-lua, estava ao centro da sala, com um computador, diversas pastas com documentos importantes e um aparelho de telefone.  De braços cruzados e de expressão cansada, Koga estava próximo da escrivaninha, passando seus olhos frios em cada uma das estantes de livros da sala, tentando contar um por um para passar o tempo.






— Onde está o Lance? — Questionou Bruno.
— Estou a quarenta minutos esperando ele chegar para uma reunião. Espero que ele tenha uma excelente desculpa dessa vez para não comparecer a tempo de dar as boas vindas para os dois novos integrantes da Elite para as competições da Liga Pokémon desse ano — respondeu Koga, sem tirar os olhos dos livros. — Dois mil setecentos e noventa e sete, dois mil setecentos e noventa e oito...
— Quando o encontrar, diga que estarei treinando fora do castelo.
— Dois mil oitocentos e quatro... Por que você não fica e não recebe os novatos? Você sabe que eu não sou babá. Dois mil oitocentos e onze...
— E você sabe que eu não gosto da parte burocrática. Vejo você em breve.

Bruno virou as costas, deu dois passos e nem percebeu quando Koga apareceu em sua frente sem fazer barulho, como se fosse teletransporte. O ninja tinha reflexos invejáveis, mas Muralha não se surpreendia mais com o colega. Sem esboçar nenhuma reação, olhou para baixo — Koga não se deixava intimidar pelo tamanho de Bruno e seus quase dois metros de altura.

— Não seja irresponsável, não abandone seu cargo quando a Liga Pokémon mais precisa. Temos uma reputação a zelar e um nome a manter.

Bruno continuou a encarar o velho ninja. Como sempre, preferiu não dizer nada e passou por ele, saindo pela grande porta de madeira que dava para o corredor.

— Você me fez perder a conta — reclamou Koga poucos segundos antes de ouvir a porta sendo fechada violentamente.


***

Forrest tremia. No Centro Pokémon, o garoto estava sentado defronte ao aparelho de telefone de onde acabara de contatar seu tio Bruno pela primeira vez em muito tempo. Depois de ter perdido de forma tão humilhante para Argenta, ele não se sentia mais digno de ser considerado um treinador Pokémon, muito menos se permitia sonhar em conquistar um dia o cargo de Líder de Ginásio. Ele era um fraco. Talvez sua única esperança fosse realmente seu tio, de quem ele não mantinha — e nem podia ter — contato desde criança, visto que seu pai e o Elite 4 brigaram feio no passado e não se falavam desde então, por um motivo que, pra ele, era banal.

Os avós paternos de Forrest tinham cinco filhos. De origem humilde, estabeleceram-se na Cidade de Pewter, localidade em que se destacavam grandes pedreiras, onde os trabalhadores escavavam o chão a procura de minérios e quebravam as rochas para vendê-las ao governo, que utilizava o material para a construção civil. Pewter realmente era um lugar onde havia emprego fácil e moradia confortável para famílias recém-chegadas.

Flint, o pai de Forrest e Bruno eram os filhos mais velhos. Desde cedo ajudaram na pedreira, cortando e quebrando pedras, transportando-as com os caminhões por toda a região de Kanto, no período em que o continente se industrializava e se modernizava, em que suas cidades começavam a ganhar prédios e avenidas, além das primeiras fábricas. Ainda jovens, aprenderam a trabalhar juntos e ajudar a família em tudo o que era necessário, sempre foi um valor que o pai fazia questão de passar para os filhos. Foi durante este período que os dois conseguiram seus primeiros Pokémon, dois Geodude, presente do pai como reconhecimento do esforço dos filhos.

Conforme foram crescendo, os dois começaram a ter suas divergências. Flint queria estabelecer-se na cidade, crescer na empresa e ajudar a família dessa forma. Bruno já tinha o pensamento de que os dois ajudariam os familiares bem mais caso saíssem em uma jornada Pokémon, dessa forma, poderiam ser bem sucedidos sendo treinadores vencendo a Liga.

Os dois irmãos discutiam, mas nunca chegavam a um consenso.

Um dia, após mais uma briga, Bruno saiu de casa para seguir a idéia de ser um treinador Pokémon e teve sucesso em sua jornada, tornando-se logo em seguida membro da Elite 4.

A pedreira onde Flint trabalhava fechou. Desempregado, seguiu a contragosto o conselho do irmão e usando seu incrível talento em batalhas, assumiu o Ginásio de Pewter e tornou-se um grande pesadelo de treinadores novatos que ousavam querer desafiá-lo para conquistar uma Insígnia.

Quando Forrest tinha seis anos, lembra-se de um jantar em especial. Era aniversário de seu pai e seu tio Bruno apareceu. Após muito tempo sem se ver, a família achou que era uma ótima oportunidade dos dois reatarem a amizade que tinham quando jovens. O garoto viu seu pai partir para cima do irmão, xingando-o e o expulsando da residência e logo em seguida, dizer aos filhos que estavam proibidos de manter algum contato com Bruno, que ele, enquanto estivesse vivo, jamais permitiria que seu irmão mantivesse algum contato com sua família. Forrest nunca entendeu o motivo da grande raiva de seu pai para com seu tio. Anos mais tarde, quando sua avó contou sobre a história, pensou no quanto seu pai havia exagerado. Cortar laços com um irmão só porque ambos pensavam diferente? A família havia deixado de trabalhar na pedreira e estava muito bem, com Flint e Bruno ajudando no sustento dentro de empregos de destaque, então era estranho a briga dos dois não ter sido resolvida. Mas não era algo que ele devesse se meter, afinal, sempre teve um grande respeito tanto por seu pai, quanto por seu tio, e achava importante não tomar um partido.

Forrest deixou de lado os pensamentos e levantou-se do telefone. Havia chegado a hora de deixar seu passado para trás e começar a trilhar um novo futuro. Saindo do Centro Pokémon, o garoto respirou fundo e partiu sem pestanejar em direção ao local combinado para o encontro com Bruno: O Monte Mortar.

***

Já era noite quando Ethan acordou na cama do Centro Pokémon. Sua cabeça estava enfaixada. Também estava com uma tala em seu braço, que doía bastante.

Ao olhar para os lados, viu Amy sentada numa poltrona no quarto. A garota tinha um curativo na têmpora esquerda e um na bochecha direita. Tirando isso, ela parecia não ter se machucado. Ela o encarava de forma séria.

— Amy... Que bom que você está bem. Eu fico feliz. — Sorriu o menino, fazendo-a corar.
— Sou eu que fico feliz em ver que você acordou. E vivo. — Ela sorriu. — Obrigado por ter feito aquilo... Por ter quase se sacrificado por mim. Te devo uma.

Ethan ficou sem graça.

— Hehehe... Não foi nada. Você não me deve nada. — E mudou sua expressão. — E o Forrest? Algum sinal dele?

Os grandes olhos azuis de Amy mudaram de expressão. Ficaram preocupados. Mas Amy continuava intrigada.

— Ele sumiu, Ethan. E deixou os Pokémon dele pra trás.

Ethan soltou uma exclamação.

— Como é?!
— Quando desmaiamos, ele veio até o Centro Pokémon e pediu para a Enfermeira Joy cuidar de Rhyhorn. Deixou todos os Pokémon com ela e... Não voltou pra buscá-los.

Ethan a encarou incrédulo.

— Eu não acredito nisso!
— E tem mais. Ao ficarem sabendo, os Pokémon dele decidiram sair do Centro Pokémon e ir atrás de Forrest. Ninguém conseguiu pegá-los. Eles ameaçaram a Enfermeira Joy e quem tentava impedí-los.

Ethan estava estupefato. Como aquilo podia ter acontecido?

— Então a gente tem que ir atrás dele! — Exclamou o garoto.
— É impossível. Não sabemos onde ele está.
— Mas tem a Butterfree! E você tem a Pidgeot! A gente pode procurar pelo céu e...
— Ethan, não! — Amy exclamou. A garota chorava. — Eu amo você. Eu amo o Forrest. Mas, por favor... Deixe ele ir embora.

Ethan a encarou surpreso.

— Amy...
— Nós não vamos obrigá-lo a ficar conosco. Deixe ele ir embora, pra sempre, se quiser! Eu só... Eu só quero que ele... Fique bem...

Amy caiu aos prantos. Ethan levantou-se de sua cama e, mesmo com o corpo doendo a cada movimento que o garoto fazia, ele resistiu e foi até a garota, abraçando-a e chorando também.

— Por que, Amy? Por quê? — Ele perguntou aos prantos.

***

No sopé do Monte Mortar, Forrest via seu tio aproximar-se montado em um imenso Onix. A lua cheia iluminava a Rota 42 e a noite calma era silenciosa. O moreno só ouvia sua respiração e o enorme barulho do gigante Pokémon que se aproximava. Ao descer, Bruno encarou Forrest e permitiu que o garoto o abraçasse por alguns segundos.

— Muito bem, por que você me chamou? — Perguntou Bruno após o sobrinho largá-lo.
— Quero me tornar merecedor de substituir Brock no Ginásio.
— E como você pretende fazer isso?
— Me tornando mais forte!
— Então você me autoriza a treiná-lo sem questionar meus métodos?
— Totalmente!
— Sem questionar meus métodos?

Forrest encarou o rosto sério do tio. Ele não parecia estar fazendo uma pergunta aleatória, e o fato de repeti-la fez o moreno engolir em seco e refletir melhor na resposta que daria em definitivo.

Ao fechar os olhos, o garoto reviveu a última conversa com Argenta.

— Eu derrotei você com apenas dois golpes. Dois. E você ainda se considera um treinador dos tipos Pedra? — Questionou para o garoto.
— Eu... — Forrest ia tentar se explicar, mas foi interrompido por Argenta, que aproximou-se de seu ouvido.
— Se eu soubesse que iria perder tempo com alguém como você, eu teria escolhido outra pessoa para lutar em seu lugar. Você nunca irá assumir o Ginásio de Pewter se você continuar pensando como um treinador medíocre.

Forrest olhou para Argenta com os olhos cheios de lágrimas.

— Argenta, eu...
— Garoto, você diz que é meu fã, mas nem parece se inspirar em mim. Espero que da próxima vez que o encontrar, você pelo menos consiga aguentar mais de cinco minutos numa batalha Pokémon.

Forrest olhou os olhos negros de seu tio.

— Sim. Definitivamente — respondeu.

Bruno cruzou os braços e ergueu-se perante o sobrinho, numa visível posição de superioridade.

— Ótimo. Agora me diga como você pretende assumir o Ginásio de Pewter.
— Ficando muito mais forte do que sou agora!

Forrest sentiu seu rosto arder. Bruno desferiu um tapa que fez o garoto ver estrelas. Lágrimas involuntárias de dor vieram imediatamente, mas o moreno não deixou que elas escorressem por seu rosto. Olhando incrédulo para Bruno, Forrest não entendeu o motivo da agressão.

— Força, em qualquer sentido, nunca é a resposta. Se você quer ser um treinador melhor, você deve aprender primeiro a ser uma pessoa melhor.

Forrest ergueu as sobrancelhas.

— O que quer dizer com isso?
— Primeiramente você deve analisar o motivo de você se achar incompetente. Só depois disso é que você poderá enxergar o melhor caminho pra, como você diz, ser forte.

Forrest respondeu de forma afirmativa com a cabeça.

— Entendi o que quer dizer...
— Pedi para que você viesse sozinho, inclusive sem seus Pokémon, porque você precisa primeiro entender a si próprio pra só depois começar a dar ordens aos seus Pokémon. E não se preocupe, na hora certa eu sei que eles aparecerão para auxiliá-lo no treinamento — Bruno virou para Onix, retornando-o para a PokéBola, começando a caminhar logo em seguida. — Venha comigo.

Os dois rumaram para o interior do Monte Mortar. Caminharam em silêncio, molhando os pés na trilha alagada que dava na cachoeira da enorme caverna. Forrest olhava admirado para as estalactites que enfeitavam o local. Bruno também encarava os arredores, porém acompanhado de uma expressão séria.

— Estranho... Esse lugar está bastante esquisito.
— O que foi, tio?
— Desde que entramos que eu não vejo nenhum Pokémon por aqui. Tem algo errado.

Forrest voltou sua atenção para o ambiente que o cercava. Bruno tinha razão, um lugar imenso daquele e nenhuma forma de vida ao redor. As coisas não estavam cheirando bem.

Os dois iam caminhando cada vez mais para o fundo da caverna. A cada passo dado, mais escuro ficava. Quando o garoto indagou sobre isso, Bruno foi direto.

— Siga seus instintos. Um treinador Pokémon sempre usa todos os seus instintos em uma batalha, isso ajuda a prever o movimento do oponente.
— Como? — Perguntou o moreno curioso.
— Seu oponente sempre demonstra sinais com o corpo. Se ele está tenso, sua respiração muda. Se ele está planejando surpreender você por trás, seus olhos sempre ficarão de olho no Pokémon que está enfrentando. Se ele não sabe o que fazer, irá transpirar frio. Domine seus sentidos e traga-os sempre para o campo de batalha.

O garoto fez um sinal positivo com a cabeça.

A grande cachoeira saudou a dupla. Os dois caminharam até onde a queda d’água tocava com força o chão. Forrest ajoelhou-se, encheu as mãos com água e bebeu enquanto Bruno encarava o topo da cachoeira em silêncio.

— Se você quer se tornar um treinador Pokémon imbatível seja como a água. Sem forma, sem contorno. Seja seu objetivo. Olhe essa cachoeira, por exemplo... Ela é imensa, mas não está ali sozinha. Essa água que nós bebemos nos acompanhou desde a entrada da caverna, e agora alimenta essa cachoeira enorme.

Forrest levantou-se e tirou sua camiseta, jogando-a no chão e deixando o fluxo da água levá-la para longe. Bruno virou para o sobrinho e o encarou de forma séria.

— Vamos começar seu treinamento.

***

Ethan recuperava os sentidos. Deitado em um quarto com as paredes brancas e cuja fronha do travesseiro cheirava a lavanda, o garoto começava a perceber novamente o mundo ao seu redor. Os bips do monitor cardíaco eram a única companhia que ele tinha naquele instante, enquanto tentava fazer sua visão voltar ao normal. Ele via estrelas piscando incessantemente no teto do quarto. Se sentia meio grogue, com a cabeça pesada e sem saber ao certo onde estava. Olhou para baixo e viu que vestia uma camisola hospitalar verde com o símbolo de uma PokéBola no peito. Em seu braço direito, uma agulha ligada a uma sonda pendurada ao lado da cama estava enfiada em sua veia.

— Eu queria saber qual é a dessa coisa de você toda vez parar no hospital.

A voz de Red fez Ethan soltar uma exclamação baixinha. O garoto aproximou-se do leito do rapaz.

— Você nos deu o maior susto. Encontramos você desacordado no Monte Mortar e o trouxemos imediatamente pro Centro Pokémon de Mahogany.
— Onde está a Amy?
— Ela está bem. Vou avisar que você acordou, ela estava bastante preocupada.

Red saiu do quarto. Após alguns minutos, Amy entrou.

— Como é que você está?
— Acredito que inteiro. Acho que não quebrei nada. E você?
— Me recuperando também. Você dormiu o dia inteiro...
— Algum sinal do Forrest?
— Nenhuma. Já tem quase duas semanas que ele sumiu...

Ethan tentou levantar-se da cama.

— Ei, o que você pensa que está fazendo? — Perguntou Amy.
— Eu tenho que procurar o Forrest...
— Você não pode, precisa descansar. — A garota gentilmente empurrou Ethan de volta para a cama.
— Amy, precisamos encontrar ele...
— Eu sei, mas... Você precisa ficar bem primeiro. Olhe, estamos em Mahogany, saberemos se ele passar por aqui. Agora descanse bastante pra que a gente possa seguir viagem, tudo bem? — A garota deu um beijo na testa de Ethan, que ficou vermelho de vergonha.

Na recepção do Centro Pokémon, Red permanecia sentado no sofá macio de couro. Perdido em pensamentos, acabou por levar um susto quando ouviu seu PokéGear tocar. Ao pegar o objeto, viu o nome de Lance no visor.

— Alô?
Temos problemas. Vou precisar da sua ajuda.
— Onde você está?
Ao norte da Rota 43, no Lago dos Magikarp.
Estou indo.

O garoto saiu do Centro Pokémon e sacou uma PokéBola. Liberou Charizard, montou em seu dorso e voou em direção ao norte.

***

Rhyhorn, Steelix, Sudowoodo, Graveler e Shuckle caminhavam no interior do Monte Mortar liderados por Heracross. Caminhavam quase marchando. Não se deixavam abater pelo cansaço, mesmo que este fosse como uma grande bigorna que esmagava o corpo de cada um deles. Foi Steelix quem viu primeiro, avisando aos outros em seguida.

Forrest suava. Com hematomas por todo o corpo, o garoto brigava contra um Hitmonchan, que partia para cima do moreno sem piedade. O Pokémon deu um soco no rosto do garoto que caiu ao chão. Ele sentiu a aproximação pesada ouvindo os trotes das patas sobre o chão. Seus Pokémon fizeram um cerco ao seu redor, rosnando para Hitmonchan. Incrédulo, Forrest olhou para cada um dos rostos presentes.

— Pessoal...

Bruno surgiu e aproximou-se do grupo.

— Ora... Então realmente seus Pokémon conseguiram superar todos os desafios apenas para encontrar você no final. Interessante... — Muralha pegou uma PokéBola.

Forrest levantou-se do chão. Seu olho esquerdo estava fechado, de tão roxo e inchado que estava. Tinha feridas no pulso, arranhões no braço e cicatrizes no peito nu. Estava mais magro, suas pupilas estavam dilatadas e sangue escorria de seu nariz.

Um rugido distante chamou a atenção de todos os presentes. Charizard, ao longe, voava veloz na direção de um raio púrpuro enorme que cortava o céu de Johto.

Bruno deu um sorriso sádico.

— Está na hora de vermos os resultados do seu treinamento intensivo de duas semanas.


TO BE CONTINUED...

- Copyright © 2015 - 2018 Aventuras em Johto - Dento (Willian Teodoro) - Powered by Blogger - Designed by CanasOminous -