Interlúdio II




Cidade de Goldenrod, Johto, cerca de três meses atrás.

Lyra caminhava alegremente pelas avenidas da Cidade de Goldenrod. Com seu Marill em seu encalço, a garota entrava no Centro Pokémon.

— Preciso recuperar meus bonitinhos, Marill. A última batalha me deixou exausta... — confessou a menina ao pequeno Pokémon bolha.

As portas da recepção se abriram. Silver entrara com sua feição séria e encarava com mal humor a todos que o encaravam.

O rapaz se dirigiu à Lyra.

— Onde está a Enfermeira Joy? — perguntou de maneira ríspida.
— Eu estou aguardando por ela também. Você tá de mau humor? — Perguntou a garota.
— No que lhe convém? — Perguntou Silver de forma grosseira.

Lyra se irritou.

— Escuta, eu nem te conheço e eu não te dei motivos pra você falar assim comigo! Então vê se fala direito com uma dama! — Exclamou Lyra quase gritando.

Silver a encarou sério.

— Tanto faz.

De braços cruzados, um sentou longe do outro. Marill observava aflito a discussão. Se mal se conheciam, como poderiam ter raiva um do outro assim?

— Humph! Era só o que me faltava. Já não me bastasse o Ethan, agora eu tenho que aturar outro babaca.

O ruivo a encarou com o canto do olho. Ele conhecia o dono daquele nome, apesar de não fazer a mínima ideia de quem era a garota ao seu lado.

As portas do Centro Pokémon abriram-se novamente. Stella, Kayla e Kevin conversavam bastante e tinham uma feição séria. Lyra levantou-se e se dirigiu ao grupo.

— Vocês estão bem? — Perguntou a garota.
— Ah, olá, Lyra. A gente tá se recuperando do susto ainda... Que batalha, né? — perguntou Stella.
— Nem me fala... — Suspirou Lyra em resposta.
— Fiquei sabendo que o corpo do Gary foi encontrado jogado em uma rua próxima... Red o acompanhou até o hospital — informou Stella.
— Caramba! A Equipe Rocket é mesmo cretina! — exclamou Lyra zangada.
— Você não tem ideia... — confessou Stella.
— Bem, gente, acho que tá na hora de seguir pra Azalea. — Disse Kayla.

Lyra exclamou.

— Vocês não vão para Ecruteak?!
— Nós já passamos por lá. O líder quase acabou com a gente, mas pegamos a insígnia — respondeu Kevin.

Lyra fez uma expressão tristonha.

— Então vamos ter que nos separar...

Os três se entreolharam. Stella segurou os ombros da garota com as mãos.

— Não se preocupe. Se seu objetivo é a Liga Pokémon, você pode ter certeza que nós ainda vamos nos encontrar. Se esforce, não se deixe ser derrotada por qualquer um! Você arrasou na batalha contra os Rockets! — sorriu a garota.

Lyra encarou a amiga e sorriu.

— Obrigado gente... E não se preocupem! Eu não vou perder! Nem mesmo pro Ethan! — exclamou a garota.

Silver que aguardava a Enfermeira Joy exclamou em silêncio.

— “Ethan”...? — E buscou em sua memória.

— Você mencionou um cara chamado Ethan? — perguntou Silver

Lyra o encarou com desdém.

— “No que lhe convém?” — repetiu a garota em tom de deboche.

Silver deu um sorriso sarcástico.

— Me convém que ele está com algo que é do meu interesse.

Lyra arregalou os olhos.

— O Ethan? E o que seria?

— Não é algo que crianças devem meter o nariz.

A garota fechou a cara.

— Eu não sou criança! Você fala como se fosse adulto, né?

Silver deu uma risadinha.

— Você fala como se eu não fosse.

Lyra continuou de cara amarrada. Em pouco tempo, aquele ruivo tinha conseguido tirá-la do sério.

Silver levantou-se. A garota olhou para o ruivo e sentiu-se aliviada por ver que logo estaria livre daquele incômodo.

— Você não me é estranha.

Aquela frase chamou a atenção de Lyra.

— O que quer dizer com isso?

— Eu não lembro onde, mas acho que a gente já se viu por aí, em algum lugar.


Os olhos dos dois se encontraram. E por um instante, suas mentes sincronizaram juntas de uma maneira que nenhum deles poderia explicar. E, quase como em um passe de mágica, eles se lembraram.

Cidade de New Bark, um mês antes daquele encontro.

Um barulho de vidro quebrando foi ouvido ao longe. Os assistentes do professor foram direto ao local do barulho. Elm correu para o local também enquanto Ethan recolhia Totodile, Chikorita e Cyndaquil que estavam correndo apavorados na sala. Assim que os retornou, os garotos deixaram as PokéBolas dentro de uma cabine dentro do PC do Professor Elm e correram para ajudá-lo.

O misterioso garoto dos cabelos vermelhos então conseguiu pular a janela. O barulho do choque dos seus pés com o chão chamou a atenção da Ethan.

— Ethan? O que foi? — Perguntou Lyra ao colega.
— Não... Nada. Acho que estou ouvindo coisas demais... — Respondeu.

Lyra deu de ombros e voltou a concentrar-se na cabine de vidro onde as PokéBolas dos Pokémon descansavam. Se certificou que estavam novamente seladas e seguiu o Professor Elm para outra área do laboratório para investigar de onde havia vindo o barulho de vidro quebrando.

Ela não viu quando um jovem invasor percorreu o corredor até o fim e conseguiu encontrar o local onde Elm fazia suas pesquisas. Ele admirou a estátua dos guardiões e encontrou o local onde estavam guardadas as PokéBolas.

Lyra viu Ethan correr de volta para a sala de onde ambos haviam acabado de sair. A garota tentou seguir o garoto, mas Elm a segurou pelo braço, balançando em negativo a cabeça.

— Não vá, é muito perigoso.
— Mas titio, os Pokémon podem estar em perigo! — cochichou a garota de volta.
— Não sabemos quantos são e nem se estão armados.
— Mas e o Ethan?
— Nós já chamamos a polícia, temos que torcer para que tudo dê certo até eles chegarem.
— Mas...

Lyra não conseguiu terminar seu argumento. O invasor corria em sua direção com uma PokéBola em mãos procurando a saída do laboratório. Como se fosse em câmera lenta, os olhos de ambos se cruzaram naqueles breves segundos. Ela reparou em seus olhos tão negros que davam a impressão de que trevas haviam sugado qualquer tipo de luz que pudesse, um dia, ter existido nos olhos daquela criança. As olheiras tão escuras quanto sua aura fizeram a garota, por um instante, soltar um breve suspiro de surpresa. Ele, ao olhar para ela, ergueu as sobrancelhas por uma fração de segundo, talvez ainda embebedado por adrenalina. Havia uma tensão no ar que pairou por aqueles micro instantes de realidade entre os dois. Tão rápido quanto aconteceu, aquela sensação de câmera lenta se esvaiu. Silver desviou seu olhar do de Lyra, concentrando-se logo em seguida em focar seu caminho para o lado de fora.

O garoto passou correndo. Desaparecendo pelo corredor, Ethan só teve tempo de pegar outra das duas Pokébolas restantes para perseguir o invasor. Passando pelos corredores, ele se aproximava cada vez mais do rastro ruivo que estava a sua frente, derrubando os cientistas, vendo o caminho livre para fugir. Ethan se atrapalhou, tropeçando em um dos cientistas. Elm e Lyra ficaram assustados, mas Ethan se levantou e saiu pela porta do laboratório perseguindo seu alvo.

Os olhos dos dois continuavam hipnoticamente grudados. Nem Lyra, nem Silver, ousavam piscar ou respirar.

A garota permanecia com a boca aberta.

— Você... Você... É o garoto que... Roubou o Totodile do titio...

Silver, ainda em transe, nada respondeu.

Abruptamente, virou o rosto, fechou os punhos e deu as costas para a garota, que, paralisada, não o impediu de se afastar.
A Enfermeira Joy retornara com Chansey para a recepção e se dirigiu ao ruivo.

— Posso ajudá-lo? — ela perguntou sorridente.
— Sim, pode... Eu vim pegar uma encomenda — respondeu Silver com um sorriso falso.
— Espera... — foi o que Lyra conseguiu dizer após alguns segundos, apesar de Silver ter fingido que não ouviu o chamado da garota, dando as costas e se retirando do Centro Pokémon.

***

Alguns dias se passaram desde aquele encontro estranho no Centro Pokémon de Goldenrod. Lyra não conseguia tirar aquele garoto ruivo da cabeça. Apesar de ter tido sucesso em sua batalha de Ginásio no dia anterior, ela não conseguia se gabar ou ficar feliz. Tinha alguma coisa que a incomodava.

A atenção da garota, felizmente, foi mudada quando ela, ao virar uma esquina, reconheceu um grupo de pessoas discutindo no meio da rua. Ela não os chamaria de amigos, mas colegas de viagem que, vez em quando, cruzavam seu caminho. E, entre eles, um garoto que fazia seu coração bater no peito furiosamente. Não por motivos de paixão, na verdade, era completamente o oposto.

Lyra suspirou e sorriu. Pelo menos uma vez na vida ela estava feliz em vê-lo, afinal, poderia colocar o esforço aonde realmente era necessário: Detestá-lo.

— Ethan! — ela exclamou.

A garota aproximou-se saltitante do grupo de jovens.

— Chegou por último, né, Ethan? Mulher do padre. — zombou ela.

Ethan, no entanto, estava tão nervoso que não teve reação nenhuma.

— Ué... Tá tudo bem? — Lyra observa o garoto de forma atenta.
— Ele está sim. Só o nível de hormônios dele que estão um pouco elevados. — Brincou Forrest.
— Vamos indo pro Centro Pokémon. Lá a gente vê se ele tá bem mesmo. — Sugeriu Joey.
— É uma ótima ideia. Se vocês quiserem, eu os acompanho. — Prontificou-se Lyra.
— Por que não? Vamos sim! — Concordou Forrest.
— Você ainda não escapou da pergunta, gatinho. — Amy sussurou discretamente no ouvido de Ethan que paralisou.

Lyra e Joey observaram o trio afastar-se em direção do Ginásio.

— Você não vai com eles? — questionou a garota.
— Eu não. Eles são merecem a companhia do grande Joey. — respondeu o outro.
— “Grande Joey”? Você tá mais pra “O pequeno Joey”.

O garoto se irritou.

— Quem você pensa que é pra falar da minha altura?!

Lyra deu um sorrisinho malicioso.

— Pode-se dizer que eu sou superior a qualquer um. Inclusive ao Ethan.

Joey fez uma expressão curiosa.

— O que quer dizer com isso?
— Segredo feminino. — Disse a garota com um sorrisinho.

Joey bufou.

— Tanto faz. Mas melhor que eu e Rattata, sei não, hein?

Lyra olhou para o garoto de cima a baixo e voltou a dar um sorrisinho sarcástico.

— De que bolso você tira tanta confiança?

Joey cruzou os braços e olhou no fundo dos olhos de Lyra, que sentiu um arrepio ao perceber o olhar “sedutor” que o garoto fazia. Na verdade, seus olhos estavam semicerrados e as sobrancelhas se uniam de forma bizarra, parecendo uma monocelha. O fato de o garoto ser menor que Lyra dava a impressão de que ele era uma criança fazendo birra para sua irmã mais velha.

Ela riu.

— Agora eu vi... Tá me olhando assim por quê?
— Tô te mostrando a minha confiança.
— Ah, tá.

Lyra virou-se para se dirigir ao Centro Pokémon. Joey a observou se afastar e deu um sorriso vitorioso.

— Essa menina é minha.

***

A tarde passava lentamente enquanto os garotos estavam no Centro Pokémon. Lyra contou sobre as batalhas que travara e sobre suas três insígnias — havia derrotado o líder do Ginásio de Goldenrod no dia anterior. No entanto, a garota, de pirraça, não contou quais os Pokémon que foram utilizados pelo líder.

— Quer saber? Eu desisto de esperar! Eu vou lá e vou chutar o traseiro de quem for que seja o líder do Ginásio! — Exclamou Ethan irritado, batendo na mesa do saguão onde estavam reunidos e se levantando bufando.

Lyra gargalhou.

— Ha-ha-ha! Sei... Essa eu pago pra ver!
— Amy, Forrest, vamos nessa. Eu tenho uma batalha pra vencer — o garoto virou as costas e se dirigiu à saída. Amy e Forrest se levantaram e deram um rápido aceno de despedida para Joey e Lyra que permaneceram sentados.
— A gente não devia seguir eles? — Perguntou Joey abocanhando uma coxinha.
— Sou uma dama, não um carrapato. Não sou obrigada a seguir ninguém — Lyra respondeu bebericando uma xícara de chá.

Joey a olhou confuso.

— Mas não foi você que sugeriu que todo mundo te seguisse até aqui?

A garota ergueu a sobrancelha direita e repousou a xícara na mesa.

— Eu treino Pokémon, certo? Durante batalhas, eles ficam cansados. Sugeri que viéssemos pra cá não porque eu gosto do Ethan, mas porque eu precisava recuperar meus lindinhos também, oras.

O garoto terminou de engolir a coxinha e limpou a boca com um guardanapo.

— Por que não vamos ao Parque Nacional?
— Fazer o quê?
— Sei lá, ver uns insetos?

Lyra terminou de beber o chá e virou-se para olhar para Joey.

— Você tá me chamando pra sair? Desiste.
— Ué, foi tão óbvio?
— Você precisa saber mais sobre as mulheres.

Ela se levantou e preparou-se para deixar a mesa, mas Joey segurou em seu pulso gentilmente.

— Então me ensine.

Ela deu uma risadinha em resposta.

— Vou ver o que eu faço por você. Me encontra às 15h.

Lyra se soltou das mãos de Joey e se dirigiu para o andar superior do Centro Pokémon, onde ficavam as suítes de hospedagem. O garoto a observou sumir de seu campo de visão com um sorriso de satisfação no rosto.

***

No dia 15 de Fevereiro, a Cidade de Goldenrod sediou o Torneio Pokémon de Caça aos Insetos, um torneio que mensal cujo objetivo era caçar Pokémon do Tipo Inseto. Joey e Lyra trataram logo de inscrever-se na competição apenas para conseguirem, mais uma vez, serem superiores aos seus rivais.

A competição seguiu-se na mais repleta tranquilidade. A primeira fase foi de capturas e a segunda de batalhas. E foi durante essa fase que Lyra acabou sendo derrotada por Forrest, o amigo de seu rival Ethan.

— Nããããããão!!!! — berrou Lyra, começando a chorar.
— Bom trabalho, Heracross. Descanse. — Forrest retornou seu Pokémon e se dirigiu a Lyra para consolá-la.

A garota retornou o Pinsir e deu as costas para o moreno.

— A derrota é a chave para a vitória, Lyra. — Disse o rapaz de forma amigável.
— Por quê? — Perguntou Lyra, ríspida.
— Nunca poderemos vencer se não pudermos superar nossas fraquezas. — Concluiu o rapaz.

Lyra parou por um instante e olhou para Forrest. Com um suspiro, retirou-se do campo de batalha.

— Você é uma ótima pessoa. Já vi que não é só bonitinho.

Forrest corou.

A garota sorriu.

— O que você acha de... Marcamos uma batalha qualquer dia desses?
— Eu... Eu acho ótimo. — Respondeu o moreno sem graça.

Lyra aproximou-se devagar.

— Vou precisar de uma prova de que você vai voltar a me ver.

A garota tascou um beijo em Forrest, que nunca havia beijado ninguém e não sabia direito como reagir. Pacientemente, Lyra foi usando seus lábios para guiar o rapaz que foi, aos poucos, reagindo de forma carinhosa. Lyra não era daquelas que se apaixonava. Ela gostava de se distrair e se divertir. Se alguém não lhe trazia esse tipo de coisa, ela tratava de passar para o próximo.

A garota deu as costas e se retirou da arena, sendo acompanhada com o olhar por Forrest, que tocava os lábios enquanto tinha um sorrisinho patético em seu rosto.

Joey foi atrás da moça nos camarins. A garota acabou humilhando-o, xingando-o de todos os nomes que conhecia, além de terminar seu breve relacionamento com o rapaz. Ela alegava “falta de interesse”, enquanto ele tentava argumentar que “os dois eram mais fortes quando estavam juntos”.

Lyra bufou e deu um tapa na cara do rapaz, indo embora em seguida.

***

A Equipe Rocket invadiu a Torre de Rádio de Goldenrod logo após a conclusão do Torneio Pokémon de Caça aos Insetos. Ao chegar ao local, Lyra percebeu Ethan, Amy, Forrest e um treinador montado em Charizard entrarem no prédio lendário. Não pensou duas vezes e correu para segui-los, mas deparou-se com membros da organização correndo do interior.

— Olha, mais aliados do Red! — um dos capangas Rocket anunciou ao ver Lyra aproximando-se.
— Eu não acredito que estamos correndo de pivetes malditos... — xingou um outro.
— Ela está sozinha, vamos descontar nela! — sugeriu uma terceira.

Em um piscar de olhos, Lyra se viu cercada por homens e mulheres da Equipe Rocket armados com PokéBolas. A garota não pareceu temê-los.

— Por favor, como se um bando de fracassados como vocês pudessem derrubar uma doce e linda garotinha como eu. Elekid, ThunderShock!

O Pokémon que Lyra havia capturado pouco antes de chegar à Goldenrod saiu de sua PokéBola tão rápido quanto o ego da garota era capaz de subir.

Eletrocutados, os agentes da Equipe Rocket não puderam sequer reagir, paralisados no chão. A garota correu em direção à torre procurando alcançar os garotos.

***


Shuckle e Heracross encaravam os oponentes sem demonstrar medo algum. O experiente Rhyhorn passava segurança para os novatos.

Para auxiliar Quilava, Sandshrew e Scyther dominaram o campo de batalha. Pareciam que eram os líderes do local que estavam prestes a enfrentar a gangue rival que invadiu a sua área.

— Não acredito que vocês iam me deixar fora dessa... — uma voz ressoou pela sala.

Lyra caminhou em direção aos garotos com três PokéBolas em mãos. Seus três escolhidos pareciam Pokémon com comportamento bastante duvidoso, como se sentissem os antigos reis do Egito. Herdaram da treinadora o jeito metido de andar, com os focinhos empinados, demonstrando segurança e dominância no local.

Ethan sorriu para a garota.

— Acho que chegou a integrante que faltava no nosso exército.
— Me chame de capitã — disse a garota, retribuindo um sorriso metido.

Bayleef, Azumarill e Furret encararam seus oponentes com olhares mortais.

Os Rockets atacaram. Seus grandes Pokémon atacavam juntos e suas defesas eram quase impenetráveis. Começou um grande falatório, onde os dois lados se atacavam, gritando golpes e explosões aconteciam. Os Pokémon se enfrentavam como se aquela fosse a última batalha de suas vidas, como se elas dependessem disso. Cada Pokémon lutava pela honra de seu treinador. Eles só parariam quando o último oponente fosse derrotado.

Sandstorm! — berrou um dos Rockets ao imponente Tyranitar.

O Pokémon ergueu os braços e deu um rugido tão grande que poderia ser ouvido há quilômetros. O chão começou a tremer e uma cratera apareceu quando uma massa enorme de areia passou por ele. A areia espalhou-se pela sala e parcialmente cegou os treinadores e Pokémon. A maioria dos Pokémon em batalha era atingida pela areia. Sandshrew, Rhyhorn, Shuckle e o próprio Tyranitar pareciam não sentir nada.

— Como se isso fosse atrapalhar alguma coisa. Scyther, Wing Attack! Quilava, Ember!  Sand, Swift!
— Rhyhorn, Rock Blast! Shuckle, Bide! Heracross, Brick Break!
— Mega, Magical Leaf! Blue, BubbleBeam! Ota, Fury Attack!

Os Rockets também ordenavam ataques simultaneamente.

— Tyranitar, Dark Pulse!
— Kabutops, Aqua Jet!
— Muk, Mud Bomb!

Foi uma bagunça. Rhyhorn quebrava o chão para arremessar pedras nos oponentes enquanto Muk arremessava pedaços de seu corpo tóxico. Tyranitar atingiu Shuckle que resistiu bravamente devido à sua defesa de ferro e Heracross atingia o crânio do monstruoso Pokémon com um golpe super-efetivo, deixando Tyranitar tonto. Blue, a Azumarill e Mega, a Bayleef concentravam seus golpes em Kabutops ao mesmo tempo em que Quilava (que havia, ao invés de soltar o Ember, envolvido seu corpo em uma roda flamejante – Flame Wheel), seu parceiro Sandshrew, Scyther e Ota, o Furret derrubavam os outros Pokémon que estavam no campo de batalha, como os Ekans, os Koffing e também vários Zubat.

Uma explosão gerada pelos golpes que eram atingidos ao mesmo tempo gerava uma enorme nuvem de fumaça. Ethan, Lyra e Forrest suavam enquanto seus Pokémon resistiam bravamente. Tyranitar, que havia sido criticamente atingido por Heracross, cambaleou para trás quando Shuckle devolveu com gosto o dobro do dano que a criatura havia causado nele com o Dark Pulse, devido à técnica Bide.

Ethan olhou para Forrest e Lyra avisando que iria acabar com aquilo naquele instante. Os dois acenaram com a cabeça e olharam para seus Pokémon.

— Sandshrew, Dig!
— Rhyhorn, Stomp no chão, agora!
— Mega, Grass Knot!

Sandshrew cavou um buraco no chão, abalando toda a estrutura do andar.

Rhyhorn auxiliou na destruição jogando todo o peso de seu corpo para baixo.

Mega, a Bayleef prendeu as patas dos oponentes, impedindo-os de fugir.

Todos começaram a sentir um repentino tremor. Um terremoto chacoalhou toda a estrutura do prédio e o chão partiu-se em dois, quatro, oito, dezesseis pedaços. Uma enorme cratera abriu-se e todos que estavam ali naquele andar começaram a cair em queda livre aqueles sete andares até o solo.

Vine Whip! — Exclamou Lyra.

Bayleef, com os cipós em seu pescoço, agarrou-se em uma das pilastras do andar de cima, firmemente presa. Ethan subia novamente em direção ao topo graças à Scyther, que voava com o garoto, enquanto Heracross levava Forrest. Os dois retornavam seus Pokémon rapidamente enquanto voavam.

O poder da gravidade fez Bayleef pegar impulso em uma das paredes dos andares abaixo que já não existiam mais e se lançar para o alto, levando Lyra consigo. Em um último movimento, a garota se jogou das costas de Bayleef e rumou para baixo, recolhendo Azumarill e Sentret, que estavam em queda livre. A garota só não alcançou o chão porque sua cintura foi agarrada pelos cipós de Bayleef, que a conduziu de volta para cima.

Lyra, Ethan e Forrest voltaram a se reunir após recolherem seus Pokémon. Juntos, avançaram pelos escombros com cuidado para não cair novamente no imenso buraco no meio da sala e dirigiram-se até a saída de emergência, onde havia escadas que davam para os demais andares, tanto inferiores quanto superiores. O destino do trio era justamente procurar Amy, que havia sumido para procurar a Equipe Rocket.

O trio correu por dois acessos de escada e adentraram na sala onde Red, Amy e grande parte dos Rockets se encontravam localizados. Estavam suados, roupas arregaçadas, arfavam muito, mas tinham um sorriso inabalável. Um sorriso confiante.

Lyra, no entanto, exclamou baixinho ao encontrar de novo com o garoto do Centro Pokémon de dias atrás. Seu coração palpitou mais do que o convencional e ela fechou os punhos com força e por um momento pareceu hesitar. Nunca antes uma batalha pareceu mexer tanto com seu emocional. O porquê ela não sabia.

Ethan deu um passo à frente e apontou para Silver com o indicador.

— A gente deu um jeito em uns carinhas pau-mandados de vocês. Eu não sabia que vocês eram tão fracos.

Silver levantou-se.

— E não somos. Então quer dizer que a Amy trouxe toda a sua trupe de treinadores trouxas que a protegem junto com ela... Fico surpreso que vocês tenham chegado até aqui intactos... Eu me surpreendi.

Archer agora era quem aproximava-se curioso daquele grupo infame.

— Por que vocês estão protegendo ela? Se ela virou as costas até para a Equipe Rocket quando fazia parte dela, eu imagino que não vai faltar muito pra ela se virar contra vocês também.

Ethan e Forrest encararam a garota surpreso. Red não se manifestara.

Amy engoliu o riso. No entanto, não se dirigiu à Red, Ethan ou Forrest.

— Vocês são tão panacas que adoram reviver o passado. É por isso que vivem atrás do Celebi... Mas vamos acabar com isso — a garota sacou uma PokéBola. — Primeape, é com você.

O Pokémon de Amy encarou os velhos conhecidos. Mas ele mesmo sabia que eles queriam fazer coisas ruins com a sua treinadora e ele não podia deixar.

Ethan caminhou e foi parar ao lado de Amy.

— Eu não ligo. Eu não ligo se ela virou as costas pra vocês. Eu não ligo se ela pertenceu ou não à Equipe Rocket. Vocês são nojentos. Eu imagino que eu faria o mesmo no lugar dela — o garoto ergueu uma PokéBola para frente. — Quilava.

Um brilho intenso iluminou a sala quando Quilava marcou presença ativando as chamas em suas costas. Encarava seus oponentes com um olhar sombrio.

Rhyhorn e Azumarill tomavam a frente. Cinco ferozes Pokémon encaravam a Equipe Rocket de forma assustadora. Porém, nenhum dos executivos ou agentes demonstravam ter medo. Pareciam apenas aguardar alguma coisa.

O rádio no bolso de Petrel deu a resposta. A voz grave de Giovanni ressoou.

— Está feito. Avançar.

As paredes da sala explodiram. Uma grande nuvem de fumaça tomou conta do lugar. Os membros Rocket fugiam dali por várias saídas improvisadas da explosão. O prédio fora totalmente esvaziado.

Red fez menção em segui-los, mas Amy segurou com força em seu braço. Apontou para os reféns presentes na sala. O garoto entendera.

A polícia chegou minutos depois, mas não conseguira deter nenhum dos agentes. Os reféns foram levados ao Centro Pokémon para serem curados enquanto Red, Amy, Ethan, Lyra e Forrest permaneciam sentados em uma calçada do outro lado da rua onde ficava o prédio, agora destruído, da Torre de Rádio.

— Você sabe que eles ainda não desistiram, não é? — Perguntou Red à Amy.

A garota suspirou.

— Eles nunca desistem.

Ethan, que permanecia calado, se virou para a garota.

— Então quer dizer que você era agente da Equipe Rocket, aquela PokéBola bizarra que você carrega consigo pra cima e pra baixo contém um Pokémon lendário e agora nós estamos sendo perseguidos pela máfia?

Amy ficou em silêncio por alguns segundos, mas, sem olhar para o garoto, respondeu.

— Sim.

A garota levantou.

— Obrigada por vocês terem viajado comigo todo esse tempo. Eu não vou mais atrapalhar.

Forrest soltou uma exclamação.

— Mas como assim?!
— Eu vou seguir viagem sozinha.

Foi a vez de Ethan se levantar e encarar Amy com um olhar sério.

— Escuta aqui. Eu nunca vou deixar você sair por aí sozinha, me ouviu bem? Cê tá maluca? Quer morrer? Você vai continuar seguindo viagem com a gente!

Amy olhou zangada.

— Você não manda em mim.
— Você tem razão. Mas eu tenho atitude o suficiente pra falar isso pra você. Eu te sigo até o Polo Norte se você insistir nessa maluquice.

Os dois se encararam de forma intensa. No entanto, Amy acabou cedendo.

— Está bem então. Mas saibam que vocês vão precisar se fortalecer muito para a próxima batalha contra eles.
— Não é problema. Temos o cara mais poderoso do continente seguindo a gente. A retaguarda tá protegida. — Sorriu Ethan.
— Não se preocupe. A gente dá conta. — Disse Forrest.

Red também sorriu.

— É, gatinha... Acho que você tá em boas mãos. E a propósito, adorei o gosto do seu batom. Morango, né? Mas eu adoro uva. Fica a dica pra próxima vez.

Charizard fora convocado da PokéBola. Red o montou e decolou rumo ao horizonte.

Lyra suspirou.

— Vocês só causam problemas... Eu vou seguindo pra Cidade de Ecruteak. A gente se vê.

A garota deu as costas e foi andando pelo caminho que dava à Rota 36, que seguia para a próxima cidade.

Ela se aproximava da saída de Goldenrod quando viu Silver de relance. Os cabelos vermelhos não traziam qualquer dúvida. A palpitação em seu peito voltou a incomodar, com um frio na barriga que ela nunca havia sentido antes. Ela podia dar meia-volta e chamar a polícia, que permanecia ainda a alguns bons metros de onde ela estava agora.

Por algum motivo estranho, Silver sabia que ela não faria isso. Ele não conseguia desviar os olhos da garota e sentia sua respiração ficar cada vez mais pesada. A sensação hipnótica e eletrizante que ele sentia ao encará-la começou a aflorar ainda na torre, quando ele a viu entrar pela porta. Ela era poderosa, utilizava seus Pokémon muito bem. Apesar de aparentemente ser aliada de Amy, não era repulsa que ele sentia por ela. Na verdade, ele não sabia o que sentia por aquela desconhecida.

E ela não sabia o que era aquilo que sentia por aquele ladrão.

Silver não se moveu quando viu Lyra se aproximar. Nenhum deles tinha controle sobre o próprio corpo. As pernas dele não se moviam, paralisadas. As dela caminhavam sozinhas na direção do ruivo, sem ordens dela, quase inconscientemente. Os olhos dos dois não piscavam, como se tivessem medo de, ainda que por um milésimo de segundo, perder de vista o que enxergavam.

O ruivo não conseguia dizer uma única palavra. Sua garganta, seca, impedia que a boca emitisse qualquer tipo de som exceto pelo balbuciar dos lábios do rapaz.

— Seu nome... É Silver, não é? — as palavras escaparam da boca de Lyra sem que ela tenha pensado em dizê-las.

Silver deu alguns passos para trás, sem tirar os olhos fixados na garota.

— Fique longe de mim. Por favor, fique longe de mim.
— Mas eu não... Eu não quero te fazer mal. Eu não vou contar pra ninguém que você roubou o laboratório do meu tio, eu só... — ela hesitou.
— Por favor, fique longe.

O garoto novamente conseguiu forças para virar o rosto e quebrar a hipnose causada sobre ele por Lyra. Virando as costas, sumiu por entre as árvores do bosque que dava início à Rota 36. Ela, ainda em transe, só conseguiu ver Silver se afastar para cada vez mais distante até perdê-lo completamente de vista, mais uma vez.

— O que é que eu estou fazendo...? — disse ela para si mesma.

***

Março ainda estava em seus primeiros dias quando Lyra entrou pela primeira vez em Ecruteak. Sua jornada Pokémon começou a perder a graça, ela já não encontrava mais motivações para continuar treinando Pokémon. Nem mesmo a recente evolução de seu Ekans, um pouco antes do previsto, a deixou animada. Desde o último encontro com Silver há algumas semanas, ela havia mudado. O ruivo não saia de seus pensamentos e, por mais que ela odiasse admitir por sempre ter tido medo desse tipo de coisa, ela resolveu assumir que, por algum estranho motivo, estava apaixonada por ele. O destino havia aprontado e feito com que ela sofresse do mesmo mal que causava a outros garotos, como Joey e mais recentemente, Forrest.

Perdida em pensamentos, nem reparou quando, ao aproximar-se da entrada do Centro Pokémon, três conhecidos deram de cara com ela.

— Lyra! O que faz aqui?! — Perguntou Ethan surpreso.
— Tentando ganhar minha quinta insígnia — respondeu a garota indiferente.
— Caramba, incrível! Cinco insígnias?! — questionou o rapaz impressionado.
— É. A última foi na Cidade de Olivine — Lyra dirigiu-se até o balcão, ignorando aquele trio.

Forrest aproximou-se da garota com a intenção de beijá-la. Lyra virou o rosto.

O moreno ficou sem graça e afastou-se.

As portas do hospital abriu-se novamente. Red aproximava-se com Pikachu em um dos ombros chamando a atenção de todos. Amy fez uma cara de quem não gostou da surpresa.

— Olá a todos. — Cumprimentou.
— Red? Você também está por aqui? — Questionou Ethan surpreso.
— O que você quer, Red? Veio encher outra vez? — Perguntou Amy de forma agressiva
— Boa tarde para a senhorita também. Nem vim encher. Fiquei sabendo que a Equipe Rocket está aprontando em Ecruteak e vim investigar. — Falou o garoto.
— Equipe Rocket? — Perguntou Lyra.
— Sim. Uma organização criminosa que rouba Pokémon para vendê-los no mercado negro por um preço muito alto. — Explicou Red.
— É... Eu ouvi falar deles na minha viagem... Eles são tão maus assim? — Perguntou Lyra.
— É a maior facção existente atualmente. Eles roubam Pokémon e não hesitam em matar para conseguir seu objetivo. — Disse Red.

Lyra arrepiou-se.

Será que foi por isso que Silver pediu para que eu me afastasse dele? Mas não faz sentido...”, pensava ela.

— Você disse que a Equipe Rocket está em Ecruteak? — Perguntou Forrest interessado.
— Ah, sim. Eu tive uma impressão sobre isso e obtive a informação posteriormente. Então, estou indo checar. Você não sabe de nada, não é, Amy? — Perguntou Red sério.
— Não te interessa. O que eu fiz ou deixei de fazer não interessa a ninguém. — Disse a garota, ríspida.
— Certo, certo, não vamos brigar. Vamos para Ecruteak. Se a Equipe Rocket estiver mesmo lá, podemos ajudar você, Red. — Disse Forrest.
— Não tem problema eu ir com vocês, tem? — Perguntou Lyra.

Red encarou Amy.

— Não. Na verdade, quanto mais pessoas forem, melhor.

***

Red guiou o grupo para a Torre do Sino onde a Equipe Rocket ocupava o topo. A polícia já cercava o local e tentava fazer os curiosos não se aproximarem da entrada da torre. Oficial Jenny, com um alto-falante, tentava fazer com que a Equipe Rocket se rendesse.

— Vocês estão cercados! Não têm para onde ir! Se retirem da torre agora, Equipe Rocket! — gritava ela.

Segundos depois, um Pokémon roxo com duas cabeças que soltava fumaça tóxica por buracos em seu corpo começou a cair da Torre.  Uma espécie de Pokémon Morcego, com uma mandíbula enorme e uma língua gosmenta que pendia para o lado de fora de sua boca voava na frente de Weezing soltando um raio quase imperceptível a olho nu na multidão ao pé da Torre.

Jenny sentiu uma forte enxaqueca repentina. O Confusion Ray, misturado com o tóxico Smokescreen, a fez ficar tonta e, segundos depois, desmaiar. A mesma coisa aconteceu com o público que fazia prontidão.

Enquanto Weezing e Golbat atacavam a cidade, o grupo liderado por Red chegava à torre. Ao olharem para cima, viram os agentes Rockets monitorando tudo das janelas e correram para a entrada do local.

— Com aqueles dois atacando vai ser difícil invadir a Torre... — analisou Red.

Amy olhou para o helicóptero pousado nas proximidades. Ela sabia que apenas um membro Rocket usava helicópteros para se locomover. E ele estava dentro da Torre.

A garota saiu correndo sacando uma PokéBola da bolsa.

— Amy, não vá! — gritou Ethan.
— Vai, Gyarados! Hyper Beam! — disse a garota sacando a PokéBola.

Gyarados soltou um poderoso raio da boca atingindo Golbat e Weezing nocauteando-os. O raio atingiu uma das paredes da torre, demolindo-a e fazendo-a tremer.

Ethan e Lyra saíram correndo atrás da garota, desviando dos capangas da Equipe Rocket e de pedaços da estrutura do prédio que caíam sob suas cabeças. Alcançando as escadas que levavam aos andares superiores, os dois corriam pulando degraus para alcançarem mais rápido cada piso dos andares. Ethan só pensava em proteger Amy e Lyra se perguntou por um instante se Silver estaria no topo da torre.

— Amy! — chamou a voz de Ethan.

O garoto, seguido de Lyra, alcançava o patamar de escadas onde a conversa se desenrolava.

— Ethan! O que faz aqui? Por que me seguiu? — Amy ficava cada vez mais irritada.
— Sinto muito, mas não acho que você seja capaz de chutar o traseiro desses idiotas aí sozinha. Viemos auxiliar.
— Vocês não podem enfrentá-los! Saiam já daqui! — aquelas palavras saíram em um berro só.
— Eu não vou embora sem você, Amy. Flaaffy, vai! — Ethan jogou uma PokéBola.
— Vai, Elekid! — Lyra também arremessou uma PokéBola.
— Tch. Eu não tenho tempo para brincadeiras — disse Amy voltando seus olhos para cima.

A garota retornou Gyarados e pulou para frente. Archer e Ariana não conseguiram pegá-la.

— Vocês vão se arrepender por nos atrapalhar... Arbok! — Ariana arremessou uma PokéBola, sendo seguida por Archer.
— Elekid!
— Flaaffy!
ThunderShock! — bradaram os dois simultaneamente.

Os dois Pokémon combinaram seus golpes e um poderoso choque elétrico foi disparado na direção dos Rockets. Arbok e Houndoom imediatamente jogaram-se na frente de seus mestres e receberam o ataque. Apesar de saírem machucados, ambos os Pokémon encararam seus oponentes com um olhar maligno.

— Vamos ensinar as crianças que não se deve nunca se meter em assuntos de adulto. Beliel, Fire Fang.
— Arbok, Crunch!

Os dois Pokémon dispararam com violência na direção dos oponentes. Arbok abriu sua bocarra e envolveu o corpo de Flaaffy com uma mordida poderosa. O Crunch fez a Pokémon de Ethan soltar um grito de dor enquanto Beliel atingia Elekid com outra mordida, dessa vez flamejante. Suas presas ardiam em fogo ardente e o Pokémon de Lyra sentia não só sua pele ser quase estraçalhada pelos dentes afiados do Houndoom, mas também ser queimada em brasa, o que com certeza traria uma cicatriz eternamente gravada no Pokémon como uma tatuagem.

— Flaaffy, você está bem?! — exclamou Ethan ao Pokémon, que, apesar de sentir o corpo dolorido, acenou positivamente a cabeça. — Ótimo! Detone tudo com ThunderShock de novo!
— Elekid, Low Kick!

Elekid avançou diretamente contra Beliel, dando-lhe um chute na barriga enquanto Flaaffy disparou seu poderoso golpe elétrico em Arbok, que sentiu seu corpo paralisar. Ethan e Lyra vibraram, a garota sentiu-se novamente feliz por aquele momento. Talvez ela estivesse recuperando seu fogo por batalhas. Até se esquecera de Silver por alguns instantes.

Archer quebrou o clima alegre com uma risada maligna.

— Hahahaha, as crianças fizeram vinte pontos, Ariana! Fantástico, fantástico! Infelizmente... — o executivo mudou o tom de voz para um sussurro macabro. — ...chegou a hora das crianças dormirem. Beliel, Faint Attack.
— Arbok, Glare!

Os olhos de Arbok brilharam em um tom avermelhado. Ethan, Lyra e seus Pokémon paralisaram de medo ao sentirem-se penetrados pelo olhar da serpente, preparada para dar um bote certeiro e fatal. Houndoom correu para frente e desapareceu num piscar de olhos. Surgiu como uma sombra nas costas dos oponentes e, com suas garras, derrubou-os no chão, nocauteando Flaaffy e Elekid imediatamente.

Uma explosão imensa do lado de fora do prédio, fazendo-o tremer completamente. Lyra e Ethan já estavam semi-nocauteados no chão, junto a Flaaffy e Elekid, que já estavam desmaiados. Ariana e Archer venceram rapidamente a batalha e torturavam os garotos. A torre começou a desmoronar e Ariana, com ajuda de Archer, corria para se salvar, deixando Ethan e Lyra no chão, sem forças para se proteger dos escombros que caiam sobre eles.

As chamas do lado de fora eram fortes. Ardiam como nunca. A Torre do Sino sofria do mesmo castigo de sua irmã, séculos atrás. O helicóptero veio ao chão e capangas da Equipe Rocket tentavam apagar o fogo que o consumia de forma voraz. Havia um risco muito grande de haver uma nova explosão devido o tanque de combustível da aeronave estar cheio.

Ariana e Archer chegaram do lado de fora da Torre. Membros da Equipe Rocket berravam e tinham uma expressão de pavor no rosto. Ariana dirigiu-se à Petrel que estava metros de distância do helicóptero, imóvel como uma estátua vendo os destroços do helicóptero.

— Ele estava lá... — Disse apenas.

Ariana começou a chorar. Olhou para cima e viu o semblante de Amy olhando para o estrago que havia causado.

— RETIRADA! — Berrou Silver, com seus olhos inchados e vermelhos.

Os membros da Equipe Rocket não queriam sair de perto do helicóptero onde Giovanni jazia morto.

— EU MANDEI RETIRAREM-SE! AGORA! — O ruivo berrou de novo.

Os Rocket entraram na van preta e os executivos no helicóptero que estava na praça da cidade, partindo em seguida.

O helicóptero em chamas explodiu, fazendo a Torre do Sino, aos poucos, vir ao chão. Giovanni, o grande líder da Equipe Rocket havia sido assassinado. Amy estava vingada.

Ethan e Lyra, quase inconscientes, engasgavam-se com a fumaça preta do incêndio da Torre. Amy permanecia no topo da mesma enquanto Forrest encontrava-se perdido no meio da confusão, não estando ciente de que seus amigos encontravam-se em perigo. Red havia desaparecido.

Eles caíram inconscientes e não perceberam quando foram resgatados.

***

Lyra acordou após alguns dias no quarto da UTI do Centro Pokémon com Forrest ao lado de sua cama. E ainda que ela soubesse o quanto o moreno gostava dela, e que naquele momento o fato de ele estar ali só comprovava isso, a garota sabia que não era ele quem ela queria que estivesse ali.

— Por favor, me deixe sozinha.

Forrest ergueu as sobrancelhas, surpreso.

— Mas eu...
— Por favor — repetiu Lyra com mais firmeza.

O garoto abaixou a cabeça e fechou os punhos. Atendendo ao pedido da garota, retirou-se do quarto.

***

Após alguns dias, Forrest e Lyra aguardavam do lado de fora do quarto onde estava Ethan no Centro Pokémon. O garoto estava internado há três semanas devido aos acontecimentos ocorridos na Torre do Sino. O silêncio entre os dois era constrangedor. Lyra, concentrada em seu PokéGear, não puxava assunto e Forrest estava tão sem graça que havia perdido a habilidade de falar.

Vez em quando, o moreno olhava a garota com um olhar de súplica, tentando fazer com que Lyra dissesse o que estava acontecendo. Afinal, ela estava tratando-o diferente do que costumava.

Foi quando ela levantou-se abruptamente e dirigiu a palavra à Forrest pela primeira vez.

— Chegou a nossa vez de entrar no quarto — disse sem fazer contato visual. Forrest a seguiu.

A porta fora aberta. Os dois entraram no quarto e viram Ethan e Amy sozinhos e o garoto fazendo uma careta estranha. Forrest ficou com uma expressão de dúvida.

— Atrapalho alguma coisa? — Perguntou.
— Não. Estava vendo se o Ethan estava bem. E está muito bem. Até melhor do que era. — Sorriu Amy.

Lyra olhou para o garoto.

— Não morra, Ethan. Você será meu oponente na Liga Pokémon, até lá, mantenha-se vivo.

Lyra saiu do quarto tão rápido quanto entrou. Forrest ficou encarando a porta por onde ela saiu com a esperança de vê-la voltar.

Ela se retirou do Centro Pokémon e caminhou para a saída de Ecruteak.

— Liga Pokémon... — suspirou Lyra, perdida em pensamentos, enquanto olhava no horizonte o que restava da Torre do Sino.

Um barulho próximo chamou a atenção da garota. Um gemido baixinho em um soluço abafado que Lyra não sabia de onde vinha, mas tinha a certeza de ser um choro. De um Pokémon, talvez? Ela deu de ombros e continuou sua caminhada em direção à saída da cidade.

Mas os soluços abafados continuavam a incomodá-la.

— Ok, pode ser algo importante... Ainda que eu não tenha nada a ver com isso.

Deixando-se guiar pelo som, Lyra entrou no bosque que contornava toda a Rota 38 e os arredores de Ecruteak, terminando em um lindo jardim que se encerrava atrás das torres gêmeas da cidade. A garota soltou uma exclamação audível ao ver Silver sentado no chão, encostado em um dos troncos das centenas de árvores espalhadas abraçado às duas pernas, com a cabeça apoiada nos joelhos, chorando copiosamente.

Lyra perdeu o ar como se tivesse levado um soco no estômago. Ela não fez questão nenhuma de ocultar sua presença, e nem poderia, visto que arrastava os pés no chão. Ela só queria chegar perto dele.

Silver olhou para trás e a viu se aproximando. Ele ergueu as sobrancelhas em total espanto e fez menção de se levantar, mas Lyra correu para abraçá-lo.

— Por favor, não vá embora de novo...
— Eu não sei o que fazer... Eu não consigo sair daqui. Meu pai morreu e eu não pude nem me despedir dele... — Silver continuava a colocar sua frustração para fora em forma de lágrimas e soluços.

Lyra o abraçou carinhosamente, abrigando-o em seus braços e envolvendo-o em ternura.

— Eu prometo que nunca mais vou deixar nada de ruim acontecer com você.

A tarde continuou a passar. Silver continuou a se permitir ser envolvido pelo abraço de Lyra assim como ela se permitiu ser abrigo de cada soluço que rasgava o peito do ruivo.


A dor de um coração só pode ser curada por um amor bem maior que ela.



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