10 anos de HeartGold e SoulSilver





Essa é uma daquelas datas que não se pode deixar passar em branco. Hoje é quinta-feira, o mesmo dia que eu costumo lançar capítulos novos do Aventuras em Johto. Mesmo tarde da noite, eu tirei um tempo depois do trabalho de professor de música para, de forma até simples e isolada, comemorar o lançamento do par de jogos que, pra muitos, é o melhor remake e, pra mim, acaba sendo o melhor par de jogos de toda a franquia Pokémon. HeartGold & SoulSilver foram lançados no Japão em 12 de Setembro de 2009, eu devia estar dividindo meu tempo entre a escola, os cursos de música e assistir Pokémon na RedeTV!. O único acesso à internet que eu tinha era por uma lan house (hoje uma loja de conveniências, dos mesmos donos árabes) onde eu passava parte dos meus dias entre fazer um trabalho da escola e pesquisar as coisas sobre Pokémon — incluindo assistir pela milésima vez Pokémon Heroes no YouTube, meu filme favorito. Apenas no fim do ano eu fui conseguir meu próprio computador — que deu problema na placa-mãe 15 dias depois (não comprem nada pela internet rs) e passei a me aprofundar mais. Pokémon pra mim começou na Record, no Programa da Eliana. Fui retomar o amor pela franquia nas reprises da RedeTV!, como já mencionado, e com isso, comecei a fazer os primeiros esboços de uma fanfic. Johto sempre foi a minha saga favorita do anime, principalmente na fase Pokémon Chronicles. Foi ali que eu conheci o meu primeiro protagonista, Forrest, o irmão de Brock. Começava ali os primeiros esboços do que hoje é o AeJ e com o lançamento de HGSS em solo americano, o amor por Johto só cresceu. Comecei a frequentar fóruns de Pokémon e lá, comecei postando os primeiros rascunhos da famosa "Coração de Ouro e Alma de Prata" com Ethan já de protagonista. E foi  nesse fórum que eu conheci a Amanda, uma grande amiga e crush virtual que era marrenta, genial, morava no nordeste brasileiro e utilizava de foto de perfil o char da Green, de Pokémon Adventures. Um resumo dessa história eu já publiquei aqui no blog já tem uns anos... Então, escrevi uma história com Forrest e Amy, publiquei no Nyah!, desisti, depois peguei o Ethan, misturei com Amy e Forrest e, depois de não conseguir entrar na Aliança lá em 2012, postei essa história no Nyah! de novo, até desistir... Alguns anos mais tarde, em 17 de Dezembro de 2015, estreamos o nosso querido AeJ, em definitivo, que se encontra, no momento em que essa postagem é escrita, quase em seu capítulo 60. É muita coisa! Enfim, todo esse texto, essa hora da noite, só pra comemorar uma década de lançamento de um jogo... Mas esse jogo é marcante pra mim. Por causa dele, eu fiz amigos, criei histórias que marcaram pessoas e graças à ele, surgiu o Dento. Não consigo diferenciar o usuário da internet do ser humano real, acho que quem me conhece pessoalmente sabe disso. Eu tenho muito mais a comemorar do que a GameFreak eu acho, mas sinceramente espero que quando Pokémon HeartGold e Pokémon SoulSilver estiverem comemorando 20 anos, Ethan tenha vencido a Liga Pokémon... Que eu não desista até lá!

Ah, e é claro, à você que leu essa postagem aleatória até aqui e com certeza acompanha o Aventuras em Johto, meu muito obrigado. Sem você, Ethan, Amy e Forrest não chegariam tão longe.

TO BE CONTINUED...

Capítulo 54





A fumaça que saía da ponta do cigarro que Archer tragava formava desenhos de linhas sem formas na curta duração de sua existência antes de o vento o apagar para sempre e levar o cheiro da nicotina para alguns metros adiante. Ele permanecia calado, sem se importar direito sobre onde ele estava naquele momento ou com o terno, outrora perfeitamente alinhado, agora sujo, rasgado e chamuscado. Apesar do sol já ter nascido, ele não se sentia disposto para o novo dia. 

Vez em quando, olhava de relance para Beliel, que agora mantinha os olhos vendados por um pano branco. Perdera sua visão na última batalha. Simples assim, fácil como tomar doce de criança. O Pokémon, no entanto, parecia não reclamar de forma alguma. Ainda atrapalhava-se de ter de usar seus demais instintos, como olfato e audição, mas jamais saia do lado de seu mestre. 

A cada tragada no cigarro, Archer suspirava. 

— Um Pokémon cego. O que eu vou fazer com um Pokémon cego? 

Beliel não esboçara nenhuma reação, apesar de estar próximo de seu mestre e obviamente ter ouvido o desabafo, sua missão de vida era protegê-lo. Mesmo sem a visão, ele continuaria a dar sua vida no lugar de Archer se preciso fosse. 

Archer deu a última tragada no cigarro e jogou o resto do filtro fora. Colocou as duas mãos dentro do bolso e sentiu um pedaço de papel no lado direito. Retirou-o e o olhou, era um pedaço de embrulho que Archer desfez cuidadosamente, logo notando que dentro dele havia um pedaço de garra; a garra do maldito Dragonite de Lance. O homem ficou alguns segundos encarando aquele pedaço de presa refletindo e pensando se o jogaria fora. 

Giovanni havia morrido. Seu Pokémon estava cego. A Equipe Rocket, cada vez mais, se aproximava do seu fim trágico. Muitos questionamentos passavam pela cabeça de Archer, que voltou a embrulhar o pedaço de unha e guardá-lo no bolso. 

Beliel o seguiu quando ouviu os passos de seu mestre se afastarem dele. 

*** 

O monitor mostrava frequências reguladas de batimento cardíaco através de bips sonoros. Entubado, Pryce não aparentava melhoras. Seu estado clínico se agravava devido à idade do homem, já idoso, e os graves ferimentos que ganhou no corpo pela explosão na noite anterior. O Líder de Ginásio arrebentou sua coluna no violento impacto contra o chão. 

Uma bela moça loira jazia de pé ao lado da cama onde Pryce se encontrava. Seus cabelos, perfeitamente arrumados em um rabo de cavalo preso com uma presilha que tinha o formato de uma Butterfree na cor azul, era apenas um mero detalhe comparado à extrema beleza da jovem que, mesmo com os olhos inchados de quem chorou por muito tempo, ainda realçavam a jovialidade de seu rosto. Ela não devia ter mais que vinte anos e olhava para o enfermo com um enorme pesar. Ao seu lado, Katherine que, talvez pela primeira vez em sua vida, não esboçava nenhuma reação de ódio ou desprezo ao olhar para o homem. 

As respirações das duas mulheres se misturavam aos bips sonoros que saíam do monitor. 

— Se esse homem não fosse tão teimoso... — murmurou Katherine, num sussurro indignado. 
— Você conhece bem o vovô, vó... Ele só fez o que acreditava ser correto. 
— Ele quase se matou por causa dessa cidade idiota, Julia! — exclamou Katherine para a jovem, que a olhou pedindo silêncio. 
— Não se exalte, vovó, há outros pacientes nos quartos ao lado. 
— Eu vou tomar uma água. 

Katherine saiu do quarto apressada deixando Júlia sozinha com o velho Pryce. Alguns minutos se passaram quando a porta abriu-se novamente, revelando Vivian Chevalier entrando de uma forma mais cautelosa do que de costume. A garota estava visivelmente abatida, olhava arregalada para a cama onde Pryce descansava e não pôde evitar que lágrimas escorressem de seu rosto. 

— Ju-chan... Por que isso tinha que acontecer com o vovô...? 

Julia levantou-se e dirigiu-se até Vivian, dando-a um abraço com ternura. Ela amava a garota como se fosse sua irmã. Afagou os cabelos de Vivian e conseguiu dar um sorriso meigo, como sempre fazia. 

— Ele vai ficar bem.  
— Você promete? — perguntou Vivian. 

A resposta veio de forma tão inocente quanto aquela pergunta. 

— Eu prometo. — O sorriso permanecia em seu rosto. 

As duas se abraçaram, depositando todas as esperanças que tinham no amor que compartilhavam uma pela outra. 

— Você também acha que a vó e o  vão parar de brigar um dia? 

Julia gargalhou de forma abafada enquanto se retirava do quarto do hospital, conduzindo Vivian consigo. 

— Eu acho que é uma forma que os dois têm de mostrar que se amam. 
— É uma forma estranha de demonstrar isso, não acha? 
— A vó e o  se tratam assim desde que se conhecem, Vivi. E mesmo com a história de um traiu o outro, eles nunca se largaram. Na verdade, eu acho que é só vaidade dos dois, ninguém traiu ninguém. Eles só se amam brigando. 
— Por que acha isso? 
— Essa história tem quarenta anos. Nem o  e nem a vó se casaram com outras pessoas durante todo esse tempo. Eles vivem em cidades diferentes, mas a vó sempre dá um jeito de fazer ele ir pra Azalea de vez em quando. As pessoas têm maneiras esquisitas de amar. Quando for mais velha, você vai entender isso. Afinal, você também vai arrumar um namorado. 

Vivian fez uma cara de nojo. 

— Eu hein? Pra agir que nem o  e a vó? Tô fora, Ju-chan! Eu sou auto-suficiente! Seja lá o que isso signifique.  

*** 

As águas calmas do Lago dos Magikarp tocavam as margens da Rota 43. A imprensa agora chamava o grande lago de “Lago da Fúria” devido os acontecimentos de uma semana atrás e que ainda causava burburinho na cidade inteira. Forrest e seu irmão Brock permaneciam sentados encarando o céu azul que insistia em brilhar, apesar do vento indicar a vinda de uma possível tempestade mais tarde. Brock ficou sabendo de tudo o que aconteceu até então sobre a jornada do irmão, ouvindo atentamente cada detalhe. Do encontro com Ethan e Amy à batalha contra Argenta, nada foi esquecido. 

— Vejo que você cresceu bastante desde que saiu em jornada, tenho até medo de você já ter habilidade o bastante pra assumir o Ginásio de Pewter em meu lugar — comentou Brock, rindo. 

Forrest devolveu o sorriso. 

— Bem que eu queria, mano, mas sei não. Eu ainda tenho muito o que evoluir. Minha meta agora virou derrotar a Argenta. Só assim eu serei capaz de assumir o Ginásio, vou treinar duro até o dia da minha revanche. 

Brock afagou os cabelos do mais novo. 

— Fico feliz em saber que você evoluiu como treinador. Você não é mais aquele pirralho que me importunava por uma batalha, você está fazendo as próprias e isso é muito bom. Só tenho de lhe desejar boa sorte. Conte comigo para o que precisar. 
— Obrigado, mano. 

A tarde continuava a chegar serena como as águas que tocavam as margens da Rota 43. Brock e Forrest continuavam a trocar sorrisos, orgulhosos um pelo outro. 

*** 

Outro flash. Era provavelmente o centésimo que Lance via em menos de um minuto e não diminuía sua tensão, pelo contrário.  As mãos estavam estendidas sobre a bancada e sua respiração ofegante era captada pelas dezenas de microfones que havia em sua frente. Também sentados, os demais integrantes da Elite 4, todos reunidos encarando uma massa de repórteres dentro do Ginásio de Mahogany, onde uma coletiva de imprensa estava sendo feita. O campeão estava no meio, entre os demais quatro treinadores, e era ele o responsável por anunciar as notícias que todos ansiavam. 

— Boa tarde. Solicitamos esta coletiva para informar sobre o acontecido na última madrugada na Cidade de Mahogany. A inteligência da polícia juntamente com os esforços da Elite 4, Líderes de Ginásio e alguns treinadores excepcionais já estava de olho nas movimentações da organização criminosa denominada “Equipe Rocket”, acompanhando de perto cada planejamento de seus planos. Graças a isso, nós descobrimos seu quartel-general subterrâneo que eles usavam com base de operações aqui nessa cidade. A explosão que interditou boa parte da entrada para a Rota 44 foi de uma armadilha plantada pelos Rockets, que autodestruíram sua base e, infelizmente, acabou atingindo Pryce, o Líder de Ginásio que nos prestava apoio. Seu estado é grave e ele está sob tratamento médico. A Liga Pokémon está fazendo tudo o possível para que o melhor tratamento seja utilizado para que logo a cidade possa ter seu amado líder de volta à ativa. 

Um falatório começou a se estender. Vários repórteres faziam perguntas simultaneamente, até que Koga apontou para um deles. 

— A explosão atingiu a Equipe Rocket? Seus integrantes estão mortos? 
— Alguns capangas acabaram morrendo na explosão, sim, mas seus executivos fugiram. A explosão acabou por impedir que a Equipe Rocket continue a utilizar seus equipamentos e tecnologias, mas não estamos medindo esforços para caçar e prender todos os integrantes desta facção — respondeu o ninja. 

Mais um falatório. Lance apontou para uma segunda repórter. 

— Tivemos acesso à informação de que uma das pessoas suspeitas de matar Giovanni em Ecruteak já foi integrante da Equipe Rocket. Seu nome é Amanda Green e ela está trabalhando com Red Fire. Isso procede? Onde ela se encontra? Houve algum tipo de retaliação? Onde está o senhor Red no momento? 

Lance pigarreou e hesitou alguns instantes antes de responder. 

— Amanda Green é uma treinadora infiltrada habilmente treinada que nos auxiliou nessa caçada aos Rockets. Sua atual localização é um segredo de Estado devido à ameaça que pode vir a receber dos executivos foragidos da Equipe Rocket. Não podemos informar sua relação com Red Fire, mas ele também está do nosso lado, como vocês devem saber. A única retaliação que nós queremos evitar é justamente da Equipe Rocket. A polícia e os treinadores que auxiliam a Elite 4 e o governo estão tomando o maior cuidado para que a população não corra riscos. 

Outro falatório. Mas não se soube qual foi a próxima pergunta feita. Um silêncio repentino calou imediatamente todas as vozes que estavam presentes no Ginásio. 

Amy permanecia segurando o controle do televisor na mão olhando para a tela preta que agora nada exibia. Apesar do silêncio do quarto do Centro Pokémon em que estava hospedada, um turbilhão de pensamentos barulhentos tirava sua concentração e a faziam respirar de forma descompassada. 

— Você não está pensando em cometer nenhuma loucura, não é? — perguntou Red, a única companhia de Amy naquele instante, sentado em uma das poltronas no quarto, olhando atentamente para a garota. 
— Eu não confio em você e em ninguém mais. Você sabia o tempo todo dessa história do Giovanni ser meu pai e nunca passou pela sua cabeça me deixar informada sobre esse pequeno detalhe. Melhor continuar se fazendo de desentendido e sumir da minha frente. 

Red coçou a sobrancelha direita com o dedo anelar e respirou fundo. 

— Se você se olhasse no espelho agora, veria o motivo de eu não ter te contado. Você está perdendo o controle, Amy. Às vezes eu tenho a impressão de que aquelas ondas de rádio que a Equipe Rocket usava para controlar os Pokémon afeta o temperamento dos humanos também. 
— Não é hora pra piadas! — Amy arremessou o controle na direção de Red, atingindo-o no rosto. — Peça pra Arceus nunca te permitir passar anos da sua vida acreditando em uma realidade de mentira. Não me analise, não tenha qualquer impressão sobre mim e não tente adivinhar o que se passa pela minha cabeça! 

Red levantou-se com ignorância e partiu para cima da garota, segurando-a pelo pulso. 

— Eu perdi mais nisso tudo do que você, AmandaVocê perdeu uma vida inteira e eu perdi a minha vida. A Equipe Rocket me causou muito mais do que apenas frustrações. Você ainda tem a chance de recomeçar, então, por favor, pela dignidade que ainda deve sobrar em você, tome alguma atitude e — 

Amy não deixou o garoto terminar o sermão. Deu-lhe um soco no rosto tão forte que a visão de Red escureceu. 

— Isso foi por você ter me visto pelada e sendo humilhada. E por ser um babaca. Não me venha dar lição de moral, sua única motivação está protegida longe daqui. Eu perdi a minha vida e sequer sei onde vou recomeçar tudo isso. Me deixa em paz! 

A garota virou as costas e saiu do quarto. Red não tentou impedi-la, apesar de este ser seu dever. A raiva era tanta que ordem nenhuma de Lance o faria cogitar impedir que Amy se matasse se assim ela quisesse. 

Pela janela do quarto que dava para o corredor, Ethan viu Amy passar como um furacão em direção à escadaria que dava para o andar inferior do Centro Pokémon. O garoto se apressou em abrir a porta. 

— Ei, Amy! Aonde é que você vai? 

Amy aparou abruptamente e apontou para o garoto com o dedo indicador. A feição séria assustou o garoto. 

 Eu tenho uma pergunta pra te fazer. Quem você ama de verdade, a Amy fugitiva da Equipe Rocket ou a assassina trambiqueira que assassinou o próprio pai? 

Ethan engoliu em seco. 

— Q-quê?! Como assim, que história é essa?! 

Amy abaixou a mão e virou-se de costas. 

— Defina melhor as suas prioridades pra saber pelo que você luta. 

A garota saiu correndo enquanto Ethan permaneceu estático. 

— Você é um idiota, cara. — Ethan ouviu Red dizer antes de fechar a porta do quarto. 

Ethan correu avançando em direção à saída do Centro Pokémon quando ouviu a Enfermeira Joy chamar seu nome. 

— Senhor Ethan, seus Pokémon já estão em perfeito estado de saúde! — sorriu a enfermeira colocando uma bandeja com seis PokéBolas em cima do balcão. 

O garoto não parou de correr. Olhou para a enfermeira e, antes de sair pelas portas automáticas, soltou uma frase que a deixou constrangida. 

— Eu não tenho tempo pra isso agora! 

Sua voz ecoando pela recepção foi o último rastro que sobrou de Ethan. Ao sair para o lado de fora, viu Amy montada em sua Pidgeot e desaparecendo pelo céu. 

*** 


Amy sentia um gélido vento soprando por todos os lados. No cume da enorme montanha que fazia de morada a Cidade de Mahogany e os limites da Rota 44, uma caverna dava as boas vindas para a treinadora, que hesitava na decisão de entrar ou não em seus domínios. A garota via neve e imaginou que dentro da caverna fazia muito frio — muito mais frio do que ela imaginou um dia. 

A Caverna de Gelo era famosa por ter morando dentro de si Pokémon do tipo Gelo que, devido aos seus poderes, tornavam a temperatura da caverna mais baixa do que o natural. Todos os treinadores que ali passavam carregavam consigo um casaco para suportar as baixas temperaturas, mas Amy sequer havia pensado em trazer um consigo e havia-se a certeza de que era proposital. A garota tirou seu chapéu da cabeça e junto à sua bolsa, onde todas as suas PokéBolas se encontravam, o depositou gentilmente no chão. Sentiu a espinha tremer quando sentiu o vento frio tocar seu rosto, mas prosseguiu seu caminho para dentro da caverna. 

A cada passo que dava, mais um frio lancinante parecia cortar a pele de Amy como uma faca afiada. Ela apertava os braços e espirrava cada vez mais forte. Seu hálito formava uma nuvem de calor e se dissipava da boca através do ar. A menina tremia por inteiro, mas ela já não sabia se era pelo frio ou pelo medo que assombrava a sua cabeça. 

Ariana tinha razão. Ela havia cometido o crime imperdoável de matar o próprio pai. Por mais que negasse veementemente sua ligação com os Rockets, ela agora era pior do que eles e havia uma ligação de sangue com eles. Talvez Amy não fosse mais tão digna assim de continuar vivendo. 

Uma falha no chão congelado fez Amy tropeçar e cair de quatro, instintivamente jogando as duas mãos no chão para amortecer a queda. Seu corpo avançou alguns centímetros à frente e uma forte dor na mão — que ela não sabia se era devido ao frio, apesar de pouco se importar — a fez gemer baixinho. Ao olhar para as mãos, sangue. O gelo manchado, a pele rasgada, tudo fazia parte de uma imensa fragilidade que só agora ela percebia que tinha. Do que adiantava ter passado anos fingindo ser forte, invencível, se agora ela se encontrava acuada, sem saber o que fazer? 

Esse era o ponto: Sua vida havia sido uma mentira. Ela não podia confiar em mais ninguém, todos mentiam pra ela e agora chegou ao ponto de ela mesma ser uma grande mentira de si própria. Havia chegado a hora de acabar com aquilo tudo. 

Ela não sentia mais seus membros que estavam dormentes, mas continuava a caminhar sem rumo dentro da caverna fria. Quanto mais a garota avançava, mais sua visão ficava turva. Os espirros ficavam cada vez mais constantes e fortes, seus lábios estavam numa coloração azulada e sua pele ficava cada vez mais pálida. Amy lentamente caminhava em direção a um buraco no chão onde havia água líquida ao fundo. Ela perdera completamente a sensibilidade dos dedos e também a vontade de viver. 

A garota olhou para o seu reflexo na água e não se reconheceu. Sentou-se na borda do buraco e ali permaneceu por alguns segundos. Treinadores Pokémon convencionais desviariam facilmente daquele buraco no meio do caminho, mas ela parecia querer pular nele e terminar ali seu sofrimento de uma vida inteira.  

 Amy! — berrou a voz de Ethan, correndo até a garota. 

Ela olhou para trás e o viu aproximar-se com pressa em sua direção. Ela tremia em um misto de adrenalina e frio que dominava seu corpo por inteiro.  

Ethan a abraçou e o calor do corpo do garoto guerreou contra o frio que dominava o corpo dela. Amy ruborizou, mas imediatamente tentou se soltar dos braços do rapaz, que não a libertava. 

— Pelo amor de deus, Amy, eu te amo! Não faz isso comigo! 

Ela paralisou. As lágrimas que escorriam no rosto dele causavam uma sensação de ardência no rosto quase congelado dela. 

— E-Ethan... — balbuciou. 
— Eu amo você desde a primeira vez que eu te vi. Eu sou um idiota, eu sei que você sabe disso, mas é por você que eu luto. É por você que eu saí em jornada, não me interessa as insígnias, não me interessa a Liga Pokémon, Amy! Você é a razão e o motivo da minha existência, eu amo você e não importa o seu passado, eu sei que você não é o monstro que está pensando que é... Por favor não desiste de mim, não desista de você mesma!  

Cada palavra dita por Ethan era acompanhada por lamentos chorosos de desespero. Amy não conseguia tirar os olhos do garoto. Todos os seus pensamentos ruins desapareciam, como se fossem dissipados pela poderosa luz que só Ethan emitia dentro dela. 

Dessa vez, foi ele quem tomou a atitude de beijar a boca fria da menina, outra vez fragilmente dependente dele. E como num sopro de vida, ela sentiu seu coração gritar pela primeira vez por viver. Ela não tinha forças para poder se esquivar, mas ela não queria. 

Ethan se mostrou outra vez o salvador que Amy tanto precisou durante toda a sua vida. 

*** 

Os bips do monitor cardíaco indicavam uma melhor frequência de batimentos que o coração de Amy fazia. Ela acordou no quarto do hospital do Centro Pokémon, na cidade de Mahogany e deixou sua consciência tomar conta de sua cabeça. Sentia-se sonolenta, efeito dos medicamentos que ela tomou para reverter o quadro grave de hipotermia, mas sentiu que alguém lhe observava. 

Passou os olhos pelo cômodo lentamente e notou a presença de Ethan. 

— Eu realmente achei que fosse perder você de vez. 

Ela sorriu de forma carinhosa e pediu para que ele se aproximasse. 

— Olha, eu não sei se você se lembra do que aconteceu na Caverna de Gelo, mas... 
— Eu não me lembro de muita coisa, mas eu lembro o bastante. 

O garoto corou.  

— Do que você se lembra? 
— Me lembro de você se mostrando presente quando eu mais precisei. Dessa vez, de verdade... Quando você disse aquelas coisas pra mim, você falava sério? 

Ethan hesitou por um momento, buscando alguma coisa na memória. 

— Amy, eu vou ser honesto com você... Eu sempre achei você bonita, mas desde que você me beijou aquele dia, eu... Fiquei com isso na minha cabeça. Eu não quero que você suma de novo, eu realmente gosto de você, mas eu vou entender se por acaso você não se sentir da mesma forma que eu. 

Ela esticou a mão e pegou a dele. 

— Eu não acredito que eu precisei quase morrer pra você notar que eu te amo, seu tosco. 

Ethan, mais vermelho do que um pimentão, ergueu as duas sobrancelhas e arregalou os olhos. Sentiu-se como se tivesse levado um soco na boca do estômago. 
— Então quer dizer que você... 
— Sim. 

Ethan começou a sorrir, mas se interrompeu ao ver que Amy fora tomada por uma expressão de tristeza. 

— O que foi? Eu falei algo de errado? 
— Não... Na verdade, o problema sou eu. Eu ainda não sei o que será de mim agora. Toda essa história da Equipe Rocket, do Giovanni... Eu sei que um dia, eu vou pagar esse pecado. 

Ethan apertou firmemente a mão de Amy. 

— Amy, você nunca esteve sozinha, você nunca lutou sozinha e não vai ser agora que irá. Me permita proteger você e te ajudar a superar tudo isso. 

Amy encarou o garoto com ternura. 

— Eu nunca achei que veria você, um garoto folgado e preguiçoso, falar desse jeito tão convicto. Se você morrer tentando me proteger, eu nunca vou te perdoar, entendido? 
— Então já pode ir começando a pegar raiva, porque eu não te garanto nada. 

Os dois riram. Ethan afagou os cabelos da garota e aproximou-se devagar na direção de seu rosto e a viu fechar os olhos. O monitor cardíaco ligado à Amy começou a apitar mais forte quando os lábios se selaram em um beijo que, de forma definitiva, selava o grande amor que nenhum dos dois adolescentes conhecia, mas que enfim haviam encontrado. 


TO BE CONTINUED...


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