Posted by : Dento May 20, 2021

 


Ethan havia recebido alta, mas não estava feliz. Àquela hora da manhã, ele estava dando os últimos retoques nas roupas que se já se encontravam limpas, apesar de claramente desgastadas — talvez pelo fato de que o garoto já estar vestindo-as há um bom tempo. Não se descartava a possibilidade de que as agressões sofridas por Ethan também influenciaram no estado atual daquelas vestes. Há uma semana, especificamente no dia 11 de junho, seu namoro acabou. A ironia de ser na véspera do dia dos namorados talvez possa ter influenciado o garoto a ficar cada dia mais deprimido. Apesar da recuperação em relação à saúde física, a emocional não ia tão bem assim. Havia passado os últimos dias fazendo uma retrospectiva de sua jornada até ali e em tudo o que haviam lhe falado. E por mais que doesse, sua mãe tinha razão: não se devia temer a verdade. E a verdade era que seu comportamento estava afastando as pessoas que ele mais amava na vida, portanto, algo tinha de ser feito a respeito.

 

Três batidas na porta desviaram por alguns segundos o fluxo de raciocínio do garoto. Era Marieta.

 

— Bom dia, meu filho. Como você está se sentindo?

 

O garoto deu de ombros.

 

— Tem algum motivo para estar bem, por acaso?

— Se você quer mais algum motivo pra entrar em coma e passar o resto da vida nesse hospital, pode ter certeza que eu mesma posso te proporcionar isso, é só você falar assim comigo só mais uma vez — respondeu a mulher de forma ameaçadora.

— Desculpe.

 

Marieta suspirou antes de continuar.

 

— Suas coisas já estão prontas? Já arrumei tudo, acredito que logo mais estaremos na nossa casa em New Bark.

— Já estão sim. — Ethan estava visivelmente desanimado.

— Excelente, eu já falei com um taxista amigo meu que vai fazer a viagem pra nós, o trajeto pela Rota 45 é mais rápido e--

— Espera mamãe. Eu tô pensando numa coisa.

 

A mulher encarou o garoto com as sobrancelhas erguidas.

 

— O que é?

— Eu não quero ir pra New Bark.

 

Marieta não esboçou reação alguma.

 

— E você quer ir pra onde?

 

Ethan a encarou e respirou fundo. O garoto sabia que aquela nem seria a decisão mais difícil que tomaria nos próximos dias.

 

— Eu preciso ficar em Blackthorn. Tenho que resolver muita coisa. A senhora me disse que eu preciso encarar a verdade e eu preciso fazer as pazes com a Amy... Mas, primeiro, preciso conseguir novamente a confiança dos meus Pokémon. Eu sei que a senhora vai me bater, vai me xingar, vai me impedir de alguma maneira, mas eu não posso voltar pra casa sem resolver isso. Eu não preciso da Liga Pokémon, eu preciso dos meus amigos de volta. E pra isso, preciso ficar aqui.

 

Marieta deu um leve sorriso.

 

— Eu tenho orgulho de você, filho. E não é pouco. Eu acho que você está crescendo, e para mim é difícil assumir isso, mas confesso que prefiro você desse jeito. Se você diz que precisa ficar e resolver seus problemas, você tem todo o meu apoio, mas meu amor, por favor, evite de vir parar no hospital de novo, tá bem?

 

Ethan, pela primeira vez em muito tempo, sentiu um alivio enorme em seu coração.

 

— Obrigado, mamãe! Eu te amo! — E correu para abraçar a mulher.

— Também te amo, meu filho. Conte sempre comigo.

 

***

 

Já se passava das duas horas da tarde quando Ethan se encontrava perdido em pensamentos sentado no banco de uma praça próxima ao Centro Pokémon. Quase que nem se lembrava mais do calor do sol e da tonalidade de azul do céu, as montanhas que rasgavam a cidade ao meio... O garoto quase que estava reaprendendo a entender o mundo em que vivia.


 Ethan, no entanto, se sentia desconfortável. As pessoas que passavam por ali apontavam para ele e não escondiam que estavam falando sobre ele, os acontecimentos ocorridos em Blackthorn não deixaram de ser assunto na cidade. E, com razão, ele estava sendo visto como persona non grata pelos orgulhosos treinadores domadores de dragões moradores da cidade.

 

O desconforto de Ethan, no entanto, iria aumentar ainda mais.

 

— Que bom que te encontrei... Meu filho. Mal deu para conversarmos no hospital.

 

O garoto gelou ao ouvir aquela voz grave. Ao se virar, deu de cara com Gold com um sorriso terno, simpático, daqueles que se dá ao ver alguém que há muito tempo não se via. As mãos nos bolsos e os cabelos cortados penteados para o lado esquerdo da cabeça, que em nada lembrava a rebeldia dos tempos de jovem, traziam uma figura diferente daquela que Ethan se lembrava, até por fotos. Quando Ethan, através de Celebi, viajou no tempo para 25 anos atrás e encontrou o mesmo Gold, ali adolescente e que usava o mesmíssimo boné que hoje o filho usava para cobrir a cabeça, o rapaz jamais imaginou que poderia um dia reencontrar seu pai novamente em uma situação tão aleatória como aquela.

 

— O que o senhor faz aqui? — questionou Ethan, visivelmente incomodado ao ver o homem ali em sua frente.

— Vim te ver, filho. Fiquei preocupado quando sua mãe me deu a notícia de que você estava internado aqui em Blackthorn.

— E o senhor achou legal aparecer assim do nada sem me perguntar se podia?

— Bem, você estava inconsciente, logo, não poderia saber qual seria a sua vontade... — respondeu o homem sem graça.

 

Ethan levantou de supetão e, como um Persian acuado, começou a andar para trás, com os punhos fechados e sobrancelhas franzidas em uma expressão de ódio.

 

— A minha vontade é ficar bem longe do senhor. Nunca mais me procure!

— Mas filho, eu--

— E não me chame mais de filho, eu não sou seu filho e, como sempre durante todos esses anos, o senhor não é meu pai. O senhor não esteve presente quando eu e a mamãe precisamos, então não vai ser agora que eu vou precisar!

 

Ethan se virou para ir embora, mas sentiu seu ombro ser tocado por Gold.

 

— Ethan, espera!

— NÃO TOQUE EM MIM! — berrou o garoto para o homem antes de sair correndo, com os olhos vermelhos tomados em fúria. Gold permaneceu parado no lugar em que estava, constrangido, vendo Ethan ficar cada vez mais longe.

 

Ethan continuou correndo sem um rumo certo, sem nem olhar para trás. Ele só parou de correr quando o fôlego lhe escapou e suas penas tombaram para frente, fazendo-o cair ao chão. Seus braços tremiam de raiva e frustração. As gotas de suor que começavam a se formar contornavam seu rosto e caíam descompassadas no chão enquanto o garoto tentava controlar a respiração. Muitas coisas se passavam por sua cabeça. Os problemas que ele tinha pra resolver em Blackthorn não envolviam seu pai, nunca o envolveu, então por que ele insistia ainda em aparecer? Cada vez que Ethan pensava nisso, seus punhos fechavam com cada vez mais força.

 

— O senhor precisa de ajuda?

 

Uma voz infantil atraiu a atenção de Ethan, que rapidamente se levantou e limpou as mãos na parte de trás dos shorts. Ao reparar nos dois garotos, ele viu que ambos eram extremamente parecidos — gêmeos, logicamente —, um menino e uma menina. Ela com uma das mechas do cabelo colocadas atrás da orelha direita e olhar curioso, semelhante ao do Eevee que se agarrava no topo da cabeça da treinadora. Ele, meio envergonhado, com as mãos dentro dos bolsos dos shorts jeans e com a aba do boné tentando esconder os olhos acinzentados com um Pikachu em seus ombros, com as orelhas levantadas em sinal constante de alerta, que olhava para Ethan com certa desconfiança.

 

— “Senhor”? Eu não sou assim tão velho, tá? Eu só tenho 13 anos! — respondeu ele sem esconder uma leve indignação. — Mas eu estou bem, obrigado...

— O senh... Você se chama Ethan, não é? — perguntou o menino, surpreendendo o treinador mais velho.

— Vocês me conhecem? Nossa... Se bem que eu devo imaginar o motivo, aqui nessa cidade todo mundo me conhece... Sim, sou eu, o cara que abandonou os Pokémon. Podem me xingar, eu acho que já acostumei...

 

Os gêmeos se olharam.

 

— Nós não vamos te xingar. A gente quer te ajudar a recuperar seus Pokémon — disse a menina.

 

Ethan ergueu as sobrancelhas.

 

— Me ajudar? Isso é muito legal vindo de vocês, mas eu preciso fazer isso sozinho. Além do mais, eu nem sei os nomes de vocês. Seus pais estão sabendo que vocês estão falando com um estranho?

— Meu nome é Elaine. Você não é um estranho... Pelo menos, não deveria ser... — comentou a menina meio sem jeito.

— E você, meu chapa? Como se chama? — questionou Ethan ao menino que demorou alguns segundos para responder.

— M-Meu nome é Nic--

— O nome dele é Chase! — interrompeu Elaine com um sorriso sem graça, dando uma cotovelada nas costelas do irmão. — C-H-A-S-E, Chase. Com “ch”, igual tem no nome do Pikachu. Ele é o meu irmão mais novo. Temos dez anos, mas eu sou sete minutos mais velha!

— Ai! — reclamou Chase massageando o local. — Isso doeu...

 

Ethan deu uma risadinha.

 

— Gêmeos, né? Vocês são parecidos mesmo, mas eu acredito que seja só na aparência, porque vocês dois são totalmente opostos na personalidade.

— Acho que eu puxei meu pai, né? — comentou Elaine com um sorrisinho convencido.

— Bem, eu não conheço seu pai, mas ele deve ser muito gente boa igual você mesmo — respondeu Ethan. — E você, baixinho? É o menos falante dos dois. Mas não se preocupe, eu sou gente boa.

— Eu não sou baixinho! Mamãe disse que eu estou em fase de crescimento! — Exclamou Chase de forma agressiva. Pikachu disparou faíscas de suas bochechas.

 

Ethan levantou as duas mãos.

 

— Calma, calma... Eu não quero ofender.

— Não ligue pra ele... Você conhece o Chase, né, pai? — comentou Elaine para Ethan segundos antes de ficar vermelha como um pimentão. — Q-quer dizer, Ethan! Esqueça o que eu disse!

 

Ethan, no entanto, gargalhou.

 

— Pai? Eu sou muito novo pra essas coisas, menina. Não se preocupe, você deve estar com saudades dele, não é? Parece eu quando criança... Uma vez eu chamei a minha professora de “mãe”. Foram os seis meses mais longos da minha vida... Mas vou confessar, gostei de vocês. Se um dia eu for pai e tiver filhos como vocês, vou ficar feliz da vida!

 

Chase chegou perto do ouvido da irmã.

 

— A gente não deveria ajudar ele a procurar os Pokémon...? — perguntou baixinho.

— Ah, é! Certo, bem... — Elaine tentou retomar o foco, apesar de continuar rubra. — Nós sabemos que seus Pokémon estão perdidos. Queremos ajudar... Por favor, deixa!

 

Ethan cruzou os braços e começou a pensar.

 

— É... Pensando melhor eu acho melhor ter ajuda... Eu não faço ideia de onde eles possam estar...

— Justamente por isso que nós estamos aqui! — exclamou Elaine. — Com nossos Pokémon, com certeza nós poderemos encontrar toda a sua equipe.

— Além do Eevee e do Pikachu, quais outros Pokémon que vocês têm?

— Minha Eevee se chama Vera. Eu tenho também a Free, que é uma Butterfree, e a Mandy, que é uma Aipom. O Pikachu do meu irmão se chama Takara e com ele tem o Donald, que é um Psyduck e o Faísca.

— “Faísca”? Engraçado, eu tenho um Pokémon chamado Faísca também! Deixa eu ver? — pediu Ethan para Chase.

— É... Tá bem... — respondeu o garoto de forma tímida pegando uma PokéBola da mochila.

— Espera aí, espera aí! — Exclamou Elaine nervosa. — Você não pode ver!

 

Tarde demais. Da PokéBola fora liberado um Pokémon cujo corpo era largo e circular, semelhante a um disco feito de metal, com uma borda fina circundando o diâmetro de seu corpo. Havia um olho no centro contendo uma pupila grande e vermelha. Em cada lado de seu corpo, haviam duas bolas soldadas, com cada lado contendo um olho, cada uma com ímã de ferradura e um grande parafuso. No topo de sua cabeça, uma haste alta, fina e amarela que muito se assemelhava a uma antena que deveria ser usada para lançar ataques elétricos. Atrás de seu corpo, como uma cauda, havia um terceiro ímã em forma de ferradura.

 


— “Magnezone, o Pokémon Área Magnética. A exposição a um campo magnético especial mudou a estrutura molecular do Magneton, transformando-o em Magnezone”— informou a PokéDex de Ethan.

— Ele é a forma evoluída do Magneton? Engraçado, Faísca é justamente o apelido do meu Magneton. Como o mundo é pequeno... — comentou Ethan sorrindo. — Mas espera aí...

 

Elaine ergueu as sobrancelhas e levou as duas mãos à cabeça, em pânico.

 

— N-não é nada disso o que você está pensando!

— Eu acho que é sim... Esse Magnezone, forma evoluída do Magneton... Chamado Faísca...

 

A cada palavra de Ethan, um mini-ataque cardíaco acometia a menina.

 

— E-eu acabei de descobrir o que está acontecendo aqui — disse Ethan, chocado.

 

Elaine paralisou. Olhou para o irmão, implorando por ajuda.

 

— Faz alguma coisa... — pediu ela.

— Fazer o quê? Eu não sei o que fazer... — sussurrou ele de volta.

— Os poderes de magnetismo do seu Faísca podem ajudar a atrair o meu Faísca, porque com certeza um imã de um Pokémon enorme igual a esse com certeza faria todos os Magneton do mundo se reunirem rapidinho! — exclamou o mais velho.

 

Os irmãos se entreolharam em silêncio. Chase tampou os olhos com as mãos balançando a cabeça de forma negativa, incomodado com a ignorância de Ethan. Elaine encarava o treinador de forma incrédula e de boca aberta.

 

— É... Com certeza... Isso mesmo... — disse a menina de forma pausada devido ao choque.

— Agradeço demais a ajuda de vocês! Vocês apareceram na hora certa com o Pokémon certo! E olha que eu nem sou de acreditar em coincidências! — Sorriu Ethan para os irmãos antes de virar-se em direção à cidade. — E então? Vamos procurar o meu Faísca?

 

Enquanto ele saltitava feliz, Chase puxou a manga da camiseta da irmã para cochichar em seu ouvido.

 

— Ni... Eu sei que o tio Lance pediu pra que a gente não contasse pra ele sobre o que está acontecendo, mas... Tem certeza de que realmente precisamos guardar segredo? Ele parece tão...  Desligado...

— Eu até me surpreendo, Ni... Graças à Arceus que puxamos a inteligência da mamãe... — comentou Elaine.

— Vocês não vêm? — gritou Ethan alguns metros a frente.

 

Os irmãos se olharam, suspiraram e correram atrás do rapaz.

 

***

 

Por onde passava, o grande Magnezone chamava a atenção. Não era comum um Pokémon daqueles na região de Johto, afinal, o continente, junto com Kanto, não era um local onde a evolução do Magneton se tornasse possível, afinal, dependia de um campo magnético especial existente em poucos lugares no mundo, como na região de Sinnoh. Chase e Elaine comentaram com Ethan que o Pokémon foi um presente de seus pais para que eles pudessem ficar protegidos durante a viagem, o que fazia muito sentido para Ethan, afinal, os dois só tinham dez anos — idade mínima para e tirar uma licença Pokémon. Apesar do tamanho, Magnezone não parecia ser um Pokémon agressivo. Pelo menos, não com as crianças.

 

Os três imãs de Magnezone giravam em direções diferentes, como um satélite emitindo sinais. Faísca emanava frequências magnéticas específicas para localizar um único Pokémon e apesar de alguns parafusos e porcas grudarem em seu corpo de metal, tudo aos arredores, como postes de luz, lixeiras e bancos de praça, apesar de serem feitos de ferro e aço, permaneciam intactos.

Não existia Magneton selvagem por aquelas bandas. Logo, quando um Magneton apareceu flutuando na direção do Magnezone completamente seduzido pelas ondas magnéticas emitidas pelo Pokémon, uma onda de exclamações e comentários sussurrados chamaram a atenção.

 

— É o meu Faísca! — exclamou Ethan enquanto corria na direção de Magneton.

 

Magnezone parou de girar seus imãs, despertando Magneton do transe. Ao despertar, seus olhos focaram em Ethan, parado em sua frente. Os parafusos em seu corpo começaram a girar e, sem que o treinador esperasse, uma descarga de ThunderShock fora disparada de seus imãs, atingindo o garoto em cheio, para surpresa de Elaine e Chase. Ethan gritou de dor enquanto os gêmeos deram um passo para trás, assustados.

 

— O que está acontecendo?! — Perguntou Elaine assustada.

 

Ethan caiu ao chão sentindo os membros do seu corpo formigando pela descarga elétrica sofrida. Deitado de costas com os braços e pernas abertos, sentia a eletricidade se dispersar de seu corpo.

 

— Ethan, você está bem? — perguntou Elaine se aproximando do corpo do rapaz.

— Eu confesso que mereci essa — comentou o rapaz se sentando no chão. — Você tem razão, Faísca... Me desculpe.

 

Magneton flutuava na frente do rapaz.

 

— Eu fui um treinador péssimo. Não, pior que isso... Eu nem sei se inventaram palavra pra definir que tipo de treinador eu fui pra você. Eu vou entender se você não quiser me perdoar e não quiser seguir jornada comigo, eu vou entender... Mas, antes de você tomar a sua decisão, ouça um pouco o que eu tenho a dizer.

 

Ethan levantou-se com um pouco de dificuldades. Apesar de estar com o corpo dolorido, queria ficar de pé custasse o que fosse. Precisava encarar seu Pokémon nos olhos.

 

— Eu estou a um fio de perder todos os meus amigos, todos aqueles que eu sempre disse que amava, mas não tratei como deveria. Um pedido de desculpas não resolve nada, é da boca pra fora muitas vezes, mas... Eu preciso de ajuda pra realmente mudar, pra crescer e evoluir... Eu não vou conseguir fazer isso sozinho. Então, se por algum motivo você ainda acreditar que eu posso mudar e dentro de você puder existir qualquer tipo de pequena hipótese de me dar uma chance e me ajudar a ser uma pessoa melhor, então eu peço, por favor... Me dê essa chance. — Ethan sacou a PokéBola de Faísca de dentro do bolso do shorts e apontou para o Magneton.

 

Chase olhava os dois com uma certa esperança no olhar. Sua irmã, no entanto, cruzou os dedos das mãos e levou o punho até o queixo, estava aflita e apreensiva. Faíscas elétricas escapavam dos imãs de Magneton, mas não assustava Ethan. O garoto estava disposto a receber quantos mais choques elétricos fossem necessários para aliviar a raiva de seu Pokémon. Faísca olhou para o Magnezone que não moveu um parafuso. Olhou de volta para Ethan que ainda segurava a PokéBola e encostou um dos imãs no botão central da cápsula, permitindo-se ser guardado novamente dentro dela.

Era nítida a sensação de alivio de todos os presentes. Chase e Elaine se entreolharam e sorriram e Ethan suspirou enquanto olhava para a PokéBola.

 

— Você merece meus parabéns. A humildade é o primeiro degrau da escada que você precisa subir para reconquistar o que você quer.

 

Ethan olhou para trás e viu o dono daquela voz conhecida. Era Forrest que trazia um sorriso de satisfação e um olhar orgulhoso.

 

— Obrigado, de verdade — disse Ethan, feliz.

— Eu confesso que estava preocupado... Eu não fazia a menor ideia de como você iria conseguir recuperar a confiança de seus Pokémon. Até que você deu um bom primeiro passo — comentou o rapaz aproximando-se do amigo. — E quem são vocês?

 

Chase e Elaine deram um passo para trás, pegos de surpresa com aquela pergunta.

 

— M-meu nome é Chase. E essa é a minha irmã, Ni... Quer dizer, o nome dela é Elaine. Nós estamos viajando para ser treinadores também... — respondeu o menino, tímido.

— O meu nome é Forrest. Pelo o que eu estive observando, vocês ajudaram o Ethan também a encontrar o Faísca, então deixo meu agradecimento a vocês. São novinhos, mas têm muita força de vontade. Apesar de eu realmente achar que estão escondendo alguma coisa... — disse o moreno coçando o queixo e analisando os irmãos de cima a baixo.

— N-Nós?! Não estamos escondendo nada, tio! — Respondeu Elaine como uma criança que estivesse realmente tentando esconder alguma coisa.

 

Forrest ergueu as sobrancelhas.

 

— “Tio”? Pegou pesado, hein? — E riu.

 

Elaine voltou a ficar vermelha como um Scizor.

 

— Desculpa! Forrest, eu quis dizer Forrest! — exclamava a menina em desespero.

— Calma, eu só acho engraçado. Se você quiser me chamar de tio, não tem problema.

— Mas você não é muito novo pra ser chamado de tio? — perguntou Ethan.

— Eu sou o segundo mais velho numa família de sete irmãos... Eu acho que já acostumei com o papel — respondeu Forrest meio sem graça.

 

Ethan voltou a encarar a PokéBola de Faísca.

 

— Ainda faltam cinco Pokémon... — comentou sozinho.

— Você sabe onde estão os outros? — perguntou Forrest.

— Eu não... mas talvez o Faísca saiba.

 

O Magneton foi liberado de sua cápsula e aguardou ordens de seu treinador.

 

— Faísca, você saberia dizer onde estão os outros da equipe? — perguntou Ethan ao Pokémon que assentiu positivamente. — Por favor, você poderia nos levar até eles?

 

O Pokémon tomou a frente e guiou os quatro pelas ruas da cidade. Faísca girava seus imãs de forma muito parecida com o Magnezone dos gêmeos, funcionando como um satélite que, provavelmente, dava referência a ele do caminho a ser tomado. Alguns minutos caminhando e logo foi possível ver uma pracinha há alguns metros do Centro Pokémon. Apesar de haver alguns brinquedos instalados, as crianças ali presentes se divertiam com um Pokémon azul que ia de um lado para o outro e não deixava de bater continência, o Wobbuffet de Ethan. Mesmo bancando o João-bobo, o Pokémon não baixou a guarda em nenhum momento ao ver o garoto se aproximando, claramente sua prioridade não era cumprimentar Ethan.

 

As crianças na praça continuaram a brincadeira com Wobbuffet e nem se importaram com Ethan parando bem próximo do Pokémon.

 

— Podemos conversar? — perguntou o garoto ao Pokémon.

 

Pela primeira vez, Wobbuffet baixou a guarda. Ethan entendeu o gesto como uma permissão. Agachou-se para ficar mais ou menos na mesma altura de seu Pokémon.

 

— Eu sei que pedir desculpas pra você não é o bastante. Eu fui um tremendo babaca com você e os outros da equipe e vou entender completamente se você não me quiser mais como treinador. Mas, como disse para o Faísca, eu não posso pensar em ser um cara melhor se eu não tiver vocês... Eu preciso começar com vocês que sempre estiveram comigo e que acreditaram em mim desde o começo. Me perdoe por ter sido um babaca.

 

O Pokémon azul bateu continência para o treinador, mas logo as lágrimas tomaram conta do rosto de Wobbuffet que pulou no pescoço de Ethan derrubando-o no chão. A tensão no ar foi quebrada em segundos pela pureza de um coro de risadas infantil que foi puxado por Chase. Até Forrest não escondeu a risada.

 

— Bom ter você de volta, meu amigo — comentou Ethan sorrindo enquanto abraçava um Wobbuffet emocionado.

— Mas ainda faltam quatro, não é? Onde eles estão? — Perguntou Elaine.

— No Centro Pokémon — respondeu Forrest. — Pelo menos, Quilava e Sandslash estão lá.

— E como você sabe? — Questionou Ethan. — Você tem alguma coisa a ver com isso tudo?

— Eu... — Forrest ia responder, quando a exclamação de Elaine o interrompeu.

— Nidorino!

 

Ethan virou-se na direção do Centro Pokémon, a poucos metros da praça onde se encontrava, e viu Imperador o encarando poucos segundos antes de entrar no local. O garoto, sendo seguido por Elaine, correu atrás do Pokémon sem sequer concluir a conversa com o amigo.  Forrest riu enquanto Chase olhou pro mais velho confuso.

 

— Ele sempre foi assim, tio?

— O Ethan? Acho que nunca vai deixar de ser — respondeu com uma risada.

 

...

 

Os treinadores presentes no Centro Pokémon fizeram um silêncio constrangedor quando Ethan passou pela porta. O garoto estava tão concentrado atrás de Imperador que nem percebeu que a sua presença causou uma significativa mudança no comportamento geral. Surpresa de Ethan foi notar Quilava e Sandslash próximos ao balcão de informações do hospital.

 

— Então foi aqui que vocês resolveram se encontrar, né? — comentou Ethan se dirigindo aos Pokémon.

— Menino Ethan! Então você resolveu aparecer por aqui.

 

O garoto se virou e deu de cara com Duster acenando para ele.  O rapaz de cabelos esverdeados aproximou-se com um sorriso simpático.

 

— Oi, Duster. Bom te rever, mas eu to meio ocupado agora.

— Você ainda não evoluiu seu Quilava, cara? Poxa vida.

 

Ethan respirou fundo e encarou Duster com toda a paciência que conseguiu reunir.

 

— Não, cara, eu não evolui meus Pokémon. Mas por que isso te incomoda tanto? Isso não deveria ser da sua conta.

— Cara, batalhas Pokémon são da minha conta. Eu sou um dos melhores treinadores de Blackthorn, eu acredito ser meu dever ajudar o próximo.

 

Duster cruzou os braços e adotou uma posição soberba. Um sorriso contornou seus lábios, mas Ethan nada disse. Ao invés disso, virou-se novamente para seus Pokémon e agachou-se para ficar mais ou menos do mesmo tamanho que eles.

 

— Quilava, Sandslash, Imperador. Eu sei que por causa dele e daquele Feraligatr maneiraço eu fui um completo idiota com vocês. Eu vim aqui pedir perdão pelo o que fiz, foi uma coisa covarde, foi imbecil da minha parte...

 

Um dos treinadores que estavam presentes no Centro Pokémon soltou uma risada alta e debochada.

 

— Ih, galera, olha isso! Aquele moleque daquela vez tá pedindo desculpas por ter abandonado os Pokémon dele!

 

As risadas e os comentários cada vez mais altos começavam a tomar conta do ambiente. Ethan fechou os punhos e sentiu o rosto queimar de vergonha, mas não retrucou. Continuava a tentar falar com seus Pokémon, que olhavam para o garoto de forma séria.

 

— E-eu queria q-que v-vocês me dessem uma n-nova chance... — pediu ele, nervoso.

— Chega, pessoal! — exclamou Duster em alto volume, fazendo a zombaria diminuir. O treinador se aproximou de Ethan. — O melhor a se fazer é me dar esses Pokémon. Você não acha que eles seriam melhor aproveitados comigo, um treinador experiente? Eles se tornariam poderosos.

 

Ethan levantou-se e encarou Duster.

 

— Se eu não fui claro antes, eu vou ser agora. Eu não pedi a sua opinião. Eu tenho meu próprio método e se eu precisar de conselhos, eu sei muito bem a quem pedir, então muito obrigado, mas eu não to nem aí pra você.

 

O silêncio voltou a prevalecer no Centro Pokémon. O sorriso de deboche de Duster estremeceu e o rapaz partiu pra cima de Ethan. Nidorino, Quilava e Sandslash pularam na frente do treinador e começaram a rosnar para Duster, que encarou os Pokémon de forma surpresa.

 

— Então... Vocês vão mesmo ser orientados por esse moleque? Vou ter que demonstrar a diferença de nível entre nós... —disse o treinador sacando uma PokéBola.

Light Screen!  — ordenou a voz da Enfermeira Joy.

 

Chansey imediatamente correu na direção de Ethan e Duster e criou uma tela de energia que os separou.

 

— Aqui não é local pra isso! Se vocês querem batalhar, façam isso lá fora. Eu não permitirei nenhum tipo de briga aqui, respeitem os Pokémon que estão em tratamento! — bradou a mulher para os presentes. — É melhor vocês saírem daqui antes que eu acione a polícia!

 

Duster guardou a PokéBola e encarou Ethan. Pela primeira vez, seus olhos demonstravam ódio.

 

— Isso não vai ficar assim... Estou louco por uma briga, lutar com você vai ser fácil visto seu desempenho na batalha contra a Clair no Ginásio... Seus Pokémon sequer te obedecem! Estarei te esperando na Toca do Dragão.

 

O rapaz se virou para sair. Ao cruzar a porta, esbarrou em Forrest, que olhou feio para Duster.

 

— Tá louco, cara?! — reclamou o moreno, mas sem resposta. Duster caminhava para longe pisando forte.

 

Chase e Elaine correram até Ethan.

 

— Você conseguiu se desculpar com seus Pokémon? — perguntou a menina.

 

O garoto desviou o olhar dela e voltou a se agachar para seus Pokémon.

 

— Obrigado por me defenderem... Eu sei que eu merecia apanhar pelo o que eu fiz com vocês. Eu vim atrás de vocês porque eu realmente me arrependo. Vocês estão comigo desde o começo da minha viagem e não me interessa o que o Duster ou qualquer pessoa diga sobre a forma que nós treinamos, vocês é que irão saber quando vão querer evoluir. Me desculpem...

 

Ethan começou a chorar.  Tirar o peso do coração trazia um alivio indescritível para o garoto. Ele tentava expressar com toda sinceridade tudo o que sentia, e realmente estava arrependido pelo o que havia feito com sua equipe de amigos.

 

Quilava foi o primeiro a se aproximar de Ethan. O Pokémon ergueu-se em suas patas traseiras e lambeu a bochecha do garoto. Sandslash e Nidorino também aproximaram-se de Ethan e demonstraram seu perdão ao menino, Sandslash o abraçou e Nidorino grunhiu de forma carinhosa.

 

— Obrigado... — disse Ethan sob lágrimas retribuindo o carinho. — Eu prometo que vamos derrotar o Duster e todos os treinadores daquela Toca do Dragão. Vamos juntos!

— Toca do Dragão?  — perguntou Forrest ao amigo. — Você pretende lutar lá?

— Aquele cara... Duster, o de cabelo esverdeado. Eu vou derrotá-lo, Forrest, e preciso de ajuda pra isso.

— Ethan, a Toca do Dragão é um lugar onde você precisa estar preparado pra poder entrar. Pupitar está treinando lá e acredito que não será fácil convencê-lo a te dar uma nova chance. Esse Duster aí é só uma amostra do que te aguarda ali.

— Eu vou reconquistar a confiança do Pupitar. E se é pra eu elevar o nível técnico da minha equipe, você é a melhor pessoa pra me ajudar com isso — disse Ethan de forma séria enquanto secava as lágrimas do rosto.

— Eu não vou pegar leve.

 

Na Toca do Dragão se encontra o próximo desafio que Ethan precisa enfrentar: A rebeldia de seu Pupitar. Após ser desafiado por Duster, cabe ao garoto com sua equipe quase completa se preparar com a ajuda de Forrest para os próximos desafios que não serão nada simples de serem resolvidos. O tempo em Blackthorn fica cada vez mais fechado.

 

TO BE CONTINUED...





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  1. Ai mds que odio, vontade de bater em certa personagem

    emfim, muito bom estes dois ultimos caps, estou esperando próximo <3

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    1. Yo, Shii!

      Acho que todo mundo está compartilhando essa mesma vontade com você. kkkkk Isso é bom! O sentimento de indignação e revolta dos leitores só endossa o fato de que Ethan está cometendo uma grande cagada... Você o perdoaria? Questão difícil, né?

      Espero que eu continue surpreendendo você!

      See ya!

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  2. Essa interação entre Ethan e os seus filhos foi tão engraçada e preciosa... eu não acredito que isto é real, como será que ele vai reagir quando souber??

    A procura pelos Pokémon foi muito querida, assim como toda a ajuda em volta disso. Agora só quero ver como ele vai recuperar o Pupitar... cheira-me a evolução por perto!

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