Posted by : Dento May 6, 2021

 



Amy mantinha os dois punhos fechados e apoiados nos joelhos. Estava sentada em um canto da pequena sala localizada em um endereço secreto no centro da cidade. Os longos cabelos cobriam seu rosto e não se podia ver que tipo de expressão que a garota fazia, talvez apenas o chão — se pudesse falar — o descreveria, visto que era para onde ela olhava. O silêncio ensurdecedor fazia companhia e os pensamentos e preocupações sobre Ethan rondavam sua cabeça como abutres ao redor de um pedaço podre de carniça. Ela não esteve presente quando o namorado, aquele ser imaturo e infantil, mais precisou; e sentia-se culpada pelo o que aconteceu. Sentiu-se uma pessoa horrível.

 

A porta de madeira se abriu, mas Amy não pareceu se importar.

 

— Está quase na hora da reunião. Você vem? — a voz de Forrest ressonou pelo ambiente. Amy, no entanto, não respondeu. — Sei que o último lugar que você queria estar nesse momento é em uma sala fechada discutindo o paradeiro da Equipe Rocket, mas... Você sabe o quanto é necessária pra que eles sejam capturados, né?

 

Amy permaneceu calada por mais alguns segundos antes de levantar-se.

 

— Necessária? O que o Lance quer é me usar de isca pra aqueles cretinos... Quem tinha que estar em uma cama de hospital era eu, não o Ethan. Vocês dois se arriscam muito por minha causa.

 

Forrest colocou as mãos no bolso e deu de ombros.

 

— Eu não digo que sou feliz arriscando a minha vida. Eu sou jovem, tenho muito o que aprender ainda... Mas por você e pelo Ethan eu não penso duas vezes antes de agir. Estou preocupado com ele e mais ainda com você. Se ele morre, você se mata e eu não tenho psicológico pra enterrar meus dois melhores amigos. Eu treino Pokémon do tipo Pedra, mas eu não sou feito de pedra. Vamos superar essa, juntos — o garoto estendeu a mão esquerda em direção à Amy. — E vamos, juntos, espancar o Ethan quando ele se recuperar, porque as cagadas que ele anda fazendo estão nos causando enxaqueca.

 

Pela primeira vez após algum tempo, a garota sorriu. De mãos dadas, os dois se retiraram dali e a sala se fechou em silêncio.

 

***

 

Os dois homens se encararam sem piscar. Lance continuava a sustentar um sorrisinho debochado que confrontava a seriedade inabalável do Observador.

 

— E com quem está a PokéBola GS?

— A verdadeira? Com guardiões de minha confiança.

— Quem são?

— Treinadores, eu acho.

 

O detetive avançou contra Lance agarrando-o pelo colarinho e aproximou o rosto do ruivo do seu. Lance podia sentir a respiração pesada e ver a têmpora destacada do homem que estava visivelmente irritado.

 

— Não estou para brincadeiras, senhor Lance! O senhor está colocando a segurança da região inteira em risco com essas suas atitudes infantis!

— Não estou brincando. Está tudo sob controle. Me agredir vai continuar te fazer ficar sem respostas.

 

O detetive afrouxou os dedos e o colarinho de Lance se soltou.

 

— Bem melhor.

 

O Observador se afastou. Respirando fundo, arrumou seu sobretudo, tentando alinhá-lo novamente.

 

— Muito bem. Estou atento.

 

Lance afastou-se da mesa e caminhou até um dos cantos sala, onde algumas confortáveis poltronas de cor carmim se mantinham imponentes. O campeão sentou em uma delas, entrelaçou seus dedos e colocou os indicadores em haste, apoiando-os nos lábios enquanto cruzava as pernas. O detetive se aproximou e sentou na cadeira da esquerda, não tirando os olhos do ruivo, que parecia sério pela primeira vez.

 

— Isso não é uma fanfic. O que eu lhe contar é absolutamente verdade.

 

O Observador ergueu o cenho. Cruzou os dedos das mãos e apoiou-as no colo, mantendo os polegares em riste.

 

— Estou atento.

— Pois bem. A PokéBola GS está nas mãos de dois irmãos que vieram do futuro trazidos por Celebi, por alguma razão misteriosa.

 

Houve alguns segundos de silêncio antes de o detetive soltar uma bufada de ar.

 

— Você está tirando uma com a minha cara, não está?

— Eu disse que era absolutamente verdade.

— E como isso aconteceu?

— É o que estamos tentando descobrir. Eles ainda estão tentando recuperar a memória. A informação que temos é que eles estavam na Floresta Ilex quando foram sugados por um portal verde-oliva, acordando na casa de Kurt, que os resgatou. Acreditamos que eles não foram trazidos a toa.

— E onde eles se encontram agora?

— Estão seguros, protegidos em um local secreto onde só alguns integrantes da Elite 4 têm conhecimento.

 

O Observador pareceu digerir por alguns instantes toda aquela informação recebida.

 

­— Certo, então como exatamente você está mantendo as investigações sobre a Equipe Rocket sob controle? E como Amanda Green, o garoto em coma, os viajantes do tempo acabam se envolvendo nessa história toda?

— Nós temos uma linha de investigação... Amanda Green nos fornece detalhes sobre toda a operação de dentro da organização, afinal, ela é uma ex-agente, e não a toa que continua sendo procurada e perseguida pelos integrantes Rockets. Nos reunimos frequentemente em lugares diferentes e com uma certa irregularidade, escondidos para que não haja nenhum tipo de espionagem... Poucas pessoas participam, como a própria Srta. Green, o garoto em coma e o amigo que anda com eles. E muitas delas apenas uma vez. Eu, por exemplo, estou aqui hoje com o senhor enquanto acontece uma reunião nesse mesmo horário... Mas o Bruno pode estar lá. Ou o Koga. Ou algum dos novatos... Pode ser qualquer um. Tentamos ser discretos, mantenho agentes da polícia infiltrados no meio da sociedade. Temos certeza que a Equipe Rocket não sumiu de forma definitiva, eles ainda estão por aí. Destruir o quartel de operações foi só uma saída triunfal, mas apenas o fim do primeiro ato. O pior é que não sabemos como é que eles irão agir, já que o que eles mais desejam está conosco, justamente a PokéBola GS, com Celebi.

— Mas você não disse que o Celebi trouxe aqueles garotos do futuro? Quem lhe garante que ele está na PokéBola GS?

— Ninguém. Talvez seja essa a grande mágica por trás disso.

 

 Os dois se encararam de forma séria por alguns instantes antes de o detetive parecer por satisfeito.

 

— E quais serão as próximas providências que vocês irão tomar?

— É um jogo de xadrez, lembra-se? Eles perderam a Torre e o Bispo, mas a Rainha e o Rei deles ainda estão no jogo. Giovanni fez uma rodada fantástica, agora o marca-tempo está no nosso lado.  É bom fazermos uma boa jogada e, de preferência, o quanto antes, afinal... O tempo está se esgotando. Eu tenho uma leve impressão de como eles irão fazer a jogada para o xeque mate... — comentou Lance enquanto encarava em um mapa em uma das paredes de sua imensa sala a localização da Cidade de Ecruteak.

 

***

 

De repente era possível sentir sua própria respiração. Seu diafragma trabalhando enquanto o ar era sugado por suas narinas, mesmo que com um leve desconforto em seu rosto — havia algo preso à sua face, aos seus ouvidos chegavam sons de repetidos bipes em mi bemol, a única música que fazia companhia ao garoto naquele momento. Quando abriu os olhos, a primeira coisa que viu foi o teto branco com três lâmpadas tubulares fluorescentes. Virou a cabeça e, como se fosse combinado, as três pessoas ali presentes foram tomadas por uma expressão de surpresa. Junto aos humanos, dois Pokémon — Quilava e Sandslash —, que agilmente se aproximaram da cama de seu treinador.

 

— Ethan, você acordou! — Marieta levantou-se da cadeira em um pulo. — Vou chamar o médico!

— Bom ver que você acordou... Meu filho.

 

Ethan engoliu em seco ao ver o pai presente naquele instante. Claramente, de todas as pessoas do planeta, ele era a última que ele não esperava — e talvez nem quisesse — rever.

 

Gold se aproximou da cama de Ethan.

 

— Você não faz ideia do susto que causou em nós.

 

O garoto fechou os punhos. O monitor cardíaco começou a registrar batimentos cada vez mais rápidos. Os passos de Gold foram interrompidos quando Marieta e um médico entraram no quarto de forma apressada para um sentimento de alivio de Ethan.

 

Após ser checado de diversas maneiras pelo médico, Ethan teve a máscara de oxigênio removida, o que permitiu que o garoto imediatamente pudesse sentir uma sensação de alivio, apesar de ainda sentir a pele marcada pelas alças que prendiam o equipamento em seu rosto.

 

— Como você está se sentindo, garoto? — perguntou o médico enquanto checava uma prancheta.

 

Houve alguns segundos de silêncio até Ethan responder.

 

— O que aconteceu...? Como eu vim parar aqui? Mais uma vez acordando dentro de um quarto de hospital... Eu deveria me acostumar.

— Credo meu filho! — repreendeu Marieta, incomodada. — Você entrou numa briga na Rota 45 a três dias, foi espancado por um grupo de treinadores.

 

O garoto ergueu as sobrancelhas em uma expressão surpresa.

 

— Entendi por que tá parecendo que fui esmagado pelo Rollout de uma Miltank...

— Você teve uma concussão cerebral — alertou-lhe o médico. — Seu cérebro se deslocou dentro de sua caixa craniana devido às agressões que você sofreu. Perda de memória é comum, alguns pacientes não conseguem se lembrar do que aconteceu no momento do acidente. Agora precisaremos fazer alguns exames para ver qual o estado da sua cabeça e do seu cérebro, mas acredito que você logo estará recuperado.

 

Gold fez menção de se aproximar da cama de Ethan, mas Marieta colocou uma das mãos no ombro do homem, interrompendo seu movimento.

 

— Me acompanhem, por favor — solicitou o médico, dirigindo-se aos pais do menino. Os dois se retiraram do quarto, deixando Ethan sozinho com Quilava e Sandslash.

 

O menino, por alguns instantes, até ficou aliviado por estar apenas com seus Pokémon sem a presença do pai. Mas, como se o vento soprasse em seu ouvido, lembrou-se do que havia feito a eles, lembrou do momento em que virou as costas para seus companheiros por pura birra. Logo, a vergonha passou a queimar seu rosto como um ferro que marca o lombo de um Tauros. Naquele instante desejou do fundo do coração que a amnésia apagasse o resto de suas lembranças, como uma forma de não ter de lidar com aquele sentimento de culpa que cortava seu coração e causava muito mais dor do que aquela física que percorria seus músculos.

 

Do lado de fora do quarto, o médico caminhou com Gold e Marieta ao longo do corredor de paredes brancas. Olhando a expressão séria do doutor, Marieta entrelaçou os dedos das mãos o os levou até o queixo, aflita.

 

— Doutor, por favor... O que está acontecendo?

— Bem, seu filho vai se recuperar bem e sem nenhuma sequela. Eu apenas não sei se seu filho irá se lembrar algum dia do ocorrido, portanto identificar os envolvidos contando com o testemunho dele pode não ser possível...

 

Gold e Marieta se entreolharam com uma expressão preocupada.

 

— Quais são suas orientações, doutor? Ethan precisará voltar pra casa? — questionou o homem.

— Sendo bastante honesto, ele precisa de repouso. Não sei até onde a viagem do garoto pode ser cem por cento segura, afinal, ele precisa de acompanhamento dos medicamentos. Mas, essa decisão não cabe a eu fazer. Sou pai, meu filho sonha em sair em jornada junto com um Pokémon. Como médico, a decisão é manter meu paciente longe de qualquer tipo de estresse, mas esse estresse também poderia ser causado pelo fato de Ethan ter de largar tudo justamente pela recomendação médica. Cabem a vocês, como pais, decidirem o melhor para o filho de vocês.

 

...

 

Quando a porta do quarto novamente se abriu, apenas Marieta entrou. Quilava e Sandslash, os companheiros mais velhos da equipe de Ethan, prontamente se apresentaram à mulher que, com um sorriso simpático, agachou-se para fazer um carinho no topo da cabeça dos dois.

 

— Vocês não deixam mesmo o Ethan sozinho... Muito obrigada.

 

O garoto estava sentado na cama. Apesar dos hematomas — entre arranhões, feridas e o olho direito roxo —, Ethan parecia estar bem. O monitor cardíaco exibia bipes ritmados e boa saturação.

 

— Ah, meu filho... Por que você me causa tanta preocupação?

— Sermão essa hora, mamãe? — perguntou Ethan com um sorriso travesso.

— Sermão vinte e quatro horas por dia se for preciso! A gente fecha o olho e você se mete em encrenca. Da última vez que nos falamos, você havia abandonado sua equipe inteira de Pokémon!

 

Ethan fez uma careta.

 

— Não precisa me lembrar disso... — resmungou baixinho.

— Claro que preciso! Você tinha UMA tarefa, Ethan: fazer as pazes com seus Pokémon. O que você me fez? Toma uma surra. E ainda complicou mais, brigou com a minha nora. A Amanda está arrasada, meu filho.  Não é desse jeito que se resolve as coisas, não foi assim que eu te criei.

 

Ethan ficou em silêncio, tentando encolher-se por entre os ombros. Queria sumir dali para que não tivesse que ouvir aquela bronca. Ele sabia que sua mãe estava coberta de razão, mas a dureza da verdade era demais para ele.

 

E Marieta, como sempre, parecia ler os pensamentos de seu filho.

 

— Você não tem que temer a verdade, meu filho. Você tem que encará-la, enfrentá-la.

— Então, por favor. Me ajude, mamãe.

— Ajudar com o quê?

— Eu não sei se consigo encarar essa verdade... A senhora não pode pedir desculpas pra quem eu magoei no meu lugar?

 

A mulher cruzou os braços na postura autoritária que Ethan conhecia muito bem.

 

— Eu não vou viver pra sempre. Com isso, eu quero dizer que minha função como mãe é te educar, te orientar e te mostrar o que é certo. Até porque, eu te dou uma surra se você sair um tantinho assim da linha — ameaçou a mulher ilustrando com a mão. — Fui eu quem trouxe você pra esse mundo e sou eu que posso tirar você dele.

 

Ethan gelou.

 

— A senhora veio aqui pra me matar? Podia ter feito isso sem ter me avisado antes...

 

Marieta suspirou. Apertou ainda mais os bíceps e aproximou-se da cama do filho, ficando ainda mais próxima de seu rosto. A mulher começou a afagar seus cabelos e a olhar de forma tênue o menino.

 

— O que tenho a dizer pra você é algo bem sério. O médico me disse que você está se recuperando bem, mas... — e hesitou.

— Mas...?

— Ele foi bem claro quando recomendou que você terminasse sua jornada para que pudesse se recuperar em casa.

 

Ethan olhou incrédulo para Marieta.

 

— A Liga Pokémon é daqui seis meses, eu estou a um passo de conseguir uma vaga... E a senhora quer que eu volte pra aquele fim de mundo, mamãe? Nem morto!

— É melhor você pensar bem e direito no que você quer mesmo da sua vida. Você está sem seus Pokémon, sem a namorada, sem seus amigos... Como você pretende dar esse último passo? Me diz!

 

Mais uma vez, Ethan não soube o que responder. Ele não tinha saída.

 

— Eu não sei o que fazer, mãe... Como é que eu posso dar esse passo então?

— A pergunta certa é: o que você deve fazer pra dar esse passo? A resposta você já sabe. Reflita sobre tudo o que aconteceu nos últimos dias e reconheça seus erros. Corra atrás para corrigi-los e torça pra que aqueles a quem você deu as costas ainda possam lhe dar um novo voto de confiança.

— E se eles não derem?

— É doído pra eu dizer isso, meu filho, mas... a gente sempre colhe o que planta. Se eles não lhe derem uma nova chance, é porque você não merece.

 

Ethan desviou o olhar dos olhos de sua mãe e encarou o lençol branco. Não conseguiu evitar as lágrimas de frustração.

 

Marieta não aguentou ver seu filho chorar e o abraçou carinhosamente.

 

—Ai, Ethan... — ela suspirou.

 

***

 

Algumas horas se passaram desde que Marieta deixara o quarto de hospital. Ethan até temeu que Gold tomasse a iniciativa de visitá-lo, mas o reencontro não aconteceu, para seu alivio. Ainda tinha a esperança de receber a visita de alguns de seus amigos, mas depois da conversa com sua mãe, aos poucos, reconhecia que sua imaturidade passara dos limites. Percebeu que nem Quilava, nem Sandslash, retornaram para o quarto com a saída de Marieta; pois muito provavelmente preferiam a companhia dela à dele.

 

Enquanto se perdia em pensamentos e lamentações, surpreendeu-se com a porta sendo aberta. Ele não esperava ninguém. Um sorriso se abriu ao reconhecer que era Amy.

 

— Ufa... Eu achei que você não fosse vir me visitar...

 

A garota devolveu o sorriso, mesmo que de forma tímida.

 

— Jamais poderia deixar de ver você.

 

Amy deu um beijo suave na testa de Ethan, que estranhou.

 

— Aconteceu alguma coisa?

— Preciso conversar com você.

 

Ethan sentiu um calafrio e um puxão na boca do estômago. Ele sabia que alguma coisa naquelas palavras seria muito pior do que qualquer sermão de sua mãe.

 

— Aqui, agora?  Pelo tom da sua voz parece ser algo muito sério...

— E é.

— Você não quer esperar eu me recuperar primeiro, esperar eu sair desse hospital? A gente pode tomar um sorvete, passear, namorar... sei lá...

— Preciso resolver isso hoje, Ethan. Estou indo embora para Ecruteak.

 

O garoto franziu o cenho, confuso.

 

— Como assim “indo embora pra Ecruteak”? Quando você vai? Deixa eu arrumar as minhas malas, a gente pod--

— Você não entendeu. Estou indo pra Ecruteak sozinha. Daqui a uns dois meses, haverá um grande evento na cidade onde Lance acredita que a Equipe Rocket possa agir... Não é certeza, mas eu irei pra lá me certificar e mandar relatórios sobre qualquer movimentação suspeita.

— Mas por que eu não posso ir junto? Não posso deixar você sozinha, Amy!

— Posso me cuidar muito bem.

— Tudo estava indo tão bem até agora, nós superamos tanta coisa juntos...

— Eu sei. E sou muito grata, são memórias preciosas que carregarei comigo para sempre.

— Por que você decidiu isso de forma tão repentina sem me avisar?

— Ethan — Amy chamou sua atenção. — Você não pode me enfiar dentro de uma Pokébola e me levar aonde quiser. Eu quero terminar o nosso namoro.

 

Foi como se Ethan tivesse levado um soco no estômago. De repente, tudo que sua mãe lhe dissera mais cedo se reiterou em sua mente de forma latejante.

 

“A gente sempre colhe o que planta. Se eles não lhe derem uma nova chance, é porque você não merece”.

 

Os olhos do garoto se encheram de lágrimas.

 

—Por favor, Amy... Não termine comigo... Eu amo você, me perdoe pelo o que eu fiz... Eu juro que vou melhorar, eu não posso viver sem você!

— Aí é que tá — interrompeu a garota. — Você precisa aprender a viver sem mim.

 

Os bipes no monitor cardíaco de Ethan apitavam de forma frenética. Ele respirava de forma ofegante, apertando os lençóis com força. Amy, no entanto, não pareceu se abalar; continuou firme em sua decisão.

 

— O que eu posso fazer pra você me perdoar? — perguntava Ethan chorando.

— Você não precisa do meu perdão. Depois desses últimos dias, o meu perdão é a última coisa de que você precisa... Eu tenho certeza de que você já tem ciência do que você precisa estar fazendo. Apesar de gostar de você, eu não posso mais me submeter a esse tipo de coisa. Eu ainda estou completamente furiosa por você ter abandonado seus Pokémon. E mais do que isso, ter feito pouco caso, não querer assumir a responsabilidade. Estou completamente decepcionada com você, magoada. Frustrada por saber que você é um menino que tá se distanciando muito daquele que eu encontrei lá no laboratório em New Bark... Antes que eu realmente pegue ranço da sua pessoa e me encontre completamente enojada por ser apaixonada por você, eu prefiro ir embora. Minha consideração por você ainda me permite ter te avisado, como estou fazendo. Eu só te peço uma coisa...

 

Silêncio. Ethan, soluçando, também nada disse, na expectativa das próximas palavras que seriam proferidas por Amy.

 

— ...Por favor, não me procure nunca mais se for pra continuar desse jeito.

 

E se virou para sair do quarto sem olhar para trás.

 

Ao fechar a porta, deparou-se com Forrest de braços cruzados, encarando-a. Como se o moreno fosse um imã, Amy foi atraída até o amigo e o envolveu em um abraço pesado, enterrando a cabeça em seu tórax, perdendo a luta contra as lágrimas que agora corriam seu rosto.

 

— Vai ser melhor pra todos nós. O resto pode deixar comigo — disse Forrest enquanto apoiava o queixo no cocuruto da amiga.

 

E ali ficaram por alguns minutos antes de se conduzirem para o exterior do hospital.

 

***

 

Pikachu e Eevee observavam todos os detalhes daquela casinha com muita cautela. Encaravam os rostos daqueles humanos estranhos que cercavam a eles e a seus treinadores. Entre eles, Lance, que havia sido convocado diretamente por Kurt e agora permanecia estupefato com o que acabara de ouvir daquelas duas crianças. Irmãos gêmeos, um menino e uma menina, que eram cópias quase idênticas um do outro.

O menino ainda mantinha em seu rosto uma expressão confusa, seus olhos acinzentados encaravam o chão o tempo inteiro, tentando sem solução encontrar algum tipo de resposta inexistente para a situação em que se encontrava. A menina não parava de brincar com uma das mechas de seus cabelos castanhos — sempre a mesma, a do lado direito; a outra vivia atrás da orelha. Seu irmão sabia bem que ela só ficava daquele jeito quando estava muito nervosa com alguma situação, e aquela, até então, era inédita e insolúvel. A menina encarava os adultos esperando que eles pudessem ajudá-los. Seu pai sempre lhe ensinou que se devia pedir a ajuda de alguém mais velho em situações que ela não saberia resolver. Já seu irmão, se sentia desconfortável. Sabia que levaria bronca de sua mãe, pois estavam reunidos com pessoas que ele não conhecia, sem saber onde estava e como havia ido parar ali.

 



A única certeza que os dois irmãos compartilhavam era a que aquele homem grande e ruivo que andava de um lado para o outro com sua capa negra a esvoaçar pela sala era muito mais novo do que eles conheciam. E foi justo ele quem finalmente quebrou o silêncio.

 

— Estou incrédulo... Todas as descrições que vocês me passaram, todos esses detalhes... Não me restam dúvidas de que realmente vocês foram trazidos pra cá através de Celebi... — comentou Lance. — Isso deve ter algum tipo de motivo.

— Pode ter sido um acidente. Dois treinadores viajando pela região de Johto em busca de insígnias que passam pela Floresta Ilex e são vítimas da viagem no tempo do guardião da floresta — teorizou Kurt.

— Será que o próprio Celebi não os trouxe propositalmente? — questionou Bugsy.

 

O idoso encarou o rapaz.

 

— Mas eles são crianças! Qual seria o motivo de Celebi ter trazido eles pra nosso tempo?

— Talvez como um auxílio... Lance, você não comentou que a Equipe Rocket tem um plano para possuir Celebi? A PokéBola GS que está com uma menina que você está vigiando... Como é o nome dela?

 

Como se as coisas clareassem em sua mente, Lance ergueu as sobrancelhas e encarou Bugsy, ainda mais surpreso. Virou-se em direção às crianças e seus Pokémon já imaginando a resposta da pergunta que faria naquele instante.

 

— De onde vocês vêm, por acaso já ouviram falar de uma treinadora Pokémon chamada Amanda Green?

 

Os gêmeos se olharam espantados ao ouvir aquele nome.

 

— Ni...! — Exclamou a menina.

— Será que é, Ni...? — Questionou o garoto.

 

Os dois viraram-se para Lance e, surpreendendo o ruivo, responderam em uníssono:

 

— É o nome da mamãe!

 


TO BE CONTINUED...







{ 3 comentários... read them below or Comment }

  1. Caraca esse foi o maior a melhor maneria de ter terminado do capítulo eu literalmente berrei aqui "MÃE???". Otimo trabalho, Dento. Valeu a pena a espera pelo capítulo.

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    1. Yo, Kouhei!

      Fico muito feliz em ler seu comentário... É sempre bom saber que a história que a gente escreve ainda causa comoção e surpresa no leitor, independente da duração da história. Fico muito feliz em saber que você gostou, de verdade! Estou me esforçando pra que os próximos capítulos sejam ainda melhores!

      Muito obrigado mesmo! ♥

      See ya!

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  2. AAAAAAAAAAAAAAAAAAA

    A Amy e o Ethan tiveram dois fihos gémeos no futuro, que agora voltam ao passado, o nosso presente, para salvarem a vida dos seus pais!!! Eu continuo a dizer que a viagem no tempo é uma temática que me deixa sempre confuso, mas surpreendido e maravilhado depois de eu a perceber. Esse final de capítulo foi simplesmente maravilhoso.

    E esse final de relação entre Amy e Ethan??? Eu não sei se isso tem mais algum motivo por trás, no entanto, quero sublinhar a importância de estarmos felizes na nossa própria relação e não deixarmos levar pela negatividade das coisas. A Amy foi muito adulta e madura, talvez até demasiado para o Ethan, mas, com certeza, esta situação fará os dois crescer e evoluir.

    Vou continuar a leitura! Para a frente com o excelente trabalho <3

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