Posted by : Dento Feb 7, 2019



— A culpa é sua!
— Não, a culpa é sua!
— Cala essa sua boca! Se você não fosse um baita guloso que tem que sair pra comer um lanchinho a cada cinco minutos, o chefe não tinha sumido!
— Você sabe da minha dieta especial! A culpa é sua que, ao invés de ficar protegendo o chefe, fica no refeitório se lambuzando também!
— Ora, seu...!
— Ora, seu...!
— Chega! — a poderosa voz de Arcanine ecoou pela sala.

Snorlax e Lickilicky se encaravam furiosos. O delegado Arcanine, farto de tamanha desordem, bateu na mesa e chamou a atenção dos dois com seriedade.

— Aqui não é lugar para discussões. Vocês estão sendo interrogados para sabermos aonde foi parar Papai Noel. Se não colaborarem, eu vou prender os dois por toda a eternidade, estão me ouvindo? Ótimo, parece que estamos começando a nos entender.

Os dois Pokémon enormes mal se encaravam. Arcanine respirou fundo e voltou a fazer suas perguntas.

— Muito bem, deixa eu ver se entendi. Vocês dois são contratados para protegerem a vida do senhor Nicolau Noel e ele desaparece. Evapora como se fosse fumaça. Como isso é possível?

Silêncio.
— Então, doutor, esse é o problema. Nós não sabemos — comentou Snorlax com um tom de preocupação.
— Ninguém tem acesso à sala do Papai Noel. Ele é uma figura importante, conhecida. Temos ordens expressas para não deixar ninguém se aproximar de sua sala— Lickilicky complementou.
— E só vocês dois guardam a porta ou mais alguém tem acesso ao Senhor Nicolau?

Snorlax e Lickilicky se entreolharam e refletiram por um instante.

— Bem, como qualquer outra pessoa importante, o doutor Noel tem seus amigos, convidados, empregados... Apesar de termos ordens expressas para não deixar ninguém acessar sua sala, existem outras pessoas com tanto acesso quanto nós, mas são funcionários de confiança...
— Veja bem, o senhor Noel trabalha só uma vez por ano na entrega dos presentes... Mas nos outros trezentos e sessenta e quatro dias ele se fecha na fábrica, onde os brinquedos são fabricados.
— Dá muito trabalho, sabe, doutor? Fabricar pecinha por pecinha, olhar a lista de crianças que foram boas e más, ainda por cima ter de fazer passeata em shopping em época de Natal, é bastante cansativo! Precisa-se de muitos ajudantes, que façam agenda de eventos, que verifiquem se o trabalho dos fabricantes dos brinquedos está sendo bem realizado, ler as milhões de cartinhas que chegam todos os anos...
— Sim. Nós somos apenas seguranças, mas existem certos Pokémon que tem acesso livre para que o trabalho possa ser bem realizado e a tempo.

Arcanine coçou o queixo.

— Hmm... Então quer dizer que outros além de vocês também têm acesso ao senhor Nicolau... Quem seriam?
— Depende bastante.
— Bem, tem por exemplo Stantler, que é o chefe das renas, né? Ele precisa dar ao senhor Noel uma espécie de relatório sobre as renas que o carregam durante a noite do dia 24.
— Sim, ele informa, por exemplo, a respeito da dieta que elas estão fazendo, se estão fazendo exercícios...
— Também tem o Delibird, que auxilia justamente com a administração geral. Ele seria como um braço direito do senhor Noel.
— Ele costuma saber de tudo o que acontece no Polo Norte. É função dele.

Arcanine ergueu uma das sobrancelhas.

— Então esse tal de Delibird pode saber por onde anda o senhor Nicolau, certo?
— Acho bastante provável, apesar da gente não o ver muito.
— Por quê? — perguntou Arcanine.
— Bem, geralmente ele não fala com ninguém.
— Ele apenas responde ao senhor Noel, ele é bastante fechado.

A porta da sala de Arcanine se abriu. Por ela, Graveler, acompanhado por dois Pokémon, adentrou e se dirigiu ao delegado.

— Senhor Arcanine, temos novidades a respeito do caso.

Arcanine olhou para Snorlax e Lickilicky.

— Os dois policiais vão terminar de recolher seus depoimentos.

Lickilicky e Snorlax viraram-se e depararam-se com Growlithe e Ledian que os cumprimentaram de forma séria.

Arcanine e Graveler se retiraram da sala.

— E então, o que está acontecendo?
— Um grande problema... — comentou Graveler de forma séria.


***

Em uma das camas da enfermaria o corpo de Jynx encontrado no dia anterior permanecia intocado. Não por falta de competência das enfermeiras Chansey que cuidavam muito bem do Pokémon, mas nenhum tipo de progresso parecia ter acontecido. O Pokémon continuava a olhar para o nada com a mesma expressão de espanto que causava desconforto aos que viam.

A grande pergunta era saber o que tinha acontecido.

A polícia, claro, já suspeitava de que tinha algo a ver com o sumiço do Papai Noel. Descobriu-se que Jynx era uma das empregadas de Noel, responsável por auxiliá-lo no Polo Norte na entrega dos brinquedos. Sendo humanamente impossível fazer em uma única noite uma viagem ao redor do mundo e entrar em todas as casas, uma após a outra, tais assistentes viajavam junto com Noel e também distribuíam os brinquedos debaixo de árvores de Natal. Não estranhamente, existem diversos relatos de crianças que por eventos diversos acabaram surpreendendo as assistentes durante a noite de Natal e no dia seguinte contava aos pais que Papai Noel era uma Jynx.

Claro que isso também, por um lado, ajudava na lenda de Papai Noel. Os adultos, por exemplo, não acreditavam na figura do bom velhinho que distribuía de forma gratuita todos os anos presentes para as boas crianças.

Wobbuffet era um desses adultos. Não porque ele era cético, mas porque não fazia sentido mesmo.

Perdido em pensamentos, ele observava o corpo da Jynx congelada pela vidraça da enfermaria. Diversas suposições e teorias se passavam pela sua cabeça, mas todas chegavam a uma mesma conclusão: Não fazia sentido.

— Mas e se Papai Noel realmente existir? Não vai ficar mais fácil?

Pichu olhava Wobbuffet e, vez em quando, tossia ao inalar a fumaça do charuto.

— Garoto, eu acho que você deveria ser um pouco mais realista. Pensar na hipótese da existência de Papai Noel é algo que não faz sentido nenhum.
— Ao mesmo tempo que faz!
— Tch. Tolice.
— Às vezes, não é porque nós não enxergamos que não exista, titio. A Equipe de Resgate dos Corações de Ouro sabe disso. Um bom detetive não enxerga apenas com os olhos.

Wobbuffet encarou o pequeno com desdém.

— Eu acredito que o Poder da Amizade ainda vai deixar você em apuros um dia.
— Mas ele tem razão. E você deveria saber disso.

Pichu e Wobbuffet olharam para trás e viram o delegado Arcanine e o policial Graveler se aproximando.

— Desdenhar de fatos nunca lhe fará um grande detetive, Wobbuffet. Você tem potencial, mas não consegue enxergar isso em você mesmo.

Wobbuffet voltou a encarar a vidraçaria.

— Um detetive chega à resolução de um crime analisando os fatos palatáveis, concretos. Contos infantis estão bem longe disso.

Pichu ficou em silêncio por alguns segundos antes de voltar a dirigir à palavra ao Wobbuffet carrancudo.

— Tio, você é um Pokémon que fuma e quer se tornar um detetive. Que tipo de veracidade tem isso?
—Hahahaha, é um excelente ponto! —Graveler gargalhou. — Complementaria dizendo que é patético.

Arcanine o repreendeu com o olhar. Graveler imediatamente calou-se. Wobbuffet escondeu o rosto com a aba do chapéu.

— Filho, peço-lhe licença. Agora, os adultos precisam conversar — Arcanine dirigiu-se educadamente à Pichu, que concordou com a cabeça e afastou-se do trio.
— O que se passa? — questionou Wobbuffet, olhando para Arcanine.
— Por que esse garoto está lhe seguindo?

Wobbuffet hesitou por alguns segundos antes de responder.

— Acredito que ele seja uma testemunha importante para descobrir o que aconteceu com a Jynx encontrada congelada. Afinal, ele e os amigos foram os responsáveis por localizá-la, apesar de não saberem nada sobre como esse Pokémon foi parar lá.

Graveler novamente deu um ataque de riso.

— Eu não sabia que agora você estava trabalhando de babá!

Mais uma vez, o olhar mortal que Arcanine soltou em cima de Graveler o fez silenciar imediatamente.

— Olha chefe, vou lhe dizer uma coisa. Eu realmente acredito que esse garoto tenha alguma coisa que possa nos levar a resolver esse caso, apesar de ser novo e... Acreditar nessa coisa de Papai Noel. Só estou seguindo minha intuição.

Arcanine suspirou.

— Talvez o que você precise nesse momento não é seguir a sua intuição, é deixar que a intuição dos outros determine o caminho que você deve percorrer.
— Eu acho que você deveria me dar uma Chansey...

Uma das enfermeiras Chansey que passava pelo corredor se dirigiu até o grupo, como se tivesse sido convocada.

— Sim, pois não, em que posso ajudar? Vocês vieram saber sobre o estado de saúde dessa Pokémon? Eu não tenho boas notícias — comentou ela sorridente.

Graveler, completamente sem graça, massageou a têmpora com a mão.

— Eu devo ter colado chiclete no templo onde Arceus foi selado, não é possível...

***

Pichu preocupou-se ao ver Wobbuffet com um olhar perdido voltar para a recepção da enfermaria, onde ele o aguardava.

— E então, tio, o que aconteceu?

O detetive se sentou em uma das cadeiras próximas e acendeu outro charuto.

—Jynx terá de ser descongelada aos poucos. Ela é um Pokémon de Gelo, não se pode usar golpes como Ember ou Flamethrower, se não ela pode morrer no processo.

Pichu ergueu as sobrancelhas e paralisou.

— Como assim, tio?! E agora?
— Bem, agora será um processo que durará pelo menos mais três dias. O derretimento terá de ser feito de forma lenta e gradual.
— Mas a Jynx não é um dos Pokémon que auxilia o Papai Noel na entrega dos presentes?
— Sim, é. E o que tem?

Pichu pareceu indignar-se pela obviedade e gravidade da situação não terem sido ainda percebidas por Wobbuffet.

— Tio, amanhã é 25 de Dezembro, dia de Natal. Papai Noel sumiu, a Jynx que o auxilia está hospitalizada. Quem vai entregar os presentes ao redor do mundo?

Wobbuffet refletiu por alguns instantes sobre aquilo que Pichu havia acabado de falar. Riu em seguida.

— Hahaha, pivete. Eu acho que é você que não está entendendo a gravidade da situação aqui. O departamento está investigando o aparente “desaparecimento” de um cara que não existe quando na verdade o que deve ser investigado é de onde vem a Jynx e o motivo de ela ter sido congelada.

Pichu fechou a cara.

— Tio, presta atenção. Se o Natal não acontecer, se não tiver ceia, família reunida e, principalmente, presente debaixo da árvore, pode acontecer um desastre! Papai Noel existe, você que não raciocina direito!

Wobbuffet olhou para o rosto de Pichu. Ele realmente ficava fofo quando enfezado.

— Garoto, eu tenho muito trabalho pra fazer aqui. Vá para casa, tudo bem? Nos falamos quando eu precisar de você.

O detetive levantou-se e se dirigiu para o interior da enfermaria, provavelmente retornando para o lado de fora do quarto onde Jynx permanecia internada e congelada. Pichu, com lágrimas nos olhos, saiu correndo em direção à saída.

***

— Vamos entregar os presentes de Natal esse ano!

Bulbasaur, Magby e Psyduck olharam para Pichu, que ofegava na porta. Os integrantes da Equipe de Resgate dos Corações de Ouro nunca haviam lidado antes com uma ideia tão absurda.

— Como assim, Pichu? — perguntou Bulbasaur.
— O Papai Noel sumiu! Vamos entregar os presentes em seu lugar, pessoal! Só precisamos da lista de endereços!

Magby olhou para Pichu e franziu o cenho, confuso.

— Mas pra isso, não precisaríamos ir até o Polo Norte? Afinal, é lá que o Papai Noel mora e deve guardar esse tipo de coisa...
— Eu não sei não... — hesitou Psyduck. — Onde fica o Polo Norte?

O silêncio pairou na sala.

— É verdade... Como a gente faz pra chegar lá? — questionou Bulbasaur.

Pichu refletiu por alguns instantes.

— E se a gente pedir ajuda pra algum Pokémon voador? Ele poderia nos levar até lá.
— Eu não acho muito inteligente. Um Pokémon voador muito provavelmente não conseguiria voar no frio do Ártico, a neve impediria suas asas de bater direito — comentou Magby.
— Pior também é saber que nenhum brinquedo que ganhamos tem o endereço de remetente... Só tá escrito “Made in China", mas eu não acho que o Polo Norte fique na China — comentou Psyduck. — Papai Noel nunca me pareceu chinês.
— Você é patético... — suspirou Magby em resposta.
— E se nós tentássemos perguntar pra Jynx? — sugeriu Bulbasaur.
— Ela está congelada ainda, vai demorar muito pra que ela possa dar alguma pista... Por isso sugeri que a gente fosse entregar os presentes desse ano — explicou Pichu.
— Mas então como nós faremos para poder descobrir o endereço do Polo Norte? — questionou Magby.
— Eu acho que tenho uma ideia.

A Equipe de Resgate dos Corações de Ouro olhou para trás e viu Wobbuffet na porta.

— O que você está fazendo aqui, tio? — perguntou Pichu.
— Me redimindo. Eu acho que você pode ter razão. Amanhã é dia 25 de Dezembro, dia de Natal. O que você falou, sobre catástrofes acontecerem... Tem um ponto de verdade. O que eu não entendi ainda é porque ninguém parece se preocupar com isso...

Pichu o encarou curioso.

— Como assim, tio?

Wobbuffet retirou seu chapéu fedora e entrou na pequena cabana em que a Equipe de Resgate dos Corações de Ouro fazia de Base Secreta e de morada. Dirigiu-se até a mesa de madeira, puxou uma das cadeiras e sentou-se, repousando os cotovelos na mesa, colocou um charuto na boca e o acendeu com o auxílio de um isqueiro, usando as duas mãos para acendê-lo.

— Nenhum Pokémon que a polícia interrogou parecer dar importância para o fato de amanhã ser Natal — o detetive deu outra tragada profunda no charuto. — E isso é o que mais me deixa intrigado.
— Faz sentido... — comentou Bulbasaur.

Psyduck pareceu refletir por alguns instantes.

— Será que alguém quer acabar com o Natal?

Magby deu um tapa no cocuruto da cabeça de Psyduck.

— Não seja burro! Quem é que teria vontade de fazer algo assim?
— É um excelente questionamento, Psyduck — disse Wobbuffet, para surpresa de Magby que olhou o detetive completamente confuso.
— Tá falando sério? — perguntou o Pokémon.
— Com certeza. Existe louco pra tudo — respondeu Wobbuffet dando outra tragada no charuto.

Magby encarou Psyduck e permaneceu incrédulo.

— Tio, você já tem alguma ideia de quem pode estar querendo boicotar o Natal? — questionou Pichu.

Wobbuffet deu uma última tragada e apagou a bituca na mesa de madeira. Bulbasaur franziu o cenho ao ver a fina fumaça subindo de onde a mancha em forma de cicatriz marcada na mesa ficaria.

— Eu não sei quem é ainda. Mas eu tenho uma ideia de quem possa saber.

***

A tarde já estava se transformando em crepúsculo quando a Equipe de Resgate dos Corações de Ouro, acompanhados do Detetive Wobbuffet, chegaram à porta de entrar de um estabelecimento visivelmente suspeito. As paredes já estavam com a tinta descascada, onde os tijolos, podres, se exibiam nus. A enorme porta cinza não tinha maçaneta, e era guardada por uma Granbull carrancuda que não parecia ter muitos amigos. O beco estreito que dava para o local não tinha postes de luz. A noite era um breu total, o que o fazia ser totalmente evitado por demais Pokémon que passassem nas ruas paralelas. Aquele endereço só era frequentado por aqueles que queriam estar ali.

Wobbuffet se aproximou de Granbull.

— Wobba... Eu jamais pensei que o veria novamente por aqui — a voz de Granbull soou rouca e pesada.
— Sabe como é, né? Às vezes precisamos relembrar de nossas raízes.

Granbull olhou por cima do ombro do detetive e deu um sorrisinho debochado.

— Desde quando você virou babá?
— Digamos que na verdade eles são... Meus assistentes juniores.
— Sei... Você deveria saber que a entrada deles é proibida, né? Apenas Pokémon a partir da segunda forma evolutiva podem entrar aqui, sabe disso.
— Sei. Acontece que eu estou aqui por medidas oficiais. Tenho um suspeito na mira e ele pode estar aí dentro.

Granbull o encarou com os grandes olhos enrugados e ergueu uma das sobrancelhas.

— E como você pode ter tanta certeza de que seu suspeito está aqui?
— Ora, Bull... Todo mundo está aqui, não é?

Granbull soltou uma risada rouca. Os Pokémon da Equipe de Resgate dos Corações de Ouro deram um passo para trás, pegos de surpresa pela risada quase maligna da Pokémon.

— Claro, claro. Você tem razão. Pode entrar — Granbull deu três violentos tapas na porta de aço. — Abre aí, Fera!

Quando a porta abriu, um imenso Feraligatr mal humorado apareceu. Seus olhos vermelhos encararam os visitantes com rancor, num breve e bem dado recado de que eles não eram bem-vindos naquele local.

— Eu não sei o que todos vêm fazer aqui, mas com certeza eles não são nada felizes... — cochichou Magby para Bulbasaur.

De cabeça baixa, a Equipe de Resgate dos Corações de Ouro seguiram Wobbuffet, que cumprimentou Feraligatr com um breve aceno de cabeça. Um arrepio percorreu o corpo daqueles Pokémon quando, com ignorância, Fera fechou a porta, batendo-a com violência.

As paredes escuras do bar davam ênfase ao breu que fazia companhia aos Pokémon que ali frequentavam. Uma densa nuvem de fumaça de algum Smokescreen de algum Pokémon espalhava-se pelo ambiente, tornando-o sombrio. O barulho dos grunhidos e conversas dos Pokémon logo preencheram os ouvidos dos recém-chegados, que sentiam um leve arrepio na espinha a cada passo que davam para o interior do estabelecimento. Luzes a meia-luz davam um clima até que romântico ao ambiente, cercado dos mais diversos tipos de Pokémon, dos mais miúdos aos poderosos e fortes. Dos que dançavam em uma pista de dança improvisada no centro do pequeno lugar, afastando as mesas e cadeiras e criando um espaço circular quase perfeito, enquanto ouviam um Murkrow fazer seu show aos carrancudos musculosos que não saíam de suas mesas no bar, sempre sendo servidos por atraentes Miltank garçonetes que curiosamente trajavam pouca roupa.

— Por que essas Miltank tão quase peladas? — questionou Magby.
— Olha esse lugar... Ainda não é óbvio? — Bulbasaur perguntou de volta.

O Pokémon de fogo olhou ao redor e refletiu por alguns instantes antes de chegar a uma conclusão.

— Não — respondeu Magby.

Bulbasaur deu um suspiro para demonstrar sua impaciência.

— É entretenimento adulto. Adultos vivem com pouca roupa. Ou, pelo menos, vivem tirando elas.

Psyduck arregalou os olhos, espantado.

— Por quê? Eles não trabalham? Deveriam ganhar dinheiro o bastante para comprarem roupas que cubram seus corpos inteiros...
— A maior diversão dos adultos só pode ser feita se eles estiverem sem roupas.

Wobbuffet, Pichu, Magby e Psyduck olharam para Bulbasaur.

— E qual seria essa diversão que só pode ser feita se eles estiverem sem roupas? — questionou o detetive.
— Tomar banho depois de um dia cansativo no trabalho, oras. Achou que fosse o quê? — Bulbasaur não acreditou que um detetive tão inteligente quanto Wobbuffet não soubesse daquela resposta tão óbvia.

O detetive riu.

— Desculpe pela minha ignorância, jovem.
— Tá tudo bem. Nem todos podem ter a minha inteligência — disse Bulbasaur em um tom convencido. — Mas bem, senhor... O que viemos fazer aqui mesmo? O senhor disse praquela senhora que todos vêm aqui, mas quem exatamente nós estamos procurando?

Wobbuffet apontou para o lado do local onde os Pokémon sentavam-se para beber.

Um Pokémon sentava-se sozinho com uma taça de bebida à sua frente. Parecia isolar-se de todos ao redor, apesar de, à primeira vista, essa ideia parecer tosca. Afinal, para onde se olhasse, havia outros Pokémon ao redor.

O detetive aproximou-se da mesa. O Pokémon, de costas para o grupo, não o viu chegar.

— O que o traz aqui, senhor Delibird? O último lugar que eu esperaria encontrar o braço direito de Papai Noel seria este.

Delibird olhou para trás e caiu da cadeira. A mesa em que o Pokémon estava virou e derramou sua bebida no chão.

— O-o que v-você q-quer comigo?! — exclamou o Pokémon.
— Seu drinque derramou... É melhor Pidgeotto...

Um garçom aproximou-se ao ouvir seu nome ser chamado.

— Quer outro Martini, batido, não mexido, senhor? — ofereceu o Pidgeotto, já com a bandeja na mão onde outra taça de vidro estava colocada.

Delibird levantou-se correndo e derrubou o Pidgeotto garçom no chão. A movimentação começou a chamar a atenção dos presentes, que olharam curiosos a confusão. O Feraligatr que atuava como segurança apareceu pelos fundos e logo Wobbuffet notou que, de demais cantos, surgiam Primeape e Machamp, de óculos escuros e mal-encarados.

— Equipe de Resgate, não o deixem fugir! — exclamou o detetive.

Pichu, Bulbasaur, Psyduck e Magmar passavam com facilidade por debaixo de pernas e patas dos Pokémon que ou tentavam pegá-los ou se atrapalhavam no meio da confusão. Os pequenos tentavam não perder Delibird de vista, que pulava por cima das mesas e tentava voar, mas sempre se atrapalhava devido aos enormes lustres que iluminavam o local.

Os seguranças avançaram para cima de Wobbuffet, que os repeliu utilizando o Counter, jogando os trogloditas para os lados com violência. O detetive avançava com dificuldade tentando cercar Delibird dando a volta no salão, espremendo-se entre outros Pokémon que aglomeravam-se pelos cantos, curiosos, assistindo a toda confusão. Os Pokémon que faziam a segurança logo recuperaram a consciência e levantaram-se, procurando Wobbuffet por entre as cabeças espalhadas pelo local. O detetive se abaixou e orientou-se pelos voos curtos que seu suspeito fazia.

— A gente precisa dar um jeito de deter esse cara! — exclamou Pichu
— Me deixa tentar uma coisinha... — pediu Bulbasaur mirando nas costas de Delibird.

Cipós saíram do bulbo das costas do Pokémon de grama e agarraram Delibird pela cintura, derrubando-o no chão. O Pokémon ergueu-se de joelhos e foi engatinhando para a porta de saída de emergência próxima de onde estava.

Delibird viu uma enorme sombra erguer-se sobre ele e parar na frente da porta, como se quisesse impedir que fosse aberta. O Pokémon correu para tentar abri-la de qualquer maneira, mas a sombra o repeliu e o arremessou para trás de forma agressiva.

— Não há pra onde fugir, Delibird. O Selo das Sombras* não vai deixar — Wobbuffet aproximou-se e o encarou com um olhar mortal.

Feraligatr, Machamp e Primeape logo alcançaram o grupo.

— Não é aqui que vocês vão causar baderna! — exclamou Feraligatr, furioso.
— Calma aí, jacaré. Eu sou da polícia, e é melhor você baixar o tom de voz — Wobbuffet abriu o sobretudo e tirou um distintivo dourado de dentro dele. Os seguranças se entreolharam e deram um passo para trás.
— Não fui eu, eu juro... Não fui eu! — Delibird tremia da cabeça aos pés e suava frio.
— Ora... Mas eu nem falei o que eu queria com você... Do que está se defendendo? — Wobbuffet apoiou um dos joelhos no chão e apoiou o braço na outra perna, sorrindo de forma cínica. — Não tente mentir pra mim.

As sirenes policiais podiam ser ouvidas do lado de dentro do clube. O clima de tensão tomou conta do ambiente, mas Wobbuffet não pareceu se incomodar.

— E agora, tio, o que faremos? — perguntou Pichu.

O detetive levantou-se, mas não tirou os olhos de Delibird, que o encarava como se o mesmo fosse algum espírito pronto para levá-lo aos confins do inferno.

— Agora nós faremos justiça.

***

O relógio no pulso de Wobbuffet batia dezoito horas e trinta e dois minutos. Apoiava as duas mãos na mesa de madeira, iluminada por uma luminária redonda que refletia nas paredes cinzentas. Da vidraça instalada na sala, apenas se podia ver reflexos de quem estava presente, apesar de suspeitar-se de que outras pessoas assistiam a tudo do outro lado da parede. Delibird encarava a mesa e continuava tremendo. Apesar de todas as respostas do Pokémon, o detetive ainda não estava satisfeito.

— Você era o principal aliado de Papai Noel, certo? Papai Noel some. Você diz que não sabe do paradeiro, é encontrado bebendo em um endereço barra-pesada e tenta fugir quando me vê. Eu ainda não acredito na sua inocência.

Delibird começou a gaguejar.

— M-mas e-eu r-realmente n-não s-sei o-onde e-ele e-está...!
— Você tem medo do Papai Noel?

Delibird arregalou os olhos.

Na sala ao lado, o delegado Arcanine, acompanhado de Graveler assistiam ao interrogatório.

— O que ele está fazendo? — questionou Graveler.
— Eu não sei, mas temos que esperar pra ver. O suspeito tem álibis muito bons, mas sei que Wobbuffet deve ter algum truque na manga — respondeu Arcanine sem tirar o olho do vidro.
— Acha mesmo que o Wobbuffet pode estar certo?
— Acredite ou não, mas... Ele tem potencial. Está tudo sob controle. E se alguma coisa sair do controle, nós temos reforços.

Graveler olhou para o delegado e deu um suspiro.

— Se o senhor está dizendo... — e voltou sua atenção para o interrogatório.

Wobbuffet encarava Delibird no fundo dos olhos, como se tentasse enxergar a alma do Pokémon.

— Tem cinco minutos que eu perguntei e você ainda não respondeu, só gagueja. Então, eu vou perguntar de novo: Você tem medo do Papai Noel?

Delibird hesitou por alguns segundos. Sem olhar diretamente para Wobbuffet, encarou a mesa a sua frente, até fechar os olhos e respirar fundo.

— Papai Noel não é uma pessoa “adorável”. Ele não é nem um pouco a figura bondosa que todos pensam ser.

Wobbuffet ergueu a sobrancelha direita.

— Hmmm... E por quê?
— Não ficou claro ainda o porquê ninguém parece se importar com o sumiço dele, senhor detetive? É que ninguém se importa. Eu mesmo sou o responsável direto por assessorar o Nicolau e tem alguns anos que ele vem dizendo que iria se aposentar, na mesma época, inclusive, que ele começou a tratar mal seus funcionários. Devia estar de saco cheio – e isso não é uma piada — Delibird encarou Wobbuffet pela primeira vez.

O detetive colocou as duas mãos nos bolsos do sobretudo e deu uma última encarada para o Pokémon à sua frente.

— Eu nunca disse que era uma piada — e virou-se em direção à porta que dava para a saída da sala de interrogatório.





*Nota: Selo das Sombras se refere à Ability Shadow Tag


https://aventurasjohto.blogspot.com/2018/12/primeiro-ato.html



{ 8 comentários... read them below or Comment }

  1. Salve salve, meu caro Dento!

    Finalmente temos a continuação do especial, e pelo visto agora as investigações começaram a caminhar para algum lugar, de fato. Enquanto a Jynx não descongela, já temos um suspeito principal que é o Delibird.

    Porém, eu acho que esse caso não termina nele. O Delibird pode até ter uma ideia do que aconteceu, visto que o comportamento dele é de quem está escondendo alguma coisa. Fora a maneira como ele revelou que o Papai Noel não é tão bom velhinho quanto todos pensam. Se ele não estivesse envolvido em parada errada, ele poderia ter dito isso há tempo e com bastante tranquilidade. Mas ainda acho que quem executou (o sequestro, e não o velho em si) é outro envolvido que a gente ainda deve vir a conhecer. Não sei, só teorias.

    Até a próxima! õ/

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    1. Yo, Shadow!

      Demorou, mas tá aí. Investigações desse tipo são demoradas kkkkk. Eu nunca fiz uma história desse tipo e está sendo a primeira vez que, apesar de usar Pokémon de personagem, eu tenho uma base inédita pra elaborar o roteiro. Em AeJ eu tenho os jogos pra ter uma base e nesse especial, eu tô usando ideias inéditas trabalhadas com o Canas e com a Leeca novamente. Espero que esse Segundo Ato tenha deixado as coisas dinâmicas também, o medo foi deixar maçante.

      Os mistérios apenas continuam. Afinal das contas,temos mais suspeitos e nada que possa dar uma reviravolta convincente. Mais suspeitos e situações sem respostas que mais atrapalham do que ajudam... Até pra mim, afinal, sou eu que tô escrevendo e praticamente descubro junto com vocês tudo o que vai acontecendo.

      Gosto de ver suas teorias... Vamos ver quem é que descobre o responsável pelo sumiço do Papai Noel primeiro! Ou, pelo menos, quem foi que congelou a Jynx... Tantas perguntas sem respostas...

      Espero que continue investigando!

      See ya!

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  2. Yo Dento
    Tudo bom?

    E aqui estamos para a segunda parte desse espacial tão aguardado,estou gostando bastante e as piadinhas se mantiveram ainda melhores huashaushuas

    A Jynx continua congelada,alguém dá um ice heal pra ela,é um Jynxperdício de personagem deixar ela de fora :v

    Temos o Delegado Arcanine, SERIA ISSO UMA REFERÊNCIA DE MD?ESPECÍFICAMENTE O GERREN?
    Ou pode ser apenas um Arcanine normal já que até no anime Arcanines são mons relacionados a polícia.

    Esse Delibird está muito suspeito, ele não quer ajudar em nada, fugiu da polícia mais que Giratina foge da cruz,isso tá estranho,mas não acho que ele seja o culpado, seria muito óbvio,mas talvez você deixou óbvio pra nós pensarmos que não é ele por não ser óbvio mas na verdade é ele mesmo,ou pode ser algum personagem que ainda vai aparecer.Tantas possibilidades, mas o culpado pode ser alguém que ninguém suspeita, a Jynx por exemplo.

    See Ya

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    1. Yo, Dark!

      O motivo desse especial existir é justamente as piadocas. Sem elas, não teria razão de fazer. E saber que você gostou das desse segundo volume me deixa satisfeito. EHAUEHUEAHUEAHAEUH ♥

      OLHA O JYNXPERDÍCIO! HEAUHEAUEAHUEAHUEAHE Concordo! Mas, teorias da conspiração: Se os itens de cura são feitos pelos humanos, quem é que os produz no mundo Pokémon? SE OS POKÉMON CONSEGUIREM UM ICE HEAL, ELES PODEM DESCOLAR POKÉBOLAS? ELES PODEM CAPTURAR UNS AOS OUTROS? ELES PODEM SE TREINAR?????

      REFERÊNCIAS? TIMELINES DA ALIANÇA???? Eis um novo mistério para o nosso amado e idolatrado Detetive Wobbuffet resolver.

      Delibird? Suspeito? Nunca vi. Tenho nada com isso.

      Espero que continue suspeitando de geral!

      See ya!

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  3. DENTO-SAN!

    Eu continuo com a opinião do capitulo anterior: Você sabe mesclar muito bem os gêneros. Eu estava muito bem entretido com a comedia e morri de rir quando percebi que o garçom era um Pidgeotto, e fiquei empolgado com a perseguição da ERCO e ao mesmo tempo tudo ficava preto e branco quando o clima ficava NOIR.

    As piadas ficaram sensacionais. Eu ri muito, e achei incrível como você usou a Shadow Tag. Adorei como você descreveu a sociedade Pokémon. Imagino como seria isso expandido em sua cabeça.

    Mas agora temos mais pistas sobre o Sr. Nicolau. Aparentemente nem todos querem que ele volte. Espero ansioso o desfecho dessa saga.

    Smell ya later!

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    1. Yo, Kill!

      Fico feliz que tenha curtido. Eu me esforço pra não deixar a peteca cair em gêneros que nunca deram as caras. Em AeJ, que é uma fic de jornada, a gente tem arcos pra explorar esses gêneros, mas em uma shortfic como esse especial a gente tem que fazer tudo dosado, na medida, pra que não fique chato ou exagerado. Fico feliz por estar dando certo.

      Certas vezes a gente pode ter a liberdade de fazer algumas invenções que pode ser que não dariam certos na história principal, tipo essa sociedade Pokémon. Quem sabe numa próxima oportunidade eu não consiga fazer isso melhor, não é mesmo?

      TODO MUNDO É SUSPEITO, inclusive o próprio Papai Noel.

      Espero que continue interrogando!

      See ya!

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  4. Dento, larguei de der vagabundo e vim largar um comentário séculos depois de ter lido.

    Eu gostei bastante do nosso querido wobbufet sendo meio arrogante ainda, mas sendo meio que "subestimado" pelos colegas de ofício.

    Achei bem interessante a introdução de uma cena no bar, e a visão dos garotos bobinhos disso. É muito boa a forma que expressam isso em voz alta. Tipo o bulbasaur falando o motivo de adultos se despirem.

    Voltando a falar da cena de bar, devo dizer que foi uma introdução à um ambiente visto em muitas grandes obras do cinema, como o clássico Star Wars e o nem tão recente Animais Fantásticos e onde habitam.

    Bem, agora é ver o que irá ocorrer com nossos amiguinhos depois de terem coletado as informações deste capítulo.

    Dento, valeu e até depois!

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    1. Yo, Sir!

      Wobbuffet tem um temperamento forte, não é mesmo? Para os Pokémon da Equipe de Resgate dos Corações de Ouro é só um mero detalhe, mas talvez para os personagens da polícia que CONVIVEM com ele seja algo que não é aceitável. Temperamentos fortes às vezes causam mal estar, não é? Wobbuffet tem um ego grande e para ter voto de confiança, ele deve engolir.

      A cena do bar foi uma das minhas favoritas também! Todo filme de investigação acaba tendo uma cena antológica em um bar, e como você bem disse, não poderia deixar de ser nesse especial (que não deixa de ser uma grande paródia de tudo isso). Ter que dosar a opinião das crianças e dos adultos também foi interessante, afinal, foi a primeira vez que os Pokémon da Equipe de Resgate saíram um pouco do seu mundo fofinho e acabaram tendo de lidar com uma situação totalmente nova para eles... Fico aliviado que isso tenha ficado bem feito.

      Muitas tretas ocorrerão... E eu tô é com medo que o tamanho dessas tretas todas me façam fazer um Ato IV...

      Espero que continue analisando pistas!

      See ya!

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