Posted by : Dento Jul 11, 2019




Já passava das dezenove horas quando a Equipe de Resgate dos Corações de Ouro decidiu partir para o Pólo Norte. Detetive Wobbuffet sabia que todas as pistas e provas encontradas sempre levavam para Papai Noel — e já que ele vivia no Pólo Norte, decidiu-se assim partir para lá à procura de alguma prova concreta e definitiva a respeito do sumiço de Nicolau e o congelamento de Jynx.

Johto, no entanto, ficava a milhares de quilômetros do lugar. Existia o caminho pelo mar, onde eles poderiam contar com algum tipo de Pokémon aquático para guiá-los, mas Psyduck prontamente se recusou a nadar e levar seus companheiros.

— Você tinha UM SIMPLES trabalho, Psyduck — reclamou Magby com sua característica irritação de sempre.
— Eu não sei do que você tá reclamando aí, não. Achei que você seria o primeiro a reclamar de ter que cruzar um oceano inteiro pra chegar numa ilha congelada — retrucou o pato.
— Jamais! Eu sou um detetive agora, eu não tenho o que temer! E outra coisa também, eu nunca disse que iria com vocês. Eu posso muito bem ajudar o pessoal na delegacia, meu parceiro — disse Magby com o nariz empinado.
— Eles não aceitariam você lá — cortou Bulbasaur.
— E como é que você sabe disso, gênio? — perguntou Magby em tom provocador.
— É que pra entrar pra policia você precisaria ser, pelo menos, competente — respondeu Bulbasaur, tirando Magby do sério.
— Ora seu...
— Ao invés de vocês brigarem, por que é que não ajudam a pensar em como é que a gente vai chegar até o Pólo Norte? — perguntou Pichu, começando a perder a paciência.

Em frente à delegacia, a Equipe de Resgate dos Corações de Ouro discutiam, em uma roda, as melhores alternativas para se chegar até a fábrica de Papai Noel.

— Ninguém conhece um Lapras que pode levar a gente até lá? — perguntou Bulbasaur.
— Eu conheço — respondeu Psyduck.

Pichu, Magby e Bulbasaur o olharam surpresos. Magby, sorrindo, empolgou-se.

— Sério?
— Sim, mas ele morreu — respondeu Psyduck.

Magby baixou a cabeça e massageou a têmpora.

— Eu não sei por que ainda pergunto...
— Bem, a pergunta ainda está em aberto: Como iremos chegar até o Pólo Norte? — perguntou Pichu.
— Eu não acho que vai ser possível chegar lá antes da meia-noite... — opinou Bulbasaur, pensativo.
— Se isso não acontecer, não existirá o Natal! — exclamou o líder.
— E o que você sugere? Que a gente magicamente se teletransporte até o Pólo Norte? — perguntou Magby de forma irônica.

Wobbuffet que fumava seu charuto parou abruptamente como se tivesse levado um soco. Franzindo a testa, olhou para Magby que, assustado, deu alguns passos para trás.

— P-Por que está me olhando assim, senhor Wobbuffet?  — gaguejou.
— Eu acho que você me deu uma excelente ideia, rapaz.

Wobbuffet retornou a delegacia deixando a Equipe de Resgate dos Corações de Ouro sem entender nada.

***

— Eu não acredito que essa ideia de jerico realmente está sendo levada a sério.

Alguns minutos dentro da delegacia, Detetive Wobbuffet conseguiu o contato de um amigo de muito tempo, Xatu, o Vidente. Tinha poderes místicos, podendo prever o futuro e até ver espíritos. Estava ali para usar um dos seus poderes mais incríveis: O de se teletransportar para lugares que nunca esteve antes. Magby, incrédulo, continuava inconformado.

— Situações extremas exigem medidas extremas — comentou Wobbuffet.

Um forte e alto estalo chamou a atenção de todos os Pokémon do lado de fora da delegacia. Xatu surgira de repente, materializando-se no local. Era um Pokémon verde que se assemelhava a um pássaro condor, com longas asas brancas com pontas vermelhas e pretas que cobriam a maior parte da frente do seu corpo. Debaixo destas asas, inclusive, havia desenhos que lembravam dois olhos vermelhos, estáticos, que passavam a impressão de estarem enxergando a alma de quem os encarava. Seus olhos eram amendoados e seu bico era longo e levemente enganchado na ponta. De trás de sua cabeça, havia duas cristas longas e vermelhas que davam um toque hippie ao Pokémon, que mantinha sua expressão calma e serena ao aproximar-se em passos curtos até o grupo de Pokémon.

— De onde ele veio?! Ele surgiu do nada! — exclamou Psyduck, surpreso.
— Acho que é isso o que chamam de teletransporte... — comentou Bulbasaur, maravilhado.

Wobbuffet se dirigiu até o Pokémon.

— Meu grande amigo Xatu, que prazer revê-lo!
— Tive uma visão de que você precisaria de mim. Logo, aqui estou — a voz de Xatu era calma e serena, tal qual a sua própria personalidade.

Bulbasaur aproximou-se de Magby.

— Sei não... Essas coisas de vidente aí... Eu não acredito muito não.
— Eu acho que é charlatanismo — concordou o colega.

Psyduck e Pichu, no entanto, pareciam admirar a figura mística.

O vidente Xatu repousou seu olhar em Pichu.

— Pichu, muito bom saber que você está são e salvo!
— Ué, mas eu tô bem... Você me conhece de onde?
— Opa, falei muito cedo... Nada, esqueça o que eu falei.

Wobbuffet ergueu o cenho.

— Previsão...? — se perguntou o detetive, baixinho.

O vidente aproximou-se de Wobbuffet.

— Em que posso ajudá-lo, meu amigo?
— Xatu, preciso que você me leve até o Pólo Norte, conhece?O lar do Papai Noel.
— Pólo Norte? Hmm... Difícil. Sei que fica em uma ilha tropical no meio do oceano...
— Ilha tropical? Acho que você se engana, senhor vidente. A ilha do Papai Noel é gélida e neva todo dia — contestou Bulbasaur.

Xatu olhou para o Pokémon de forma serena.

— Como sabe disso? Você já esteve lá?
— Claro que não! Mas isso é bastante óbvio, visto que os assistentes dele são Pokémon do tipo Gelo, como Delibird e Jynx.

Wobbuffet aproximou-se e apoiou a pata no bulbo do Pokémon.

— Às vezes, a realidade se distorce perante os nossos olhos — e deu outra tragada em seu cachimbo.
— Bem, é possível levá-los até lá. Mas vai ser difícil — alertou o vidente.
— Faça o que for possível — disse Wobbuffet com firmeza.

Xatu assentiu com a cabeça e caminhou alguns passos curtos para frente. Concentrou-se tentando visualizar o local desejado e uma aura contornou seu corpo.

Magby olhou para Bulbasaur com a expressão incrédula ainda estampada em seu rosto.

— Como é que ele vai se teletransportar pra um lugar que nunca esteve antes?

Um solavanco no estômago fez a Equipe de Resgate dar um grito. O chão desapareceu por alguns instantes e tudo ao redor começou a girar.

Aqueles curtos segundos foram o bastante para fazer Psyduck vomitar assim que sentiu terra firme sobre suas patas.

— Urgh... — Magby encarou o companheiro com uma expressão de nojo. — Nem morto eu chego perto de você... Literalmente.
— Você está bem? — perguntou Pichu, aproximando-se do companheiro.
— Estou bem... Foi só a minha enxaqueca que deu uma piorada...
— Cuidado para não soltar seus poderes psíquicos e explodir a cabeça de todo mundo! — exclamou Bulbasaur.

A grama verde e o cheiro litorâneo chamaram a atenção do Detetive Wobbuffet. O sol ainda se despedia do céu, apesar de já ser noite quando o grupo deixou Johto. A Equipe de Resgate dos Corações de Ouro olhava aos arredores sem entender nada, afinal, como podia existir Natal sem neve? Tudo o que viam eram revoadas de Pidgey que cruzavam o céu alaranjado em direção ao oeste, um suave vento que tocava as plantas das árvores espalhadas por toda a extensão daquela ilha.

— Mas esse é o PÓLO Norte! Deveria ter neve por toda parte, os pólos da Terra são massas de gelo! — protestou Bulbasaur, indignado.
— Na verdade, esse é o PÓLO INDUSTRIAL Norte, onde o Papai Noel construiu sua fábrica de produção de presentes — explicou Wobbuffet.
— Então existe o Pólo Industrial Sul? — questionou Magby, interessado.
— Sim. É onde o Coelho da Páscoa fabrica os ovos de chocolate.
— A Ilha da Páscoa também é uma mentira?! — Bulbasaur arregalou os olhos em choque.
— Jamais saberemos. Ela é envolta por ondas eletromagnéticas tão poderosas devido aos Probopass que vivem lá que repelem qualquer poder psíquico de teletransporte — comentou Xatu.

Wobbuffet tinha razão. Diversas Jynx trabalhavam de um lado para o outro empurrando caixas e carregando embalagens de presentes enquanto diversos Stantler galopavam de um lado para o outro. O ambiente esquisito chamou a atenção de Wobbuffet, que acendeu um charuto novo e respirou fundo.

— Quando a gente acha que não tem como ficar mais esquisito...

O detetive caminhou pela grama até o grupo de Jynx, mas uma voz o impediu de prosseguir.

— Senhor, por favor, não se aproxime mais. Esta é uma área restrita.

A voz calma e serena acabou surpreendendo Wobbuffet, que olhou para o lado e viu um Pokémon aproximar-se dele com os braços para trás. Os passos lentos e a expressão serena no rosto harmonizavam com a grande concha que trazia presa na cabeça, como uma coroa onde, após uma boa analisada, o detetive notou que era um Shellder estranhamente maior do que aqueles que costumava ver. Era um Pokémon rosa de focinho amarelo pálido e barriga escamada. Ao redor de seu pescoço, uma gola gorgeira espinhosa com listras vermelhas e brancas alternadas que dava todo um ar pomposo à figura. O Shellder em sua cabeça tinha uma forma espiral com dois chifres perto da base e uma gema vermelha brilhante no centro de seu corpo.

— Muito prazer em conhecê-lo. Eu sou Wobbuffet, detetive particular. Trabalho para a polícia Pokémon.
— Polícia? Hum... Isso não é bom... Ou melhor, é bom. Céus, que confusão... — disse o outro Pokémon, levando as mãos à cabeça. — Eu sou o Slowking, rei do Pólo Norte. Coisas estranhas têm acontecido aqui.
— Estou aqui para investigar justamente essas coisas estranhas... Estes são meus assistentes, a Equipe de Resgate dos Corações de Ouro. Podemos conversar em algum lugar?
— Claro. Por favor, acompanhe-me.

Xatu aproximou-se de Wobbuffet.

— Preciso ir. Meu trabalho por aqui terminou.
— Obrigado, meu amigo. Nos falamos em breve.

O vidente acenou em positivo com a cabeça e levou a ponta da asa até sua testa. Em um piscar de olhos, desapareceu.

Detetive Wobbuffet, acompanhado da Equipe de Resgate dos Corações de Ouro, começou a seguir Slowking, caminhando solene pela ilha tropical. Um dos Stantler, no entanto, encarou de forma desconfiada aquele grupo de Pokémon recém-chegados até a ilha.

***

Slowking vivia numa caverna de frente ao mar. Apesar de todo o luxo que sua vida de rei poderia trazer, ele abdicou tudo em busca do que ele chamava de “Conhecimento”, com “C” maiúsculo, após o encontro com um Pokémon alienígena chamado “Beheeyem”. O estranho encontro no meio da noite se deu quando o rei da ilha caminhava perdido em pensamentos pelas areias da praia que banhava a ilha. Uma forte luz pairou sobre ele e Beheeyem surgiu perante ele.

— Leve a minha mensagem para a Terra, rei Pokémon. Busquem Conhecimento. Com C maiúsculo.

Bulbasaur encarava incrédulo o Pokémon.

— Cada vez que eu me dou conta, essa história fica cada vez mais bizarra...
— Nem me fala... Eu estava feliz só em ter de lidar com o Psyduck... — concordou Magby.

Wobbuffet tragava lentamente seu charuto.

— Então quer dizer que você abdicou de toda sua riqueza para poder viver como um ermitão aqui?
— Isso mesmo. Eu percebi que não adiantava ter dinheiro se isso não me trouxesse Conhecimento. E como rei desta ilha, eu preciso ter Conhecimento.

Pichu e Psyduck encararam Slowking encantados.

— Como rei da ilha, você deve ter percebido que Papai Noel desapareceu, não é? — perguntou Wobbuffet tentando retomar o foco da conversa para a investigação.
— Oh, sim, é verdade... Eu ouvi que ele desapareceu logo depois de sua Jynx assistente sumir também. Oh, céus... O mais triste disso tudo é que amanhã é o Natal e se ele não for encontrado, será um desastre...

Wobbuffet respirou fundo, dando uma última tragada em seu charuto.

— Amanhã é o dia de Natal. Nós precisamos entregar os presentes, tio — Pichu encarava Wobbuffet de forma séria. — A Equipe de Resgate dos Corações de Ouro não pode deixar o Natal passar em branco!

O rei Slowking juntou as duas patas e soltou um suspiro aliviado.

— Vocês realmente fariam isso? Ficaria extremamente grato!
— Claro que sim! Não existe um problema que não possamos resolver! — exclamou Pichu, determinado.

Bulbasaur pareceu refletir por alguns instantes.

— Não sei não... Acho que não temos tanto tempo assim... Eram quase oito horas da noite quando olhei para o relógio da última vez, dar a volta ao mundo em poucas horas até a meia-noite não parece ser algo muito lógico...
— Não se preocupe com isso! Os Stantler que vivem aqui são treinados para viajar através do globo em uma super velocidade! Além do mais, possuem poderes psíquicos capazes de driblar qualquer tipo de imprevisto, vocês não seriam vistos! — afirmou Slowking, empolgado.

Wobbuffet balançou negativamente a cabeça.

— Não temos tempo pra isso. Devemos é encontrar o Papai Noel.
— Nós sabemos que você tem a capacidade de fazer isso sozinho, tio. Nossa prioridade é fazer com o que o Natal aconteça, a sua é descobrir quem congelou a Jynx — disse Psyduck.

Magby abriu a bocarra.

— Bicho, essa foi a primeira coisa inteligente que você disse na sua vida inteira.
— Obrigado, eu acho... — respondeu Psyduck sem graça.
— É uma ótima oportunidade de você investigar a fábrica de presentes, senhor Wobbuffet... Pode haver pistas! — exclamou Bulbasaur.

Wobbuffet cobriu os olhos com seu chapéu fedora e respirou fundo.

— Bem, cada um com sua prioridade então.

A Equipe de Resgate dos Corações de Ouro pulou de felicidade e logo correu para abraçar o detetive, que ficou visivelmente constrangido.

Slowking parecia ser o mais empolgado de todos.

— Viva! Viva! O Natal não será cancelado!

O rei da ilha levou a Equipe de Resgate dos Corações de Ouro até a entrada para a Fábrica de Presentes do Papai Noel onde algumas Jynx se reuniam com os Stantlers.

— Oh, minhas caras Jynx! O Natal está a salvo! Esses pequeninos se comprometeram a realizar a entrega dos presentes deste ano!

As Jynx encararam Slowking com surpresa e em seguida encararam os pequenos Pokémon da Equipe de Resgate dos Corações de Ouro. Entreolharam-se entre si e deram um grito conjunto de alegria.

— Cada Jynx é responsável por auxiliar Papai Noel com a entrega dos presentes. Sob a posse delas está a lista das crianças que foram boas e ruins, as que merecem presentes e as que não. Elas guiarão vocês nesta entrega!

Um trio de Jynx aproximou-se dos baixinhos e os encararam como se os avaliasse. Comentavam entre si como senhoras idosas faziam enquanto observavam a vizinhança, até que sorriram simpáticas e acataram a ideia de ter os pimpolhos como integrantes da equipe de entrega de presentes.

— As titias adorarão ter vocês conosco na entrega dos presentes! — sorriu uma das assistentes abraçando Pichu e o espremendo entre os fartos seios.

Magby deu três passos para trás.

— Sem contatos físicos... Prefiro manter minha integridade física e mental intacta...

O grupo seguiu para a Fábrica de Presentes e deparou-se com uma construção enorme. A cabeça de Papai Noel com a boca aberta saudava os visitantes e, vindas da sua garganta — fato este que fez Psyduck imediatamente ter uma ânsia de vômito — diversos Pokémon, entre outras Jynx, Smeargle e Corsola — caminhavam carregando caixas e mais caixas de presentes e conferindo listas. Os Smeargles conferiam as listas, checando se tudo estava em ordem, os Corsolas iam colocando os presentes em esteiras que rolavam até as Jynx, que finalmente os colocava nos grandes sacos vermelhos que iam nos trenós presos nos Stantlers. E então, os Smeargles conferiam as listas, os Corsolas colocavam os presentes nas esteiras que chegavam até as Jynx que arrumavam no saco vermelho que estavam nos trenós presos aos Stantlers, fazendo com que os Smeargles checassem outro item da lista.

O trabalho se repetia na medida em que o progresso avançava.

— Bastante discreto, não acham? — comentou Bulbasaur olhando para a estrutura.
— A Fábrica de Presentes não tem seguranças? Tudo tem livre acesso? — questionou Wobbuffet.
— Vocês são as primeiras pessoas a alcançar o Pólo Norte, então não tem ninguém pra barrar — explicou Slowking.
— Então se existe alguém culpado pelo congelamento da Jynx e o sumiço de Papai Noel, esse alguém é de dentro... — deduziu o detetive.
— Quem são vocês? — uma voz austera ecoou com grande volume.
— C-Carlos?! — exclamou Slowking.

Um dos Stantlers aproximou-sedo grupo, encarando-os de forma séria.

— Eu sou Carlos, o líder dos Stantlers de Papai Noel. Exijo saber o que fazem aqui.

Wobbuffet aproximou-se.

— Eu sou o Detetive Wobbuffet, da Polícia. Estou investigando o sumiço de Papai Noel e o congelamento de uma das Jynx assistentes dele. Muito prazer.

Carlos encarou Wobbuffet e franziu o cenho.

— Eu não confio na Polícia.
— Quem não deve, não teme. Você sabe de alguma coisa, senhor Carlos? — perguntou Wobbuffet sério.

O Stantler hesitou por alguns segundos antes de voltar a responder, seco.

— Tch. A única coisa que sei é que essa bagunça toda vai nos impedir de fazer as entregas hoje à noite. Já estamos atrasados...

Uma das Jynx aproximou-se de Carlos.

— Os garotos se prontificaram a ajudar. Acho que nós conseguimos, se começarmos logo as entregas!

O Stantler a encarou com um olhar de fúria.

— Nós temos ordens explícitas de só permitir que o senhor Nicolau faça essas entregas.

Slowking aproximou-se.

— Acima do Nicolau, apenas eu. Eu autorizei a entrega, pode fazê-la.

Carlos olhou para o rei da ilha e caminhou até sua direção.

— Mas senhor, o senhor sabe que...
— Não importa o que eu sei. Apenas faça o que ordeno — falou Slowking com autoridade que nenhum dos Pokémon havia visto até então.

Stantler deu um passo para trás e afirmou com a cabeça, apesar de visivelmente a contragosto.

— Sim, senhor... — e virou-se de costas dirigindo-se para voltar à fila dos Stantlers.

A Equipe de Resgate dos Corações de Ouro se entreolhou. Eles estavam incomodados e confusos, se perguntando o motivo de a situação ficou tão tensa de repente.

— Eu não gosto desse Carlos... Ele não me parece ter uma boa índole — cochichou Bulbasaur.
— Talvez o que ele precise é apenas entender que nós queremos ajudar. Não fica difícil se a gente conversar com ele — opinou Pichu.
— Falar com ele? Me inclua fora dessa, eu tô de boa aqui sem tomar esporro — Magby cruzou os braços e virou o rosto, deixando clara a sua posição de recusa.
— Talvez se eu usar meus golpes psíquicos pra fazer uma lavagem cerebral nele, possa ficar mais fácil — sugeriu Psyduck.
— Força bruta nunca é a solução — cortou Pichu.
— Baixinhos, hora do trabalho — a voz de Wobbuffet logo cortou o raciocínio do grupo.

O grupo se assustou.

— Não foram vocês que tiveram a ideia de entregar os presentes? Se apressem, os Stantlers estão esperando.

A Equipe de Resgate dos Corações de Ouro se entreolhou e assentiu com a cabeça. O grupo se dirigiu para a fila onde os Stantlers se encontravam reunidos sendo equipados pela equipe de Jynx. Cada um dos quatro ficou com um Stantler diferente e Pichu acabou ficando com Carlos, ainda sobre a ideia de fazê-lo mais sociável.

Ao término da checagem do equipamento, os Stantler logo se prepararam para sair em viagem. Pichu e os demais receberam instruções das Jynx que os acompanhariam na viagem. As carruagens eram levitadas pelos poderes psíquicos das assistentes que também faziam espessas nuvens de gelo no céu para ninguém conseguir ver as carruagens voando.

Em alta velocidade, os cinco integrantes da Equipe de Resgate dos Corações de Ouro partiram em direções diferentes para iniciarem os trabalhos. Sobrevoavam o oceano e, ao longe, viam as luzes do continente dando as boas vindas. Logo que entraram em terra, os trenós começaram a espalhar-se ainda mais pelo continente, em direção às residências espalhadas por endereços e cidades.

O Stantler que levava Psyduck parou em frente a uma residência enorme, cujo terreno da casa se estendia pela rua inteira. Os muros e portões altos impediam qualquer um de pular para acessar o interior da casa. O Pokémon olhou para a Jynx que conferia uma lista e pegava as encomendas dentro do saco de presentes.

— Com licença, como é que eu posso entrar nessa casa?

Jynx o encarou como se a resposta fosse a mais óbvia do mundo.

— Você é um pato, não é? Patos voam. Use suas asas.

Psyduck a encarou de volta como se aquela resposta fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— Você tem razão.

Psyduck correu até o outro lado da avenida. Abriu os braços, encolheu a pança e correu de forma desengonçada, pegando velocidade e batendo suas asas para alçar voo pelos céus.

O Pokémon, porém, não era do tipo Flying, e, portanto, não sabia voar. Na tentativa frustrada, chocou-se pela janela da sala de estar, quebrando-a. O barulho ecoava pela casa de uma forma espalhafatosa enquanto Psyduck jazia largado no chão ainda tentando entender o que havia dado errado.

Passos apressados foram ouvidos. Imóvel, Psyduck não esboçava reação.

— O que foi isso?
— Crianças, voltem para o quarto, agora!
— É um Pokémon?
— Será que está morto?
— Crianças, obedeçam seu pai e voltem para o quarto!
— Olha lá, ele tá se mexendo!
— Letícia! Volta aqui, já!
— Pedro, eu não vou falar de novo!

Psyduck foi revirado com a barriga para a cima. Encarou duas crianças, muito parecidas, que o olhavam com certa curiosidade. A menina era mais velha, tinha cabelos castanhos e olhos de mesma cor. Seu irmão era quase idêntico, tirando o fato de que seus cabelos eram mais curtos.

Seus pais continuavam encarando Psyduck com um visível olhar de reprovação.

— Eu vou ligar para o Controle de Pokémon Selvagens.
— Ele pode estar com carrapato, querido.
— UM POKÉMON DE PRESENTE! — as crianças gritaram simultaneamente e correram para abraçar os pais.

Psyduck levantou-se com dificuldade e pôs-se de pé de frente pra família. Devido ao stress, sua dor de cabeça atacou, fazendo o Pokémon colocar as duas patas na cabeça.

Psy... Duck? — questionou o pato.

A mulher adulta, mãe das crianças, dirigiu-se até o interior da residência.

— Eu vou pegar o inseticida.

***


Bulbasaur se encontrava parado já há alguns minutos na frente de uma casa simples, com apenas uma janela que dava para o interior da residência e uma porta que dava para a rua — provavelmente sendo a porta principal. Sua missão era simples: Entrar na residência e entregar os presentes, mas o grande problema era que havia pessoas fazendo a ceia de Natal ainda, portanto, não havia jeito de entrar na casa sem ser notado.

— Meleca, como é que eu vou resolver isso? — O Pokémon começou a olhar para os lados procurando alguma solução.

Jynx, a assistente, aproximou-se com o saco de presentes.

— Está precisando de ajuda? — questionou a Pokémon.
— Não, eu estou bem. Estou apenas pensando como é que eu posso acessar uma residência cheia de pessoas sem ser notado. Os humanos não dormem não? Deveria ter algum tipo de lei que obrigasse todo mundo a dormir antes da ceia de Natal! — praguejou Bulbasaur, visivelmente incomodado.

Ao voltar sua decoração para os arredores, o Pokémon notou o quanto eram bonitas as decorações natalinas que enfeitavam portas e casas. As guirlandas coloridas eram o que mais chamavam a atenção de Bulbasaur, que percebeu um certo padrão entre as residências: Todas elas faziam questão de ter guirlandas e pisca-piscas iluminando entre a decoração de Natal. Não havia neve, então o encantamento se dava por meio de tais enfeites que se destacavam na noite escura e festiva.

Bulbasaur observou alguns arbustos enfeitados de forma natalina próximo à porta de entrada da casa. Uma ideia passou por sua cabeça.

— Bem, já que eles não dormem por bem... Eu vou ter de dar uma ajudada, hehehe...

Ding dong...

A campainha tocou. A barulheira era imensa. Carlos Roberto cantava na televisão em mais um de seus especiais anuais arrancando suspiros das tias e avós que assistiram. As crianças corriam ao redor da mesa cheia de comida, cujo cheiro fazia salivar a todos os que permaneciam próximos a ela. Do meio do tumulto, uma mulher de estatura baixa de meia-idade que mal seria vista se não fosse tão querida por sua família saia pedindo licença para os familiares. Apesar da dificuldade, a mulher logo alcançou a porta — apesar de ter tido de ficar na ponta dos pés para poder girar a maçaneta, cena bastante comum.

Ao abrir a porta, ela não viu ninguém. Olhou para a direita, para a esquerda e deu de ombros. Mas, antes de fechar a porta, reparou que ao pé da porta havia um vaso de plantas com uma linda semente bulbosa verde que emanava um maravilhoso aroma. A mulher encantou-se com aquilo e, antes de pegar, checou novamente se havia alguém por perto. Talvez o remetente do presente... Como a resposta fora negativa, ela pegou aquele vaso — levemente mais pesado do que ela poderia imaginar a primeira vista — e o carregou de volta para dentro da casa.

Sua voz estridente tentou chamar a atenção dos presentes que, ou estavam conversando em voz alta, ou cantando junto com Carlos Roberto na televisão ou correndo com as demais crianças. Aos poucos, quem ia percebendo suas frustradas tentativas de chamar a atenção dos familiares, ia ajudando a transformá-la no centro das atenções.

— Tia Mirtes, o que aconteceu? — um dos sobrinhos adultos aproximou-se da mulher.
— Vocês não ouviram tocar a campainha — perguntou a mulher, recebendo uma resposta negativa da família. — Enfim, o que acontece é que tocaram a campainha e ao abrir a porta, eu vi esse vaso de plantas lindo lá fora. Cheiroso que é uma beleza! Sintam só!

A família concentrou-se em sentir o cheiro do perfume daquele bulbo incrível. Todos começaram a ficar encantados e a comentar uns com os outros sobre o delicioso aroma vegetal que agora impregnava a casa e deixava todos relaxados.

— Nossa, mas o perfume dessa planta dá um sono, né?— comentou uma das sobrinhas.

Ela tinha razão. Quanto mais o perfume se impregnava, mais sono todos sentiam. Um a um, os membros da família foram caindo no sono.

No fim, a única voz no ambiente era a de Carlos Roberto cantando na televisão.

O bulbo no vaso de plantas começou a se mexer. Bulbasaur saiu de dentro e se espreguiçou, esticando todas as patas e alongando seu corpo.

— Hehe, Sweet Scent com Sleep Powder. Eu sou um gênio.

O Pokémon se dirigiu até a porta e a abriu. Jynx esperava do lado de fora com Stantler em seu encalço.

— E então, o que achou?
— É, foi inteligente. Perigoso, mas inteligente. Vamos, temos trabalho a fazer.

Bulbasaur só se prendeu no elogio. “Foi inteligente”. Era o suficiente.


***

— MAS NEM A PAU QUE EU ENTRO NUM NEGÓCIO DESSES!

No topo de um telhado a metros do chão, Magby discutia com a Jynx assistente que o auxiliava na entrega dos presentes. Ele estava perante uma chaminé que saia fumaça, então visivelmente havia fogo na lareira. O plano de Jynx era que Magby descesse a lareira para fazer a entrega dos presentes.

— Deixe de escândalo, nem é uma tarefa tão complexa!
— Ah, mas é claro que é simples, não é a sua bunda que vai queimar!
— Magby, você é um Pokémon de fogo. Você não vai se queimar.

Magby, que estava de cara fechada, imediatamente mudou sua expressão. Arregalou os olhos, surpreso com aquela afirmação. Pareceu refletir por um instante.

— Você tem razão... Mas, ainda assim, eu não vou fazer. Eu prefiro entrar pela porta.

Stantler se irritou.

— Eu vou fazer você cumprir o combinado.

Magby foi arremessado de forma certeira para dentro da chaminé pelo Stomp de Stantler. O membro da Equipe de Resgate dos Corações de Ouro caiu de cócoras no fogo da lareira que ardia àquela hora da madrugada.

O Pokémon saiu da lareira aos xingamentos. O barulho alto chamou a atenção do morador daquela casa, que estava bebendo água. Quase se engasgou ao se assustar com o estrondo. Correu até a sala e tossiu pela fumaça negra que se espalhava e tentava, de forma quase frustrada, enxergar o motivo da bagunça. O rapaz, vestindo seus pijamas azuis com estampas de PokéBola, com seus cabelos loiros desarrumados e meias gastas, cujo par esquerdo estava furada, permitindo que o dedão ficasse a mostra, soltou uma exclamação surpresa ao ver um Magby irritadiço sair por sua lareira.

— Oi, amigo. Como foi parar aí?

Magby encarou o humano e, sem que ele esperasse, arremessou uma embalagem pesada de presente em sua cara, nocauteando-o imediatamente.

— Humpf. Tá entregue seu presente— bufou o Pokémon, sem paciência.

***

Apesar dos percalços, a noite foi passando e a entrega dos presentes fora sendo concluída. Após darem a volta ao redor do planeta, assim que os primeiros raios do sol da manhã foram surgindo no horizonte, a Equipe de Resgate dos Corações de Ouro retornava para a Fábrica de Presentes no Pólo Norte. Cada integrante, acompanhado por uma Jynx assistente e um Stantler, fora chegando em sequência, sendo Bulbasaur o primeiro com Psyduck em seguida. O terceiro a chegar fora Magby.

Assim que desceram dos trenós, o trio de Pokémon logo notou algo estranho. Uma inquietação pairava sobre os outros Pokémon que ali viviam, outras Jynx choravam, Smeargles checavam e rechecavam anotações e, principalmente, Detetive Wobbuffet aparentava estar tenso.

O grupo se aproximou dele.

— Oi, tio. O que aconteceu?— perguntou Psyduck.
—Olá, meninos! Ainda bem que vocês chegaram. Recebemos informações que milhares de casas não receberam suas entregas de presentes...
— Como isso é possível?— questionou Bulbasaur. — Nós fizemos tudo certinho!
— Eu não sei... ¼ dos presentes não foram entregues.
— ¼? Que engraçado, somos em quatro... Então, fica parecendo que um de nós não entregou os presentes — comentou Psyduck, rindo.

Os demais se entreolharam.

— Pera aí... Cadê o Pichu? — questionou Wobbuffet.




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  1. Que legal mano! ESPECIAL DE NATAL NO MEIO DO ANO!

    Mas bem, vimos aqui os nossos amiguinhos sendo levados por um Xatu até o Polo Norta. Polo INDUSTRIAL norte, onde várias Jinx trabalhavam, e que tinha como soberano um Slowking bem louco, que busca Conhecimento por causa de um Beeheeyem.

    Vimos também os amiguxos do coração dourado se voluntariando pra entregar presentes, e só se fuderam. O Psyduck foi visto como presente pelas crianças e animal selvagem pelos pais, o Bulba precisou da forcinha da Jinx tocadora de campainhas, o Magby foi jogado por uma chaminé e depois nocauteou uma pessoa, e por fim, depois de eventos não contados, descobrimos que o Pichu sumiu.

    Pois é, e agora? O que irá ocorrer? Descobriremos no próximo capítulo.

    Valeu e até depois!

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  2. Hey Dento, tudo bom meu consagrado?

    Mais um ato do especial de natal fora de época haushsuahaushs

    Aquela teoria da aliança como personagens da equipe de resgate é muito real, acabou com minha magia do natal com esse polo industrial haushsuahaushs

    Gostei do Xatu que deu spoiler do fim do capítulo, certeza que o nome dele é Goku pela mãozinha na testa.

    Tivemos o C-Carlos, certeza que ele deu um sumiço no Pichu ;-;

    O Psyduck foi mó fofin sendo um presente, e de alguma forma ele conseguiu escapar dali, mas o melhor foi disparado o Magby, ele é muito alguém do grupo que não citarei o nome :v

    No mais é isso, espero o próximo ato, será que ele chega no Natal? haushsuahaushs

    See Ya

    Ps: Busque Conhecimento

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  3. Vou comentar pois gostei demais pra ficar quieto e minha personalidade tagarela quer ser ativada.

    Como sempre te falo, sou encantado pelo jeito que você escreve e organiza suas ideias, e aqui só conprovou isso: tu é fodasticamente incrível, os personagens são maravilhosos e muito fáceis de se apegar, ja estou sentindo saudades de quando acabar (que pelo que eu entendi vai ser no natal de 2020)

    Enfim, Bulbasaur reizinho da infiltração e Pichu Hercules Poirot do mundo Pokemon, ate imagino o tipo de treta que ele se envolveu

    Até a proxima, morango do nordeste ❤

    JA TEVE O BEHEEYEM DE VARGINHA, AGORA SÓ FALTA O POKEMON GRÁVIDA DE TAUBAPALLET

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  4. BUSQUE CONHECIMENTO!

    Eu tô muito curioso com essa nóia do Slowking. O bicho simplesmente abandonou a vida de rei e partiu para o isolamento abrindo mão do material para seguir sua jornada em busca do nirvana ou o que quer que seja. É cada um que aparece por aqui...

    — Ah, mas é claro que é simples, não é a sua bunda que vai queimar!
    — Magby, você é um Pokémon de fogo. Você não vai se queimar.

    Vai lá falar mal do Psyduck agora. Burro pra cacete. E falando no Psyduck, bom saber que ele sobreviveu ao momento de tensão da sua tarefa. Pra quem era um dos mais bonzinhos do grupo, esse aí vai passar o Natal chapado de inseticida.

    E se o Psyduck é drogado, o Bulbasaur droga as pessoas. Velhinhas, inclusive! Delinquente, vagabundo, menor infrator, além de Zé Droguinha. Ou você acha que com tanto conhecimento em ervas ele não usa nada disso pra ele?

    Agora resta saber o que aconteceu com o Pichu. Sempre o líder do esquadrão com toda aquela pose de aventureiro carismático é o que acaba se envolvendo nas tretas.

    Que venha o próximo ato! O mistério está perto de ser resolvido.

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  5. E pensar que aquele inocente especial de três partes planejado na piscina começou a crescer e caminhar com as próprias pernas, se você deixasse ele poderia chegar fácil a cinco partes e estaríamos concluindo ele no natal desse ano kkkkkkk

    Cara, uma das coisas que mais gostei aqui foi lembrar porque os Corações de Ouro são os protagonistas. O Detetive precisou ceder um pouco de tempo de tela para o Magby, Bulbasaur e Psyduck cumprirem suas devidas tarefas, e acho que antes disso eu não saberia definir tão bem como era a personalidade desses três, o que acabou sendo transmitido em gestos simples do tipo: "Como invadir uma casa e lidar com crianças chatas" haehhae

    Mano, a cena do Xatu ficou boa demais! Master of Spoilers. Eu me sinto um atraso para a humanidade por desconhecer o vídeo do ET Bilu antes de você me mostrar, hoje sou uma pessoa melhor por causa disso, obrigado. O capítulo foi ótimo cara, você trabalhou bem nas descrições da fábrica, tudo colaborando para entrar no clima de natal em pleno Julho kkkkk Estou doido para saber o que a galera vai achar das reviravoltas da Parte 4, bora caprichar!

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