Posted by : Dento May 14, 2020




Tudo o que se podia ouvir eram os sons de uma natureza cheia de vida. O toque do vento na copa das árvores, o barulho da fauna selvagem de Pokémon que faziam seus ninhos tanto nos galhos das árvores quanto nas gramas que cobriam o solo fértil, o cheiro das flores, ingredientes indispensáveis em um local daqueles. Os Pokémon que viviam ali estavam acostumados à presença dos seres humanos que costumavam trafegar por ali em busca da Cidade de Goldenrod, a maior metrópole da região de Johto, que sediava alguns dos principais centros econômicos do Mundo Pokémon e por onde passava o Trem Magnético, um dos principais meios de ligação entre Kanto e Johto.

Ethan, Amy e Forrest caminhavam por entre as árvores da Floresta Ilex concentrados em localizar um Farfetch’d que, por acidente, deixaram escapar e foram obrigados a encontrá-lo. Os garotos mal percebiam que iam se aproximando de um santuário de madeira construído no coração daquela floresta. Naquele ponto, as flores estavam abertas emanando um perfume maravilhoso que encantava quem o sentisse. Até as árvores pareciam se curvar para aquela pequena construção que só foi percebida pelo trio quando estava a poucos metros à frente.

Logo, a placa talhada a mão foi o objeto para a qual a atenção dos três fora dirigida.

— O que é isso? — perguntou Forrest.
— “Esse santuário foi construído em homenagem ao Guardião da Floresta Ilex: Celebi”. — leu Ethan.
— “Celebi...”? — questionou-se Amy atenta.
— Hey! Eu já ouvi falar nesse santuário! Minha mãe me contou uma história sobre ele... Muitas pessoas dizem que o santuário é um símbolo de boa sorte e afasta os maus espíritos da floresta. Outras dizem que o santuário está ligado ao Lendário Pokémon, Celebi, e que este vive no interior do santuário da floresta, como um guardião da floresta — disse Ethan.

A bolsa de Amy soltou um estampido. Segundos depois, uma forte luz branca emanou dela e a PokéBola GS começou a flutuar de dentro da bolsa.

— Celebi! — a voz de um Pokémon ecoava forte pela floresta.

Os garotos sentiram os pés saírem do chão. Eles foram cercados por uma luz verde-oliva que se transformou em um portal brilhante que se dividiu, porém não se fundiu. Os dois portais independentes se contraíram e, enquanto Ethan, Amy e Forrest eram sugados pelo primeiro que foi se selando, o segundo foi se expandindo e crescendo enquanto fazia com que duas pessoas fossem depositadas gentilmente no chão da floresta. Agarrada à dupla, dois Pokémon: Um Pikachu cujo pelo amarelo era levemente mais escuro do que os demais de sua espécie e uma Eevee, cujos pelos da ponta de seu elegante rabo tinham o engraçado formato de um coração.

O menino, a menina e seus dois Pokémon permaneceram desacordados enquanto o portal verde-oliva se fechava e a floresta voltava a se silenciar.

***

Ethan estava em coma. Os socos e chutes da surra que levou foram tão sérios que assim que os médicos começaram a tratá-lo, o garoto perdeu a consciência e assim permaneceu, inconsciente, por três longos dias.

Marieta encontrava-se ao lado da cama do filho.  As olheiras eram um sinal claro de que a mulher havia passado noites sem dormir e as dezenas de copinhos que jaziam descartados em uma lixeira na saída do quarto provavam que ela estava há muito tempo lutando contra o sono. Sua rotina tem sido a mesma naquelas últimas 72 horas, era a primeira a entrar, ao longo do dia insistia em auxiliar enfermeiros na aplicação dos medicamentos do garoto e era a última a sair, frequentemente após grande insistência da equipe médica, que às vezes se dava por vencida e só a retirava quase duas horas após o final do horário de visitas. Dona Marieta já era conhecida por ser uma moradora bastante pulso firme em New Bark, mas, no Hospital Geral de Blackthorn pra onde Ethan havia sido transferido, os próprios médicos tinham medo da mulher. Até a mais ignorante pessoa sabe que uma leoa pode até ser feroz, mas se torna uma arma letal para proteger seu filhote.

O ataque a Ethan chamou a atenção também da polícia, que foi a primeira a chegar ao local após o acontecido. Os policiais continuavam investigando por semanas a fio, mas não conseguiram identificar quem ou quais foram os agressores, e o caso só poderia andar quando — e se — Ethan acordasse.

Ethan, no entanto, era um informante do governo e seu espancamento misterioso foi motivo o suficiente para que a Polícia Internacional entrasse em ação, para descontentamento de Lance, o campeão da Liga Pokémon. Três batidas na porta foram o suficiente para que o ruivo, que apoiava os cotovelos em cima da grande mesa de madeira em formato de meia-lua, e repousava a cabeça em cima das mãos soltasse uma baforada impaciente.

— Entre.

Ele era um homem alto, esbelto, caucasiano, com cabelos pretos e olhos castanhos com olheiras que faziam com que ele aparentasse ser mais velho do que realmente era. Vestia um sobretudo marrom em cima de um terno de mesma cor perfeitamente alinhado. Seu olhar sério não demonstrava admiração pela excentricidade da sala do campeão, que não esbanjou cordialidade ao recebê-lo.



Looker (Adventures) - Bulbapedia, the community-driven Pokémon ...


— Feche a porta. Imagino que o assunto seja particular.

O homem acatou a sugestão e fechou a porta suavemente. Caminhou a passos firmes até o campeão da Elite 4 e, da parte interior do sobretudo, retirou um distintivo.

— Senhor Lance, eu sou agente da Polícia Internacional. Me chame de “o Observador”.

Lance levantou a sobrancelha direita e deu um sorrisinho de canto de boca.

— Bastante excêntrico o nome do senhor. Deveria ter usado em inglês... Algo como “looker” se encaixaria bem melhor, não acha?
— Felizmente não estou aqui para saber o que o senhor acha da minha alcunha.

Lance deu um sorriso de canto de boca e baforou pelo nariz. Ergueu-se de sua cadeira e foi até um canto de sua sala, onde jazia uma mesa de acrílico onde se encontrava um filtro de água mineral e, ao lado, uma bandeja onde duas garrafas de plástico, uma na cor vermelha e a outra na cor azul, acompanhada de diversas xícaras de porcelana de diversos tamanhos. Na garrafa vermelha, havia café. Na azul, chá. O ruivo olhou para o agente e, com um gesto de cabeça, ofereceu algo para o Observador, que respondeu com um gesto negativo. Lance deu de ombros e serviu-se de uma xícara de café, adoçando-o com pelo menos dez colherinhas de açúcar meticulosamente contadas. Nem uma a mais, nem uma a menos.

Lance retornou com a xícara até a frente do detetive e sentou-se em cima da mesa, apoiando a perna esquerda em cima da direita enquanto bebericava seu café.

— Em que posso ajudá-lo? — questionou Lance.
— Anteontem, um espião da Liga Pokémon foi espancado até desmaiar durante uma investigação federal envolvendo a Equipe Rocket. Como você explica isso?

Lance deu mais uma golada em seu café e pareceu refletir um pouco antes de responder.

— São adolescentes. Não tenho como controlar os hormônios de cada treinador Pokémon que a Elite 4 monitora.
— Mas tem o dever de evitar que ocorra justamente o que aconteceu. O garoto abandonou seus Pokémon também, pelo o que me consta. Isso pode fazê-lo perder a licença de treinador, você sabe, não é?
— Novamente, eu não tenho como controlar. São hormônios. Acredito que o senhor deva ter passado por isso também. É só uma fase.

O detetive cruzou os braços em visível insatisfação.

— Bem, se o garoto morrer, o culpado vai ser você. Fique longe da Equipe Rocket, ela é um assunto da Policia Internacional.
— Enquanto ela estiver agindo no território de Johto, ela é meu problema.
— Parece que você está por fora da gravidade da situação. Desde que os integrantes da organização explodiram o próprio quartel-general em um ato insano, não se tem mais noticias sobre seu paradeiro. Eles poderiam estar em qualquer lugar.
— Mas eu tenho plena convicção de que eles ainda estão em Johto.

O Observador franziu o cenho.

— Como é que você pode ter certeza disso?
— Amanda Green — respondeu Lance dando outra golada no café.
— Ela não esteve envolvida nos acontecimentos em Mahogany? Por que ela ainda não foi capturada e entregue a nós?

Lance deu um sorrisinho satisfeito.

— Achei que vocês, federais, estavam por dentro de tudo.
— Não desvie o assunto, senhor Lance. Por que você está ocultando informações?
— Amanda Green é uma peça fundamental na investigação da Equipe Rocket. Como disse ao senhor, não posso controlar os hormônios dos treinadores aliados à Liga Pokémon, mas isso não signifique que eu não esteja por dentro de tudo o que acontece com eles.
— Então por que é que o espancamento do garoto Ethan Heart não foi evitado? Essas crianças deveriam estar sendo vigiadas de perto, senhor Lance.
— Eu sei.
— E por que não faz nada?
— Eu sei que o senhor está gravando, então eu espero que a minha voz fique bastante clara com a resposta que darei nesse momento — disse Lance antes de dar o último golpe em seu café para prosseguir. — Nenhum deus intervém na humanidade. Deixem os homens se matarem. Se Arceus existir, ele deve ter um humor bastante sarcástico, não acha?

O detetive afrouxou os braços cruzados e enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo.

— Por quê?
— O mundo se acabando, gente se matando, cientistas brincando de deuses e dando vida a Pokémon... Ele deve rir tendo a certeza de que a gente vai se matar antes de Ele próprio tomar alguma iniciativa pra isso. Eu não intervenho nos problemas que esses garotos causam a si próprios porque seria manipular resultados... Nós estamos cientes dos interesses da Equipe Rocket e sabemos que eles sabem disso. Nesse jogo de xadrez, estamos todos protegendo nosso rei. Os peões andam pelo tabuleiro e acabam sendo descartados, mas, faz parte... Afinal, existe algo maior por trás, não é? A Equipe Rocket quer a PokéBola GS por um motivo. Eles estão ficando desesperados... Logo, não demorará muito para que eles dêem as caras novamente. Estaremos preparados.
— Mas lembre-se que no fim do jogo, o rei e o peão voltam para a mesma caixa.
— Estou ciente disso.

Os dois homens se encararam sem piscar. Lance continuava a sustentar um sorrisinho debochado que confrontava a seriedade inabalável do Observador.

— E com quem está a PokéBola GS?
— A verdadeira? Com guardiões de minha confiança.
— Quem são?
— Treinadores, eu acho.

O detetive avançou contra Lance agarrando-o pelo colarinho e aproximou o rosto do ruivo do seu. Lance podia sentir a respiração pesada e ver a têmpora destacada do homem que estava visivelmente irritado.

— Não estou para brincadeiras, senhor Lance! O senhor está colocando a segurança da região inteira em risco com essas suas atitudes infantis!
— Não estou brincando. Está tudo sob controle. Me agredir vai continuar te fazer ficar sem respostas.

O detetive afrouxou os dedos e o colarinho de Lance se soltou.

— Bem melhor.

O Observador se afastou. Respirando fundo, arrumou seu sobretudo, tentando alinhá-lo novamente.

— Muito bem. Estou atento.

***

Amy havia entrado há poucos minutos no quarto onde Ethan estava. Marieta continuava a se manter firme ao lado da cama do filho e, ao perceber a entrada da menina, levantou as duas sobrancelhas em uma expressão surpresa.

— Eu acho uma pena nos conhecermos em um momento desses... — comentou Amy aproximando-se de Ethan.

Demorou alguns segundos para que Marieta respondesse.

— Tenho certeza de que a culpa não foi sua. Ele sempre foi um menino teimoso, desde criança. Tá aí uma coisa de família.

O silêncio era quebrado pelos bips do monitor cardíaco.

— O Ethan costuma falar muito da senhora. Eu sou a...
— Amanda, não é? Fico feliz em saber que você está cuidando bem do meu filho.

Os olhos de Amy marejaram.

— Eu não estive presente quando fizeram isso com ele... Me perdoe.
— Não tem o que perdoar minha linda. Já disse que a culpa não foi sua. Alguma coisa me disse que você assumiria essa responsabilidade no instante em que você parou naquela porta.

Amy desviou o olhar da mulher para conter o choro. Dessa vez, fora Marieta quem surpreendeu Amy quando levantou-se da cadeira em que se encontrava sentada e dirigiu-se até a garota, dando um terno abraço maternal, um abraço que Amy nunca havia recebido na vida. Toda a força que a garota estava fazendo para não chorar fora afrouxada com o ato da mulher que a consolava como sua própria filha — afinal, se ela amava seu filho e se importava como ela própria, então automaticamente já havia garantido seu lugar de confiança no coração de Marieta.

As lágrimas escorreram sem que Amy tivesse controle sobre elas. Naquele instante em que Ethan mantinha uma expressão angelical em seu rosto parcialmente ocultado pelo ventilador mecânico que simplesmente dava a impressão de que o garoto apenas estava tirando um cochilo, as duas mulheres que conheceram-se pessoalmente havia poucos minutos já estavam conectadas pelo amor que sentiam por ele.

***

POKÉMON P.O.V. (Point Of View)

No mesmo período em que Ethan havia sido internado e passava por tratamento, Pupitar abandonou completamente seus companheiros de equipe. Enquanto Quilava, Sandslash e os demais, sob supervisão de Forrest, faziam um revezamento no Centro Pokémon para proteger seu treinador, o Pokémon mantinha-se focado em treinamentos rigorosos com uma equipe de Pokémon na Toca do Dragão, o mesmo lugar onde Ethan havia levado-o para a sauna e trocado-o por um Feraligatr patife.

Naquele momento, Pupitar sangrava. Cada ferida sua ardia como milhares de agulhas em chamas que penetravam a dura carapaça que protegia seu corpo. Os socos levados na cabeça o faziam hesitar nas memórias de como havia chegado ali. Sua certeza às vezes se misturava com a dúvida.

Suas memórias diziam que ele havia chegado do lado de fora da Toca do Dragão e acabou desviando da porta maior que levava ao interior do local onde se encontravam as cabines para sauna. No entanto, sua atenção era na porta menor, com os dois Machokes fazendo segurança. E foi justamente para onde o Pokémon se dirigiu.

Um dos seguranças deu uma cotovelada no companheiro, alertando-o sobre a aproximação do Pokémon.

— Aonde você vai, baixinho? — questionou um.
— Fiquei sabendo que tem uma sala de treinamentos aí. Quero me juntar — respondeu o Pupitar de forma séria.

Os dois Pokémon se encararam com uma risadinha.

— E por que você acha que a gente deixaria você entrar para treinar com os outros?
— Eu não sei, foi por isso que eu pedi.
— Hahaha, você é uma comédia — comentou um dos Machoke dando risada.
— O único local para o qual você pode ir é na sauna. Vai relaxar, tampinha — respondeu o segundo Machoke.  

Os dois Pokémon retornaram à posição intimidadora e não esconderam o sorriso debochado.

Três segundos foi o tempo necessário para que os dois grandalhões fossem arremessados pela porta de aço de uma vez só. Sendo do tipo Lutador, os dois seguranças eram resistentes a golpes do tipo Pedra, mas foram pegos desprevenidos com o golpe de Pupitar. Talvez pelo fato da porta não estar trancada, mas ambos os Pokémon foram empurrados pela rajada de areia para dentro da sala, destruindo a dobradiça da porta, o que assustou os Pokémon que estavam no interior do local. Imediatamente, diversos outros Pokémon imensos começaram a correr em direção à porta para checar o que estava acontecendo. A nuvem de areia invadia o local e diminuía a visibilidade de todos ali. Um sentimento de pânico tomou conta dos Pokémon que estavam lá dentro.

Pupitar manteve-se escondido dentro da tempestade de areia enquanto entrava no local, o que impedia qualquer Pokémon que fazia segurança se aproximar. Uma chuva torrencial, no entanto, começou a limpar a areia do local, desfazendo a camuflagem do Pokémon. A chuva caía dentro da sala, era estranhamente produzida ali naquele local.

— Pode cessar Gilbert — pediu uma voz feminina de forma austera.

Pupitar estava parado, completamente ensopado, com um sorriso travesso no canto da boca.

— Acredito que um jovem como você deve ter um excelente motivo para destruir nossa sala de treinamento.

A dona daquela voz finalmente se revelou. Uma guerreira dracônica com curvas acentuadas de seu belo corpo encarava severamente o Pupitar rebelde. Seus cabelos azulados sequer se moviam, parecia que a Dragonair tinha o poder de controlar o vento ao redor de si, ou este a temia o suficiente para que não se aproximasse. Ao seu lado, Gilbert, um Gyarados enorme, com cara de poucos amigos, ainda mantinha sua cauda erguida. Foi dele que o Rain Dance veio e ele estava preparado para proteger sua equipe de qualquer ataque que pudesse vir de Pupitar.

Os dois Machoke ergueram-se e prontamente prepararam-se para atacar Pupitar, mas foram impedidos pelo simples olhar de Dragonair.

— Não se preocupem. O dever de vocês é proteger a entrada. Se ele conseguiu passar por vocês, agora, o problema é meu.

Os dois Pokémon se entreolharam nervosos, mas acataram a ordem superior. A sala já estava uma bagunça e havia lama para todos os lados devido à soma da areia do Sandstorm com a água do Rain Dance. Todo o chão de madeira daquele dojô, outrora limpo, estava encardido, sem falar nos tatamis todos revirados, jogados para todos os lados, e nenhum dos Pokémon que frequentavam o local pareciam satisfeitos em ver aquela bagunça. Haviam diversos tipos de Pokémon, como Magikarps e Dratinis, que claramente eram alunos. Pupitar chegou a essa conclusão visto que claramente aqueles Pokémon eram de baixo nível se comparados aos outros gigantes que, se não fossem seguranças, eram com certeza professores.

A Dragonair aproximou-se do Pokémon.

— Por que veio aqui?
— Eu quero ser treinado aqui.
— E você acha que destruir nosso dojô vai fazer você ser treinado como?

Pupitar não afrouxava seu sorriso.

— Eu precisava de uma... Entrada triunfal.

A Dragonair olhou Pupitar de cima a baixo e não se deixou abalar pelo olhar soberbo daquele Pokémon. Em seus longos anos de treinamento, ela já havia visto diversos casos semelhantes. A decisão já estava tomada antes mesmo de existir qualquer pergunta.

— Você é indigno de treinar na Caverna do Dragão.

Pela primeira vez, o rosto de Pupitar estremeceu.

— Acredito que a senhora seja a mestra deste local. Por favor, me treine e me permita estar entre seus discípulos.
— Você não merece estar entre nós. Você não é um de nós — respondeu Dragonair de forma firme.

Pupitar soltou uma risadinha e logo apontou para um dos Pokémon na sala — Magikarp.

— Com todo respeito, mestra, mas a senhora está me dizendo que eu, no nível que estou, não sou digno de treinar com dragões, mas esses peixes fracotes são?

Pupitar se contorceu de dor quando Dragonair o atingiu no rosto usando um poderoso Aqua Tail com sua cauda. O Pokémon voou e atingiu com violência uma das paredes do dojô, deixando um relevo perfeito da estrutura de seu corpo.

— Nunca mais se refira dessa maneira aos kouhais deste dojô. Você nunca poderá se comparar a eles, porque eles têm alma pura. Você precisa caminhar bastante para colocar sua mente no lugar antes de querer ser chamado de kouhai também.

Dragonair encarava Pupitar sem mudar sua expressão de desprezo. O Pokémon, no entanto, não se deu por vencido.

— Justamente por isso que eu vim. Não posso liberar todo meu potencial sozinho.
— E é por isso que todo Pokémon deve ser treinado. Onde está seu treinador? — uma terceira voz se sobressaiu no dojô.

Kingdra aproximou-se dos dois de forma vagarosa, como se estudasse Pupitar. Dragonair ergueu o cenho.

— Sensei, eu posso cuidar dele.
— Minha decisão já está tomada, Draco. Ele não é bem-vindo em nosso dojô — respondeu Dragonair ao Kingdra.

Apesar de manter-se em silêncio por alguns segundos, Pupitar respondeu ao Kingdra.

— Meu treinador acredita que eu sou uma peça descartável do time dele.

O Kingdra deu um sorrisinho.

— Analisando os últimos dez minutos, eu não diria que ele está tão errado.

Dragonair o repreendeu com um olhar assustador. Draco, porém, pareceu não se intimidar.

— Sensei, o que está escrito na parede? — Draco questionou apontando para um quadro branco preenchido com kanjis.
Hitotsu, jinkaku kansei ni tsutomuro koto — respondeu Dragonair sem precisar olhar, mencionando aquelas palavras decoradas de forma tão natural como se tivessem simplesmente questionado por seu nome.
— “Primeiramente, esforçar-se para a formação do caráter” — concordou Draco, traduzindo o japonês. É o que esse cara aí não tem, caráter. Prossiga, sensei.
Hitotsu, inkaku kansei ni tsutomuru koto — citou Dragonair novamente.
— “Respeito acima de tudo”. Outra coisa que falta nele.
— Já entendi. Aplicar o dojokun para que esse Pokémonzinho possa pelo menos se tornar uma criatura decente... — suspirou Dragonair. — Certo Draco. Você será o senpai dele. Ele é sua responsabilidade.
Arigatou, Nadia-sensei. — Draco curvou-se perante Dragonair demonstrando o profundo respeito que tinha pela mestra.

Nadia se virou para se retirar do dojô.

— Arrume essa bagunça — ordenou a mulher para Pupitar.

O sorriso de Pupitar voltou a ser exibido no canto de sua boca.

— Hehe... Ria enquanto pode, novato. Eu vou fazer questão de fazer você perder cada um dessas suas presas... — ameaçou Draco. — Você vai implorar para ter sido treinado pelo seu mestre humano.

E com o treinamento rígido, Draco realmente cumpria o que havia prometido. Pupitar continuava sentado sentindo fortes dores pelo corpo enquanto agora voltava a ter a noção do que estava fazendo ali.

— Você está descansando, seu bosta? Eu não lembro de ter autorizado. Você é um fraco mesmo... — a voz de Draco demonstrava prazer em provocar Pupitar, que não respondia. — Vamos retomar o treinamento.

O Pokémon ergueu-se com dificuldades. O Kingdra não o esperou se preparar.

Hydro Pump! — exclamou Draco antes de disparar um canhão poderoso de água no peito de Pupitar.

***

Kurt já havia pausado as atividades com a fabricação das PokéBolas, afinal, o horário de seu almoço era sagrado. Até sua neta, Maizie, já sabia disso há anos e, quando terminava suas tarefas próximo daquele horário, era a primeira a sair da oficina de seu avô para almoçar em sua casa. O velho fabricante morava sozinho. Sua única companhia era um Slowpoke que as más línguas em Azalea diziam que era tão idoso quando o próprio Kurt, que não fazia nada. Ele adorava ficar observando seu velho mestre trabalhar, mesmo que de vez em quando Maizie tivesse que checar se os batimentos cardíacos do Pokémon estavam regulados.

Naquele dia, porém, Kurt sentia que algo diferente estava no ar. O vento soprava de uma maneira única, a noroeste, o que era incomum, afinal, os ventos sempre sopravam a nordeste. Havia uma lenda que dizia que Celebi, guardião da floresta que invadia os domínios do município, tinha o poder de viajar no tempo. E quando isso acontecia, era como se as coisas levemente ficassem incomuns. O vento poderia soprar em outra direção, a água dos riachos dava a impressão de correr um pouco mais rápido e até mesmo os Slowpokes selvagens sagrados de Azalea ficavam mais agitados, por incrível que pareça. Claro que, para um simples turista, os sinais eram quase imperceptíveis. Mas não para Kurt, que havia nascido ali e vivia naquela cidade há quase setenta anos. O velho ferreiro sabia ler como ninguém os detalhes que a natureza imprimia e envolvia naquela cidade isolada.

Três batidas na porta interromperam o raciocínio do idoso. Ele já havia decidido não abrir a porta. O mais estranho é que praticamente todos os cidadãos de Azalea sabiam do horário de funcionamento de Kurt. E sabia que aquele homem era metódico, não atendia fora do horário, principalmente se isso fosse interromper seu almoço.

Mais três batidas na porta, dessa vez com mais força. Que dia louco. Kurt fechou o punho e começou a mastigar mais devagar a mistura de yakisoba e shoyu. Sua têmpora já começava a ficar evidente em sua testa e seus olhos, fechados, o faziam concentrar em maldições para jogar em quem quer que estivesse ali.

Outras três batidas na porta, emergenciais. Kurt levantou de sua mesa e, pisando forte, foi até a porta, abrindo-o de forma ignorante.

— Estou em horário de almoço! — bradou antes de tentar fechar a porta novamente.

Bugsy no entanto o impediu.

— Senhor Kurt, eu não viria aqui se não fosse urgente. Preciso de ajuda.

Kurt continuou irredutível.

— Eu quero terminar meu almoço!
— Mas é sobre o Celebi! — exclamou num sussurro o Líder de Ginásio da cidade, como se fosse um tabu a ser dito em voz alta.

Kurt arregalou os olhos e voltou a encarar Bugsy. Percebeu que ele não estava sozinho, quatro pessoas do vilarejo estavam com ele. Duas delas, carregavam dois Pokémon que Kurt logo reconheceu, era um Pikachu e um Eevee. As outras duas, carregavam duas crianças, um menino e uma menina, cada um em suas costas.

— O que está acontecendo aqui? — questionou Kurt de forma cautelosa.
— Encontramos eles próximos do santuário do guardião, desacordados. E veja isso... — Bugsy retirou do bolso uma linda flor. Ela uma tulipa, cujo caule era tão verde como se estivesse acabado de nascer. As cores das pétalas eram em um tom violeta vívido e seu aroma natural encantaria qualquer um que passasse por ali, o que não mudou a expressão urgente de todos os presentes. — Tulipas. Havia tulipas exatamente no lugar em que os encontramos. O senhor sabe que...
— Viagem no tempo... Eles foram trazidos... Por Celebi — completou Kurt, entendendo a gravidade da situação. — Entrem, vamos!

O grupo adentrou na casa de Kurt e a porta, diferente da ignorância que fora aberta, fechou-se com a maior cautela desta vez.


TO BE CONTINUED...

{ 7 comentários... read them below or Comment }

  1. Agora que Ethan está morto, quem será o próximo protagonista de Aventuras em Johto? kkkkkk O que deveria ser um embate comum em busca da oitava insígnia acabou por tomar proporções completamente inesperadas, sempre há um carinho especial por parte do autor quando se está para conquistar a última insígnia, queremos que o personagem atinja seu limite e a batalha seja diferente de qualquer outra, mas não foi isso que vimos acontecendo até aqui. O Ethan está destruído e resta pouca ou nenhuma esperança para que ele se recupere a tempo, e com isso, o 58 chega como uma lufada de ar.

    Eu gostei muito das reviravoltas que o arco tem tomado até agora, vimos alguns rostinhos conhecidos como o Looker no auge de sua carreira que continua com aquela sua mania de não gostar que os outros dêem pitaco em seu trabalho kkkk Lance também aparenta estar com todas as peças na mesa, eles fez suas apostas e está no aguardo dos resultados. Mesmo que o capítulo tenha ficado com aquela cara de transição, ele servirá como porta de entrada para muita coisa GRANDE que está por vir. Ainda assim, houveram momentos singelos e carregam um peso enorme, como o primeiro encontro entre Amy e a Dona Marieta, sendo que as duas mal sabem a importância que terão na vida uma da outra... Também gostei muito da descrição do Kurt de volta à Azalea, do seu velho Slowpoke companheiro e o Bugsy que na época nunca recebeu muito destaque. Todas as peças estão se movendo.

    E claro, o Pupitar está aqui para nos lembrar que Ethan apanhou feito criança para Clair (ou melhor, foi humilhado a ponto de nem existir uma batalha kkk) na próxima vez vai ser pessoal, ele estará treinando entre os melhores da espécie para reconquistar a sua honra! Sempre gosto de ver cenas no ponto de vista dos Pokémon, porque quando se escolhe uma criatura limitada tipo um Pupitar, o que mais ele poderia fazer? Ficar batendo com a cabeça em uma árvore até aprender algo novo? kkkkkk Foi uma verdadeira aula de disciplina, ansioso para ver o progresso desse time quando as coisas retornarem ao normal!

    ... isto é, se algum dia elas realmente voltarem ao normal. O que será que a viagem no tempo nos reserva? kkkkk Belo trabalho meu mano, grande abraço!

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    1. Yo, Canas!

      Pois é, agora que chegamos no 58, poderemos rebootar a história, não é verdade?

      Espero que você continue comentando tuuuudo de novo!

      See ya!

      .
      .
      .

      Não, pera! EAHEUHEUAHAEUHEA

      Falando sério, eu sempre me preocupo a cada nova cidade, porque cada desafio de Ginásio, pra mim, PRECISA ser diferente. Mesmo que na nossa cabeça a gente já tenha a ideia de que nossos protagonistas, uma hora ou outra, ganharão suas insígnias, eu sempre fico dias pensando em como tornar cada batalha de Ginásio única e, acima de tudo isso, estamos falando da ÚLTIMA insígnia, o que já dá um peso muito maior a tudo isso. Então eu sinceramente espero que nessa etapa final da jornada por insígnias de nosso treinador eu consiga fazer todas as tarefas direito. E junta tudo isso, não podemos esquecer que Aventuras em Johto TAMBÉM está chegando ao seu clímax e, como você mencionou, as coisas estão andando, as peças se movendo. Ainda bem que você pega no meu pé e não me deixa fazer muita loucura. kkkkk

      Pupitar está crescendo, mesmo que aos trancos e barrancos. Enquanto Ethan permanece desacordado, a grande verdade ainda é saber quando e se esses dois vão se entender. Enfim, é tanta coisa que eu posso acabar me perdendo. EAHUEAHUAEHAUEHAE


      Espero que você continue se surpreendendo!

      See ya!

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  2. Replies
    1. Yo, Shii!

      AGORA A GENTE JÁ PODE REBOOTAR A HISTÓRIA? EBAAAA!

      Capítulo 01, here we go again!

      HEUHEAUAHEUAEHEA

      Espero que continue se surpreendendo!

      See ya ♥

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  3. Oi Dento!

    Todo o mistério e suspense que rodeia este capítulo motivou-me bastante ao longo de toda a leitura. Vamos por partes.

    Eu tento fazer sentido na minha cabeça sobre esse tópico da Viagem do Tempo, mas, por vezes, é impossível. Quem são esses treinadores com um Pikachu e Eevee???

    Achei bastante interessante esse confronto entre Lance e Looker. Dois homens com personalidades bem fortes e com só uma preocupação: defender a população do mal. Estou curioso para ver como a perfomance dos dois se vai desempenhas daqui para a frente.

    AMy e Marieta conheceram-se e eu não poderia ficar mais emocional nessa cena! Que lindo. As duas mulheres mais importantes na vida de Ethan abraçam-se e deixam os seus sentimos expostos, enquanto o rapaz luta entre a vida e a morte na cama do hospital *dramático*

    E esse POV do Pupitar? Eu adorei esse confronto super tenso entre ele e os outros Pokémon! Coragem e determinação são coisas que não faltam a esse Pokémon e tenho a certeza que está no caminho para se tornar num dos Pokémon mais fortes de Ethan! Só fico a aguardar a sua evolução.

    É isso, espero ver o próximo capítulo logo logo!

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  4. MEU ETHAN ESTÁ MORTO

    Não quero voltar a ter um protagonista, só quero uma final épica da liga com o Joey.

    Acha que tens o que é preciso para esmagares o Rattata?

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  5. MEU ARCEUS!
    Fiquei ansioso para ler mais sobre as Aventuras do Puptar, e curioso pra saber o nome dele.
    Eu adorei as regrinhas do Dojô, me lembrou de quando eu fazia karatê.
    E VIAGEM NO TEMPO IS HERE! PQP, EU QUERO VER MUITO COMO ISSO VAI DESENRROLAR! BORA LÁ!

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