Posted by : Dento Jun 3, 2021

 


O complexo arquitetônico onde o Ginásio de Blackthorn era situado era um famoso ponto turístico da cidade.  Além dos habituais treinadores que desafiavam Clair na tentativa de conseguir a insígnia local, também havia pessoas que procuravam relaxar nas famosas saunas construídas dentro da popular “Toca do Dragão”, uma parte do complexo principalmente frequentada por integrantes da elite da cidade, treinadores de Pokémon Dragão de famílias milenares que construíram a cidade de Blackthorn e que se orgulhavam de seu status de Dragon Tamers. Mesmo que houvesse discussões a respeito do que era melhor, se as saunas de Blackthorn ou as fontes termais de Lavaridge, na região de Hoenn— afinal as duas cidades utilizavam vulcões para proporcionar tal entretenimento aos visitantes —, sabia-se que no fim das contas, o que valia era o conforto que o lugar oferecia.

 

Mas não era apenas de relaxamento que vivia o treinador Pokémon de Blackthorn. Batalhas Pokémon eram parte da vida de cada Dragon Tamer que ali morava. E a Toca do Dragão também era um point conhecido para marcar duelos. Dragões de todos os tipos se enfrentavam e mediam força e poder em batalhas truculentas. Foi desse grupo de seletos treinadores que nos últimos anos se destacaram dois dos maiores representantes de Pokémon do tipo Dragão da região: Lance, o Campeão da Liga Pokémon e Clair, sua prima, Líder do Ginásio local. Não à toa, dois lutadores que ostentavam altíssimos números de vitórias quase ininterruptas.

 

Apesar de não faltar tópicos para os treinadores da cidade poderem se exibir para quem quer que fosse, o assunto principal dos últimos dias era um Pokémon poderoso que apareceu para treinar junto aos dragões da Toca do Dragão e que aparentemente estaria ostentando um certo status de invencibilidade, o que logo motivou os frequentadores do local a testar suas habilidades perante aquele Pokémon incrível. As fofocas, no entanto, indicavam que aquele Pokémon costumava fazer parte da equipe de um treinador Pokémon que perdeu seu respeito, fazendo a criatura passar a treinar sozinha. Naquela semana, 17 treinadores tentaram capturá-lo e todos eles falharam. Frustração de uns, humilhação de outros, mas sempre um encanto geral.

 

A Cidade de Blackthorn nunca esteve tão agitada.

 

— Você ouviu os boatos, né? Sobre o Pokémon poderoso que está treinando na Toca do Dragão — perguntou Forrest a Ethan.

— Não se fala em outra coisa no Centro Pokémon... Será que eu tenho chance com ele?

— Você só vai saber se for lá.

 

Os dois amigos se encararam. Da janela do quarto, Ethan observava o movimento da cidade. Já havia até se acostumado com o fato de os dias não serem ensolarados em Blackthorn, o céu plúmbeo sumia com a lua e retornava ao amanhecer, talvez pelo fato de que a cidade ficava entre enormes montanhas que milhares de anos atrás faziam parte de um enorme vulcão, mas desde que estava na cidade, Ethan não viu o sol brilhar nem uma única vez.

 

— Pupitar... — suspirou o garoto.

 

***

 

A tarde já caia no horizonte. O céu de tom ciano ia ficando cada vez mais escuro, sinal de que a noite pedia espaço para ocupar as próximas 12 horas. Ethan e Forrest chegavam na entrada da Toca do Dragão em silêncio, o primeiro por estar nervoso, o segundo por manter uma concentração afiada, atento a qualquer movimento das ruas ao redor. O moreno sabia que Ethan havia sido desafiado por Duster e que, diferente de outras ocasiões, o amigo estava completamente sem motivações para enfrentar o oponente. Ethan já era um adolescente que se deixava influenciar pelas emoções, então era evidente que o medo de colocar tudo a perder com seus Pokémon o impedia de tomar decisões racionais. Forrest, no entanto, sabia que não podia fazer nada, apenas Ethan seria capaz de resolver por si só essa situação.

 

Quando as portas se abriram, um silêncio imediato se fez quando notaram a presença de Ethan e Forrest. Logo, murmúrios e cochichos tomaram conta do ambiente. A cada passo que dava, Ethan se sentia cada vez menor, andava com os ombros encolhidos, querendo enterrar a cabeça no chão. O garoto parou quando viu Forrest fazer o mesmo.

 

— Então você veio mesmo — a voz de Duster ecoou sobre o ambiente. — Vejo que é um rapaz de palavra, apesar de ter vindo com segurança particular.

 

Ethan ergueu a cabeça e procurou no meio de tantas pessoas o rosto conhecido do rival. Haviam tantas cabeças que Duster se camuflava bem entre todas elas.

 

— Ele não é o meu segurança, ele é meu amigo. E eu não vim por sua causa, eu vim atrás do meu Pokémon.

 

Mais murmúrios. Passos foram ouvidos e Duster pediu espaço para que, finalmente, aparecesse perante Ethan e Forrest.

 

— “Seu Pokémon”? Ah, sim... Você se refere ao Pokémon que está treinando aqui. Intrigante... Você apareceu na televisão encarando um exército de Pokémon no Lago dos Magikarp, agora está aqui, arrependido após ter abandonado seus Pokémon. Queria que as coisas fossem tão simples de se resolver quanto você pensa que é...

 

Ethan e Forrest não responderam, apenas continuaram a observar o treinador.

 

— Vou contar uma coisa pra vocês. Os Dragon Tamers têm muito orgulho de seu status porque é necessário muito esforço para consegui-lo. Treinar os Tipos Dragão não é fácil, é uma tarefa árdua, complexa... Todos nós aqui temos algo em comum, justamente o orgulho a satisfação de poder dizer que treinamos e domamos o Tipo de Pokémon mais poderoso que existe.

 

Forrest não conseguiu se conter.

 

— E faz o que com esse orgulho e satisfação? Enfia onde?

 

Duster esboçou um sorriso cínico.

 

— Pra alguém do seu tipo... Você até que é engraçadinho.

 

O moreno não gostou do que ouviu.

 

— Como assim “alguém do meu tipo”? O que você quer dizer com isso?

 

Um rugido enorme tomou conta do ambiente e chamou a atenção de todos os presentes. Era um rugido grave, forte, que fez o chão tremer por poucos segundos antes de um impacto maior se dar em seguida. Esse sim trouxe uma onda de choque que desequilibrou grande parte dos presentes, incluindo Ethan, levando-os a cair de bunda no chão.

 

— É ele! O nosso convidado poderoso... — comentou um dos treinadores do local com admiração.

— Pupitar...? É o Pupitar? — questionou Ethan para Forrest, que não tirava os olhos de Duster.

­— Pelo o que parece, e por incrível que pareça... Acho que é sim, cara. Vá atrás dele.

— Você não vem junto?

— Confia em mim. Eu tenho que saber de uma coisa com aquele engomadinho ali.

 

Ethan assentiu com a cabeça e levantou-se do chão. Antes de seguir pelo corredor que ficava exatamente ao fim do imenso salão em que se encontravam no momento, com paredes brancas repleto de retratos com imagens de Pokémon do tipo Dragão e outros Dragon Tamers — incluindo várias imagens de Lance e Clair em diferentes momentos da vida —, sua atenção foi chamada por Duster.

 

— Onde você pensa que vai? Eu ainda tenho assuntos a resolver com você.

 

Forrest sacou uma PokéBola do bolso da calça.

 

— Acho que você se enganou. O assunto que você tem que resolver é comigo.

— Escuta, neguinho, não tenho assunto nenhum pra resolver contigo.

 

As palavras ditas por Duster ecoaram na cabeça de Forrest. As pupilas do garoto se dilataram, o sangue em suas veias começou a correr mais rápido e seus punhos se fecharam na mesma velocidade em que seus músculos se contraíam. A fúria tomou conta do moreno que avançou na direção de Duster, dando-lhe um soco em seu rosto tão forte que o rapaz caiu de costas no chão.

 

A impressão de que se tinha era que tudo acontecia em câmera lenta. As testemunhas assistiam estupefatas à cena, inclusive Ethan, que furioso, deu meia volta e caminhou com passos pesados na direção de Duster com os punhos em riste, pronto para executar um soco.

 

— ETHAN! — berrou Forrest para o garoto. — Eu me resolvo com ele. Pupitar. Agora!

 

Ethan paralisou por alguns segundos antes de assentir de forma positiva com a cabeça sem tirar os olhos de Duster. A têmpora do menino pulsava ritmada e o ódio exalava de cada poro de sua pele. Respirou fundo e correu em disparada na direção do corredor em forma de cauda de Dragonair que levava até as salas de treinamento. No entanto, seu trajeto foi interrompido quando alguns treinadores liberaram seus Pokémon em sua frente.

 

— Você não tem autorização para passar daqui — comentou um dos Dragon Tamers.

— Mas é o meu Pokémon que está ali dentro! — Exclamou Ethan em argumento.

— Você. Não. Passará — outro treinador afirmou enfaticamente encarando Ethan de forma ameaçadora.

 

O garoto sentia um frio na espinha ao se deparar com aqueles Pokémon. Dragonair e Dragonite mostravam presas, um Gyarados rosnava e também havia um Kingdra que dispararia contra o menino a qualquer momento. Ethan estava cercado.

 

— Rhydon, Earthquake! — Bradou a voz de Forrest.

 

O garoto liberou seu Pokémon jogando sua PokéBola no ar. Rhydon se materializou e caiu no meio do salão de entrada, jogando todo seu enorme peso no solo e causando um enorme terremoto que rachou pisos e paredes, desequilibrando humanos e Pokémon. Pedaços da estrutura do local começou a quebrar e a cair no meio de todos os presentes.

 

— VOCÊ ESTÁ LOUCO? O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO COM NOSSO LOCAL SAGRADO? — berrou Duster.

— Eu vou trazer essa bosta a baixo — respondeu Forrest numa expressão sádica. Ele estava fora de si.


 Ethan fez menção de ajudar o amigo, mas um segundo rugido vindo do interior do complexo o fez mudar o curso. Ele sentia que Forrest poderia lidar muito bem com tudo sozinho.

 

Enquanto Ethan corria para cada vez mais para o interior da Toca do Dragão, Duster olhava Forrest incrédulo. Não era possível que aquele garoto pudesse estar falando sério.

 

— Eu não posso deixar você acabar com nosso local de treino... Esse lugar é milenar! A Toca do Dragão faz parte dessa cidade, eu não vou deixar você ao menos sonhar em destruir mais um centímetro que seja dessa construção.

— Eu não tô nem aí. Não tenho nem um pingo de empatia pra um racista nojento que se acha superior aos outros, mas que não é bom em nada, é só um adolescente filhinho de papai que quer meter o louco... Vou te dar motivo pra você meter o louco. Rhydon, Earthquake de novo!

— Gabite, Take Down!




 Duster sacou a PokéBola rapidamente e de dentro dela, saiu um Pokémon que Forrest nunca havia visto antes. Era bípede e suas escamas majoritariamente eram na cor azul, exceto na frente de seu corpo, onde a parte inferior entre a mandíbula e o abdômen era vermelha e a parte debaixo de sua cauda era azul claro. Suas garras afiadas eram ameaçadoras e as barbatanas ajudavam o dragão a parecer ainda mais assustador. Gabite investiu com violência na direção do grande Rhydon, derrubando-o no chão. O golpe foi tão intenso que o próprio Gabite pareceu se machucar após aplicá-lo.

 

— Vou mostrar o porquê dos Pokémon Dragão serem tão difíceis de se treinar. Dragon Claw!

Stomp!

 

As garras de Gabite emanaram um brilho azul-claro e sua energia aumentava exponencialmente seu tamanho. O Dragão partiu em direção à Rhydon, que virou-se de costas para o oponente e preparou um coice poderoso com a parte traseira de suas enormes patas, apoiando-se no chão com as patas dianteiras. O choque dos dois golpes foi intenso e outra parte do salão de entrada da Toca do Dragão desmanchou-se como papel. Gabite fora arremessado para uma das colunas de sustentação do local, trazendo o teto abaixo, para desespero de Duster. Forrest ostentava um olhar furioso, sua respiração ofegante e suas veias pulsantes eram resultado de uma adrenalina que há muito tempo não sentia. Ele só sairia dali quando destruísse seu oponente.

 

***

 

Havia um lago dentro de uma enorme caverna situada abaixo das montanhas de Blackthorn. Em uma ilhota construída no meio das águas, havia uma construção de madeira, um santuário, que muitos sabiam da existência, mas muito poucos tinham acesso. O local era pouco iluminado, com alguns focos de luz por entre as pedras espalhadas por todos os cantos através das estalactites que decoravam de forma rústica aquele ambiente. Do lado de fora do santuário, um senhor idoso, calvo, que não tinha mais do que 1,60m de altura, mantinha as duas mãos para trás e, sem ao menos piscar, mantinha os olhos fixos na água cristalina e imóvel. Podia-se ver no fundo do lago estalagmites que encaravam aquele senhor da mesma forma estática em que eram encarados.

 

Nem mesmo o som da porta atrás do velho senhor o demoveu de sua concentração absoluta.

 

— Algum problema, Mestre? — questionou a voz feminina.

— Hm... — grunhiu em resposta. Demorou alguns instantes até que ele concedesse alguma resposta. — Aproxime-se Clair. O que você vê?

 

A Líder de Ginásio aproximou-se com calma e colocou-se ao lado de seu Mestre e encarou com certa curiosidade. As águas continuavam calmas.

 

— Eu não vejo nada, senhor.

 

O velho olhou para Clair em silêncio e grunhiu mais uma vez em resposta.

 

— Hm.

 

O silêncio voltou a tomar seu lugar habitual. Clair voltou a olhar para a água do lago enquanto o idoso parecia continuar perdido em pensamentos.

 

— Hm — resmungou outra vez. — Se você joga uma pedra na água, ela vai gerar ondas que serão espalhadas por todos os lados. E quando menos esperar, ela chega até você.

 

Clair ergueu as duas sobrancelhas quando reparou que, lentamente, um fio de onda aproximava-se da ilhota em que ela se encontrava.

 

— Distúrbio... Alguma coisa alterou o estado de inércia da água do lago... O que foi?

— Hm. Você não sente? Não é só a água.

 

Clair agachou-se e pressionou a palma da mão no chão do santuário. Seu toque a fez sentir que o chão tremia levemente, de maneira quase imperceptível.

 

— Terremoto. Causado por um Pokémon. Esse tremor parece estar ressonando acima de nós.

— Você foi treinada por mim, mas devo admitir que sua sensibilidade me surpreende. Está cada dia melhor.

 

Clair respondeu curvando-se perante seu Mestre em agradecimento ao elogio. As ondas suaves iam chegando com maior freqüência e se chocando com a ilhota.

 

— Hm. Temos trabalho a fazer — comentou o idoso.

 

***

 

Duster andava cambaleando pelos corredores da Toca do Dragão, talvez pelo fato de o prédio inteiro ainda tremer pela batalha que ainda acontecia no salão de entrada. O duelo contra Forrest havia o levado à exaustão. A salvação do rapaz, no entanto, fora a interferência dos outros treinadores do local que tomaram a frente e passaram a enfrentar o poderoso Rhydon de Forrest enquanto Duster se preocupava em ir atrás de Ethan.

 

— Esses otários não serão melhores que eu... Destruir a Toca do Dragão, invadi-la por puro egoísmo... Aquele moleque não vai domar aquele Pokémon antes de mim!

 

Um novo rugido chamou a atenção. Um sorriso de satisfação tomou conta do rosto de Duster, que sacou uma PokéBola e correu em direção ao som.

 

Ao entrar no dojô, o sorriso deu lugar a uma expressão de espanto e encantamento. Finalmente, após tanto ouvir falar da criatura pelas últimas semanas, o treinador pode ver com seus próprios olhos aquela lenda, um Pokémon bípede enorme cujo corpo era protegido por uma armadura robusta esverdeada praticamente impenetrável. Seus dois pares de dentes pontiagudos causavam arrepio na espinha, qualquer mordida daquela bocarra estraçalharia imediatamente o que quer que fosse, além de ter costas e ombros espinhosos.

 


— Você é um Tyranitar, não é? Você é a criatura que todos da cidade estão falando, a mais forte que apareceu em tempos na Toca do Dragão... — Duster estendeu a PokéBola na direção do Pokémon, que estava de costas para ele. — Por favor, me deixe enfrentá-lo!

— Pra quem se gabava de oferecer ajuda por ser um treinador forte, você até que durou pouco lutando conta o Forrest.

 

Duster surpreendeu-se ao notar que Ethan estava presente na sala.

 

— Então você conseguiu encontrar seu antigo Pokémon... Muito me surpreende.

— Estava conversando com ele quando você apareceu.

— Que pena que eu atrapalhei — Duster sorriu de forma debochada. — Mas eu estou louco pra lutar contra esse Pokémon e quem sabe até adicioná-lo em minha equipe. Com certeza nós dois seríamos os maiores treinadores de Blackthorn! E como você abandonou seus Pokémon, logo, eu acredito que ele esteja disponível pra captura...

 

Duster apertou o botão central de sua PokéBola e uma forte luz tomou conta do ambiente, materializando Richard, o Feraligatr do treinador. Tyranitar rosnou ao deparar-se com o oponente.

 

— Tyranitar! — gritou Ethan para o Pokémon sem tirar os olhos de Duster. — Quando eu cometi o erro de querer me comparar com esse cara, eu não imaginava que estava querendo ser igual a alguém tão baixo. Fui egoísta em não reconhecer seus valores, quis fazer como ele, ser um treinador mesquinho que se encontra acima de todos. O meu perdão não é da boca pra fora, eu reconheço que eu fui um treinador horrível e você tem todo o direito de não aceitá-lo.

 

Duster começou a bater palmas.

 

— Ora, ora, ora... Belo discurso. Eu até me emocionaria se não fosse a coisa mais hipócrita que eu já ouvi na minha vida. Grande treinador você, que descarta seus Pokémon e vem pedir perdão como se fosse a coisa mais simples do mundo!

— Hm. Ao pecado sempre cabe a humildade do perdão.

 

Ethan e Duster olharam para a porta de entrada do dojô e surpreenderam-se com um senhor já idoso, calvo, que não tinha mais do que 1,60m de altura e que equilibrava-se com a ajuda de um longo bastão de madeira com uma PokéBola no topo.

 

— Mestre?! O que está fazendo aqui?

— Muito me surpreende você me fazer essa pergunta. Hm. Se bem me lembro, você estava confrontando esse garoto.

— Sim, Mestre, é verdade. Esse garoto e o amigo dele estão destruindo a nossa sagrada Toca do Dragão! Eu estava confrontando-o, não podia deixar isso acontecer.

 

O Mestre da Toca do Dragão olhou para Ethan por alguns segundos antes de se dirigir ao garoto.

 

— Ei, vovô. Não adianta dizer que a história não é bem assim, né? O senhor não me conhece, então não tem porque o senhor acreditar em mim — comentou Ethan de forma séria.

 

A expressão convencida de Duster foi substituída por incredulidade.

 

— Mais respeito com o nosso Mestre, moleque! — esbravejou o rapaz antes de ser cortado pela serena expressão do idoso, que o encarou.

— Contenha-se, jovem. Ainda não lhe cedi a palavra.

 

Duster engoliu em seco. O velho homem voltou a encarar Ethan e aproximou-se do menino, o analisando de cima a baixo antes de repousar os olhos no enorme Tyranitar, que colocou-se de joelhos para permitir que o idoso acariciasse o topo de sua cabeça.

 

— Isso, isso. Você é um bom rapaz, um bom rapaz. Hm — sorria enquanto dava leves tapinhas no cocuruto do Pokémon, para a surpresa de seu ex-treinador e de Duster. — Você não me conhece, mas eu ouvi falar sobre você, garoto. Muitas coisas.

 

Ethan sentiu um frio na barriga.

 

— Hm. Eu posso ser um pobre velho hoje, mas eu já tive a sua idade, sabia? Eram outros tempos. Eu vi guerras, eu vi ditaduras. Eu vi homens e mulheres beberem da água do poder e se afogarem. E durante todo esse tempo, eu me esforcei em estudar e treinar os Pokémon Dragões, não para conquistar poder, mas para honrar os meus antepassados. Muitos deles deram suas vidas junto aos Pokémon para que hoje você poaa ter liberdade. Responda-me uma coisa, garoto. O que os Pokémon são para você? Hm?

 

Ethan hesitou por um instante pela pergunta repentina. Pensou por alguns segundos em milhões de respostas, mas preferiu optar pela mais singela. A única resposta que poderia vir do seu coração.

 

— Os Pokémon são meus amigos.

 

O Mestre do clã dos Dragões manteve sua expressão serena, mas não deixou de massagear seu queixo, refletindo sobre a resposta de Ethan.

 

— Hm. Muito bem. E o que ajuda você a vencer batalhas?

— Treinamento, senhor. Treinar bastante sempre me ajudou a desenvolver novas técnicas para ajudar meus Pokémon em batalhas.

 

O velho homem coçou o queixo novamente e virou-se para Duster.

 

— Qual é o tipo de treinador que o senhor procura enfrentar? Hm?

 

Duster não pestanejou antes de responder.

 

— Os mais fortes, Mestre. Sempre!

 

A expressão serena do idoso se mantinha firme enquanto ele massageava o queixo com mais intensidade.

 

— Hm. Pokémon forte. Pokémon fraco. Qual dos dois é mais importante?

— Eu sou um Dragon Tamer, Mestre! Claro que queremos apenas os Pokémon mais fortes ao nosso lado! — Respondeu Duster, orgulhoso de sua resposta.

 

O Mestre Dragão segurou de forma firme seu bastão de madeira. Em silêncio, dirigiu-se a passos lentos até a porta da sala enquanto parecia perdido em pensamentos. Então virou-se para os dois jovens e os encarou sem desfazer sua expressão serena.

 

— Hm... O amor se demonstra de muitas formas. Dentro de uma amizade, dentro de uma paixão entre duas pessoas que se atraem, dentro de uma relação entre pais e seus filhos... Somos seres falhos. Vivemos errando e machucando uns aos outros. Mas, hm... O que realmente nos faz reconhecer o amor é justamente reconhecermos que ferimos alguém que nós amamos e o quanto essa constatação nos dói. O fato de pedirmos perdão não nos torna inferior a ninguém, nos faz mais fortes. Afinal, precisamos ser fortes para que possamos encarar o medo de enfrentar a rejeição que teremos após magoarmos alguém. Hm. Você está banido do clã dos Dragões, senhor Duster.

 

O garoto ergueu as sobrancelhas. O ar sumiu de seus pulmões e suas pernas ficaram bambas.

 

— M-Mestre…? Como assim, b-banido?!

— Você e seus colegas não seguem os princípios do clã dos Dragões. A cidade de Blackthorn há muito tempo vem sofrendo com comentários negativos pelo comportamento inapropriado dos Dragon Tamers. Hm. E não é com esses princípios que os Pokémon Dragões devem ser treinados, não se deve valorizar apenas a força. E eles não merecem ser treinados por pessoas como o senhor, que inferiorizam oponentes pela cor da pele.

— Mas... Clair e Lance, senhor! Os Dragon Tamers mais poderosos do mundo! O poder deles...

— Hm. Você jamais será como Clair e Lance.

 

As palavras do Mestre dos Dragões atingiram Duster como um soco na cara.

 

— Clair e Lance tem uma coisa que seus colegas jamais demonstraram ter. Amor. Um Pokémon deve sempre ser cuidado com amor e assim ele se fortalecerá junto ao seu treinador. Amor. Cumplicidade. Confiança. É assim que se constrói um verdadeiro Mestre Pokémon. Hm. A partir de hoje, todas as atividades da Toca do Dragão estão encerradas. Foi bom enquanto durou, não é?

 

Duster fechou os punhos. O ódio subia em suas veias e o fazia ranger os dentes.

 

— O senhor não pode fazer isso! Eu não vou deixar! — Vociferou o rapaz.

 

O Mestre dos Dragões gargalhou antes de se retirar pela porta.

 

— Você não tem poder algum aqui, Duster Santiago.

 

O rapaz nada pode fazer. Lágrimas caíam de seus olhos em direção ao tatame do dojô, seus punhos tremiam e seus músculos se contraíam. Não era possível, aquilo não podia estar acontecendo. Só tinha uma explicação, e ele sabia quem era o responsável por aquele pesadelo.

 

— VOCÊ! — berrou o garoto, com o dedo em riste apontando para Ethan. — A CULPA É TODA SUA! EU VOU ACABAR COM VOCÊ!

 

Duster partiu em direção a Ethan. Tyranitar deu um passo à frente e ficou entre o rapaz e seu treinador e deu um rugido alto de aviso.

 

— Você acha mesmo que eu vou temer um Pokémon como você? Richard, Dragon Pulse!

 

O Feraligatr abriu a enorme boca e disparou uma bola púrpura na direção de Ethan e de Tyranitar. O garoto então viu seu Pokémon receber o golpe e não se mover mais. Parado em sua frente, Ethan temeu.

 

— Tyranitar! — Chamou o garoto sem obter resposta. No entanto, o enorme Pokémon começou a rosnar. Seus olhos começaram a ficar vermelhos e seu corpo emanou uma aura rubra. Dessa vez, Duster arregalou os olhos e sentiu medo.

 

­— Isso é... Esse golpe é o...

 

Tyranitar rugiu. O chão tremeu com fúria e aquele urro potente ecoou pelos corredores e alcançou o salão de entrada da Toca do Dragão, colapsando tudo o que se chocava com a onda sonora.

 

— O que está acontecendo lá dentro?! — exclamou Clair.

— É a criatura que andou treinando junto aos dragões, Mestra. Inclusive com Nádia —respondeu um dos treinadores entre as ruínas de um local agora irreconhecível. Praticamente demolido, o lugar antes enfeitado com pompa não passava de pedaços de concreto e marfim espalhados por todos os lugares.

— Eu não reconheci o rugido... Quem é esse Pokémon? — questionou Clair ao rapaz.

— Hm. Tyranitar — a voz do Mestre dos Dragões surpreendeu os presentes.

— Tyranitar? Então o Pupitar do Ethan... — comentou Forrest de forma surpresa.

— Mestre! Esse rugido... É um Outrage, não é? — perguntou Clair já sabendo da resposta.

— Hm. Precisamente. Protejam-se — pediu o idoso batendo seu bastão de madeira com força no chão.

 

A força do golpe de Tyranitar explodiu as paredes do dojô e arremessou Duster e Feraligatr. A cortina de ar espalhou-se por todos os lados com violência, revirando tudo do avesso. As estruturas do edifício não aguentaram tamanha pressão e vieram a ceder.

 

A Toca do Dragão ia sendo demolida com tamanha fúria que o quarteirão inteiro tremeu.

 

Ethan olhava assustado para Tyranitar enquanto tentava se manter agarrado em uma viga de ferro da construção que ainda insistia em se manter de pé fincada no solo. Não se via mais rastros de Duster ou de Feraligatr, os dois estavam debaixo dos escombros da construção. Tyranitar continuava a urrar e a disparar bolas de energia de sua boca para todas as direções. O Pokémon virou-se na direção de Ethan e rugiu para seu treinador. Um rugido pesado, que colocava pra fora toda a mágoa presa em seu coração. Ethan temeu mais uma vez ao se ver sozinho perante um Pokémon descontrolado. Olhou para os olhos de Tyranitar e não viu suas pupilas. Tyranitar preparou-se para dar um soco, mas ao invés de acertar Ethan, atingiu o próprio peito, caindo no chão berrando de dor.

 

— TYRANITAR! — berrava Ethan. — TYRANITAR, POR FAVOR, PARE COM ISSO!

 

A enorme criatura levantou-se outra vez e preparou outro soco. Ethan largou a viga de ferro e, agindo por impulso, saltou na direção de Tyranitar, agarrando-se ao braço esquerdo do Pokémon, que usou o braço direito para atingir-se na face, novamente caindo ao chão.

 

— Tyranitar... Me desculpe... Por favor, me perdoe... — Ethan começou a chorar. Abraçado ao corpo ferido do enorme Pokémon, o garoto suplicava. — Pare de se machucar por minha causa, você não merece passar por isso... Não merece mesmo!

 

Tyranitar abriu os olhos e viu o treinador agarrado ao seu tórax. As lágrimas do menino escorriam pelas laterais de seu corpo. Aquilo tocou o Pokémon, que grunhiu passando o braço pelas costas de Ethan e o abraçando.

 

Havia perdão porque havia amor.

 

 

TO BE CONTINUED...





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  1. Ai, senhor Dento!!!! Vai deitar a casa abaixo!!!

    Esse capítulo foi tão boooooom! A nível descritivo, estava tudo lá, tudo no ponto, tudo ótimo!

    O desenvolvimento das personagens também deve ser sublinhado.

    Forrest que saiu em defesa do seu melhor amigo, combatendo esse racista nojento que o insultou. Gostei muito de o ver em ação com o seu Pokémon. Ele está tão mais forte, maduro e confiante... adoro ver!

    Duster foi horrível, mas é o rival perfeito para o momento. É necessário voltar a reunir a força e o amor que rodeia Ethan e, para por tudo isso à prova, nada melhor do que o garoto idiota que só faz porcaria. No fim, ele teve o que merecia, não tenho pena se ele ficar ali enterrado.

    Ethan colocou a mão na consciência. O esforço que já tinha iniciado no capítulo anterior para recuperar os seus Pokémon continuou neste, desta vez, encontrando o Pupitar evoluído num fantástico e potente Tyranitar. Apesar de toda a sua magnificência, o Pokémon parece ter os seus problemas interiores por resolver. Tenho a certeza que será uma caminhada feita com calma e com a ajuda de todos os membros da equipa do garoto.

    Também achei muito interessante o discurso do Mestre e a sua dinâmica com Clair. Adoro velhinhos sábios, sabe? Acrescentam sempre aquele lado magnífico e misterioso à história.

    Continua com toda a força, companheiro!

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