Posted by : Dento Jun 7, 2018



Bruno meditava. Era uma das coisas que mais gostava de fazer durante o período em que não precisava defender a Terceira Casa da Liga Pokémon. Claro que ele, a Muralha, nunca negava um desafio para uma batalha e não necessariamente esse desafio precisava vir do campeão da Liga Pokémon. Ele estava na Elite 4 justamente para poder desafiar treinadores poderosos, mas meditar era o que ele mais gostava de fazer, principalmente após as sessões de treinamentos duros que ele costumava submeter-se com seus Pokémon.  





Ele gostava de sentir a brisa do vento, o cheiro da terra, o calor do sol ou as gotas da chuva que tocavam em seu rosto. Mas, todos os desafios da Elite 4 eram feitos dentro do castelo onde a Liga Pokémon mantinha seu quartel-general de operações. Quando estava fora da época de desafios à Elite, ele costumava ficar dentro de seu escritório, lendo papeladas e mantendo-se em constantes reuniões com os demais membros da Elite. Sempre muito fechado, Bruno nunca era visto de conversa fiada. Basicamente, ele concordava ou discordava, argumentando sempre com poucas palavras. Ele era muito mais de usar a força bruta do que diálogos para resolver seus problemas, e isso desde criança. Não era do tipo que falava de seu passado. Diferente de seus colegas, não se sabia sobre seus feitos, nem de sua história de vida. Claro, sempre foi um exímio treinador, alguém que, em sua época, foi considerado o grande destaque da Liga Pokémon, sempre ao lado de seu time de Pokémon majoritariamente composto de tipos Pedra e Lutador, mas ninguém conhecia sua família ou sabia se mantinha relacionamento com alguém, se tinha filhos. Sempre focado, sempre concentrado. Sentado no meio da sala de quarenta metros quadrados, sobre o chão frio de mármore na posição de lótus, mantinha sua concentração para não pensar em nada, dessa forma, mantinha o foco em batalhas e concentrava-se em estratégias. Sempre que podia, entrava numa luta mano a mano com seus Pokémon, buscando assim fortalecer-se junto a eles.

 Ao seu redor, havia quadros de Pokémon espalhados pelas paredes, desde seus próprios Pokémon — Onix, Machamp, Hitmonlee e outros — até mesmo fotos de Pokémon que admirava, como Lucario. Em cima da mesa de madeira, próximo à janela que permitia quem a olhasse ter a visão do ponto exato onde Kanto e Johto se conectavam, havia um telefone, com um visor que permitia o usuário conversar em uma chamada de vídeo, caso o telefonema fosse feito de um Centro Pokémon, por exemplo. Também havia um porta-retrato que o fazia lembrar da infância. Cercado por Pokémon, ele criança, acompanhado de mais dois garotos, que se podia deduzir que eram seus irmãos, acompanhado de dois adultos, um casal, provavelmente seus pais. Ele mantinha aquele retrato ali como lembrança de que um dia a família havia sido unida. Alguns detalhes assim ainda permitiam que fosse enxergado no treinador tão fechado e ranzinza um resquício de compaixão.

O telefone tocou. Bruno fora despertado de seu transe. Ele tentou ignorar os irritantes e repetitivos toques melódicos, mas a cada vez que a ligação caia, o insistente do outro lado da linha discava o número de novo. Olhando zangado para o dispositivo, levantou-se do chão bufando. Foi até a mesa e, com uma certa ignorância, pegou o telefone com uma das mãos e, visivelmente mal-humorado, atendeu com sua voz grave.

— Alô?

A voz tremida do outro lado da linha fez com que Bruno erguesse as sobrancelhas, surpreso.

— Tio Bruno? Preciso de sua ajuda...

O sobrinho lembrava muito Bruno. Os cabelos crespos espetados, os olhos puxados, o rosto quadrado... Era inegável que eram parentes. O garoto, no entanto, estava bastante abatido. Ofegante, transpirava muito. Sua voz, tensa, passava a impressão de que ele estava fugindo de algo, ou alguém.

— Garoto, o que aconteceu? Está tudo bem? — Perguntou o treinador, agora preocupado.
— Tio, eu sei que o senhor e o papai não se falam, mas eu não sei mais a quem recorrer... Eu preciso muito do senhor agora... — Lágrimas começaram a correr pelo rosto do garoto.

Bruno engoliu em seco.

— Garoto, o meu problema é com seu pai, não com vocês. Diga o que precisa de mim.

O menino hesitou por um momento. Após um breve soluço, falou.

— Eu quero que o senhor me treine.

Bruno parou por um instante. Por alguns segundos, ele não sabia o que responder. Hesitou.

— Seu pai não vai gostar de saber disso.
— Por favor, tio... Eu não sei mais o que fazer. Eu me sinto um lixo.
— Você tem certeza? Você se lembra de como eu costumo fazer meus treinamentos, não é?
— Sim. Eu estou disposto a fazer qualquer coisa.

Muralha deu um sorriso de canto de boca.

— Onde você está agora?
— Na Cidade de Ecruteak.
— Entendi. Encontre-me no Monte Mortar. Esteja sozinho.

Forrest acenou com a cabeça em sinal afirmativo. Bruno desligou o telefone. Estralou os dedos das mãos e retirou-se de sua sala.

O corredor era longo. O castelo da Liga Pokémon era imenso e, nas paredes, retratos de treinadores com seus Pokémon, cópias das fotografias exibidas no Hall da Fama, almejado salão da grandiosa e luxuosa construção onde os vencedores da competição e suas equipes de Pokémon eram eternizados em imensos quadros para sempre, e que serviam de inspiração para jovens treinadores concorrerem a um lugar ali, onde só os melhores eram lembrados. Os imensos lustres banhados a ouro iluminavam as paredes brancas e o chão de piso de mármore. Ao fim do corredor, uma grande porta de madeira com desenhos talhados a mão em formato de dragões chamavam a atenção de qualquer um que passasse por ali. Ao abrir a porta, Bruno entrou na sala de Lance, que era enorme. Cercada de estantes repletas de livros, a sala do líder da Elite parecia uma enorme biblioteca que tratava dos mais diversos assuntos. Grande parte deles, claro, abordavam o assunto do qual Lance era especializado: Dragões. Ele sempre foi defensor da tese de que um grande treinador também era um grande professor, devia sempre manter um extenso conhecimento do maior número de áreas possível, então em sua biblioteca particular — que também era compartilhada com os demais membros da Elite — havia livros sobre teoria musical, matemática, física, química, biologia, história da arte e da humanidade, dentre outros assuntos.

Além das estantes, havia uma imensa janela, de onde se podia ver as enormes montanhas que cercavam Blackthorn, a cidade natal do Campeão. Um enorme pôster com a foto de Lance estava emoldurado e pendurado na parede. As excentricidades da chefia já não era mais novidade para os treinadores que conviviam com ele. A mesa de carvalho, em forma de meia-lua, estava ao centro da sala, com um computador, diversas pastas com documentos importantes e um aparelho de telefone.  De braços cruzados e de expressão cansada, Koga estava próximo da escrivaninha, passando seus olhos frios em cada uma das estantes de livros da sala, tentando contar um por um para passar o tempo.







— Onde está o Lance? — Questionou Bruno.
— Estou a quarenta minutos esperando ele chegar para uma reunião. Espero que ele tenha uma excelente desculpa dessa vez para não comparecer a tempo de dar as boas vindas para os dois novos integrantes da Elite para as competições da Liga Pokémon desse ano — respondeu Koga, sem tirar os olhos dos livros. — Dois mil setecentos e noventa e sete, dois mil setecentos e noventa e oito...
— Quando o encontrar, diga que estarei treinando fora do castelo.
— Dois mil oitocentos e quatro... Por que você não fica e não recebe os novatos? Você sabe que eu não sou babá. Dois mil oitocentos e onze...
— E você sabe que eu não gosto da parte burocrática. Vejo você em breve.

Bruno virou as costas, deu dois passos e nem percebeu quando Koga apareceu em sua frente sem fazer barulho, como se fosse teletransporte. O ninja tinha reflexos invejáveis, mas Muralha não se surpreendia mais com o colega. Sem esboçar nenhuma reação, olhou para baixo — Koga não se deixava intimidar pelo tamanho de Bruno e seus quase dois metros de altura.

— Não seja irresponsável, não abandone seu cargo quando a Liga Pokémon mais precisa. Temos uma reputação a zelar e um nome a manter.

Bruno continuou a encarar o velho ninja. Como sempre, preferiu não dizer nada e passou por ele, saindo pela grande porta de madeira que dava para o corredor.

— Você me fez perder a conta — reclamou Koga poucos segundos antes de ouvir a porta sendo fechada violentamente.


***

Forrest tremia. No Centro Pokémon, o garoto estava sentado defronte ao aparelho de telefone de onde acabara de contatar seu tio Bruno pela primeira vez em muito tempo. Depois de ter perdido de forma tão humilhante para Argenta, ele não se sentia mais digno de ser considerado um treinador Pokémon, muito menos se permitia sonhar em conquistar um dia o cargo de Líder de Ginásio. Ele era um fraco. Talvez sua única esperança fosse realmente seu tio, de quem ele não mantinha — e nem podia ter — contato desde criança, visto que seu pai e o Elite 4 brigaram feio no passado e não se falavam desde então, por um motivo que, pra ele, era banal.

Os avós paternos de Forrest tinham cinco filhos. De origem humilde, estabeleceram-se na Cidade de Pewter, localidade em que se destacavam grandes pedreiras, onde os trabalhadores escavavam o chão a procura de minérios e quebravam as rochas para vendê-las ao governo, que utilizava o material para a construção civil. Pewter realmente era um lugar onde havia emprego fácil e moradia confortável para famílias recém-chegadas.

Flint, o pai de Forrest e Bruno eram os filhos mais velhos. Desde cedo ajudaram na pedreira, cortando e quebrando pedras, transportando-as com os caminhões por toda a região de Kanto, no período em que o continente se industrializava e se modernizava, em que suas cidades começavam a ganhar prédios e avenidas, além das primeiras fábricas. Ainda jovens, aprenderam a trabalhar juntos e ajudar a família em tudo o que era necessário, sempre foi um valor que o pai fazia questão de passar para os filhos. Foi durante este período que os dois conseguiram seus primeiros Pokémon, dois Geodude, presente do pai como reconhecimento do esforço dos filhos.

Conforme foram crescendo, os dois começaram a ter suas divergências. Flint queria estabelecer-se na cidade, crescer na empresa e ajudar a família dessa forma. Bruno já tinha o pensamento de que os dois ajudariam os familiares bem mais caso saíssem em uma jornada Pokémon, dessa forma, poderiam ser bem sucedidos sendo treinadores vencendo a Liga.

Os dois irmãos discutiam, mas nunca chegavam a um consenso.

Um dia, após mais uma briga, Bruno saiu de casa para seguir a idéia de ser um treinador Pokémon e teve sucesso em sua jornada, tornando-se logo em seguida membro da Elite 4.

A pedreira onde Flint trabalhava fechou. Desempregado, seguiu a contragosto o conselho do irmão e usando seu incrível talento em batalhas, assumiu o Ginásio de Pewter e tornou-se um grande pesadelo de treinadores novatos que ousavam querer desafiá-lo para conquistar uma Insígnia.

Quando Forrest tinha seis anos, lembra-se de um jantar em especial. Era aniversário de seu pai e seu tio Bruno apareceu. Após muito tempo sem se ver, a família achou que era uma ótima oportunidade dos dois reatarem a amizade que tinham quando jovens. O garoto viu seu pai partir para cima do irmão, xingando-o e o expulsando da residência e logo em seguida, dizer aos filhos que estavam proibidos de manter algum contato com Bruno, que ele, enquanto estivesse vivo, jamais permitiria que seu irmão mantivesse algum contato com sua família. Forrest nunca entendeu o motivo da grande raiva de seu pai para com seu tio. Anos mais tarde, quando sua avó contou sobre a história, pensou no quanto seu pai havia exagerado. Cortar laços com um irmão só porque ambos pensavam diferente? A família havia deixado de trabalhar na pedreira e estava muito bem, com Flint e Bruno ajudando no sustento dentro de empregos de destaque, então era estranho a briga dos dois não ter sido resolvida. Mas não era algo que ele devesse se meter, afinal, sempre teve um grande respeito tanto por seu pai, quanto por seu tio, e achava importante não tomar um partido.

Forrest deixou de lado os pensamentos e levantou-se do telefone. Havia chegado a hora de deixar seu passado para trás e começar a trilhar um novo futuro. Saindo do Centro Pokémon, o garoto respirou fundo e partiu sem pestanejar em direção ao local combinado para o encontro com Bruno: O Monte Mortar.

***

Já era noite quando Ethan acordou na cama do Centro Pokémon. Sua cabeça estava enfaixada. Também estava com uma tala em seu braço, que doía bastante.

Ao olhar para os lados, viu Amy sentada numa poltrona no quarto. A garota tinha um curativo na têmpora esquerda e um na bochecha direita. Tirando isso, ela parecia não ter se machucado. Ela o encarava de forma séria.

— Amy... Que bom que você está bem. Eu fico feliz. — Sorriu o menino, fazendo-a corar.
— Sou eu que fico feliz em ver que você acordou. E vivo. — Ela sorriu. — Obrigado por ter feito aquilo... Por ter quase se sacrificado por mim. Te devo uma.

Ethan ficou sem graça.

— Hehehe... Não foi nada. Você não me deve nada. — E mudou sua expressão. — E o Forrest? Algum sinal dele?

Os grandes olhos azuis de Amy mudaram de expressão. Ficaram preocupados. Mas Amy continuava intrigada.

— Ele sumiu, Ethan. E deixou os Pokémon dele pra trás.

Ethan soltou uma exclamação.

— Como é?!
— Quando desmaiamos, ele veio até o Centro Pokémon e pediu para a Enfermeira Joy cuidar de Rhyhorn. Deixou todos os Pokémon com ela e... Não voltou pra buscá-los.

Ethan a encarou incrédulo.

— Eu não acredito nisso!
— E tem mais. Ao ficarem sabendo, os Pokémon dele decidiram sair do Centro Pokémon e ir atrás de Forrest. Ninguém conseguiu pegá-los. Eles ameaçaram a Enfermeira Joy e quem tentava impedí-los.

Ethan estava estupefato. Como aquilo podia ter acontecido?

— Então a gente tem que ir atrás dele! — Exclamou o garoto.
— É impossível. Não sabemos onde ele está.
— Mas tem a Butterfree! E você tem a Pidgeot! A gente pode procurar pelo céu e...
— Ethan, não! — Amy exclamou. A garota chorava. — Eu amo você. Eu amo o Forrest. Mas, por favor... Deixe ele ir embora.

Ethan a encarou surpreso.

— Amy...
— Nós não vamos obrigá-lo a ficar conosco. Deixe ele ir embora, pra sempre, se quiser! Eu só... Eu só quero que ele... Fique bem...

Amy caiu aos prantos. Ethan levantou-se de sua cama e, mesmo com o corpo doendo a cada movimento que o garoto fazia, ele resistiu e foi até a garota, abraçando-a e chorando também.

— Por que, Amy? Por quê? — Ele perguntou aos prantos.

***

No sopé do Monte Mortar, Forrest via seu tio aproximar-se montado em um imenso Onix. A lua cheia iluminava a Rota 42 e a noite calma era silenciosa. O moreno só ouvia sua respiração e o enorme barulho do gigante Pokémon que se aproximava. Ao descer, Bruno encarou Forrest e permitiu que o garoto o abraçasse por alguns segundos.

— Muito bem, por que você me chamou? — Perguntou Bruno após o sobrinho largá-lo.
— Quero me tornar merecedor de substituir Brock no Ginásio.
— E como você pretende fazer isso?
— Me tornando mais forte!
— Então você me autoriza a treiná-lo sem questionar meus métodos?
— Totalmente!
— Sem questionar meus métodos?

Forrest encarou o rosto sério do tio. Ele não parecia estar fazendo uma pergunta aleatória, e o fato de repeti-la fez o moreno engolir em seco e refletir melhor na resposta que daria em definitivo.

Ao fechar os olhos, o garoto reviveu a última conversa com Argenta.

— Eu derrotei você com apenas dois golpes. Dois. E você ainda se considera um treinador dos tipos Pedra? — Questionou para o garoto.
— Eu... — Forrest ia tentar se explicar, mas foi interrompido por Argenta, que aproximou-se de seu ouvido.
— Se eu soubesse que iria perder tempo com alguém como você, eu teria escolhido outra pessoa para lutar em seu lugar. Você nunca irá assumir o Ginásio de Pewter se você continuar pensando como um treinador medíocre.

Forrest olhou para Argenta com os olhos cheios de lágrimas.

— Argenta, eu...
— Garoto, você diz que é meu fã, mas nem parece se inspirar em mim. Espero que da próxima vez que o encontrar, você pelo menos consiga aguentar mais de cinco minutos numa batalha Pokémon.

Forrest olhou os olhos negros de seu tio.

— Sim. Definitivamente — respondeu.

Bruno cruzou os braços e ergueu-se perante o sobrinho, numa visível posição de superioridade.

— Ótimo. Agora me diga como você pretende assumir o Ginásio de Pewter.
— Ficando muito mais forte do que sou agora!

Forrest sentiu seu rosto arder. Bruno desferiu um tapa que fez o garoto ver estrelas. Lágrimas involuntárias de dor vieram imediatamente, mas o moreno não deixou que elas escorressem por seu rosto. Olhando incrédulo para Bruno, Forrest não entendeu o motivo da agressão.

— Força, em qualquer sentido, nunca é a resposta. Se você quer ser um treinador melhor, você deve aprender primeiro a ser uma pessoa melhor.

Forrest ergueu as sobrancelhas.

— O que quer dizer com isso?
— Primeiramente você deve analisar o motivo de você se achar incompetente. Só depois disso é que você poderá enxergar o melhor caminho pra, como você diz, ser forte.

Forrest respondeu de forma afirmativa com a cabeça.

— Entendi o que quer dizer...
— Pedi para que você viesse sozinho, inclusive sem seus Pokémon, porque você precisa primeiro entender a si próprio pra só depois começar a dar ordens aos seus Pokémon. E não se preocupe, na hora certa eu sei que eles aparecerão para auxiliá-lo no treinamento — Bruno virou para Onix, retornando-o para a PokéBola, começando a caminhar logo em seguida. — Venha comigo.

Os dois rumaram para o interior do Monte Mortar. Caminharam em silêncio, molhando os pés na trilha alagada que dava na cachoeira da enorme caverna. Forrest olhava admirado para as estalactites que enfeitavam o local. Bruno também encarava os arredores, porém acompanhado de uma expressão séria.

— Estranho... Esse lugar está bastante esquisito.
— O que foi, tio?
— Desde que entramos que eu não vejo nenhum Pokémon por aqui. Tem algo errado.

Forrest voltou sua atenção para o ambiente que o cercava. Bruno tinha razão, um lugar imenso daquele e nenhuma forma de vida ao redor. As coisas não estavam cheirando bem.

Os dois iam caminhando cada vez mais para o fundo da caverna. A cada passo dado, mais escuro ficava. Quando o garoto indagou sobre isso, Bruno foi direto.

— Siga seus instintos. Um treinador Pokémon sempre usa todos os seus instintos em uma batalha, isso ajuda a prever o movimento do oponente.
— Como? — Perguntou o moreno curioso.
— Seu oponente sempre demonstra sinais com o corpo. Se ele está tenso, sua respiração muda. Se ele está planejando surpreender você por trás, seus olhos sempre ficarão de olho no Pokémon que está enfrentando. Se ele não sabe o que fazer, irá transpirar frio. Domine seus sentidos e traga-os sempre para o campo de batalha.

O garoto fez um sinal positivo com a cabeça.

A grande cachoeira saudou a dupla. Os dois caminharam até onde a queda d’água tocava com força o chão. Forrest ajoelhou-se, encheu as mãos com água e bebeu enquanto Bruno encarava o topo da cachoeira em silêncio.

— Se você quer se tornar um treinador Pokémon imbatível seja como a água. Sem forma, sem contorno. Seja seu objetivo. Olhe essa cachoeira, por exemplo... Ela é imensa, mas não está ali sozinha. Essa água que nós bebemos nos acompanhou desde a entrada da caverna, e agora alimenta essa cachoeira enorme.

Forrest levantou-se e tirou sua camiseta, jogando-a no chão e deixando o fluxo da água levá-la para longe. Bruno virou para o sobrinho e o encarou de forma séria.

— Vamos começar seu treinamento.

***

Ethan recuperava os sentidos. Deitado em um quarto com as paredes brancas e cuja fronha do travesseiro cheirava a lavanda, o garoto começava a perceber novamente o mundo ao seu redor. Os bips do monitor cardíaco eram a única companhia que ele tinha naquele instante, enquanto tentava fazer sua visão voltar ao normal. Ele via estrelas piscando incessantemente no teto do quarto. Se sentia meio grogue, com a cabeça pesada e sem saber ao certo onde estava. Olhou para baixo e viu que vestia uma camisola hospitalar verde com o símbolo de uma PokéBola no peito. Em seu braço direito, uma agulha ligada a uma sonda pendurada ao lado da cama estava enfiada em sua veia.

— Eu queria saber qual é a dessa coisa de você toda vez parar no hospital.

A voz de Red fez Ethan soltar uma exclamação baixinha. O garoto aproximou-se do leito do rapaz.

— Você nos deu o maior susto. Encontramos você desacordado no Monte Mortar e o trouxemos imediatamente pro Centro Pokémon de Mahogany.
— Onde está a Amy?
— Ela está bem. Vou avisar que você acordou, ela estava bastante preocupada.

Red saiu do quarto. Após alguns minutos, Amy entrou.

— Como é que você está?
— Acredito que inteiro. Acho que não quebrei nada. E você?
— Me recuperando também. Você dormiu o dia inteiro...
— Algum sinal do Forrest?
— Nenhuma. Já tem quase duas semanas que ele sumiu...

Ethan tentou levantar-se da cama.

— Ei, o que você pensa que está fazendo? — Perguntou Amy.
— Eu tenho que procurar o Forrest...
— Você não pode, precisa descansar. — A garota gentilmente empurrou Ethan de volta para a cama.
— Amy, precisamos encontrar ele...
— Eu sei, mas... Você precisa ficar bem primeiro. Olhe, estamos em Mahogany, saberemos se ele passar por aqui. Agora descanse bastante pra que a gente possa seguir viagem, tudo bem? — A garota deu um beijo na testa de Ethan, que ficou vermelho de vergonha.

Na recepção do Centro Pokémon, Red permanecia sentado no sofá macio de couro. Perdido em pensamentos, acabou por levar um susto quando ouviu seu PokéGear tocar. Ao pegar o objeto, viu o nome de Lance no visor.

— Alô?
Temos problemas. Vou precisar da sua ajuda.
— Onde você está?
Ao norte da Rota 43, no Lago dos Magikarp.
Estou indo.

O garoto saiu do Centro Pokémon e sacou uma PokéBola. Liberou Charizard, montou em seu dorso e voou em direção ao norte.

***

Rhyhorn, Steelix, Sudowoodo, Graveler e Shuckle caminhavam no interior do Monte Mortar liderados por Heracross. Caminhavam quase marchando. Não se deixavam abater pelo cansaço, mesmo que este fosse como uma grande bigorna que esmagava o corpo de cada um deles. Foi Steelix quem viu primeiro, avisando aos outros em seguida.

Forrest suava. Com hematomas por todo o corpo, o garoto brigava contra um Hitmonchan, que partia para cima do moreno sem piedade. O Pokémon deu um soco no rosto do garoto que caiu ao chão. Ele sentiu a aproximação pesada ouvindo os trotes das patas sobre o chão. Seus Pokémon fizeram um cerco ao seu redor, rosnando para Hitmonchan. Incrédulo, Forrest olhou para cada um dos rostos presentes.

— Pessoal...

Bruno surgiu e aproximou-se do grupo.

— Ora... Então realmente seus Pokémon conseguiram superar todos os desafios apenas para encontrar você no final. Interessante... — Muralha pegou uma PokéBola.

Forrest levantou-se do chão. Seu olho esquerdo estava fechado, de tão roxo e inchado que estava. Tinha feridas no pulso, arranhões no braço e cicatrizes no peito nu. Estava mais magro, suas pupilas estavam dilatadas e sangue escorria de seu nariz.

Um rugido distante chamou a atenção de todos os presentes. Charizard, ao longe, voava veloz na direção de um raio púrpuro enorme que cortava o céu de Johto.

Bruno deu um sorriso sádico.

— Está na hora de vermos os resultados do seu treinamento intensivo de duas semanas.


TO BE CONTINUED...

 

{ 12 comentários... read them below or Comment }

  1. Eu curti essa atenção especial que você deu ao Bruno, e também a construção de uma ligação entre ele e o Forrest. Faz bastante sentido esse parentesco, e ainda por cima ele será bastante útil para o desenvolvimento do Forrest como personagem.

    Belo tapa que o Bruno deu nele, por sinal. Tá na hora de colocar o garoto pra pensar como um treinador de respeito! Acredito que após esse treinamento veremos um Forrest muito diferente do que estávamos acostumados.

    E já falei, quero ver o Forrest devolvendo a humilhação naquela velha sem caráter!

    Agora vamos ver o que estará acontecendo no Lago dos Magikarps. Lance e Red se dirigindo pra lá, e pelo visto Bruno e Forrest vão acabar indo também. E ainda suspeito que Ethan e Amy vão tentar se intrometer nisso também, porque eles são do tipo que adoram um problema.

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    1. Yo, maninho!

      Pois é. Acho que nesse ponto da história, as coisas precisam se desenvolver rápido, mas com um pé firme no chão. Quando comecei a notar que o Forrest estava ficando para trás, precisava fazer alguma coisa. E então, a velha teoria de que Brock e Bruno são parentes me veio a cabeça. E nada melhor do que retratar isso agora, né? Fico contente que tenha dado certo!

      E, é claro, estamos falando de um Elite 4. As coisas funcionam de forma mais hardcore, e inclusive isso quer dizer que vale tiro, porrada e bomba. Forrest quis usar cheat pra ficar mais boladão, e isso tem consequências. Agora sim ele tá virando homenzinho. Heheheh. Não se preocupe, to ansioso pra ver ele devolvendo a porrada na Argenta logo, logo.

      Após um leve desvio, AeJ volta a focar em seu enredo. O Lago dos Magikarp é parte importante do plot nos jogos e começa a ser representado dentro da história. Estou ansioso pra ver o que é que vai acontecer... Se Amy e Ethan estarão na bagunça, eu não sei, mas, a porrada vai comer, isso é garantido. Hehehe

      Espero que continue curtindo!

      See ya!

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  2. Não dá pra esconder que o Forrest era de longe o personagem que eu menos gostava da sua história, mas de tanto pegar no seu pé parece que o jogo virou, não é mesmo? kkkkk Eu acho isso fantástico mano, é uma das características que mais prezo nas fanfics. Se algo começa a incomodar os leitores, você tem tempo de melhorar e fazê-los mudar de ideia. E você conseguiu mano, o Forrest está se tornando aquele treinador Rock-type que merece meu respeito!

    Foi uma ótima experiência participar da construção desse capítulo, minha parte predileta foi todo o envolvimento humano do Bruno e essa briga antiga com o irmão. Quem já teve problemas na família sabe que basta um olhar torto e é o suficiente para acender uma fagulha e todo mundo se separar, eu entendo o receio do Forrest em ter levado todo esse tempo para reunir a coragem e pedir ajuda. Ele reconheceu que precisava melhorar, e isso o torna mais forte do que qualquer outro. Sem contar que você prepara o terreno para um personagem que será muito importante na terceira temporada, só quando estamos na porta da Liga que pensamos em todo o processo de desenvolvimento que dedicamos aos membros da Elite. Às vezes conseguimos criar ótimos personagens, às vezes fica a vontade de ter feito mais. Eles são os antagonistas finais, pô! Capricha na Karen, hein?

    Sabe, eu nunca tinha parado pra pensar como Ethan e a Amy sentiriam falta do Forrest caso ele saísse. Acho que nem eles tinham pensado. É só quando perdemos um amigo e pensamos numa piada que seria bacana compartilhar ele, mas onde ele está? Tentamos dizer a nós mesmos que é melhor ficar longe, que cada um pode decidir o que fazer da sua vida, mas é... foda. Esse arco final vai servir como uma verdadeira prova para os três, espero que eles voltem mais fortes e unidos do que nunca para a terceira temporada, porque eles merecem. A cena toda foi excelente. Mesmo que você pense que esse capítulo não ficou no nível dos últimos (até porque você veio numa onda desenfreada de capítulos que sempre superam o anterior!), eu acho que esse foi um dos mais importantes para desenvolver um personagem que carecia desse cuidado. Se esperasse mais, ficaria cansativo. Veio na hora certa e com um excelente nível cara, tá de parabéns!

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    1. Yo, Canas!

      Sempre costumo dizer que as fics da Aliança são histórias abertas. Desde o primeiro capítulo que eu venho fazendo diversas modificações nos capítulos futuros, mudando finais, acrescentando arcos... Tudo baseado nos feedbacks dos leitores. E eu realmente gosto muito disso, porque isso me faz melhorar como autor, me faz desenvolver uma história melhor e, principalmente, prestar atenção no que o público espera. Você, que lê a história, com certeza sabe mais do que eu que estou escrevendo, porque escrever é um exercício constante, e muitas vezes nós, autores, estamos tão focados em desenvolver os próximos capítulos que esquecemos de certos detalhes que escrevemos em capítulos passados. Adoro o Forrest, ele é um dos meus personagens favoritos. Como costuma acontecer, seu brilho acabou sendo ofuscado pelo desenvolvimento dos colegas, então eu tive que parar tudo pra corrigir isso. E graças à sua grande ajuda é que temos novamente o trem voltando aos trilhos, e justamente nesse ponto da história em que pontas estão começando a se fechar. Resta saber agora como é que Forrest irá se encontrar com Ethan e Amy, e estou trabalhando pra que seja um reencontro digno de todo o desenvolvimento escrito.

      Sem contar que temos personagens novos: A Elite 4. Personagens que, como você disse, não costumam aparecer desde o começo da história. São personagens que sabemos que iremos encontrar, são o desafio final para qualquer treinador Pokémon e começar a trabalhar com eles agora, ao mesmo tempo que trabalhamos um dos protagonistas, acaba ajudando a interagir com eles, saber como eles pensam, e isso me agrada muito. E quanto a Karen, não se preocupa. Ela e o Will são os meus xodós de todos os jogos Pokémon. Estou pensando com carinho em todos os passos e diálogos que eles darão nas próximas aparições no Aventuras em Johto. ♥

      A insegurança de um episódio novo é sempre muito grande pra mim. Nunca sei se o capítulo será igual ou melhor do que o que já foi postado, então eu também agradeço pelo feedback sempre sincero. Por sua causa, AeJ é o que é hoje, afinal, não é qualquer um que pode ter Canas Ominous como leitor, revisor e amigo. ♥

      Agradeço por tudo e espero que você esteja comigo até depois do fim!

      See ya!

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  3. E finalmente eu estou atualizado com AeJ!
    Eu sempre gostei muito do Brock, então acho que finalmente o Forrest vai ser o treinador de respeito que ele merece! Ele tem que conseguir dar um um tapa nível Bruno naquela velha da Batalha da Fronteira!
    Espero que ele reencontre o Ethan e a Amy logo, e que o Flint finalmente perdoe o irmão.
    Espero ansiosamente a próxima semana!

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    1. Yo, Kill!

      Quem diria que você chegaria chutando o pau da barraca, assumindo a irmã de AeJ, Kanto, e ainda por cima se atualizando de forma rápida nessa humilde história. Tá me surpreendendo, hein? kkkkkk

      Forrest é um dos meus personagens favoritos, e poder trabalhar com ele assim, de forma quase solo, é um prazer. Mesmo que seja difícil elaborar enredos para uma montanha que quase não interfere diretamente no plot do game original, o suor de inventar situações e roteiros é prazeroso no fim das contas. Fico feliz pela torcida por ele e vamos ver se o treinamento fez efeito, não é mesmo? Estou ansiosíssimo pra revanche contra a Argenta!

      Encontros e perdões, é um excelente título para um capítulo. Eu também espero que tudo se acerte em breve, afinal, isso faz parte (e muito importante) de qualquer jornada e história. Que bom que você agora poderá acompanhar tudo bem de pertinho!

      Espero que continue curtindo!


      See ya!

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  4. Glória! Voltou ao normal!

    Cara, tá bem bacana o plot, acho que vai ser o melhor arco desta história! Pois veremos os personagens amadurecendo, personagens se revelando e muita Rocket, ao meu ver. Só lhe peço pra não inventar um plot twist que dê Ether ou Silvan (Ethan, Silver). É só porquê este tipo de coisa tem de ficar lá no Nyah! Lá...

    Bem, amei o fato de você por o Bruno como tio de Forrest e cara, eu tô achando que naquele lago vai rolar de T-U-D-O! E é só.

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    1. Yo, Sir!

      Fico feliz que eu esteja te empolgando! É bem difícil manter o alto nível numa história que já tem 45 capítulos. Espero não te decepcionar com as reviravoltas que vem por aí. Pode contar com muita Equipe Rocket, novos personagens e ainda que Ethan e Silver possam ter alguma ligação, acredito que não seja algo desse tipo. Mas, tudo pode acontecer, eu não garanto nada. Só não me bata depois, por favor. HEAUHAEUHEAUEAHEA

      Sim! Bruno é tio do Forrest. A Elite 4 mostrando que tem uma história tão importante quanto ser o último desafio dos jogos... Afinal das contas, é preciso causar uma boa impressão pra personagens tão poderosos e famosos quanto eles, e eu, sinceramente, espero ter conseguido isso. E não se preocupe, estou tentando fazer algo fantástico pro Lago dos Magikarp.

      Espero que você continue se surpreendendo!

      See ya!

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  5. esse capítulo foi cheio de novidades, verdade?

    primeiro, forrest. o grande ponto de interrogação dos últimos capítulos parece que começa a ser resolvido, com a ajuda de nada mais, nada menos, que bruno - membro da elite dos 4. eu adorei essa backstory criada *a volta da família de forrest e como isso se interliga agora, no presente, e como o papel de bruno é essencial para o desenvolvimento do nosso personagem. quem diria, verdade? e finalmente, duas semanas do seu desaparecimento, a equipa do nosso fugitivo encontra o seu mestre! que parece estar diferente... mais duro de roer. eu quero muito ver esse novo forrest em ação!

    outro ponto, ethan, amy e red, que agora estão também reunidos e de volta ao hospital... outra vez. fico contente que os dois se tenham reencontrado, apesar de todas as circunstancias.

    agora só falta o trio principal se reencontrar de vez! e parece que a team rocket e a elite dos 4 vai estar envolvida também!

    VEM DRAMA!

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    1. Yo, Angie!

      Finalmente tudo foi resolvido! Forrest retornou badass e com sangue nos olhos. Acho que nosso garoto cresceu. kkkk Apesar de ter usado hack e ter apelado pra um Elite 4, ele tava merecendo ganhar uns níveis a mais de exp.

      Agora, nossos protagonistas estão de volta - com aliados - e tudo isso vai causar um rebuliço. Essa história toda não acabou.

      SE PREPARE!

      Espero que continue se surpreendendo!

      See ya!

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  6. Finalmente nós conseguimos notícias do Forrest, até eu já estava ficando preocupada com o sumiço que o moleque deu e finalmente faz sentido ele ter deixado os pokémons. No fim, ele não os abandonou por vontade própria e sim como um requisito do próprio Bruno para treiná-lo, visto que o menino já não tinha mais tantas auternativas. Coitado, tá virando saco de pancada dos pokes, mas tenho certeza que o Bruno não está fazendo isso a toa, um treinamento para "endurecer" o sobrinho é mto bem vindo.
    Eu gostei muito do Bruno ter aparecido nesse capítulo e por finalmente ter ganhado um plano de fundo, diferente do que nas outras histórias que já li. Muito legal ele ser tio do Forrest pq eles parecem e essa relação com o irmão, uma simples bobagem que acabou por repercutir em toda família, não é a toa q o cara esteja tãoo sozinho.
    Esse capítulo ficou realmente mto bem feito, meu bem. Já aguardando os próximos!

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    1. Muito bom seu comentário Carol, continue com seu trabalho duro e trazendo mais apoio ao nosso querido escritor de Aventuras em Johto.

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