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Interlúdio III

 


Forrest Mason não sabia muito bem que horas eram; sentia apenas que estava ali a um bocado de tempo.

A algema em seu pulso esquerdo presa na cama do hospital o impedia de se movimentar como gostaria. Não que tivesse muita opção, afinal de contas, seu corpo inteiro parecia moído. Além do mais, sua perna estava imobilizada, o que o impedia de caminhar de qualquer jeito.

O som dos bipes dos monitores eram sua companhia. Ainda meio tonto, olhou para a porta do quarto e viu dois homenzarrões fardados fazendo segurança na entrada. Ele sabia que eram policiais e explicava o porquê estava sozinho no quarto. Ele provavelmente seria interrogado por horas a fio assim que vissem que ele estava acordado.

O problema era que o garoto mal se lembrava do que acontecera. Ele sabia que estava em uma batalha e que o último golpe tinha sido ordenado por ele. “Explosion!”. E então, algo em sua mente fora deletado. Simplesmente não existia. Era uma névoa densa que fora colocada no lugar de algo realmente importante.

Provavelmente ele foi atingido. Isso explicaria a atual situação em que se encontrava. Mas e a algema? Por que estava sendo tratado como criminoso?

Uma enfermeira entrou no quarto. Dirigiu-se até a cama onde Forrest estava, olhou os monitores e checou os soros. Anotou alguma coisa em sua prancheta, sorriu para o menino com certa ternura e deu as costas para ele, voltando para o corredor de onde tinha vindo. Não demorou muito para que uma segunda pessoa entrasse na enfermaria.

Era um homem alto, cabelos desarrumados e olhos cansados que vestia um sobretudo marrom. Seus passos ecoaram pela sala de interrogatório, muito mais alto do que deveria. Forrest, com olhos semicerrados pela luz forte, tentou fazer contato visual com o homem, mas mal conseguiu ver seu rosto.

Em um movimento breve e silencioso, ele apoiou uma lata de refrigerante em cima da mesa e retirou uma pasta de dentro do sobretudo antes de retirá-lo também, pendurando-o no antebraço, mostrando-se com um terno, também marrom, que, diferente dos cabelos do homem desconhecido, estava impecável. Um distintivo brilhante era exibido pendurado no cinto.

 

— É um prazer conhecê-lo, Forrest, apesar das circunstâncias infelizes.

 

O homem olhou para o garoto e sentiu pena. Ainda era possível ver cicatrizes e machucados no rosto do rapaz.

Forrest não respondeu à simpatia dele.

 

— Estou aqui para colher o seu depoimento. Eu estou vendo o quanto você está machucado e o quanto deve estar com dores, mas eu acredito que, se colaborar comigo, eu posso ser de grande ajuda para você. E, quanto mais cedo resolvermos isso, mais cedo você descansa.

 

Forrest voltou a olhar para o homem. Diferente dos outros dois policiais carrancudos que estavam na porta, este tinha uma fisionomia gentil, apesar da expressão de urgência em seu rosto.

Pensando bem, ele sequer parecia policial. Ainda assim, o garoto resolveu não dar confiança. Ele não sabia o motivo daquela visita.

O homem pegou a pasta e a colocou em cima das pernas de Forrest, puxou uma cadeira e se sentou de frente à cama. Entrelaçou os dedos e sorriu. Não era um sorriso verdadeiro. Ele estava apenas tentando ser simpático.

 

— Bem, vamos começar do começo. Eu sou um agente da Polícia Internacional. Meu atual codinome é Bellocchio. Mas também pode ser Looker, dependendo de onde eu estou. Eu não gosto tanto assim dele, mas preservar a nossa identidade é algo vital na profissão que eu tenho.

 

Bellocchio abriu a pasta e virou-a para Forrest.

 

— Eu sei que parece que você se encontra em uma situação difícil, mas eu garanto que podemos resolver isso.

— Não precisa ser muito esperto pra entender que se um agente da Polícia Internacional quer te fazer perguntas, é porque você fez uma cagada muito grande. E eu sei que isso é bastante clichê, mas eu juro que eu não lembro de nada... Nada que me faça entender o motivo de supostamente eu estar encrencado. Eu só me lembro de uma explosão e mais nada. Acordei aqui sem conseguir não sentir dor enquanto me mexo. Sem falar na algema.

 

O homem assentiu com a cabeça.

 

— Eu vou ser direto. Você está sendo acusado de terrorismo após ter explodido e destruído metade de Ecruteak. Pessoas morreram. Prédios, casas, ruas e até mesmo a Torre do Sino foram destruídos. E não tenho muito tempo antes de aqueles caras — e apontou para os homens que faziam guarda na porta do quarto — verem você se recuperar totalmente para te conduzirem a julgamento, onde provavelmente você ficará a vida toda na prisão. Primeiro em um internato, por ser menor de idade, e depois, em um presídio de segurança máxima.

 

Forrest engoliu em seco. Aquilo era muito pior do que imaginara.

 

— E como o senhor pode me ajudar a sair dessa?

— Eu não disse que ia te ajudar a sair dessa. Você realmente causou toda essa confusão.

— Então por que o senhor disse que pode ser de grande ajuda?

— Porque apesar de tudo, eu sei que você estava no lugar errado e na hora errada. E eu preciso provar isso.

 

Bellocchio apontou para a pasta e Forrest a abriu. Dentro dela, havia diversas fotos em sequência de várias pessoas, homens e mulheres, que o garoto não conhecia.

 

— Você viu alguma dessas pessoas durante o evento? Lembra de alguma delas em específico?

— Não, eu não lembro... Eram muitas pessoas e eu estava concentrado na batalha.

— Entendo — comentou Bellocchio, sem se prolongar muito.

 

Forrest continuou olhando as imagens até soltar uma exclamação baixinha. Havia ali alguém que ele não só reconhecia, mas conhecia bem.

 

— Essa é a Amy! Eu não lembro de ter visto ela lá, mas eu a conheço. O que a foto dela está fazendo aqui? — perguntou o garoto encarando o investigador.

 

Bellocchio não respondeu. Forrest voltou a olhar as imagens. Na próxima página, outro rosto conhecido.

 

— Esse é o Ethan! Ele está aqui também. O que isso significa?

 

Enquanto o garoto tentava obter respostas que não lhe eram dadas, outros rostos apareceram.

 

— Esse aqui é o Giovanni, não é? E esses quatro aqui são da Equipe Rocket. Administradores, eu acho. Eu os vi em Mahogany. E esse é o Silver.

 

Não demorou muito para Forrest juntar as pontas.

 

— Não. Amy e Ethan não fazem parte da Equipe Rocket e absolutamente não têm nada a ver com nada disso! As fotos deles nem ao menos deveriam estar aqui!

— Entendo — disse Bellocchio, concluindo um raciocínio. — Então é apenas coincidência você ter viajado meses com eles, mesmo sabendo que Amanda Green é uma ex-executiva da Equipe Rocket. Ou da vez em que vocês se uniram na cidade de Mahogany com os Rockets naquele evento em que o quartel-general deles foi explodido e deixou Pryce, o Líder do Ginásio local, paraplégico. Sim, eu estou sabendo disso também.

 

O garoto estava nervoso. Fechou os punhos com força e trincou os dentes.

Um grito estridente foi ouvido do lado de fora. Alto o bastante para ser ouvido de dentro do hospital e penetrante o bastante para arrepiar os pêlos no corpo de Bellocchio e Forrest.

O detetive olhou para a janela com preocupação.

 

— Droga. Ele está aqui.

— Ele quem? — questionou Forrest, tentando ver através da janela.

 

O homem não respondeu. Levantou-se da cadeira e dirigiu-se até os dois homens na porta do quarto e retirou o distintivo que estava preso no cinto da calça.

 

— Este garoto agora está sob custódia da Polícia Internacional. Liberem-no imediatamente.

 

Os dois homenzarrões se encararam com certa hesitação.

 

— Vocês não me ouviram? Agora está fora da ossada de vocês. Liberem-no imediatamente!

 

Um dos homens entrou no quarto, se dirigiu até a cama e retirou um molho de chaves do bolso, abrindo a algema que prendia o pulso de Forrest da cama.

Um estrondo ao longe pareceu uma explosão. Outra vez, um grito agudo e estridente, como o berro abafado de um pássaro, chegou aos ouvidos dos presentes.

 

— Não podemos perder mais tempo. Precisamos sair daqui o quanto antes.

 

Forrest, que massageava o pulso que estava algemado, olhou com certo ar de ironia para o detetive.

 

— Eu adoraria. Mas caso não tenha percebido, eu estou todo quebrado.

— Ah, sim, claro. Erro meu — Bellocchio caminhou até a porta. — Detetive, traga-a!

 

Sons de passos ágeis foram ouvidos do corredor. Forrest surpreendeu-se ao ver um Wobbuffet usando um chapéu fedora e uma Chansey cruzarem a porta.


 

— Wobbuffet? Você é o...

— Ah, não. Não é o do seu amigo. Esse aqui é o Detetive, ele trabalha comigo. Chansey, você poderia por favor utilizar o seu Heal Pulse?

 

O Pokémon cor de rosa acenou positivo com a cabeça e se virou para a cama onde o garoto estava deitado. Colocou as duas patas para frente e uma aura rosada foi emanada em direção à Forrest, que imediatamente sentiu seu corpo ficar mais quente. As dores que sentia foram sendo aliviadas como se ele tivesse tomado uma anestesia. Como mágica, seus ossos quebrados foram regenerados, suas feridas curadas e até mesmo a marca da algema em sua pele sumira completamente.

 

— Então é assim que um Pokémon se sente? Agora eu sei por que alguns atendimentos são tão rápidos... — comentou Forrest olhando para o corpo, impressionado.

— Muito obrigado, Chansey. Vamos, garoto. Detetive, faça as honras.

 

Detetive, o Wobbuffet de chapéu de Bellocchio, de forma ágil seguiu pelo corredor enquanto Forrest levantava-se da cama e percebia estar nu debaixo da camisola hospitalar. E pior: O vento batia na abertura em suas costas.

 

— Onde estão as minhas roupas?

— Queimadas. A explosão as rasgou.

— Eu não posso sair assim!

— Garoto, não temos tempo. É isso ou um uniforme penitenciário, o que você me diz?

 

Forrest encarou o homem com uma das sobrancelhas erguidas.

 

— Pelo menos um uniforme penitenciário não deixa a minha bunda a mostra.

 

O detetive jogou seu sobretudo marrom para o garoto.

 

— Vista isso. É o máximo que você vai conseguir por enquanto.

— Aonde nós vamos?

— Apenas me siga. E cuidado pra não morrer. Um raio pode sim cair duas vezes no mesmo lugar.

 

Forrest percebeu que não estava no Centro Pokémon. No fim do corredor estreito, havia escadas que levavam para um andar superior, como um bunker. Bellocchio se mantinha a frente do garoto e os dois Pokémon à sua frente, Wobbuffet e Chansey, rapidamente se encarregaram de abrir a porta quadrada que dava para o andar superior. Ao subir as escadas e passar por ela, a surpresa: Estavam no interior de uma casa vazia. Não havia móveis ou divisórias. Para quem passava do lado de fora, também não se podia dizer que havia uma enfermaria completa abaixo do piso daquela residência.

 

— Onde nós estamos, seu Pinóquio?

— É Bellocchio. Mas eu não te julgo, eu me confundo às vezes também. Por aqui.

 

O homem saiu pela porta da frente. Ali estava a Cidade de Ecruteak. Bem, pelo menos o que restara dela. Havia uma densa neblina, causada pela fumaça dos incêndios que ainda ardiam em alguns prédios. A paisagem estava devastada. Não dava para ver no horizonte a Torre do Sino, apenas uma densa e enorme nuvem de fumaça negra onde antes havia a construção.

Mas o que chamou a atenção de Forrest não foi a destruição horrível que ele provavelmente fora o responsável por causar, mas sim, a visão de Ho-Oh voando pelo céu.

E que visão! Um arco-íris saía da cauda e das asas da criatura mística. Suas penas cintilavam com os raios do sol. Sua presença imponente faria Forrest ficar observando-o o dia inteiro, até se esquecendo de que estava nu por debaixo daquele sobretudo que era um pouco maior que ele.

Ho-Oh voava baixo, em círculos. O grasno que soltava era um lamento de dor. Então era aquele o som que podia ser ouvido da enfermaria no subsolo.

Forrest foi trazido de volta à realidade com um puxão de Bellocchio. Wobbuffet e Chansey atentos, caminhando logo à frente.

O grupo tentava se desviar dos grandes pedaços de concreto e asfalto que estavam espalhados pelo chão e os impediam de seguir em linha reta. Tentavam andar de forma rápida, como se estivessem tentando se esconder de Ho-Oh que voava triste pelo céu. Forrest percebera que a cidade estava em silêncio: Apenas o som dos seus passos ecoava pelas ruas. Onde estavam os moradores? Era um mistério que não havia tempo para ser resolvido.

 

As portas do grande teatro se abriram. Já não tinha mais a beleza que ostentava há séculos, quando Forrest passara por ele meses antes na primeira estadia em Ecruteak. As colunas altíssimas que adornavam a entrada exibiam rachaduras. Os vitrais da fachada estavam praticamente todos quebrados. Os que resistiram, exibiam trincas e parte da entrada estava destruída. As grandes estátuas que outrora mostravam representações de Lugia e Ho-Oh jaziam estateladas no chão, representando agora o símbolo da completa e eminente derrota. Podia-se ver as vigas retorcidas e parte do telhado destruído.

Quando a luz do sol poente rasgou a escuridão do local, Forrest viu dezenas de pessoas aglomeradas, sentadas ao chão, colocando a mão na face para cobrir o rosto devido à claridade. Quando as portas se fecharam nas suas costas, o breu só não se tornou o Senhor do lugar pois os buracos no teto e das janelas e vitrais quebrados permitiram a passagem de luz. O garoto reparou que boa parte delas — se não todas — estava com ferimentos e machucados em partes do rosto e do corpo. Braços estavam em tipoias improvisadas, podia-se ouvir gemidos e lamentos de dor dos mais variados tipos. Chansey logo correu para ajudar algum Pokémon no meio daquelas pessoas feridas.

Alguém sentado próximo à porta levantou-se apontando o dedo na direção de Forrest e de Bellocchio.

 

— É ELE! ELE CAUSOU TUDO ISSO COM A GENTE! A CULPA É DELE!

 

Um grande tumulto se sucedeu. Quem podia, foi ficando de pé. O volume da massa sonora foi ficando cada vez mais alto. As pessoas foram se aproximando de Forrest tal qual uma Arbok prestes a dar o bote em uma presa. Elas não estavam felizes.

 

— Calma, pessoal. Eu sou da Polícia Internacional, vamos manter a calma — Bellocchio tentou se colocar entre as pessoas e o jovem. O Detetive Wobbuffet se uniu a ele, preparado para usar seu Counter se necessário.

— Você é da polícia? Então prenda esse cidadão! Olha o que ele fez com a nossa cidade, com a gente! — bradou uma mulher com um corte no rosto.

— Como você tem coragem de entrar aqui como se nada tivesse acontecido? Como se você fosse alguma vítima? — questionou outro homem com repulsa.

— Você deve pagar pelo que você fez... — ameaçou um outro.

 

Forrest paralisou. Ele sentia medo ao olhar para todas aquelas pessoas. O ódio delas era visível, maior do que qualquer hematoma, ferida ou queimadura nelas. Ele não soube o que responder. As palavras simplesmente não saíam de sua boca.

Uma voz cortou o ar e fizera as atenções se voltarem para ela.

 

— Vocês não sabem o que estão falando!

 

Ethan Heart apoiava-se entre duas crianças, Elaine e Chase, e mantinha uma postura curvada. Todo seu tórax estava enfaixado e o garoto estava visivelmente se esforçando para ficar de pé. Ao lado dele, Amanda Green erguia-se com a feição séria em um canto do que antes era um elegante e majestoso hall de entrada do Teatro Municipal. Ela estava diferente. Mesmo com a iluminação precária do lugar, ainda era possível ver as enormes olheiras em seus olhos. Ela havia emagrecido bastante; havia agora covinhas em suas bochechas e, diferente da última vez que Forrest a viu pessoalmente, há três meses, ela agora exibia cabelos mais longos que chegavam à cintura, sem esconder as mechas com o auxílio de um chapéu. Sua pele agora exibia um tom mais pálido, como fizesse algum tempo que não encontrasse com a luz do Sol. Havia sangue na camiseta azul e também na calça sarja de tons escuros que vestia, o que era indicado pelas manchas negras presentes na região das coxas.

 

— Ele tem razão — disse ela. — Eu posso dizer que vocês estão bem distantes da realidade.

 

Dentre as pessoas que cercavam Forrest, uma mulher pediu passagem e caminhava com dificuldade em direção à Amy, apontando o dedo da mão do braço que tinha livre, já que o outro estava imobilizado por uma tala improvisada.

 

— Você tem sido muito boa pra nós, senhorita Green. Como presidente da Associação dos Moradores da Cidade de Ecruteak, eu sou muito grata pelo seu cuidado com a nossa cidade desde que chegou aqui, principalmente em tudo o que se refere à Casa de Repouso, mas eu acredito que é a senhorita que não sabe o que diz. Esse rapaz explodiu e destruiu a nossa cidade, simples assim. Não tem desculpas, nem perdão, pro que ele fez.

 

Amy caminhou até o centro do hall e mantinha a feição séria.

 

— É muito fácil condenar alguém com raiva. Todos nós aqui estamos assustados com o que aconteceu, mas eu sei de quem é a culpa. E acredito que todos aqui deveríamos saber também. Não existem outros culpados nessa história, a não ser a Equipe Rocket.

 

Um burburinho começou a tomar conta do lugar. As pessoas se encaravam assustadas, algumas outras comentavam entre si, discutindo baixinho sobre o que ouviam.

A verdade é que não havia uma unanimidade sobre o assunto.

Um homem velho, com o rosto marcado de arranhões, um olho roxo e o braço envolvido em panos que se mostravam encardidos — muito provavelmente do sangue seco do machucado que não podia ser visto — permanecia encostado em uma das colunas que sustentavam o teto do teatro. Assim que ele falou, as pessoas se calaram.

 

— Mas como que a culpa de tudo isso é da Equipe Rocket se nós vimos, com nossos próprios olhos, a cidade explodir por causa do ataque que o garoto ordenou?

— Esperem! — Forrest se manifestou depois de algum tempo em silêncio. — O Explosion não tem força o bastante para destruir uma cidade inteira! Eu não julgo vocês por me odiarem... Mas eu também não sei o que aconteceu.

 

As pessoas no local o encararam com raiva. Seria melhor não ter dito nada.

 

— E é por isso que eu te trouxe aqui, para investigar as histórias — cortou Bellocchio. — Se você estivesse mentindo, iriam aparecer contradições nos testemunhos que a grande parte de vocês me deu. A senhorita Green tem razão. Acredito que o senhor tenha notado que a enfermaria em que o senhor estava se localizava no subsolo. Ecruteak é uma cidade que conta com localidades abaixo do chão porque quando a Torre de Bronze fora incendiada e os guardiões se enfrentaram, os moradores que viviam aqui naquela época pensaram em construir um local seguro para caso eles voltassem a se enfrentar novamente, haveria um lugar seguro para se esconder. Vocês podem me confirmar a informação?

 

Houve um momento em que as vítimas dentro do salão fizeram um murmúrio confirmando a história apresentada. Bellocchio estendeu as mãos para a frente, pedindo silêncio.

 

— Durante séculos, poucas vezes a parte subterrânea da cidade fora usada — continuou o investigador. — Então, é natural que com os acontecimentos de mais cedo, todos vocês esvaziassem a cidade sem necessariamente deixá-la.  Muitos de vocês que estão aqui agora não puderam descer até os subterrâneos porque neste momento ele se encontra sobrecarregado. Tem um Pokémon lendário lá fora triste porque a sua torre foi destruída e não sabemos como ele reagirá ao ver algum de nós lá fora.

— A Equipe Rocket conseguiu usar a cidade subterrânea para plantar dispositivos explosivos. O golpe que Forrest ordenou, sem querer, se tornou o combustível que fez tudo explodir e acabou causando uma reação em cadeia — explicou Amy. — Ninguém sabe como. Eu também não sei a forma, mas não restam dúvidas de que foi isso.

 

A presidente da Associação de Moradores logo se voltou para Amy.

 

— Como você pode dizer tudo isso sem provas? Tudo o que eu ouço é uma tentativa frustrada de não culpar o verdadeiro causador de tudo isso, esse moleque!

— Você quer provas, Valéria? Eu te dou uma prova.

 

Morty surgira como um fantasma por entre as pessoas, vindo do interior do teatro por entre os corredores que davam para o palco.

 

— A Equipe Rocket acabou de sitiar a Cidade de Goldenrod. A torre de rádio foi tomada, eles estão neste momento ao vivo para toda a região de Johto anunciando que eles voltaram e estão prontos para dominar o governo e estão dispostos a morrerem por isso, se necessário. Como Líder de Ginásio, é meu dever proteger todos os cidadãos, mas eu não sei se estou preparado para lidar com o que está vindo.

— E o que está vindo? — perguntou Valéria.

 

O som de uma explosão causou caos no interior do teatro. Do lado de fora, foi possível ouvir um bater de asas e o ribombar de trovões. Um rugido agudo e estridente cortou o céu e junto a ele, foi possível ouvir as gotas da chuva pesada que entrava pelos buracos e começava a cair no chão do hall de entrada.

Chansey tentava agilizar o mais rápido possível o uso do Heal Pulse nos feridos, mas parecia cada vez mais cansada. Os PPs do golpe estavam se esvaindo.

 

— Isso não é bom... — comentou Bellocchio. — São muitas pessoas pra uma Chansey só dar conta.

— Tem alguma coisa que nós podemos fazer? — perguntou Forrest.

— Rezar, garoto. Rezar — respondeu o investigador.

 

As portas do teatro foram abertas com violência. Dezenas de pessoas, entre homens e mulheres, vestidas com o uniforme negro com uma letra “R” rubra no peito e acompanhados por hordas de Pokémon como Golbat, Raticate, Weezing e Houndour se aglomeravam bloqueando a saída do teatro.

 

— Preparem-se para a encrenca e rendam-se ao domínio da Equipe Rocket! Entreguem seus Pokémon e vocês não serão ainda mais machucados — bradou um dos capangas.

 

O tumulto e o caos se instauraram. Os feridos tentaram correr e congestionaram as saídas de emergência. Eram muitas pessoas se empurrando e berrando de dor. Amy fez menção de se dirigir até a entrada para enfrentar os Rockets, mas Elaine a impediu.

 

— Temos que tirá-lo daqui! — disse a menina apontando para Ethan.

— Eu consigo dar conta desses cretinos... Eu não preciso que as minhas costas estejam bem pra isso... — comentou Ethan, visivelmente sem forças.

 

Amy hesitou por um momento.

 

— Ela tem razão. Você não está em condições de entrar numa batalha. Eles são muitos.

 

Forrest escapou de Wobbuffet e de Bellocchio, que estavam ocupados tentando deter a invasão da Equipe Rocket ao lado de Morty, e correu em direção aos amigos.

 

— Vocês estão bem? — perguntou o garoto.

— É bom te ver, cara, mas agora nós estamos com um grande problema — respondeu Ethan com um sorriso contido. — Por que você está com um sobretudo? E... Isso aí é uma camisola hospitalar?

— Forrest! — chamou uma voz feminina.

 

Sunny correu no contrafluxo na direção do moreno. A mochila que ela carregava nas costas enganchava nas pessoas e, muitas vezes, a prendia entre outras pessoas, mas ela insistia em chegar até ele. Forrest se apressou até ela e logo conseguiu fazer com que a namorada passasse pela barreira humana.

 

— Que bom que você está bem! — exclamou ela em um abraço caloroso.

— É bom te ver, meu bem! Onde está a sua irmã?

— Eu não sei... Eu não a vejo desde a explosão...

 

Forrest engoliu em seco.

 

— Não se preocupe, nós vamos encontrá-la.

 

A menina tirou a mochila das costas.

 

— Por que você está com esse sobretudo? E isso por baixo é uma camisola hospitalar...? — Sunny entregou a bolsa para Forrest. — Eu trouxe algumas roupas que você esqueceu lá em casa, achei que você pudesse precisar.

— Que timing perfeito... — comentou ele com um sorriso aliviado.

 

Alguns capangas da Equipe Rocket estavam se aproximando do grupo. Um deles reconheceu Amy.

No entanto, eles não conseguiam passar pela muralha de pessoas em desespero que tentavam chegar às saídas.

 

— O que nós vamos fazer? As coisas estão saindo de controle... — disse Chase, assustado com a muvuca que se instalara ali.

— Acho que eu sei por onde podemos ir — disse Amy olhando para os corredores que levavam ao palco. — Só precisamos ter cuidado com as feridas do Ethan.

— Não se preocupem comigo, eu tô bem — retrucou o garoto, soltando um grito de dor ao colocar-se de forma ereta sem querer.

— É, estou vendo, cabeção — disse Amy levando o braço dele até o ombro dela. — Forrest, você me ajuda?

— Claro! — Respondeu o morenopassando o outro braço no próprio ombro.

 

Enquanto a Equipe Rocket continuava o assalto, o grupo composto por Ethan, que era amparado por Amy e Forrest e acompanhado de Sunny, Elaine e Chase, seguia tentando desviar dos outros feridos indo por um caminho contraintuitivo para o interior do Teatro Municipal. A guerra havia se iniciado e os Rockets estavam ganhando. Não havia chance alguma de uma reviravolta naquele momento.

 

TO BE CONTINUED...


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