Interlúdio III
Forrest
Mason não sabia muito bem que horas eram; sentia apenas que estava ali a um
bocado de tempo.
A
algema em seu pulso esquerdo presa na cama do hospital o impedia de se
movimentar como gostaria. Não que tivesse muita opção, afinal de contas, seu
corpo inteiro parecia moído. Além do mais, sua perna estava imobilizada, o que
o impedia de caminhar de qualquer jeito.
O
som dos bipes dos monitores eram sua companhia. Ainda meio tonto, olhou para a
porta do quarto e viu dois homenzarrões fardados fazendo segurança na entrada.
Ele sabia que eram policiais e explicava o porquê estava sozinho no quarto. Ele
provavelmente seria interrogado por horas a fio assim que vissem que ele estava
acordado.
O
problema era que o garoto mal se lembrava do que acontecera. Ele sabia que
estava em uma batalha e que o último golpe tinha sido ordenado por ele. “Explosion!”. E então, algo em sua mente
fora deletado. Simplesmente não existia. Era uma névoa densa que fora colocada
no lugar de algo realmente importante.
Provavelmente
ele foi atingido. Isso explicaria a atual situação em que se encontrava. Mas e
a algema? Por que estava sendo tratado como criminoso?
Uma
enfermeira entrou no quarto. Dirigiu-se até a cama onde Forrest estava, olhou
os monitores e checou os soros. Anotou alguma coisa em sua prancheta, sorriu
para o menino com certa ternura e deu as costas para ele, voltando para o
corredor de onde tinha vindo. Não demorou muito para que uma segunda pessoa
entrasse na enfermaria.
Era um homem alto,
cabelos desarrumados e olhos cansados que vestia um sobretudo marrom. Seus
passos ecoaram pela sala de interrogatório, muito mais alto do que deveria.
Forrest, com olhos semicerrados pela luz forte, tentou fazer contato visual com
o homem, mas mal conseguiu ver seu rosto.
Em um movimento breve
e silencioso, ele apoiou uma lata de refrigerante em cima da mesa e retirou uma
pasta de dentro do sobretudo antes de retirá-lo também, pendurando-o no
antebraço, mostrando-se com um terno, também marrom, que, diferente dos cabelos
do homem desconhecido, estava impecável. Um distintivo brilhante era exibido
pendurado no cinto.
— É um prazer conhecê-lo,
Forrest, apesar das circunstâncias infelizes.
O homem olhou para o garoto
e sentiu pena. Ainda era possível ver cicatrizes e machucados no rosto do
rapaz.
Forrest não respondeu à
simpatia dele.
— Estou aqui para colher o
seu depoimento. Eu estou vendo o quanto você está machucado e o quanto deve
estar com dores, mas eu acredito que, se colaborar comigo, eu posso ser de
grande ajuda para você. E, quanto mais cedo resolvermos isso, mais cedo você descansa.
Forrest voltou a olhar para
o homem. Diferente dos outros dois policiais carrancudos que estavam na porta, este
tinha uma fisionomia gentil, apesar da expressão de urgência em seu rosto.
Pensando bem, ele sequer
parecia policial. Ainda assim, o garoto resolveu não dar confiança. Ele não
sabia o motivo daquela visita.
O homem pegou a pasta e a
colocou em cima das pernas de Forrest, puxou uma cadeira e se sentou de frente à
cama. Entrelaçou os dedos e sorriu. Não era um sorriso verdadeiro. Ele estava apenas tentando ser simpático.
— Bem, vamos começar do
começo. Eu sou um agente da Polícia Internacional. Meu atual codinome é Bellocchio. Mas também pode ser Looker, dependendo de onde eu estou. Eu
não gosto tanto assim dele, mas preservar a nossa identidade é algo vital na
profissão que eu tenho.
Bellocchio abriu a pasta e
virou-a para Forrest.
— Eu sei que parece que você
se encontra em uma situação difícil, mas eu garanto que podemos resolver isso.
— Não precisa ser muito
esperto pra entender que se um agente da Polícia Internacional quer te fazer
perguntas, é porque você fez uma cagada muito grande. E eu sei que isso é
bastante clichê, mas eu juro que eu não lembro de nada... Nada que me faça entender o motivo de supostamente eu estar
encrencado. Eu só me lembro de uma explosão e mais nada. Acordei aqui sem conseguir não sentir dor enquanto me mexo. Sem
falar na algema.
O homem assentiu com a
cabeça.
— Eu vou ser direto. Você
está sendo acusado de terrorismo após ter explodido e destruído metade de Ecruteak.
Pessoas morreram. Prédios, casas, ruas e até mesmo a Torre do Sino foram
destruídos. E não tenho muito tempo antes de aqueles caras — e apontou para os homens que faziam guarda na porta
do quarto — verem você se recuperar totalmente para te conduzirem a julgamento,
onde provavelmente você ficará a vida toda na prisão. Primeiro em um internato,
por ser menor de idade, e depois, em um presídio de segurança máxima.
Forrest engoliu em seco.
Aquilo era muito pior do que imaginara.
— E como o senhor pode me ajudar a sair dessa?
— Eu não disse que ia te
ajudar a sair dessa. Você realmente
causou toda essa confusão.
— Então por que o senhor
disse que pode ser de grande ajuda?
— Porque apesar de tudo, eu sei que você estava no lugar errado e na
hora errada. E eu preciso provar isso.
Bellocchio apontou para a
pasta e Forrest a abriu. Dentro dela, havia diversas fotos em sequência de
várias pessoas, homens e mulheres, que o garoto não conhecia.
— Você viu alguma dessas
pessoas durante o evento? Lembra de alguma delas em específico?
— Não, eu não lembro... Eram
muitas pessoas e eu estava concentrado na batalha.
— Entendo — comentou Bellocchio,
sem se prolongar muito.
Forrest continuou olhando as
imagens até soltar uma exclamação baixinha. Havia ali alguém que ele não só
reconhecia, mas conhecia bem.
— Essa é a Amy! Eu não
lembro de ter visto ela lá, mas eu a conheço. O que a foto dela está fazendo
aqui? — perguntou o garoto encarando o investigador.
Bellocchio não respondeu.
Forrest voltou a olhar as imagens. Na próxima página, outro rosto conhecido.
— Esse é o Ethan! Ele está
aqui também. O que isso significa?
Enquanto o garoto tentava
obter respostas que não lhe eram dadas, outros rostos apareceram.
— Esse aqui é o Giovanni,
não é? E esses quatro aqui são da Equipe Rocket. Administradores, eu acho. Eu
os vi em Mahogany. E esse é o Silver.
Não demorou muito para
Forrest juntar as pontas.
— Não. Amy e Ethan não fazem parte da Equipe Rocket e
absolutamente não têm nada a ver com
nada disso! As fotos deles nem ao menos deveriam estar aqui!
— Entendo — disse Bellocchio,
concluindo um raciocínio. — Então é apenas coincidência você ter viajado meses
com eles, mesmo sabendo que Amanda Green é uma ex-executiva da Equipe Rocket. Ou
da vez em que vocês se uniram na cidade de Mahogany com os Rockets naquele
evento em que o quartel-general deles foi explodido e deixou Pryce, o Líder do
Ginásio local, paraplégico. Sim, eu estou sabendo disso também.
O garoto estava nervoso.
Fechou os punhos com força e trincou os dentes.
Um grito estridente foi
ouvido do lado de fora. Alto o bastante para ser ouvido de dentro do hospital e
penetrante o bastante para arrepiar os pêlos no corpo de Bellocchio e Forrest.
O detetive olhou para a
janela com preocupação.
— Droga. Ele está aqui.
— Ele quem? — questionou
Forrest, tentando ver através da janela.
O homem não respondeu.
Levantou-se da cadeira e dirigiu-se até os dois homens na porta do quarto e
retirou o distintivo que estava preso no cinto da calça.
— Este garoto agora está sob
custódia da Polícia Internacional. Liberem-no imediatamente.
Os dois homenzarrões se
encararam com certa hesitação.
— Vocês não me ouviram?
Agora está fora da ossada de vocês. Liberem-no imediatamente!
Um dos homens entrou no
quarto, se dirigiu até a cama e retirou um molho de chaves do bolso, abrindo a
algema que prendia o pulso de Forrest da cama.
Um estrondo ao longe pareceu
uma explosão. Outra vez, um grito agudo e estridente, como o berro abafado de
um pássaro, chegou aos ouvidos dos presentes.
— Não podemos perder mais
tempo. Precisamos sair daqui o quanto antes.
Forrest, que massageava o
pulso que estava algemado, olhou com certo ar de ironia para o detetive.
— Eu adoraria. Mas caso não
tenha percebido, eu estou todo quebrado.
— Ah, sim, claro. Erro meu —
Bellocchio caminhou até a porta. — Detetive, traga-a!
Sons de passos ágeis foram
ouvidos do corredor. Forrest surpreendeu-se ao ver um Wobbuffet usando um
chapéu fedora e uma Chansey cruzarem a porta.
— Wobbuffet? Você é o...
— Ah, não. Não é o do seu
amigo. Esse aqui é o Detetive, ele trabalha comigo. Chansey, você poderia por
favor utilizar o seu Heal Pulse?
O Pokémon cor de rosa acenou
positivo com a cabeça e se virou para a cama onde o garoto estava deitado.
Colocou as duas patas para frente e uma aura rosada foi emanada em direção à
Forrest, que imediatamente sentiu seu corpo ficar mais quente. As dores que
sentia foram sendo aliviadas como se ele tivesse tomado uma anestesia. Como
mágica, seus ossos quebrados foram regenerados, suas feridas curadas e até
mesmo a marca da algema em sua pele sumira completamente.
— Então é assim que um
Pokémon se sente? Agora eu sei por que alguns atendimentos são tão rápidos... —
comentou Forrest olhando para o corpo, impressionado.
— Muito obrigado, Chansey.
Vamos, garoto. Detetive, faça as honras.
Detetive, o Wobbuffet de
chapéu de Bellocchio, de forma ágil seguiu pelo corredor enquanto Forrest
levantava-se da cama e percebia estar nu debaixo da camisola hospitalar. E
pior: O vento batia na abertura em suas costas.
— Onde estão as minhas
roupas?
— Queimadas. A explosão as
rasgou.
— Eu não posso sair assim!
— Garoto, não temos tempo. É
isso ou um uniforme penitenciário, o que você me diz?
Forrest encarou o homem com
uma das sobrancelhas erguidas.
— Pelo menos um uniforme
penitenciário não deixa a minha bunda a mostra.
O detetive jogou seu sobretudo
marrom para o garoto.
— Vista isso. É o máximo que
você vai conseguir por enquanto.
— Aonde nós vamos?
— Apenas me siga. E cuidado
pra não morrer. Um raio pode sim cair
duas vezes no mesmo lugar.
Forrest percebeu que não
estava no Centro Pokémon. No fim do corredor estreito, havia escadas que
levavam para um andar superior, como um bunker.
Bellocchio se mantinha a frente do garoto e os dois Pokémon à sua frente,
Wobbuffet e Chansey, rapidamente se encarregaram de abrir a porta quadrada que
dava para o andar superior. Ao subir as escadas e passar por ela, a surpresa:
Estavam no interior de uma casa vazia. Não havia móveis ou divisórias. Para
quem passava do lado de fora, também não se podia dizer que havia uma enfermaria completa abaixo do
piso daquela residência.
— Onde nós estamos, seu
Pinóquio?
— É Bellocchio. Mas eu não te julgo, eu me confundo às vezes também.
Por aqui.
O homem saiu pela porta da
frente. Ali estava a Cidade de Ecruteak. Bem, pelo menos o que restara dela. Havia uma densa neblina,
causada pela fumaça dos incêndios que ainda ardiam em alguns prédios. A
paisagem estava devastada. Não dava para ver no horizonte a Torre do Sino,
apenas uma densa e enorme nuvem de fumaça negra onde antes havia a construção.
Mas o que chamou a atenção
de Forrest não foi a destruição horrível que ele provavelmente fora o
responsável por causar, mas sim, a visão de Ho-Oh voando pelo céu.
E que visão! Um arco-íris
saía da cauda e das asas da criatura mística. Suas penas cintilavam com os
raios do sol. Sua presença imponente faria Forrest ficar observando-o o dia
inteiro, até se esquecendo de que estava nu por debaixo daquele sobretudo que
era um pouco maior que ele.
Ho-Oh voava baixo, em
círculos. O grasno que soltava era um lamento de dor. Então era aquele o som que podia ser ouvido da
enfermaria no subsolo.
Forrest foi trazido de volta
à realidade com um puxão de Bellocchio. Wobbuffet e Chansey atentos, caminhando
logo à frente.
O grupo tentava se desviar
dos grandes pedaços de concreto e asfalto que estavam espalhados pelo chão e os
impediam de seguir em linha reta. Tentavam andar de forma rápida, como se
estivessem tentando se esconder de Ho-Oh que voava triste pelo céu. Forrest
percebera que a cidade estava em silêncio: Apenas o som dos seus passos ecoava
pelas ruas. Onde estavam os moradores? Era um mistério que não havia tempo para
ser resolvido.
As portas do grande teatro
se abriram. Já não tinha mais a beleza que ostentava há séculos, quando Forrest
passara por ele meses antes na primeira estadia em Ecruteak. As colunas
altíssimas que adornavam a entrada exibiam rachaduras. Os vitrais da fachada
estavam praticamente todos quebrados. Os que resistiram, exibiam trincas e
parte da entrada estava destruída. As grandes estátuas que outrora mostravam representações
de Lugia e Ho-Oh jaziam estateladas no chão, representando agora o símbolo da
completa e eminente derrota. Podia-se ver as vigas retorcidas e parte do telhado
destruído.
Quando a luz do sol poente
rasgou a escuridão do local, Forrest viu dezenas de pessoas aglomeradas,
sentadas ao chão, colocando a mão na face para cobrir o rosto devido à
claridade. Quando as portas se fecharam nas suas costas, o breu só não se tornou
o Senhor do lugar pois os buracos no teto e das janelas e vitrais quebrados
permitiram a passagem de luz. O garoto reparou que boa parte delas — se não
todas — estava com ferimentos e machucados em partes do rosto e do corpo.
Braços estavam em tipoias improvisadas, podia-se ouvir gemidos e lamentos de
dor dos mais variados tipos. Chansey logo correu para ajudar algum Pokémon no
meio daquelas pessoas feridas.
Alguém sentado próximo à
porta levantou-se apontando o dedo na direção de Forrest e de Bellocchio.
— É ELE! ELE CAUSOU TUDO
ISSO COM A GENTE! A CULPA É DELE!
Um grande tumulto se
sucedeu. Quem podia, foi ficando de pé. O volume da massa sonora foi ficando
cada vez mais alto. As pessoas foram se aproximando de Forrest tal qual uma
Arbok prestes a dar o bote em uma presa. Elas não estavam felizes.
— Calma, pessoal. Eu sou da
Polícia Internacional, vamos manter a calma — Bellocchio tentou se colocar
entre as pessoas e o jovem. O Detetive Wobbuffet se uniu a ele, preparado para
usar seu Counter se necessário.
— Você é da polícia? Então
prenda esse cidadão! Olha o que ele fez com a nossa cidade, com a gente! —
bradou uma mulher com um corte no rosto.
— Como você tem coragem de entrar aqui como se nada
tivesse acontecido? Como se você
fosse alguma vítima? — questionou outro homem com repulsa.
— Você deve pagar pelo que
você fez... — ameaçou um outro.
Forrest paralisou. Ele
sentia medo ao olhar para todas
aquelas pessoas. O ódio delas era visível, maior do que qualquer hematoma,
ferida ou queimadura nelas. Ele não soube o que responder. As palavras
simplesmente não saíam de sua boca.
Uma voz cortou o ar e fizera
as atenções se voltarem para ela.
— Vocês não sabem o que estão falando!
Ethan Heart apoiava-se entre
duas crianças, Elaine e Chase, e mantinha uma postura curvada. Todo seu tórax
estava enfaixado e o garoto estava visivelmente se esforçando para ficar de pé.
Ao lado dele, Amanda Green erguia-se com a feição séria em um canto do que
antes era um elegante e majestoso hall
de entrada do Teatro Municipal. Ela estava diferente. Mesmo com a iluminação
precária do lugar, ainda era possível ver as enormes olheiras em seus olhos.
Ela havia emagrecido bastante; havia agora covinhas em suas bochechas e,
diferente da última vez que Forrest a viu pessoalmente, há três meses, ela
agora exibia cabelos mais longos que chegavam à cintura, sem esconder as mechas
com o auxílio de um chapéu. Sua pele agora exibia um tom mais pálido, como fizesse
algum tempo que não encontrasse com a luz do Sol. Havia sangue na camiseta azul
e também na calça sarja de tons escuros que vestia, o que era indicado pelas
manchas negras presentes na região das coxas.
— Ele tem razão — disse
ela. — Eu posso dizer que vocês estão bem
distantes da realidade.
Dentre as pessoas que
cercavam Forrest, uma mulher pediu passagem e caminhava com dificuldade em
direção à Amy, apontando o dedo da mão do braço que tinha livre, já que o outro
estava imobilizado por uma tala improvisada.
— Você tem sido muito boa
pra nós, senhorita Green. Como presidente da Associação dos Moradores da Cidade
de Ecruteak, eu sou muito grata pelo seu cuidado com a nossa cidade desde que
chegou aqui, principalmente em tudo o que se refere à Casa de Repouso, mas eu
acredito que é a senhorita que não
sabe o que diz. Esse rapaz explodiu e destruiu a nossa cidade, simples assim.
Não tem desculpas, nem perdão, pro que ele fez.
Amy caminhou até o centro do
hall e mantinha a feição séria.
— É muito fácil condenar
alguém com raiva. Todos nós aqui estamos assustados com o que aconteceu, mas eu
sei de quem é a culpa. E acredito que todos
aqui deveríamos saber também. Não existem outros culpados nessa história, a
não ser a Equipe Rocket.
Um burburinho começou a tomar
conta do lugar. As pessoas se encaravam assustadas, algumas outras comentavam
entre si, discutindo baixinho sobre o que ouviam.
A verdade é que não havia
uma unanimidade sobre o assunto.
Um homem velho, com o rosto
marcado de arranhões, um olho roxo e o braço envolvido em panos que se
mostravam encardidos — muito provavelmente do sangue seco do machucado que não
podia ser visto — permanecia encostado em uma das colunas que sustentavam o
teto do teatro. Assim que ele falou, as pessoas se calaram.
— Mas como que a culpa de
tudo isso é da Equipe Rocket se nós vimos, com nossos próprios olhos, a cidade
explodir por causa do ataque que o garoto ordenou?
— Esperem! — Forrest se
manifestou depois de algum tempo em silêncio. — O Explosion não tem força o bastante para destruir uma cidade inteira! Eu não julgo vocês por me
odiarem... Mas eu também não sei o que aconteceu.
As pessoas no local o
encararam com raiva. Seria melhor não ter dito nada.
— E é por isso que eu te
trouxe aqui, para investigar as histórias — cortou Bellocchio. — Se você
estivesse mentindo, iriam aparecer contradições nos testemunhos que a grande
parte de vocês me deu. A senhorita Green tem razão. Acredito que o senhor tenha
notado que a enfermaria em que o senhor estava se localizava no subsolo.
Ecruteak é uma cidade que conta com localidades abaixo do chão porque quando a
Torre de Bronze fora incendiada e os guardiões se enfrentaram, os moradores que
viviam aqui naquela época pensaram em construir um local seguro para caso eles
voltassem a se enfrentar novamente, haveria um lugar seguro para se esconder.
Vocês podem me confirmar a informação?
Houve um momento em que as vítimas
dentro do salão fizeram um murmúrio confirmando a história apresentada. Bellocchio
estendeu as mãos para a frente, pedindo silêncio.
— Durante séculos, poucas
vezes a parte subterrânea da cidade fora usada — continuou o investigador. — Então,
é natural que com os acontecimentos de mais cedo, todos vocês esvaziassem a
cidade sem necessariamente deixá-la. Muitos de vocês que estão aqui agora não
puderam descer até os subterrâneos porque neste momento ele se encontra
sobrecarregado. Tem um Pokémon lendário lá fora triste porque a sua torre foi
destruída e não sabemos como ele reagirá ao ver algum de nós lá fora.
— A Equipe Rocket conseguiu
usar a cidade subterrânea para plantar dispositivos explosivos. O golpe que
Forrest ordenou, sem querer, se tornou o combustível que fez tudo explodir e acabou
causando uma reação em cadeia — explicou Amy. — Ninguém sabe como. Eu também
não sei a forma, mas não restam dúvidas de que foi isso.
A presidente da Associação
de Moradores logo se voltou para Amy.
— Como você pode dizer tudo
isso sem provas? Tudo o que eu ouço é uma tentativa frustrada de não culpar o
verdadeiro causador de tudo isso, esse moleque!
— Você quer provas, Valéria?
Eu te dou uma prova.
Morty surgira como um
fantasma por entre as pessoas, vindo do interior do teatro por entre os
corredores que davam para o palco.
— A Equipe Rocket acabou de
sitiar a Cidade de Goldenrod. A torre de rádio foi tomada, eles estão neste
momento ao vivo para toda a região de Johto anunciando que eles voltaram e
estão prontos para dominar o governo e estão dispostos a morrerem por isso, se
necessário. Como Líder de Ginásio, é meu dever proteger todos os cidadãos, mas
eu não sei se estou preparado para lidar com o que está vindo.
— E o que está vindo? — perguntou
Valéria.
O som de uma explosão causou
caos no interior do teatro. Do lado de fora, foi possível ouvir um bater de
asas e o ribombar de trovões. Um rugido agudo e estridente cortou o céu e junto
a ele, foi possível ouvir as gotas da chuva pesada que entrava pelos buracos e
começava a cair no chão do hall de
entrada.
Chansey tentava agilizar o
mais rápido possível o uso do Heal Pulse
nos feridos, mas parecia cada vez mais cansada. Os PPs do golpe estavam se esvaindo.
— Isso não é bom... —
comentou Bellocchio. — São muitas pessoas pra uma Chansey só dar conta.
— Tem alguma coisa que nós
podemos fazer? — perguntou Forrest.
— Rezar, garoto. Rezar —
respondeu o investigador.
As portas do teatro foram
abertas com violência. Dezenas de pessoas, entre homens e mulheres, vestidas
com o uniforme negro com uma letra “R” rubra no peito e acompanhados por hordas
de Pokémon como Golbat, Raticate, Weezing e Houndour se aglomeravam bloqueando
a saída do teatro.
— Preparem-se para a
encrenca e rendam-se ao domínio da Equipe Rocket! Entreguem seus Pokémon e
vocês não serão ainda mais machucados — bradou um dos capangas.
O tumulto e o caos se
instauraram. Os feridos tentaram correr e congestionaram as saídas de
emergência. Eram muitas pessoas se empurrando e berrando de dor. Amy fez menção
de se dirigir até a entrada para enfrentar os Rockets, mas Elaine a impediu.
— Temos que tirá-lo daqui! —
disse a menina apontando para Ethan.
— Eu consigo dar conta
desses cretinos... Eu não preciso que as minhas costas estejam bem pra isso...
— comentou Ethan, visivelmente sem forças.
Amy hesitou por um momento.
— Ela tem razão. Você não
está em condições de entrar numa batalha. Eles são muitos.
Forrest escapou de Wobbuffet
e de Bellocchio, que estavam ocupados tentando deter a invasão da Equipe Rocket
ao lado de Morty, e correu em direção aos amigos.
— Vocês estão bem? —
perguntou o garoto.
— É bom te ver, cara, mas agora
nós estamos com um grande problema — respondeu Ethan com um sorriso contido. —
Por que você está com um sobretudo? E... Isso aí é uma camisola hospitalar?
— Forrest! — chamou uma voz
feminina.
Sunny correu no contrafluxo
na direção do moreno. A mochila que ela carregava nas costas enganchava nas
pessoas e, muitas vezes, a prendia entre outras pessoas, mas ela insistia em chegar
até ele. Forrest se apressou até ela e logo conseguiu fazer com que a namorada passasse
pela barreira humana.
— Que bom que você está bem!
— exclamou ela em um abraço caloroso.
— É bom te ver, meu bem!
Onde está a sua irmã?
— Eu não sei... Eu não a
vejo desde a explosão...
Forrest engoliu em seco.
— Não se preocupe, nós vamos
encontrá-la.
A menina tirou a mochila das
costas.
— Por que você está com esse
sobretudo? E isso por baixo é uma camisola hospitalar...? — Sunny entregou a
bolsa para Forrest. — Eu trouxe algumas roupas que você esqueceu lá em casa,
achei que você pudesse precisar.
— Que timing perfeito... — comentou ele com um sorriso aliviado.
Alguns capangas da Equipe
Rocket estavam se aproximando do grupo. Um deles reconheceu Amy.
No entanto, eles não
conseguiam passar pela muralha de pessoas em desespero que tentavam chegar às
saídas.
— O que nós vamos fazer? As
coisas estão saindo de controle... — disse Chase, assustado com a muvuca que se
instalara ali.
— Acho que eu sei por onde
podemos ir — disse Amy olhando para os corredores que levavam ao palco. — Só
precisamos ter cuidado com as feridas do Ethan.
— Não se preocupem comigo,
eu tô bem — retrucou o garoto, soltando um grito de dor ao colocar-se de forma
ereta sem querer.
— É, estou vendo, cabeção —
disse Amy levando o braço dele até o ombro dela. — Forrest, você me ajuda?
— Claro! — Respondeu o
morenopassando o outro braço no próprio ombro.
Enquanto a Equipe Rocket
continuava o assalto, o grupo composto por Ethan, que era amparado por Amy e
Forrest e acompanhado de Sunny, Elaine e Chase, seguia tentando desviar dos
outros feridos indo por um caminho contraintuitivo para o interior do Teatro
Municipal. A guerra havia se iniciado e os Rockets estavam ganhando. Não havia
chance alguma de uma reviravolta naquele momento.
TO BE CONTINUED...
Capítulo 03 [Remake]
Ser
“apenas” a sexta maior cidade de Kanto trazia o benefício de não ter o trânsito
caótico e intenso das grandes capitais, como Saffron ou Celadon, ou mesmo o
intenso fluxo de pessoas pelas calçadas, muitas vezes pequenas demais para
comportá-lo. Mas também era bastante comum não estar no mapa das turnês dos
grandes artistas internacionais do momento, assim como significava passar longe
de ser um destino turístico disputado, como era o caso de Fuchsia e suas praias
ao sul ou as belezas naturais das Ilhas Seafoam.
Apesar
disso tudo, a cidade de Pewter ainda era uma joia nascida por entre as rochas formadas
do impacto de um meteoro com a Terra, milhões de anos atrás. A energia da colisão
criou não apenas o vale onde se formou a cidade, mas também a montanha que a separava
do resto do continente — o Monte Lua. Como um antigo dito popular dizia,
repetido com frequência pelos moradores quando falavam da cidade, Pewter era “A
Cidade que Descansa Ao Pé de uma Grande Montanha Rochosa”.
No
interior dessa montanha rochosa, habitavam as mais diversas e curiosas
criaturas. Não apenas hordas e mais hordas de Zubat, que faziam seus ninhos em
seu interior dominado pela escuridão causada pelo difícil acesso da luz do sol
dentro de suas densas cavernas, mas também Pokémon do Tipo Pedra como Geodude,
um Pokémon mineral, a serpente de pedra chamada Onix e também Clefairy, um
curioso Pokémon que diziam ter vindo do espaço.
A
aeronave que o trouxe? O mesmo meteoro que formara Pewter. Céus e terra unidos
por um mesmo evento de proporções galácticas.
Muito
por causa disso, a cidade recebia com frequência a visita de cientistas e
pesquisadores do mundo inteiro, das mais diferentes áreas, como paleontologia,
geologia e mineralogia. Ali também se encontrava o renomado e famoso Museu de
Ciências de Pewter. Curiosos de todos os cantos do planeta vinham ver de perto as
novidades dos exemplares expostos de todos os tipos e classes; desde fósseis de
Pokémon a amostras de Pedra da Lua do interior da montanha — uma rocha
alienígena que tinha forte conexão com alguns tipos de Pokémon, permitindo-os
evoluir.
Além
do museu, outro endereço era bastante conhecido e frequentado por quem gostava
de outros assuntos que envolviam Pokémon: as batalhas. Os treinadores viam ainda
de longe a grandiosidade do Ginásio local. A fachada era feita com pedras
sólidas enormes e as paredes robustas foram erguidas com materiais rochosos
praticamente intransponíveis. O milagre da engenharia denunciava que o local
era especializado em Pokémon do Tipo Pedra — sólidos e intransponíveis, tal
qual sua construção.
Naquele
momento, o Ginásio passava por uma reforma. Grupos de homens vestidos com
capacetes amarelos, acompanhados de algumas espécies como Graveler e Golem,
além de Machamp e Machoke, estavam espalhados no interior do edifício junto com diversos
cavaletes que bloqueavam alguns trechos do campo de batalha. Os engenheiros e
os Pokémon estavam espalhados em grupos, reunidos com o projeto arquitetônico
em mãos enquanto combinavam funções e dividiam tarefas.
No
centro da arena, atento às discussões e aos planejamentos, um rapaz alto, moreno
e com olhos tão puxados que mal era possível ver a cor de sua retina encarava tudo
de braços cruzados, avaliando com atenção. As sobrancelhas arqueadas moldavam
um tom sério e contemplativo em sua face. Seus cabelos espetados podiam até
indicar que ele podia ser um cara relaxado, mas quem o conhecia bem, sabia que
ele não era alguém a ser subestimado, pelo contrário.
Mesmo
se o som do vozerio e das máquinas sendo operadas fosse zero, os passos de um garoto de dezesseis anos mal seriam ouvidos,
pois ele caminhava de forma tímida entre os obstáculos compostos por pessoas,
cavaletes e Pokémon, com as mãos enfiadas bem fundo nos bolsos da calça. A
diferença entre o rapaz e do Líder de Ginásio estava mais na altura — Brock era
cerca de trinta centímetros mais alto — do que na aparência. Eles eram
idênticos, não apenas pelo fato de serem irmãos. Tinham o mesmo estilo de
cabelo espetado, os mesmos olhos puxados e só não vestiam as mesmas roupas porque Brock o proibia de
chegar próximo de seu guarda-roupas.
O
mais novo caminhava de forma insegura, evitando encarar quem estava ao seu
redor. O mais velho mantinha a postura exemplar, de peito erguido, feição séria
e uma confiança admirável.
—
Fala maninho! — Brock deu um raro sorriso ao ver o irmão, imediatamente
desarrumando os já desarrumados cabelos do mais novo e virando para um dos
engenheiros com quem conversava. — Este é o meu irmão, Forrest.
—
M-muito prazer... — respondeu o mais novo de maneira sem graça.
—
O prazer é meu — respondeu o homem. — Peço desculpas pela bagunça, mas eu
garanto que o Ginásio de Pewter ficará muito bonito após a reforma!
Forrest
deu uma olhada nos arredores. Realmente, tudo estava uma bagunça. Ele ainda
identificava muita coisa por baixo da poeira e dos detritos espalhados, mas já
era possível notar algumas novidades na estrutura e no campo de batalhas onde
eles estavam.
—
Eu gostava do jeito que estava antes.
O
engenheiro riu do comentário do garoto.
—
Mudanças podem ser estranhas no começo, mas são sempre necessárias. Você vai
ver como vai tudo ficar ainda melhor. Senhor Brock, se me der licença...
O
Líder de Ginásio acenou com a cabeça e o engenheiro se afastou em direção a um
grupo de Machamp. Brock logo se voltou para Forrest, que mantinha as mãos no
bolso e os ombros encolhidos, olhando para o nada.
—
Está tudo bem? — perguntou o mais velho.
—
Está sim... Na verdade, eu queria saber se você não queria vir comigo até o Monte
Lua. Eu e a Yolanda encontramos algumas pedras que parecem fósseis. Apesar do
Salvadore dizer que são pedras comuns, eu tenho quase certeza de que ele está
errado.
Forrest
tirou uma pedra do bolso e mostrou para o mais velho. Brock a pegou com cuidado
e deu uma breve analisada.
—
Eu não sei dizer com certeza, mas talvez amanhã nós possamos ir no Museu de
Pewter e falar com os cientistas de lá. Hoje eu estou ocupado supervisionando
as coisas por aqui.
—
Ultimamente você tem estado sempre
ocupado — bufou Forrest. — Você está de férias, deveria estar passando um pouco
mais de tempo com a gente, já que nossos pais nunca estão em casa.
—
Eu sou o Líder de Ginásio dessa cidade. Eu tenho responsabilidades.
—
E as suas responsabilidades de irmão mais velho não contam?
Brock
fechou a cara.
—
Você é moleque demais pra entender sobre a vida. Quando for adulto, talv--
—
E você acha que dá um bom exemplo? — reclamou
Forrest e sua voz ecoou forte pelo Ginásio.
Um
silêncio constrangedor tomou conta do ambiente. Os engenheiros e os Pokémon se
entreolharam e, aos poucos, voltaram às suas tarefas. O rosto de Forrest
começou a queimar e, quando o arrependimento começou a bater, seu irmão o
interrompeu.
—
Então você quer que eu dê um bom
exemplo? Muito bem.
E
sem dizer mais nada, seguiu em direção à entrada do Ginásio. Forrest não deu um
passo sequer. Queria sumir dentro dos seus ombros, encolhidos e diminutos.
—
Vamos, Forrest — chamou Brock, quase de forma austera, sem virar-se para o mais
novo.
O
céu azul era sinal de tempo firme naqueles dias de verão. Estava abafado; boa
parte do pouco vento que fazia tinha seu fluxo interrompido pela cadeia de
montanhas que cercavam a cidade, bloqueando-o. Mas aquele dia bonito não seria
cenário apenas de um passeio na praça ou de algum piquenique na Rota 3.
Brock
saiu pela porta do Ginásio batendo as palmas das mãos na roupa, tentando tirar
o excesso de pó e sujeira da reforma que estava impregnada nela. Ele caminhou
firme, dando uma volta no terreno e seguiu em direção à praça que era
localizada a algumas poucas quadras do endereço do Ginásio, onde uma bela escultura
de pedra havia sido construída bem no centro do largo. Ela se assemelhava a um
Onix, pois era composta por blocos de pedra com diferentes tamanhos que foram
colocadas uma em cima da outra, e sua estrutura podia ser vista a metros de
distância. Flores enfeitavam a base da estatuária, formando um grande quadrado
perfumado, misturando-se com o aroma da grama recém-aparada.
Forrest,
no entanto, não parecia dar a mínima para o arranjo das flores, muito menos
para a escultura. Já havia estado naquela praça tantas vezes com seus irmãos que
sabia de cor cada detalhe de cada coisa ali presente.
Quando
finalmente alcançou seu irmão, deparou-se com ele admirando a escultura de
pedra. As palavras vinham, mas a vergonha o impedia de emiti-las. Ele passou
alguns segundos, que pareceram uma eternidade, lutando contra aquele peso
dentro de si.
—
Me desculpe, Brock — disse o garoto envergonhado. — Eu não devia ter dito
aquilo.
—
Mas você disse — respondeu o mais velho. — Você foi inconsequente. Eu não sei
quando a gente se perdeu no diálogo, cara, mas você faltou com respeito comigo
e eu não posso admitir isso.
—
Não foi o que eu...
—
Como Líder de Ginásio, eu sou responsável pela cidade — interrompeu Brock. —
Sou uma das lideranças de Pewter, uma das primeiras a quem as pessoas recorrem
quando precisam de ajuda. E como primogênito também é assim. Quando você, a
Yolanda, o Salvadore, o Tommy ou até mesmo algum dos gêmeos precisam de ajuda,
é comigo que vocês contam. E eu não posso dar conta de tudo sozinho. Eu não sou
tão rígido quanto o corpo de um Onix quanto vocês pensam. Eu ainda sou apenas
um cara com muita coisa pra lidar... Água mole em pedra dura...
Os
dois olharam para a estátua diante deles.
—
Tanto bate, até que fura. É, eu sei... — comentou Forrest, baixinho.
Brock
olhou para Forrest pela primeira vez desde que os dois haviam chegado ali. O
mais novo não fazia contato visual por vergonha.
—
Você é o mais velho depois de mim. E é o meu braço direito. Eu preciso de você, Forrest. Mas eu também preciso saber se você é capaz de
me ajudar.
—
Claro que eu posso! — Forrest encarou Brock. As sobrancelhas franzidas, os
punhos fechados, a expectativa em seu rosto. O breve ímpeto logo foi murchando.
Os ombros logo voltaram a recolher e assim, o garoto voltou a encarar o chão. —
Eu sei que posso...
—
Então eu quero tirar a prova.
Quando
Forrest voltou a encarar Brock, o mais velho segurava uma PokéBola nas mãos e
ostentava aquele olhar que só ele tinha quando estava prestes a levar uma
disputa a sério.
—
Batalhar? Aqui? Não dá, Brock, eu sei
que vou perder!
Brock
abaixou a fronte e deu um sorriso decepcionado.
—
É. Eu sabia que não dava pra contar
com você, mesmo.
Aquelas
palavras foram um soco na boca do estômago de Forrest. Ao sentir o irmão passar
por ele para seguir de volta ao Ginásio, muitas coisas passaram pela sua
cabeça. Outra vez, ele não teve coragem de colocar pra fora.
Como
ele tinha a coragem de dizer que queria ser igual
à Brock se ela lhe faltava para encarar as coisas com a mesma rigidez do
irmão quando era necessário?
—
Espera Brock!
O
mais velho parou de caminhar. Forrest ergueu a cabeça e encarou a nuca do
irmão.
—
Como é que eu posso assumir o Ginásio de Pewter no futuro... Ser como você...
Se eu não sou você?
Ele
não viu o leve sorriso que Brock deu, mas arrepiou-se ao ouvi-lo dizer:
—
Seja você mesmo.
Forrest
tirou do bolso da calça uma PokéBola. Quando Brock se virou, deu de cara com
seu irmão apontando a cápsula bicolor em sua direção.
—
Pode apostar nisso.
A
escultura de pedra tremeu quando o enorme Onix de Brock materializou-se no ar
e, com um estrondo, pousou no chão, levantando terra e poeira. A sombra da
serpente preenchia toda a praça e a sua súbita aparição chamou a atenção de
alguns transeuntes que passavam por ali perto. Do outro lado, uma criatura que
se assemelhava a um rinoceronte com placas duras como concreto protegendo seu
corpo robusto. Uma crista óssea e rochosa se encontrava no topo de sua cabeça,
de onde também partia um único chifre, curto e largo, apontado de forma
ameaçadora para o oponente que tinha umas cinco vezes o seu tamanho. As pernas
curtas, porém grossas e musculosas, contraíam-se em expectativa.
Os
dois colossos se moveram assim que ouviram os primeiros comandos.
—
Onix, Dig!
—
Earthquake, Rhyhorn!
A
serpente gigante feita de pedra irrompeu ao solo e abriu um imenso buraco,
escondendo-se no seu interior. O oponente de armadura ergueu-se sobre as patas
traseiras e jogou o grande peso do seu corpo no chão, abalando todas as
estruturas próximas e causando um terremoto no lugar do impacto que se estendeu
por alguns metros ao redor.
A
famosa escultura de pedra no centro do largo veio abaixo. Forrest encarou os
escombros com espanto.
—
Não! A escultura! — bradou o garoto.
—
Você foi inconsequente. De novo — disse Brock, estranhamente calmo. — Está na
hora de você pensar um pouco antes de agir ou falar algo. Você tem que prestar
atenção aos detalhes, maninho.
Forrest
fechou os punhos e encarou o chão por alguns instantes antes de exibir um
sorriso vitorioso.
—
Tudo bem! Mas eu não vou deixar de ficar feliz por ter te derrotado!
—
E quem disse que você me derrotou? — perguntou Brock cruzando os braços.
—
Não tem a menor chance do Onix ter resistido
ao Earthquake depois de ter usado o Dig.
Brock
deu um sorriso de canto.
—
É. Você não prestou atenção aos
detalhes.
Um
segundo tremor pode ser sentido pelos dois. Em segundos, foi tornando-se cada
vez mais forte, a ponto de Forrest por um momento achar que perderia o
equilíbrio.
O
chão se rompeu outra vez, bem abaixo de Rhyhorn. Onix surgiu erguendo o oponente
do chão, fazendo-o perder completamente o equilíbrio.
A
serpente o jogou e, por pesar algumas toneladas, Rhyhorn bateu de forma
violenta no solo. Pode-se notar que afundara alguns centímetros no chão.
—
O quê?! — exclamou Forrest em voz alta. — Mas como?!
—
Onix, Iron Tail!
A
cauda rochosa da criatura brilhou para executar o ataque. Foi aí que Forrest
percebeu o detalhe que havia perdido.
O
impacto em Rhyhorn rompeu um cinto de couro vermelho que outrora estava preso
no corpo de Onix. A cauda da serpente gigantesca brilhou forte em um tom
prateado como metal e o impacto na terra foi tão forte que Forrest precisou dar
alguns passos para trás.
Quando
a poeira baixou, Rhyhorn jazia desmaiado.
—
Cinta de Foco*... Esse foi o motivo
do Onix não ter desmaiado no Earthquake...
—
Você não achou que eu ia cair num truque tão barato, não é, maninho? — riu
Brock enquanto retornava seu Onix, visivelmente cansado, de volta para a
PokéBola. — Muito obrigado pela batalha, parceiro.
Forrest
passou alguns segundos olhando para seu Rhyhorn desmaiado antes de chamá-lo de
volta para sua cápsula.
—
É. Eu realmente não tenho como te
vencer. Aquilo que você me disse, sobre ser eu mesmo... Não tem como. Pelo
menos... Não aqui, agora.
Brock
aproximou-se do irmão com um sorriso terno.
—
Bem, então por que você não começa do começo?
—
Como assim, do começo? — perguntou o garoto, confuso.
—
O mundo é muito grande, maninho. Se eu tivesse a oportunidade, eu exploraria
cada canto dele. Aprenderia mais sobre os Pokémon e as diferentes maneiras de
treiná-los. Você tem chance ainda de crescer e se tornar um treinador
formidável.
—
Mas... Como eu posso fazer isso?
Brock
não respondeu. De repente, estava tudo claro na cabeça de Forrest. Ele olhou
para a escultura que jazia no chão, completamente destruída, e viu seu irmão
aproximar-se de onde antes era sua base. Agachou-se e foi recolhendo pedra por
pedra, começando a remontá-la inteira.
—
E se eu... Saísse em uma jornada?
Brock
ficou alguns instantes em silêncio, tentando encontrar o equilíbrio entre duas
pedras para colocá-las de novo uma sobre a outra. Forrest aproximou-se e se
agachou ao lado dele para auxiliá-lo na tarefa.
—
Às vezes, a gente precisa derrubar uma coisa pra começar outra nova do zero. Eu
sempre vou apoiar você nos seus sonhos. E se der errado... Você sabe que tem sempre pra onde voltar.
—
Mas... Eu teria que deixar você sozinho cuidando da nossa família.
—
Uma pedra sobre a outra. A base tem que se fortificar para poder equilibrar as
outras com perfeição. Claro que você vai fazer falta em algumas coisas que eu
vou precisar me desdobrar... Mas pense nisso como um investimento. Quando você
voltar, com certeza vai ser um treinador muito melhor do que é hoje.
—
Você acha mesmo?
—
Só vamos saber tentando.
O
menino sorriu. Pela primeira vez em algum tempo, sentiu novamente que seu irmão
mais velho se importava com ele.
A
grande verdade era que, por mais que Brock tivesse suas responsabilidades como
Líder de Ginásio, a família sempre seria a coisa mais importante pra ele. E ele
sabia que Forrest era como um fóssil: Debaixo de toda a camada rígida de
imaturidade do irmão, havia um ser maravilhoso pronto para ser trazido à vida.
***
Jornadas
Pokémon: O sonho de todo jovem que vive no mundo de hoje, independente de sua
classe social. Sair pelo mundo com um Pokémon parceiro, participar de batalhas
emocionantes e lutar pelo título de ser o maior treinador Pokémon de todos os
tempos. Quase todos, a partir dos onze anos de idade, podiam sair para além do
quintal de casa e vivenciar aventuras incríveis.
Exceto,
claro, Ethan, cuja maior aventura daquela quarta-feira monótona era lavar a
louça, por ordens de sua mãe.
A
pia era maior do que ele, portanto ele usava um banquinho de apoio e, para não
sujar o pijama favorito, ele usava o avental de sua mãe que mais parecia um
vestido de tão grande que ficava nele. Ao seu lado, secando as panelas que lhe
eram entregues pelo garoto, um Sandshrew, um Pokémon pequeno cujo corpo
arredondado tinha uma série de placas amareladas e segmentadas em suas costas
como uma carapaça. Suas garras afiadas seguravam cuidadosamente o pano de prato
e as louças, secando-as em movimentos circulares. Aquele Pokémon estava na
família desde que Ethan era um bebê. Ele era de sua mãe, Marieta, e era o braço
direito dela quando se tratava de cuidar da casa — e de Ethan, apesar do garoto
o ver mais como um terapeuta, a quem ele confiava quando precisava reclamar de
tudo, e ele reclamava de tudo com muita frequência.
—
Tu tá reclamando do quê, menino?
A
voz de Marieta ecoou pela casa. Ethan tremeu. Sandshrew continuou passando o
pano de prato em uma caçarola de alumínio, afinal de contas, a bronca não era
com ele.
—
De nada, mãe... De nada. Olha, acabei de lavar a louça!
A
mulher aproximou-se olhando para o filho com uma das sobrancelhas erguida e uma
expressão séria. Enquanto colocava a sacola de compras em cima da mesa, deu uma
conferida na pia, já sem nem um prato, e logo notou a pilha de louça limpa
próximo à sacola do mercado, organizados por tipo como Sandshrew sempre fazia.
—
Muito bem. Merece até um presente.
Marieta
dirigiu-se até a mesa e começou a mexer nas sacolas de mercado. De dentro dela,
retirou uma caixinha branca, pequena e retangular, sem nada escrito e a
estendeu para o filho.
Ethan
saltou do banquinho e passou as mãos no avental, secando as mãos molhadas. O
garoto tinha um brilho nos olhos e sua boca não conseguia fechar com o sorriso
que dera. A caixinha era aberta puxando a tampa para cima, o que revelava algo
que deixou Ethan sem palavras.
Era
um relógio. Ou quase isso. Na verdade, era um modelo mais antigo do Pokémon
Gear, datado de pelo menos uns cinco anos. Era cinza e, diferente dos atuais,
tinha uma pulseira larga de plástico acinzentado. O aparelho era robusto e
claramente era de segunda mão, apesar de parecer bem conservado, exceto por um
arranhão visível na tela LCD quadrada na parte central e arredondada do
dispositivo, que também continha três botões de controle na parte inferior. Diferente
do modelo mais recente, esta versão não tinha tela touchscreen, duas telas ou tocava músicas em MP3.
Ainda
assim, Ethan ficou muito feliz. Era o seu
próprio modelo de PokéGear.
—
Feliz aniversário, filho — sorriu Marieta. — Eu sei que foi há duas semanas,
mas eu só consegui agora o seu presente. Eu sei que não é o modelo que você
queria, mas é o que a mãe conseguiu comprar.
—
MÃE, A SENHORA É DEMAIS! MUITO OBRIGADO! — Ethan abraçou Marieta tão forte que
o ar da mulher quase escapou. Era possível sentir o coração dela bater com
força ao ver a felicidade do filho.
Ela
o ajudou a colocar o dispositivo no pulso dele, que logo estava mostrando-o
para o Sandshrew que fingia compreender o que aquilo fazia.
—
A propósito, vá se arrumar. Você tem compromisso mais tarde.
O
garoto parou a empolgada conversa com o Pokémon e encarou a mãe de volta.
—
Compromisso com quem? Não vai me dizer que é dentista de novo... Eu juro que estou escovando os dentes todos
os dias! Ou quase todos os dias...
Mas é que eu esqueço, e--
—
Não, não é. É com o professor Elm. Pedi pra que ele separasse uma PokéDex pra
você começar a sua jornada.
Ethan
paralisou. Ele não podia ter ouvido direito.
—
Como assim... Jornada? A senhora tá falando sério?
Marieta
suspirou.
—
Bem, não como se eu não estivesse pensando nisso desde que você era mais novo.
Mas, eu acho que eu preciso confiar
em você. Até porque, é mais fácil eu deixar você sair em viagem agora do que
você pular a janela pra sair escondido. Não pense que eu não sei que você já planejou isso.
Ethan
desviou o olhar, constrangido. Por que todas as mães pareciam ler mentes?
—
De qualquer forma, apesar de eu achar que você é novo demais pra encarar o
mundo em uma viagem assim, eu acho que você demonstrou que já pode resolver
coisas sozinho. Você me deixou muito preocupada quando apareceu desmaiado na
Rota 29. E ainda por cima por estar perseguindo um ladrão! Mas o Professor Elm
disse que você foi essencial para que nada de pior acontecesse... E eu tenho
muito orgulho de você por isso.
O
garoto não pode deixar de evitar que seus olhos enchessem de lágrimas. Logo, um
soluço o fez irromper o choro.
—
Ma-mãããe... — e a abraçou, afundando a cabeça no avental da mãe. —
O-o-obri-gado...
—
Calma, filho... — a mulher tentou não chorar também. — Também não precisa disso
tudo...
Tal
qual como veio, o choro de Ethan passou em um instante. Logo, sua expressão
emocionada deu lugar a um sorriso malicioso.
—
Mal posso esperar pra ver a cara da Lyra quando ela ficar sabendo!
—
E a propósito...
A
mulher agachou-se na frente do filho e colocou a mão no bolso que havia na
parte frontal do avental, retirando uma PokéBola.
Ela
apontou a cápsula para o Sandshrew e o retornou.
—
Leve o Sand com você.
Ethan
estendeu as mãos e abriu a boca em surpresa.
—
Mas... Tem certeza? A senhora não vai ficar aqui sozinha?
—
Você quer que eu repense a minha decisão? Não é porque a Equipe Rocket foi
derrotada que todos os perigos do mundo desapareceram do país.
O
garoto pegou a PokéBola e a guardou no bolso do avental outra vez.
—
Não, não! Eu vou arrumar minhas coisas e volto já!
Marieta
não pode deixar de sorrir quando viu Ethan sair correndo em direção ao quarto,
no segundo andar da casa. Sentiu um aperto no peito. Apertou o encosto da
cadeira e suspirou de forma pesada.
—
Ai, Ethan... Às vezes eu esqueço do quanto você cresceu...
***
Além
de uma mochila transversal onde guardara algumas trocas de roupa, roupas de
baixo, escova e pasta de dente e outros produtos de higiene, Ethan escondia
seus cabelos rebeldes, que não se preocupou em pentear antes de sair de casa,
debaixo de um boné preto com uma faixa amarela bem no meio virado para trás,
apesar da mecha que insistia em ficar a mostra. A blusa vermelha foi uma
imposição de sua mãe, porque apesar de estarem no verão, não se sabia quando
ele estaria pegando uma frente fria durante a viagem; era bom estar preparado.
Ele
estava parado diante da porta do laboratório. A expectativa era evidente e ele
hesitou por alguns instantes antes de tocar a campainha.
O
Professor Elm atendeu a campainha com um sorriso.
—
Ah, Ethan! Que bom que você chegou. Tenho alguém para apresentar a você.
Os
dois caminharam pelos corredores até chegarem aos fundos, na grande sala que se
estendia logo após a estátua de Lugia e Ho-Oh onde Chikorita e Cyndaquil
estavam para fora de suas PokéBolas almoçando. Havia duas pessoas ali presentes
conversando sobre os dois Pokémon e, felizmente para Ethan, Lyra não era uma
delas.
O
homem, Ethan tinha certeza que já vira na televisão. Os cabelos grisalhos e o
jaleco, os olhos cansados e as rugas... Samuel Carvalho era um rosto a ser
lembrado. Já aparecera tantas vezes dando entrevistas em tantos lugares
diferentes que era difícil não reconhecê-lo.
A
jovem ao lado dele era um pouco mais velha que Ethan. Mas, assim que colocou
seus olhos nela, foi como se o mundo ao seu redor parasse de repente.
Ela
era linda. Os cabelos castanhos longos que escorriam para fora do chapéu branco
que usava, apesar de estar dentro de um local fechado, os braços estranhamente
fortes, o perfume que emanava dela, o sorriso da garota para os dois Pokémon à
sua frente... Tudo fazia Ethan sentir que o coração dele ia sair pela boca.
Suas mãos ficaram trêmulas e um suadouro tomou conta de seu corpo.
Talvez
aquele misto de sentimentos e sensações que ele sentia pela primeira vez fosse
exatamente o que as pessoas diziam que era amar.
Ethan
ficou tão hipnotizado com Amanda Green que não reparou quando Cyndaquil correu
em sua direção e sentou-se diante do garoto.
—
Ah, Cyndaquil... Nunca achei que fosse ver você tão entusiasmado com um humano
— comentou Elm com um sorriso. — Confesso que desde que você o retornou para o
laboratório, eu percebo que ele ficou ansioso, esperando alguém voltar para visitá-lo. Eu acho que esse tempo todo, ele
esperava você.
—
Os Pokémon são criaturas fascinantes, você não acha? — disse o homem mais velho
com um sorriso terno. — Muito prazer, eu sou Samuel Carvalho.
—
Eu conheço o senhor! — exclamou Ethan, apertando as mãos do professor. — O
senhor costuma aparecer na TV! Meu nome é Ethan Heart, o prazer é todo meu!
—
Eu apresento um programa de rádio em Goldenrod, então é muito comum eu ser chamado
para dar algumas entrevistas sobre o mundo Pokémon para a televisão também. Esta
é a senhorita Amanda, uma treinadora sob minha orientação.
Ethan
simplesmente travou quando ela estendeu a mão e lhe deu um sorriso. Ele
percebeu os olhos azuis da menina e as covinhas em suas bochechas. Ela era, com
certeza, a garota mais bonita que ele já havia visto em toda a sua vida.
—
Muito prazer. Você pode me chamar só de “Amy”.
Ela
achou estranho e riu da cara de bobo que o mais novo fazia. Amy sabia da capacidade
que a sua beleza tinha de deixar as pessoas perplexas.
—
Muito... Prazer... — Ethan respondeu antes de perceber, tarde demais, que
saliva escapara de sua boca. — M-me desculpe!
Morrendo
de vergonha, o menino secou o queixo com a manga da blusa vermelha enquanto
tentava disfarçar, sem sucesso, a mancha úmida que havia ficado em seu peito.
Amy riu.
—
Tá tudo bem, fofinho.
—
Vejo que nossas crianças estão se dando bem! — comentou o professor Carvalho.
—
É... Como prováveis rivais, é sempre bom que levem as batalhas Pokémon na
esportiva. Falando nisso, Ethan... Você não tem um Pokémon, não é?
O
garoto se forçou a sair do transe causado pela adolescente em sua frente.
—
Hein? Ah, eu até tenho, professor... Minha mãe me emprestou o Sandshrew dela
pra que eu pudesse sair em jornada.
—
Ah, sim, entendo. Veja bem, os últimos dias foram movimentados por aqui. Eu
estava estudando o comportamento dos três Pokémon que você viu, Chikorita,
Totodile e Cyndaquil, mas quando o Totodile foi furtado, eu... Eu simplesmente
não consegui mais.
Havia
um tom pesado de lamento na voz de Elm. Carvalho apoiou a mão no ombro do
colega.
—
Não foi sua culpa, meu querido. Tenho certeza que Totodile vai se cuidar muito
bem até a polícia recuperá-lo.
—
Obrigado, Samuel. Enfim, Ethan... Sua mãe esteve aqui ontem e conversamos sobre
tudo o que aconteceu. Acredito que eu lhe deva muito mais do que um simples
“muito obrigado”. Acredito que Cyndaquil estará muito mais seguro nas mãos de
um treinador que eu conheço e confio.
Ethan
olhou para o Pokémon sentado aos seus pés que o encarava de volta e em seguida,
voltou a encarar o Professor Elm.
—
Pera. O senhor tá dizendo que...
—
Eu gostaria de lhe entregar esse Cyndaquil. E tenho certeza que é algo que ele
mesmo quer também.
O
garoto voltou a encarar o Pokémon que parecia sorrir para ele. Ethan abaixou-se
e começou a afagar o topo da cabeça da criatura que se aninhava na palma da mão
do menino.
—
Eu fico muito feliz, Cyndaquil. Muito obrigado!
—
Ouvi sobre você, garoto. Elm me contou de como você foi corajoso em perseguir
um ladrão para tentar recuperar um Pokémon. Você realmente se importa com eles.
As
palavras de Carvalho deixaram Ethan constrangido.
—
Não foi nada, professor... Eu nem sei o que passou pela minha cabeça, na
verdade...
—
Então isso se torna ainda mais louvável. Afinal de contas, o seu ato não foi
algo que você calculou. Você agiu instintivamente. Como eu falei, você
realmente se importa com os Pokémon.
Do
bolso do jaleco, o Professor Carvalho retirou um dispositivo vermelho. Parecia,
à primeira vista, uma carteira eletrônica. Tinha uma lente circular azul que se
assemelhava a uma câmera e um botão verde no meio da carcaça. Ao abri-la, Ethan
viu que o aparelho tinha duas telas, sendo a da parte de baixo um pouco menor
se comparada à da parte superior.
—
Esta é a versão mais recente da PokéDex. Se você apontá-la para um Pokémon, os
dados dele aparecerão e você poderá saber não apenas o seu nome e seu tipo, mas
também quais prováveis golpes ele tem. É essencial para um treinador — explicou
Elm, ensinando Ethan a mexer no aparelho.
—
Veja só que curioso. Eu vim aqui hoje porque o Professor Elm me avisou que
tinha terminado este protótipo de uma PokéDex nova, feita exclusivamente para
os treinadores de Johto. Eu acho que você é a pessoa perfeita para usá-la e nos
ajudar a catalogar todos os Pokémon que existem nesta região, meu rapaz —
comentou Carvalho com um sorriso.
—
Prometo não decepcioná-los! — exclamou Ethan, abrindo também um sorrisão para
os presentes. — Muito obrigado, professores!
—
Bem, eu já vou indo — anunciou Amy. — Muito obrigado por me trazer aqui,
Professor Carvalho. Obrigado pelo seu tempo também, Professor Elm. Eu acho que
a região de Johto vai ser muito surpreendente.
—
Uma treinadora Pokémon experiente, como você aparenta ser, não terá dificuldade
em realizar o desafio dos Ginásios. Espero ver você apta para disputar a Liga
Johto no fim do ano! — exclamou Elm.
—
Veremos — respondeu a garota com um sorriso travesso. — Até mais. Tchau pra
você também, fofo. Espero te encontrar por aí.
Ethan
ficou tão vermelho quanto uma Tamato Berry quando Amanda Green lhe deu um beijo
na bochecha antes de disparar pelos corredores em direção à saída.
***
A
praça em Pewter estava renovada. Não demorou muito para que a escultura de
pedra fosse reconstruída e parecesse nova, como se nunca tivesse sido
derrubada. Brock era muito bom em colocar as coisas nos seus devidos lugares e
Forrest começou a reparar nisso e continuava sonhando em um dia ser tão
parecido com seu irmão quanto as pessoas diziam.
Dessa
vez, porém, ele iria começar a colocar um pouco mais de tempero próprio nesse objetivo.
Todos
os irmãos ajudaram nos preparativos da viagem. Yolanda e Salvadore, os mais
velhos depois de Brock e Forrest, ficaram responsáveis por preparar alguns
lanches naturais para que ele não passasse fome durante os primeiros dias. Os
mais novos ajudavam em tarefas simples, como arrumar os objetos que seriam
levados em cima da cama para organizar a mochila, não sem antes Tommy e Cindy
começarem a discutir outra vez para saber quem iria dormir na cama que iria
sobrar (no final, nenhum dos dois ficou com ela, pois Yolanda logo se apossou
da mesma).
Por
sua vez, Brock ficou responsável por comprar a passagem de trem que levaria
Forrest até a região de Johto.
Na
noite anterior à viagem, eles conversavam na calçada em frente ao Ginásio. Foi
Brock quem sugeriu que o irmão viajasse por Johto, por ser uma região muito
mais tranquila do que Kanto, que ainda estava se recuperando do medo da Equipe
Rocket. Por mais que a organização mafiosa tenha se dissolvido, ainda existia o
temor de que a qualquer momento, eles poderiam voltar e causar pânico outra
vez.
Além
disso, seria uma ótima oportunidade para que Forrest pudesse conhecer pessoas
novas, capturar Pokémon novos e, de quebra, estudar estratégias inéditas que
agregassem um estilo de batalha original para o futuro Líder de Ginásio de
Pewter.
—
Eu vou voltar muito mais forte do que qualquer um dessa cidade, Brock.
Inclusive você! — exclamou o mais novo para o irmão, que sorriu enquanto
observava as estrelas.
—
Eu acredito nisso, maninho. Dê sempre o seu melhor em tudo o que você fizer que
você vai se sair bem.
Houve
um instante de hesitação antes de Brock continuar.
—
E lembre-se de que você sempre pode contar comigo, onde quer que você esteja.
Forrest
não conseguiu segurar as lágrimas. Vieram como uma explosão de dentro para
fora, aliviando o medo e a ansiedade que tomavam conta do coração do garoto.
...
Mesmo
quando as portas do trem se fecharam e aos poucos a imagem dos irmãos acenando em
despedida foi ficando para trás, acelerando mais e mais a cada segundo, Forrest
sabia que tudo ia ficar bem. Ele se lembrou imediatamente da famosa escultura
de pedra em Pewter que, apesar de ter sido derrubada em uma intensa batalha,
logo foi erguida outra vez, tão bonita e magnífica quanto era originalmente. E
assim, ele partia, deixando sua base na plataforma que sumia e pronto para
construir uma outra, ainda mais forte, no futuro desconhecido que o aguardava
além das montanhas, em outra região distante dali.
O
que importava era que Forrest estava tentando. E, independentemente do que
fosse acontecer de agora em diante, ele faria o possível para dar o melhor de
si em toda e qualquer situação.
Aquele
pensamento também rondava a cabeça de Ethan Heart quando cruzou as portas do
laboratório, estufou o peito e liberou das PokéBolas seus dois Pokémon,
Cyndaquil e Sandshrew. A única coisa que passava em sua cabeça era que, de
agora em diante, ele daria o seu melhor, não importava as consequências. Ele
estava pronto para mudar o seu destino.
A
única coisa que o perturbava, na verdade, era que naquele momento ele também pensava na garota gata que
acabara de conhecer. Quem era Amanda Green e por que ela conseguiu deixá-lo
daquele jeito? Se Arceus fosse bom com ele, iria escrever um jeito de fazê-lo
cruzar caminhos com ela outra vez.
Para
onde havia ido Amanda Green? Bem... Ainda não era possível dizer. Mas, como
sempre, o destino com certeza faria essas três vidas se entrelaçarem, mesmo que
nenhum deles pudesse sequer adivinhar qual seria o próximo passo que dariam.
Com
certeza, as Aventuras em Johto vão se tornar mais interessantes quando todos a
vivenciarem juntos.
TO
BE CONTINUED...
**Cinta de Foco refere-se ao item Focus Sash.

























