Capítulo 68

 


Quando amanheceu novamente em New Bark, Ethan já se encontrava, pela terceira vez, acordando em sua casa. A última madrugada fora intensa, o encontro com Raikou e todos os eventos que se sucederam fizeram com que o garoto mal conseguisse pregar o olho. Sentia os pelos arrepiados como se recebesse uma constante descarga elétrica, mas o que machucava de verdade era a lembrança de seu Nidoking o esnobando, trocando-o por outra treinadora. Nem mesmo os sonhos lhe davam uma trégua, atormentando-o com uma insistência sufocante.

 

— Bom dia.

 

A voz de Forrest causou certa surpresa em Ethan. Ele não esperava que o amigo estivesse acordado tão cedo.

 

— Eu te acordei?

— Não. Fiquei rodando na cama a madrugada inteira. Você não roncou, então imaginei que não tivesse conseguido dormir também.

— Eu não ronco — rebateu Ethan.

Aham... tá bom — riu Forrest de forma debochada enquanto se levantava do colchão em que passara a noite.

 

Ethan bocejou no momento em que o amigo falava e não ouviu a resposta.

 

— O que foi que você disse? — questionou Ethan levantando-se da cama e abrindo as cortinas que fechavam as janelas do quarto.

— Ah, não foi nada. A propósito, eu posso pedir uma opinião sua?

— Claro.

— O que você acha da Sunny?

 

Ethan virou-se para o amigo com os olhos semicerrados, muito por causa da luz solar que agora entrava através do vidro.

 

— Como assim?

— O que você acha dela, ué.

— Eu acho ela bonita, cara. Apesar de ainda não ter me acostumado com a ideia de o Imperador tê-la escolhido como treinadora favorita.

 

Forrest deu uma risadinha.

 

— Você ainda tá preso nessa história? O seu objetivo era devolvê-lo, lembra?

— É, mas não é fácil. Imagina eu ter aquele Nidoking na equipe? Não ia ter pra ninguém na Liga Pokémon!

— É, mas você tem o Tyranitar. Se tratando de força defensiva, ele é o melhor. Mas não foi por isso que eu perguntei pra você sobre ela.

 

Ethan ergueu o cenho.

 

— Então por que foi?

— Eu acho que ela tá afim de mim — disse o moreno quase em um sussurro constrangido.

 

Ethan cruzou os braços enquanto observava Forrest coçar a cabeça.

 

— Então beija ela.

 

Forrest imediatamente ficou rubro. Um sorriso sem graça dominou seu rosto e o garoto desviou o olhar para o chão.

 

— Falar é fácil... E se for só coisa da minha cabeça?

— Você gosta dela?

 

Forrest hesitou por um instante.

 

— Ah, ela é bonita, né?

— Cara, isso não responde a pergunta que eu te fiz. Eu acho a Amy uma gata e eu sou apaixonado por ela, não sei nem como criei coragem de me aproximar... Já a ladra de Nidokings nunca fez nada pra mim. Exceto roubar meu Nidoking.

— O Nidoking sempre foi dela, cabeção. E talvez eu possa sentir algo, sei lá... mas e se ela não quiser nada comigo?

— Bola pra frente. Ela não é a única mulher no mundo.

— Parece algo que eu diria pro meu irmão — riu Forrest.

— Você é meu melhor amigo. Você é a primeira pessoa a quem eu recorro quando eu preciso de alguma coisa. Eu não gosto dela, já basta a Amy se afastando de mim. Só não quero que você comece a se afastar também por conta de um rabo de saia.

 

Forrest ergueu as sobrancelhas, surpreso.

 

— Não precisa de ciúme, cara. Nem você me fez desistir de você mesmo, e olha que não foi uma vez só — riu o menino.

— E-eu não tô com ciúme! — bradou Ethan, sentindo o rosto queimar e um frio no ventre incomodá-lo enquanto tentava engolir aquilo que ele se recusava a admitir que era, justamente, ciúme.

 

O moreno levantou-se do colchão e saiu pela porta do quarto com um sorriso no rosto. Ethan esperou por alguns segundos ainda com as sobrancelhas franzidas para ver se Forrest voltava, mas isso não aconteceu.

 

— Ô SEU CRETINO, VEM AQUI DOBRAR SUAS COBERTAS! — gritou o garoto zangado.

 

***

 

Ethan desceu as escadas em direção à cozinha ainda bufando ar pelo nariz, no seu mau humor costumeiro. Sunny reparou a entrada ranzinza do menino, mas Chase, Elaine e os demais já estavam acostumados com aquele tipo de comportamento que Ethan só exibia quando sentia que algo o contrariava.

 

— Bom dia, filho — cumprimentou Marieta enquanto colocava mais um prato na mesa farta com todos os visitantes sentados. Forrest parecia ter sido o último a se servir, pois sua xícara de café sequer estava na metade.

— B’ dia — respondeu o menino de forma seca.

 

Ethan suspirou e sentou-se na cadeira, servindo-se de leite, café e não tardando a colocar algumas colheradas caprichadas de açúcar. Sand ajudava Marieta a recolher os pratos que iam ficando na mesa conforme as pessoas finalizavam as refeições. Sunny e Elaine comentaram entre si como Sandslash havia ficado fofo utilizando um avental rosa que Marieta comprara em uma das barracas de acessórios na feira de sábado.

 

— Sand tem sido um excelente Pokémon. Me ajuda bastante em casa e olha que ele só está aqui há dois dias — comentou a mulher afagando o cocuruto do Pokémon.

— Parece até que foi feito pra ele — comentou Elaine, fazendo um comentário silencioso. — Ele nunca deixou de usar esse avental...

— E falando em compras, precisamos repor o nosso estoque de itens, Ethan. Poções, Antídotos, Repelentes... Os itens básicos, estamos quase sem — avisou Forrest.

— Beleza. A gente pega no mercado de Cherrygrove — disse Ethan após bebericar em sua xícara de café com leite.

 

Elaine debruçou-se sobre a mesa e encostou o queixo sob algumas migalhas de pão.

 

— Por que nossa estadia em New Bark sempre parece tão curta, Ni?

— Sei lá... — suspirou Chase, encarando a mesa.

— Por que vocês dois nunca comentaram que já estiveram em New Bark antes? — perguntou Marieta.

 

Os irmãos se encararam.

 

— É que a gente... A gente não...

— Quando éramos mais novos nossos pais nos traziam para visitar nossa avó que morava aqui — explicou Chase, rapidamente. O menino olhava Marieta de uma forma estranha, como se tentasse ler seu pensamento. A mulher, no entanto, não percebeu. Distraiu-se tentando lembrar se já tinha visto aqueles dois na vizinhança ou se eram netos de alguma das vizinhas fofoqueiras, mas elas provavelmente os teriam mencionado antes.

— Essa é a vida de um treinador Pokémon, né? É como um andarilho, todo dia um lugar novo — comentou Sunny.

— Esse é justamente o motivo de gostarmos de fazer o que a gente faz — concordou Forrest com um sorriso.

 

Ethan olhou para o PokéGear em seu pulso.

 

— Oito e quarenta. Se quisermos chegar ainda hoje em Cherrygrove, é melhor irmos andando.

— Você fala como se Cherrygrove fosse do outro lado do país — disse Sunny com um sorrisinho.

— Vamos levar umas duas horas, no máximo, pra chegar lá — calculou Forrest.

— Nem isso — complementou Sunny.

— Nem isso. — Forrest sorriu para a menina. Nenhum dos dois viu Ethan revirando os olhos, o que arrancou um sorrisinho de Elaine.

 

***

 

Elm olhava pensativo para o computador que agora exibia o descanso de tela animado com alguns Pichu que dançavam alegremente e piscavam intercalando-se em diferentes cantos do monitor. O professor passou a mão no gancho do telefone, o posicionou no ouvido e discou nas teclas os oito dígitos de um telefone que ele sabia de cor por ser o mesmo há anos. Apesar de Elm não o discar já há dias, era frequente a manutenção daquele hábito de telefonar para aquela linha em específico.

 

Chamando. Chamando. Chamando. Chamando...

 

O cientista estava acostumado a tentar algumas vezes para ter algum sucesso. Acabou surpreendendo-se com a voz da sobrinha do outro lado da linha.

 

Oi tio. Tudo bem com o senhor?

— Lyra! Que surpresa você me atender tão cedo. Geralmente você é tão ocupada...

Eu ando tranquila esses dias, tio...

— Está tudo bem? Já tem algum tempo que você não me manda mais relatórios da sua PokéDex.

Tudo sim. Estou em Olivine agora, resolvi pegar uns dias de descanso, faz bem pros meus Pokémon, né?

— Ah, a adolescência... Os jovens vivendo sem a pressa do tempo — riu Elm. — Você está se preparando para a Liga Pokémon? É em Fevereiro.

Não vou te decepcionar, tio! Estarei lá e irei me tornar a nova Campeã da Liga Índigo, igual a minha mãe!

— Fico feliz em ver você tão animada, minha querida.

Preciso ir, tio. Mas eu ligo logo que puder. Não esqueci da minha tarefa de preencher a PokéDex.

— Estarei esperando ansioso.  Você conseguiu descrições até mesmo do lendário Lugia! Isso é impressionante!

Nada que uma treinadora habilidosa como eu não consiga, não é? — riu a menina.

— Eu não esperaria menos de você! Como você conseguiu encontrá-lo? Eu fiquei sabendo que ele fugiu após uma emboscada da Equipe Rocket nas Ilhas Redemoinho. Você e o Ethan não estavam envolvidos nisso?

É verdade, tio... Mas depois eu acabei encontrando-o enquanto seguia pra Cianwood. Eu nunca mais vi o Ethan depois disso.

— Ainda assim, é realmente surpreendente que você tenha conseguido esse feito. Meus parabéns!

Obrigado tio! Eu preciso ir, mas eu juro que ligo pro senhor assim que possível.

— Tudo bem, minha sobrinha. Até logo.

Tchau.

 

E desligou o PokéGear. Lyra respirou fundo e voltou a encarar a sacada. No horizonte, dava para se ver a copa das árvores da Floresta Ilex e a fumaça que saía das chaminés das fogueiras que queimavam carvão na cidade de Azalea. A menina tirou de um dos bolsos dos shorts preto — parte do uniforme da Equipe Rocket — um maço de cigarros. Enquanto apoiava o cilindro de nicotina nos lábios vermelhos, retirava do outro bolso um isqueiro e guardava o maço. Levou a mão à frente do rosto e acendeu o isqueiro queimando a ponta do cigarro e tragando-o profundamente. Sentiu a fumaça penetrar por sua garganta e encher seus pulmões. De forma suave, dispensou o excesso soprando-o no ar e vendo-a se dissipar no ar com os olhos.

 

— Eu diria que você faz bem o papel de sobrinha exemplar.

— Cala a boca.

 

Silver, sem camisa, mantinha um sorriso pervertido no rosto enquanto olhava para a namorada de costas. O ruivo estava deitado na cama de madeira sob a luz de uma candeia que permanecia acesa mesmo com a luz natural invadindo o local. O quarto não era tão grande, mas ao menos era confortável, tinha um guarda-roupa de madeira rústica, muito provavelmente feita das árvores da floresta dos arredores do pequeno esconderijo que os dois se encontravam. O piso também era de madeira e entre as paredes feitas de concreto, quadros decoravam de forma charmosa que exibiam imagens pintadas de diversos tipos de Pokémon do tipo Grama e Inseto, como Butterfree, Oddish e até mesmo Pinsir e Yanma. O cheiro da relva perfumava o ambiente, mas aos poucos, o cheiro do cigarro tomava lugar.

 

— Sobre o que ele perguntou? — o ruivo sentou-se na cama e levantou-se, seguindo em direção ao guarda-roupa.

— Nada que atrapalhe. Mesma coisa de sempre. Quis saber da minha viagem, do motivo que eu não tô enviando mais relatórios da PokéDex... — Lyra deu outra tragada no cigarro. — Ele perguntou do Lugia também.

 

Silver deu uma risadinha baixa enquanto terminava de abotoar a camisa que cobria seu peito com cicatrizes e queimaduras que, como tatuagem, cobriam o peitoral do garoto e descia até embaixo do umbigo. Só ardiam quando ele se lembrava dos motivos de elas estarem ali.

 

— Claro que você ia conseguir as informações do Lugia. Quem mais poderia fazer isso se não você?

 

O garoto aproximou-se de Lyra e a abraçou pelas costas, dando-lhe um beijo no rosto enquanto ela batia com o dedo indicador no cilindro do cigarro para derrubar o excesso de cinzas na ponta. Ela suspirou, sem manter contato visual com o namorado.

 

— Ele é tudo o que sobrou pra mim. Eu preciso me esforçar por ele.

— É bom saber que, além de mim, o famoso Professor Elm também se preocupa com você.

 

Outra tragada no cigarro. Lyra ainda se mantinha olhando o horizonte cinzento da Rota 33. Nuvens de chuva se aproximavam de Azalea.

 

***

 

Havia pouquíssimas nuvens no céu azul da Rota 29. Ethan, Elaine e Chase caminhavam juntos já há duas horas pelos caminhos sinuosos da estrada que ligava New Bark à Cherrygrove enquanto assistiam Forrest e Sunny caminhando um pouco mais à frente, rindo e conversando entre si. Vez em quando, eles ainda olhavam para trás para dar qualquer atenção para os amigos, mas voltavam a rir e a paquerar.

 

— Quando vocês crescerem, não namorem — disse Ethan aos gêmeos.

— Como se você não dissesse isso todos os dias... — respondeu Elaine, levando uma cotovelada de seu irmão.

— Eu sou tão transparente assim? — perguntou o menino aos irmãos, que riram.

— Só um pouquinho — respondeu Chase. — Mas você não é assim com a mam... digo, com a Amy?

 

Ethan parou para refletir por alguns instantes antes de responder, olhando para cima e apoiando o dedo indicador no queixo.

 

— Eu acho que se eu andasse desse jeito com a Amy, ela com certeza iria me matar. E não estou falando de um jeito irônico.

 

Os gêmeos se entreolharam. Dando uma risadinha, concordaram em silêncio com a afirmação do mais velho. Ethan voltou a comentar sobre o casal à sua frente, quase em um sussurro.

 

— É que eu acho esquisito eu ver o Forrest grudado com outra pessoa. Desde o começo da minha jornada éramos nós dois compartilhando praticamente tudo... Sei lá, é estranho.

 

Forrest caminhava alguns metros à frente com Sunny ao seu lado. A jovem, vez em quando, olhava de canto de olho e via Ethan cochichar com os gêmeos, que percebiam que estavam sendo observados, ficavam sem graça e desviavam o olhar de volta para o garoto, que não percebia a situação — era capaz de Ethan cair em um barranco e só se dar conta depois que tocasse o chão.

 

— Você acha que o Ethan está chateado comigo? — perguntou ela para Forrest.

— Eu tenho certeza. Mas não é culpa sua, ele é assim.

— Mas ele não pareceu assim quando eu falei pra me devolver o Cherry...

— Eu não acho que o problema seja você ou o Cherry. Ele é complexo... Já tem um monte de problemas, principalmente com a namorada dele.

— Problemas femininos? É, eu até consigo entender — riu ela. — Tem alguma coisa que eu possa fazer pra ajudar?

— Eu não sei... Você tem alguma ideia?

 

Sunny parou subitamente.

 

— Você respondeu minha pergunta com outra pergunta.

— Eu? Claro que não. Eu apenas otimizei o tempo emendando o próximo tópico da conversa — riu Forrest.

— Você tem bastante tempo sobrando, né?

— Pra você eu tenho.

 

As bochechas de Sunny coraram e ela desviou o olhar. Ela e Forrest se assustaram quando Ethan aproximou-se deles e se posicionou entre os dois, apontando para frente com o dedo indicador.

 

— Vocês viram aquilo?

 

No caminho à frente surgiram diversas bandeirolas vermelhas penduradas através de estacas de madeira que começavam justamente no ponto em que os garotos estavam. As bandeirolas tinham um brasão com um símbolo do que se podia deduzir ser uma cereja vermelha estilizada. O vento que soprava de New Bark as agitava e as parecia conduzir pelo caminho que, justamente, dava para Cherrygrove, alguns pouquíssimos quilômetros à frente. Já era possível ver as casinhas que eram endereçadas na cidadezinha.

 

— Sejam bem-vindos ao Festival da Cerejeira! — bradou uma voz.

 

Uma moça de longos cabelos loiros esvoaçantes sorriu para o grupo. Ela se parecia bastante com Sunny, tinha os mesmos olhos acastanhados e era tão bonita quanto — apesar de não o suficiente para mudar o humor de Ethan.

 

— Tuscany! — exclamou Sunny, correndo ao seu encontro.

— Sun! Que saudades de você!

 

As duas se abraçaram forte, seus corações pulsavam na mesma frequência.

 

— Por onde você andou? Tem tanto tempo que eu não te vejo! — Tuscany mantinha as sobrancelhas erguidas, e falava de forma agitada.

— Eu estive trabalhando com o Professor Elm... E adivinha só quem eu reencontrei?

 

Sunny sacou uma PokéBola de dentro da mochila. Apertou o botão da cápsula e liberou Cherry — apesar de agora ser um nome até esquisito para uma criatura como Nidoking, mas ele não deixaria de ser um filhote para sua treinadora. Tuscany não conseguiu controlar o queixo, que batia no tórax.

 

— CHERRY! É VOCÊ MESMO?! CARAMBA! VOCÊ TÁ VIVO! — A loira olhava Nidoking por todos os ângulos possíveis, completamente impactada com aquele Pokémon.

— Ele estava sendo cuidado por ele.

 

Sunny apontou para Ethan, parado com Forrest e os gêmeos a alguns metros, observando a cena. Tuscany, meio trêmula, apontou o dedo para o menino, que ao perceber, tentou esconder-se atrás de Forrest.

 

— Você não é o menino que pegou as oito insígnias e namora uma mafiosa? Eu te vi na TV!

— Sou... — respondeu o menino constrangido.

— Pessoal, essa é a minha irmã, Tuscany — apresentou Sunny.

— Isso explica porque o Cherry tá fortão desse jeito. Você arrasa demais! Não a toa que você manda na máfia! — exclamou a loira.

— Tus, ele não manda na máfia... Ele só namora a mafiosa — disse Sunny, escondendo o rosto atrás da palma da mão apoiada na testa, deixando Ethan ainda mais envergonhado. A voz sumiu, ele não conseguiu nem responder. — Ele é o Ethan.

— Vocês são tão lindinhos... — comentou Tuscany apertando as bochechas dos irmãos.

— Obrigada... — respondeu a menina sem graça, enquanto massageava o rosto. — Eu me chamo Elaine. E esse é o meu irmão, Chase.

— E quem é esse moreno sarado que temos aqui? — Tuscany olhava para Forrest com um sorriso malicioso.

— Forrest. Ele não — disse Sunny de forma séria, o que foi notado imediatamente por Tuscany.

— Certo. Captei. Vou tentar a sorte no festival. A propósito, vocês vieram pra isso, né?

— Festival? — perguntaram os gêmeos em uníssono.

— O nosso Festival da Cerejeira! — exclamou Tuscany, apoiando as mãos na cintura. — Muito me surpreende que a Sun não tenha falado nada pra vocês ainda.

— Ela tava meio ocupada — comentou Ethan, tomando uma cotovelada de Forrest. — Ai!

— Ah, a vida de assistente do Professor Elm deve ser difícil mesmo... — disse Tuscany olhando para Sunny e Forrest com um leve tom de deboche na voz. — O Festival da Cerejeira é uma festa anual que acontece na Cidade de Cherrygrove no meio do inverno onde nós pedimos para que a primavera seja próspera e possa abençoar a próxima colheita. Temos música, danças e a parte que eu mais gosto, comida de montão! Eu mesma estarei participando do concurso Miss Cerejeira para eleger a garota mais linda da cidade, então vim aqui divulgar. Vocês vão votar em mim, não vão?

— Bem... é que os ingressos para um evento desses devem custar uma fortuna — comentou Ethan.

— Que nada! É tudo cortesia. Toma um pra você, pra você, pra você, e pega mais cinco pra distribuir pros amigos. Inclusive atrás tem o meu número de participante, então não deixem de votar, tá bem? — disse Tuscany, não perdendo a chance de vender seu peixe. — Ai... Eu tinha que ficar aqui pra atrair as pessoas a comparecerem no festival, mas já está me dando uma fome...

 

A barriga de Ethan roncou. O garoto, constrangido, não teve como contrariar suas necessidades.

 

— É... Acho que eu sei como é essa sensação.

 

***

 

As barraquinhas se aglomeravam em ambos os lados das ruas, paralelas umas às outras. O aroma no ar era plural — da essência adocicada dos algodões-doces que atraiam crianças e Pokémon que babavam em grandes filas ao cheiro apetitoso dos pasteis sendo fritos em enormes panelas de metal que continham óleo borbulhante, aquecido pelas chamas ardentes de uma equipe composta por um Cyndaquil, um Slugma e até mesmo um Magby. Para onde quer que se olhasse, algo chamava a atenção, das barracas de flores onde uma Sunflora demonstrava habilidade em decorar os vasos, até mesmo o grande palco montado na praça da cidade, onde um grupo de dançarinos se apresentavam acompanhados de um Hitmontop, um Mr. Mime e um Jigglypuff que parecia se virar muito bem ao som pesado do hip hop que tocava nos amplificadores.

Cherrygrove era sim uma cidade pequena, do interior de Johto, mas uma vez ao ano ela parecia emanar uma energia mágica que a fazia ficar enorme. Todas as pessoas que estavam ali mantinham um sorriso no rosto que não era desfeito nem com os sorvetes derretendo devido ao calor que fazia.

 

Ethan abocanhou mais um pedaço do segundo hambúrguer, sentado no banquinho de madeira debaixo do toldo vermelho com listras brancas de uma das barracas próximas a uma árvore. Elaine parecia encantada demais com uma pelúcia de Snubbull em uma barraca próxima cercada de crianças, mas não se achava capaz de conquistar uma posição entre o Top 3 para garantir uma premiação. Seu irmão, no entanto, permanecia sentado ao lado de Ethan, com metade de um copo de suco de laranja gelado em sua frente. Penteava seu Pikachu, que mantinha-se sob o colo do menino sem resistência.

 

Após a última abocanhada, Ethan passou a mão na barriga e a afagou por algum tempo. Deu um sorriso satisfeito para o teto da barraca, já planejando o próximo. Chase soltou uma gargalhada.

 

— O hamburgão tava bom, hein?

— Você não faz ideia, cara... — O olhar de Ethan pousou nas costas de Elaine. — O que ela tá fazendo?

— Tomando coragem, eu acho — respondeu o menino enquanto escovava o topo da cabeça do Pikachu.

— Coragem pra quê?

— Pra tentar ir lá ganhar aquele Snubbull de pelúcia. Mas ela tem vergonha.

— Hum... — murmurou em resposta.

 

Chase continuou passando a escova nos pelos amarelos de seu Pokémon quando Ethan levantou-se do banquinho e caminhou até Elaine. A menina tomou um susto quando viu o rapaz passar por ela, com as mãos no bolso, infiltrando-se entre as crianças com metade da sua altura que disputavam a atenção de um único homem atendente. A camisa social preta fechada até a gola no pescoço claramente o fazia suar e assar com o calor daquela tarde. O homem não esboçava reação alguma, exceto quando viu Ethan se aproximar. Ele arregalou os olhos e apontou para o garoto, o que chamou a atenção das crianças que disputavam um lugar na fila. Houve um silêncio imediato entre o grupo, seguido por cochichos e sussurros curiosos.

 

— V-você não é aquele menino que tem as oito insígnias? É um prazer recebê-lo em minha barraca!

 

O garoto deu um sorriso sem graça.

 

— É, eu acho que sou eu... Escuta, quanto custa esse Snubbull de pelúcia? — perguntou apontando para o boneco que, agora que via mais de perto, era tão grande quanto um original.

— Quem diria que um finalista da Liga Pokémon estaria interessado por um bichinho de pelúcia... — zombou o homem, que engoliu em seco ao ver a expressão séria de Ethan. — Mas não está a venda. Mas... Você pode arriscar a sorte. $10, três bolinhas, três chances de acertar o anel do Ursaring.

 

O menino olhou para o alvo. Era um Ursaring de papelão, de pelo menos um metro e meio de altura, que tinha um buraco em sua barriga, no meio do círculo dourado que a espécie real costumava carregar no ventre. Claro que ele não metia medo em Ethan como um Ursaring de verdade, mas a tensão do momento o fez sentir um frio na barriga.

 

Ethan tirou da mochila sua carteira e sacou uma nota para o homem que a recolheu. Debaixo da mesa, retirou três bolas que tinham as mesmas cores de uma PokéBola comum e as entregou para o menino. Ethan encarou o alvo e arremessou a primeira bola que quicou na parede, longe do buraco do papelão. O garoto respirou fundo e segurou a bola na frente dos olhos, com o braço esticado, mirando o alvo com o olho esquerdo fechado.

 

A segunda bola atingiu o rosto do Ursaring de papelão. O homem na barraca deu uma leve baforada e um leve sorriso tomou conta no seu rosto. Ethan mantinha a concentração. Jogou a terceira bola, que por pouco não atingiu o buraco, pegando a borda do alvo.

 

— Que pena... Não deu.

— Mais três.

— $10.

 

Ethan pegou mais uma nota da carteira e a entregou para o homem. Mais três tentativas. Mirou no Ursaring de papelão, curvou-se levemente para frente e, ao invés de arremessar a primeira bola, ele virou a mão, deixando a esfera apontada para o teto. Jogando-a de baixo para cima, a bola fez uma curva para o alto e logo caiu certeira no alvo. Ethan colocou as outras duas bolas em cima do balcão e deu um sorriso satisfeito.

 

— De primeira.

 

O homem deu um suspiro e se dirigiu até o Snubbull de pelúcia. Pegou-o da prateleira e entregou para Ethan, que sorriu e agradeceu.

 

— Você ainda tem mais duas chances. Não quer mesmo jogar?

 

O garoto olhou para o grupo de crianças que o observava em silêncio. Pegou as duas bolas em cima do balcão e as entregou para uma das meninas que estava mais próxima.

 

— Já tá pago, boa sorte.

 

Os olhos da criança brilharam. Os amiguinhos logo fizeram uma roda ao redor da menina e copiaram o gesto, copiando a técnica que daria um verdadeiro prejuízo ao senhor da barraca agora que todos sabiam como levar o prêmio.

Ethan virou-se em direção à Elaine e entregou a pelúcia a ela. A menina arregalou os olhos e começou se tremer.

 

— Ganhei pra você.

— E-eu n-não posso aceitar — murmurou Elaine.

— Não pode o escambau. Eu tô te dando.

 

Elaine juntou as duas mãos e olhou para os próprios pés. Mordendo o lábio, a menina se pegava constrangida, sem saber o que fazer.

— É que não estou muito acostumada a ganhar presentes...

— Não? Seu pai é um bobão então. Achei que toda menina tivesse uma montanha de pelúcias que dá pra se perder lá dentro. Mas se você não gostar dessas coisas, eu posso dar pra outra criança...

— NÃO! — gritou a menina, agarrando a pelúcia das mãos de Ethan. — M-muito obrigada...

 

Elaine pulou no pescoço de Ethan e o peso o fez se curvar para baixo. A menina o abraçou com força, em breves segundos que pareceram minutos. O coração de Ethan encheu-se de ternura e o menino se emocionou — não sabia exatamente o motivo, mas sentia-se responsável por Elaine e também por seu irmão. Era como se fossem parentes próximos dele. Sentia-se feliz por ter feito o dia da menina, que olhava para a pelúcia de Snubbull como se ele fosse o bem mais precioso de sua vida — e para ela, não deixava de ser.

 

— Eu sempre soube que você tinha uma boa mira.

 

Ethan reconheceu aquela voz de imediato. Virou a cabeça procurando pelas imediações e não conseguiu esconder a surpresa ao reparar em Joey e Gabrielle aproximando-se do rapaz.

 

— Vocês? Nossa! Eu jamais achei que ia ver vocês por aqui! — exclamou Ethan abraçando os dois.

— Você não achou realmente que eu ia perder uma boa festa, né? Principalmente se tratando do Festival da Cerejeira na minha cidade natal. É uma ótima oportunidade de mostrar pra Gabi tudo de bom que Cherrygrove tem a oferecer, que é quase nada — riu o menino. — E eu vi você na TV, você estava em New Bark. Imaginei que logo chegaria aqui.

— É muito bom vê-lo de novo, mon chérie! — exclamou Gabrielle. Ethan notou uma acentuada no sotaque kalosiano.

— É muito bom ver vocês também — sorriu Ethan.

— Cadê a Amy? Eu passei pelo Forrest vindo pra cá. Ele tava acompanhado de uma amiga minha, estavam indo à praia...

— Longa história... — comentou Ethan meio embaraçado.

— Se você o ver primeiro que eu, avisa que eu descobri que a Argenta estará em Ecruteak.  Eu acho que o pessoal da Liga Pokémon tá querendo chamar bastante a atenção pra cidade, porque já vai ter o Festival de Ouro e Prata lá, agora a Batalha da Fronteira estará lá... Enfim, quando o vê-lo, pode dar o recado?

— Claro que sim! — sorriu o menino.

 

A atenção de Joey se voltou para Elaine e Chase, que conversavam na barraca próxima.

 

— Esses dois estão viajando contigo? Eu vi eles na TV, são a tua cara. Parecem até seus filhos — caçoou o garoto dando cotoveladas de leve no braço de Ethan.

— Tá doido?! Eu nem tenho idade pra isso, eu nem me casei ainda!

— Cê tá ligado que não precisa casar pra fazer filho, né? — retrucou de forma maliciosa.

 

Joey veio ao chão quando sentiu a coronhada que recebeu de Gabrielle.

 

— Você não tem nem tamanho pra falar dessas coisas. Fique calado.

 

Ethan não pôde esconder uma risadinha.

 

Os gêmeos aproximaram-se de forma tímida. A moça deu um belo sorriso ao ver o Snubbull de pelúcia da garota.

 

Beau! Espero que você esteja cuidando bem dele. Meu nome é Gabrielle.

— O meu é Elaine. E esse é o meu irmão, Chase.

— Esse Pikachu não é forte demais pra uma criança do seu tamanho carregar ele por aí fora da PokéBola?

 

Chase fechou a cara.

 

— Takara é o meu melhor amigo, ele jamais faria mal pra mim! — O menino olhou Joey de cima a baixo. — E nós dois temos praticamente o mesmo tamanho!

— E daí? Eu sou mais velho que você!

— E daí? E o que tem a ver?

— E daí que você tem que me respeitar!

 

Os dois mostraram a língua um para o outro. Ethan e Gabrielle interviram para evitar uma discussão ainda mais calorosa. Joey, no entanto, sacou uma PokéBola e a apontou em direção à Chase.

 

— Então eu te desafio pra uma batalha! Vou te mostrar a capacidade de um treinador com oito insígnias!

— Eu também tenho oito insígnias. Se esse for o caso, quem vai lutar com você sou eu — disse Ethan, tomando a frente.

— Eu posso lidar com isso. Ele me provocou! — exclamou Chase, nervoso.

— Então vamos fazer uma batalha em duplas — sugeriu Gabrielle.

— Batalha em duplas? — questionou Ethan.

— Uma luta entre duplas com quatro Pokémon sendo comandados ao mesmo tempo. É uma sensação em Kalos e também um modo de batalha presente na Liga Pokémon de Hoenn — explicou Gabrielle.

— Região de Hoenn... Me parece um lugar bem interessante... — comentou Ethan, levando a mão ao queixo.

— Temos quatro treinadores com vontade de batalhar. Eu acho que é uma boa — disse a jovem.

— Eu acho uma excelente ideia! — Joey parecia empolgado com a ideia. — Eu vou poder aproveitar a oportunidade pra derrotar o meu maior rival.

 

Ethan sacou uma PokéBola e a estendeu na direção do garoto.

 

— Não conte com isso, Joe.

 

***

 

Um dos principais pontos turísticos de Cherrygrove era, com certeza, sua praia a oeste da cidade. Apesar de ser bastante conhecida ao redor do país, a praia não atraía tantas visitas quanto o litoral de Olivine, por exemplo, mas era o palco ideal para o espetáculo que estava prestes a acontecer. Ethan, Joey, Chase, Gabrielle e Elaine conversavam entre si enquanto afastavam-se consideravelmente do centro urbano da cidade, pegando a trilha que levava ao mar. A praia de Cherrygrove era tão tranquila quanto as águas que beijavam sua orla, visto que apenas pequenas embarcações costumavam navegar por ali, muitos deles, barcos de pesca a procura de algo além de Magikarp selvagens, como tesouros presos por entre os corais de Corsola por debaixo da baía.

Foi Joey quem sugeriu que caminhassem descalços pela areia, muito pelo fato do garoto não querer sujar seus tênis — mania muito parecida com a de Ethan. A areia fofa massageava as solas dos pés dos jovens e o barulho das ondas do mar causava até mesmo um certo frio na barriga para Chase e Elaine, que ainda não tinham visto o mar tão de perto, mesmo que aquele nem se comparasse com o oceano que banhava as rotas marítimas de Hoenn ou Alola. O sol não estava tão quente, o que fazia os garotos se sentirem a vontade e bem dispostos. Logo que encontraram um bom lugar, mais ou menos no meio da praia, dividiram-se em duplas. Joey e Gabrielle de um lado e Ethan e Chase de outro.

 

— As regras são simples. Cada um de nós só pode usar um único Pokémon, sem substituições. A dupla que tiver os dois Pokémon derrotados, perde — explicou Gabrielle.

— Eu e a Gabi estamos sempre praticando nessa modalidade... É um treino a mais pra Liga Johto! — exclamou Joey. — Vocês não vão ficar com medo, né?

 

Chase puxou Ethan pela manga da camiseta. O garoto abaixou e ouviu o sussurro secreto que o menino emitiu em seu ouvido, o que chamou a atenção de Joey e Gabrielle. O garoto concordou e colocou a mão no bolso do shorts, sacando uma PokéBola.

 

— Estamos prontos! — exclamou Ethan, apontando a cápsula bicolor na direção dos oponentes.

 

Joey e Gabrielle se entreolharam sorrindo e fizeram um breve aceno de cabeça.

 

— Muito bem, lá vamos nós! — bradou Gabrielle arremessando a PokéBola para o alto, em um movimento copiado por Joey e pelos oponentes do outro lado do campo.

 

Um breve segundo de apreensão se sucedeu antes de o forte brilho que emanou das esferas se dissipasse e revelasse quatro criaturas prontas para o combate. Do lado de Ethan e Chase, havia Takara, o Pikachu, e a armadura escarlate de Scizor que encaravam os dois oponentes do campo de batalha de Joey e Gabrielle. O Pokémon do garoto era um roedor bípede de pelos alaranjados e bochechas amarelas e um rabo, cujo formato da ponta era um grande raio elétrico. Seu parceiro era um pequeno Pokémon de pelagem branca com triângulos vermelhos e azuis ao redor do corpo. Ele também tinha um longo pescoço longo e um par de asas nas costas que lhe davam um ar angelical, apesar de encarar os oponentes com um olhar sério.

 

Ethan sacou sua PokéDex e apontou para os Pokémon em sua frente, mas antes de prestar atenção em qualquer informação vinda da voz robótica, não deixou de se surpreender com a PokéDex que Chase retirou da mochila. Parecia até mesmo um pequeno diário. O garoto o virou na vertical e abriu a capa do caderno, que se revelou ser um pequeno computador de mão, que logo revelou a imagem de Raichu na tela.

 

Quando a eletricidade se acumula dentro de seu corpo, fica mal-humorado. Também brilha no escuro — leu Chase. — É a forma evoluída do Pikachu? É a primeira vez que eu vejo um Raichu de perto...

— Que PokéDex esquisita essa sua — comentou Ethan, conferindo o seu próprio dispositivo.

Raichu, o Pokémon Rato. É a forma evoluída do Pikachu. Quando seus níveis de eletricidade aumentam, seus músculos são estimulados e ele se torna mais agressivo do que o de costume. Se as bolsas elétricas em suas bochechas ficarem totalmente carregadas, ambas as suas orelhas ficarão em pé. — informou o dispositivo.

 




Ethan o apontou para o segundo Pokémon.

 

Togetic, o Pokémon Felicidade. É a forma evoluída do Togepi. Dizem que aparecerá diante de pessoas bondosas e atenciosas e as encherá de felicidade. Fica desanimado se não está com pessoas gentis. Ele pode flutuar no ar sem mover suas asas.




— Togetic e Raichu contra Pikachu e Scizor. Essa batalha vai ser bem interessante... — comentou Joey para Gabrielle.

 

Scizor, no entanto, não parecia estar interessado tanto assim na batalha. Olhava para os lados, batia suas asas e movia-se de um lado para o outro de forma hiperativa. Usava suas pinças para socar o ar em sua frente, tentando chamar a atenção de Togetic para toda sua força. Takara, o Pikachu de Chase, encarava o colega sem entender o que estava acontecendo.

 

— Parece que seu Pokémon está bem disposto, hein? — observou Joey para Ethan.

— Um pouco até demais... — respondeu Ethan meio sem graça. — Acho que ele ficou muito tempo lá no laboratório e deve estar querendo desenferrujar.

 

Gabrielle soltou um suspiro impaciente.

 

— Vocês falam demais. Togetic, ma chérie, comece com o AncientPower no Scizor!

 

O Pokémon da jovem criou uma bola de energia prateada na frente de seu corpo e a arremessou na direção de Scizor, que prontamente desviou voando para cima. Pikachu, no entanto, foi atingido por estar próximo do alvo.

 

— Takara! — exclamou Chase, surpreso.

— A regra número um de uma batalha em duplas é estar sempre atento ao que acontece no campo de batalhas — comentou Gabrielle. — A sintonia é importante.

— Tipo assim. Raichu, Quick Attack! — ordenou Joey.

— Togetic, Yawn!

 

Raichu disparou em uma investida veloz contra Pikachu, que conseguiu desviar por pouco ao ouvir o grito de seu treinador, jogando seu corpo para o lado direito. O Pokémon de Joey levantou uma nuvem de areia quando errou o ataque.

 

— Scizor, avance com Metal Claw! — exclamou Ethan.

 

Um rastro veloz espalhou areia para cima e para os lados, impedindo a visão geral. Togetic flutuava no ar tentando captar a presença do oponente. Foi surpreendida quando Scizor apareceu em sua frente com suas pinças brilhando em um tom cinza-metálico, atingindo-a com um ataque direto, fazendo-a voar atordoada alguns metros para cima.

 

— Raichu, Thunder no Scizor! — exclamou Joey.

— Takara, Zippy Zap! — gritou Chase por de trás da nuvem de poeira.

 

As bochechas de Raichu acenderam em meio à nuvem de areia. Takara percebeu e disparou em direção ao oponente, com o corpo coberto por eletricidade. O oponente foi empurrado alguns metros para trás e, naquele instante, perdeu a paciência e a concentração, fazendo o Thunder falhar. Aquele Pikachu era mais irritante do que ele pensara.

 

Togetic bocejou em um ataque Yawn bem no rosto de Scizor, que foi pego de surpresa. O Pokémon de Ethan balançou a cabeça e deu um sorriso para sua oponente. Ele realmente não a estava levando a sério.

 

Bullet Punch! — exclamou Ethan.

— Evasiva, mon chèrie! — gritou Gabrielle.

Thunder Wave! — ordenou Joey.

Electro Ball! — pediu Chase, apontando para Raichu.

 

Scizor atingiu um soco no rosto de Togetic, que não conseguiu desviar a tempo. No entanto, foi atingido pelo raio elétrico de Raichu, que paralisou seu corpo. O Pokémon escarlate sentiu seus músculos travarem, mas uma moleza tomou conta. Seus olhos ficaram pesados e ele caiu para frente. O Yawn o botou para dormir.

 

O Electro Ball de Pikachu atingiu o rosto de Raichu. Togetic parecia abalada, mas se posicionou imponente no ar, diante de seu único oponente disponível: O pequeno Takara.

Pikachu encarou Raichu e Togetic de forma séria, sem dar para trás.

 

— Scizor, isso não é hora de dormir! Scizor! — chamava Ethan para o Pokémon que dormia tranquilamente apoiando a cabeça em cima de uma de suas pinças.

— Dois contra um é covardia! — exclamou Chase para Gabrielle.

— Não é uma batalha de dois contra um. Tem dois Pokémon no campo, mas que pena que só um está disponível pra batalha... — sorriu a garota de forma maliciosa. — Togetic, Metronome!

Agility! — Exclamou Joey para seu Pokémon.

 

Raichu disparou veloz, correndo com auxílio de suas quatro patas, e começou a girar ao redor de Pikachu, tentando confundi-lo e ganhando tempo para o Metronome de Togetic carregar. Takara não sabia para onde olhar. De onde viria o ataque, da Togetic voando na sua frente ou do Raichu que viria com um ágil ataque rápido?

 

— Scizor, acorda! — implorava Ethan, sem resposta.

— Takara, Thundershock no Scizor! —

— O quê?! — exclamou o mais velho. — O que você tá fazendo, Chase?

 

Pikachu olhou para o seu treinador por um instante. Chase mantinha a seriedade que transmitia confiança ao Pokémon. Não precisou de muito mais; de suas bochechas, faíscas elétricas escapavam enquanto os pêlos amarelos pelo corpo de Takara se arrepiaram. Pikachu curvou-se e disparou um poderoso choque elétrico na direção de Scizor, que foi atingido em cheio e despertou, berrando de dor. Olhou furioso para Pikachu, mas sua atenção foi desviada quando da boca de Togetic, saiu um Solar Beam mirado na direção de Scizor. Raichu se lançou na direção de Pikachu, atingindo-o em cheio com o Quick Attack, fazendo-o com que Takara desse um grito e viesse ao chão com violência. Scizor foi atingido pelo golpe de Togetic.

 

Os dois Pokémon, do lado de Ethan e Chase, ficaram visivelmente machucados. Levantaram-se com dificuldade, sua respiração era pesada. Os músculos de ambos Pokémon tremiam, mas a vontade de vencer os fazia querer ficar em pé.

 

— E-Ethan, me desculpe por ter acertado o Scizor, eu não pensei...

— Tá tudo bem, Chase. Você foi bem inteligente.

 

Chase olhou para o rapaz de forma surpresa.

 

— Acha mesmo?

— Bem... O Scizor acordou não foi? — e deu um sorriso. — Vamos dar nosso melhor. A gente pode até cair, mas vamos causar bastante dano neles.

 

Chase assentiu com a cabeça, em afirmação. Gabrielle soltou uma bufada de ar pelo nariz e um sorrisinho tomou conta de seus lábios.

 

— Parece que eles não vão desistir tão fácil.

— É assim que eu gosto. Não esperava menos do meu rival.

Let’s Go, Pikachu! Pika Papow!

— Scizor, Metal Claw!

— Togetic, Hyper Beam!

— Raichu, Thunder!

 

Scizor colocou as pinças a frente de seu corpo e enrijeceu sua armadura escarlate feita de aço e então saltou para frente, partindo veloz em direção à Togetic que disparou o Hyper Beam ao mesmo tempo em que o Thunder de Raichu e o Pika Papow de Pikachu se encontravam no ar.

 

A explosão que se sucedeu foi surreal. A grossa camada de ar fez subir uma parede de areia que se espalhou em uma violenta onda de poeira por todos os lados, quase fazendo com que o boné de Ethan saísse voando. Os quatro treinadores tossiam e tentavam proteger os olhos com os braços. Podia-se ouvir um intenso falatório que ia aumentando aos poucos. Demorou alguns instantes para que a poeira cessasse e todos pudessem ter claramente um resultado.

 

Do lado de Ethan e Chase, Pikachu e Scizor permaneciam caídos ao chão, inconscientes.

Do lado de Gabrielle e Joey, Togetic e Raichu também estavam caídos inconscientes.

 

Uma ovação foi ouvida. Os quatro treinadores perceberam que estavam sendo assistidos pelos moradores e visitantes de Cherrygrove. Ethan e Chase olharam um para o outro e coçaram a cabeça, constrangidos, em um movimento idêntico e completamente intuitivo.

 

— Foi uma bela batalha. E com um resultado incrível!

 

Forrest aproximava-se com Sunny ao seu lado. Os dois sorriam.

 

— Vocês sumiram. Bom ver vocês de novo — cumprimentou Ethan enquanto retornava seu Scizor para a PokéBola.

— Ei, Forrest! Eu tenho algo pra falar pra você — disse Joey aproximando-se do moreno, guardando a PokéBola de Raichu no bolso.

— Por que não passamos no Centro Pokémon para recuperar os Pokémon de vocês? Depois dessa batalha, eles mais do que precisam de cuidados — sugeriu Sunny.

— Você tem razão — concordou Gabrielle. — Acho que todos prrecisamos de um descanso.

 

Ethan reparou que Chase olhava para a PokéBola de Takara com certa melancolia. O rapaz ajoelhou-se para ficar mais ou menos na mesma altura que o mais novo.

 

— Aconteceu alguma coisa?

— Eu acho que atrapalhei tudo...

— Você foi incrível, cara! Honrou as suas insígnias. Com certeza o Takara tem sorte de ter você como treinador.

 

Chase olhou para Ethan com os olhos brilhando.

 

— Acha mesmo?

— Joey tem oito insígnias. Com certeza treina aquele Raichu dele há bastante tempo. Takara tomou uma surra, mas conseguiu mostrar que não se brinca com os baixinhos.

 

Em um momento de impulso, Chase abraçou Ethan, quase derrubando-o ao chão. Ao perceber, o menino largou rapidamente e ficou rubro.

 

— M-me d-desculpa...

— Tá tudo certo. É bom receber um abraço de vez em quando... — disse Ethan, visivelmente sem graça.

 

Elaine que assistia a tudo a alguns metros de distância, abraçando firme seu Snubbull de pelúcia, deu um sorriso meigo.

 

— Tô com fome... Será que podemos deixar nossos Pokémon com a Enfermeira Joy e ir comprar um hambúrguer? — perguntou Joey massageando a barriga.

— Eu me junto a você. Tô sem comer nada tem um tempo também — disse Forrest olhando para Sunny. — O que acha?

 

A garota entrelaçou seus dedos da mão esquerda na mão direita de Forrest.

 

— Eu acho que vou comer uns dois hambúrgueres — e riu.

 

Ethan ergueu-se novamente.

 

— Puxa, seja lá o que vocês dois andaram fazendo, com certeza devem ter gastado uma boa energia. O que estamos esperando? Vamos logo!

 

O grupo de amigos virou-se na direção da cidade e caminharam conversando em voz alta em direção ao próximo destino, o Centro Pokémon. Houve queima de fogos, danças tradicionais e um espetáculo com tambores que vibravam na batida do coração, conforme Tuscany prometera  — ela só não conseguiu se divertir tanto depois de perder as finais do concurso Miss Cerejeira para uma garota oito anos mais nova. Cherrygrove podia ser uma cidade pequena, mas com certeza cabia uma enorme diversidade de aventuras dentro dela. Quais serão as próximas histórias a serem contadas e vivenciadas nessa cidade florida?

 

 

TO BE CONTINUED...


Capítulo 67

 



O notebook de Elm permanecia aberto no Unown Spell Software — um programa de computação do braço de tecnologia Home Office da Silph Co. que permitia a criação e visualização de documentos e textos —, analisando as pesquisas de Eusine a respeito de Raikou, Entei e Suicune, três Pokémon que lendas locais dizem terem sido ressuscitados por Ho-Oh após a destruição da Torre de Bronze quando um raio a atingiu cerca de cento e cinquenta anos atrás. O pesquisador lia as últimas linhas e constantemente tecia comentários incrédulos a respeito do rico conteúdo ali presente. As pesquisas de Eusine a respeito da lenda dos três cães — ou seriam gatos? — lendários eram extremamente detalhadas, fruto de anos de pesquisa do rapaz.

 

Eusine sempre fora um apaixonado pelas lendas de Johto. Apesar de ter nascido na Cidade de Celadon, em Kanto, desde criança sempre ouvira de seu avô a respeito das histórias incríveis que envolviam o povo da região vizinha. Não à toa, quando atingiu a idade mínima de dez anos, resolveu sair de Kanto e viajou para Goldenrod, de onde iniciou sua jornada. Sempre tivera envolvimento com os Pokémon do tipo Psíquico por causa de seu avô que apresentava poderes paranormais — costumava adivinhar com precisão tudo o que Eusine pensava, e assim, antecipava praticamente todos os movimentos que o menino fazia. O garoto nunca conseguira entender qual era o truque por trás dos poderes do seu velho, mas aquilo o intrigava.

 

Avô e neto eram muito apegados. Por influência dele que Eusine passou a se apaixonar pelas lendas de Johto e pela história das duas torres da milenar Cidade de Ecruteak.

 

Cento e cinquenta anos atrás, a Torre de Bronze pegou fogo graças a um raio que caiu sobre ela. Três Pokémon sem nome não conseguiram escapar do interior da estrutura, queimando junto com a madeira. Enquanto a cidade chorava pela perda histórica inestimável, uma chuva torrencial caiu sobre a terra e apagou a chamas que consumiram a hoje conhecida como Torre Queimada. Um arco-íris de luz forte rasgou as nuvens espessas e escuras, e dele surgiu o Pokémon lendário, Ho-Oh, que com seus poderes devolveu a vida àqueles três Pokémon. Os cidadãos locais ficaram admirados em ver tal milagre com seus próprios olhos. Raikou, Entei e Suicune eram majestosos, mas da mesma forma que aqueles Pokémon causaram admiração, também geraram revolta. Aquilo estava muito além da compreensão humana. Os cidadãos de Ecruteak, armados com paus e pedras, imediatamente partiram para cima daqueles Pokémon que, sem entender o motivo do ódio, deixaram aquela cidade para nunca mais voltar.

 

Não era segredo que o avô de Eusine era um fã de Suicune. Colecionava muitas imagens e quadros com artes que representavam a criatura, o que logo foi passado para o neto que idolatrava o quão majestoso era aquele Pokémon. Ao iniciar sua jornada, fez questão de pedir à sua avó uma roupa tão pomposa quanto um Suicune de verdade.

 

A capa que esvoaçava com o vento foi o toque final que o menino precisava para se sentir tão lendário quanto aquele Pokémon.

 

Seu primeiro Pokémon foi, claro, um Drowzee, que logo se tornou um dos principais membros de sua equipe. Duas passagens memoráveis de sua vida aconteceram logo no começo de suas aventuras — a primeira delas foi conhecer Gold Heart e sua namorada, Crystal Soul, que vinham do interior de Johto buscando suas insígnias para competir na Liga Johto. Eusine precisava de companhia, seria melhor viajar com amigos do que sozinho. Poderia aprender mais a respeito das lendas ouvindo da boca das próprias pessoas que moravam em Johto.

 

Mas certa decepção o atingiu ao falar com aqueles dois.

 

— Você é maluco, cara. Essas histórias pelas quais você se interessa não passam de folclore. Não existem de verdade — riu Gold enquanto abocanhava uma Berry.

 

Eusine fechou os punhos. Poderia até existir razão no que aquele garoto falava, mas o próprio Eusine também tinha razão naquilo que dizia.

 

— E como você prova que não existe de verdade?

 

Gold deu um sorrisinho.

 

— Você tem um ponto. Acho que vamos ter que descobrir, não é?

 

E então, aquele grupo passou a viajar junto. Gold achava graça na roupa extravagante do colega, mas dentro de sua cabeça Eusine era apenas um grande fã seu. Afinal, sua fama como um treinador habilidoso saído de uma cidade nanica feito New Bark e conquistador de três insígnias já devia ter alcançado até Kanto.

 

Crystal parecia ser a mais disposta a conhecer e conversar com o rapaz. Apesar de achá-lo excêntrico, ele era até bonitinho.

 

— Você já foi no CCP? — perguntou ela puxando conversa. — Inaugurou esses dias aqui em Ecruteak. Eu estava doida pra conhecer!

— CCP? Parece nome de facção criminosa — respondeu Eusine fazendo a garota rir.

— É a sigla do Centro de Comunicação Pokémon. Lá dentro a gente consegue trocar Pokémon à distância usando o nosso PokéGear, não é demais? — questionou Crystal, empolgada.

— Caramba... Realmente esse negócio de internet promete muito... Apesar de que eu não confio, não. Ainda prefiro os livros!

— E o que tem de legal em um monte de letras juntas em uma página em branco? Coisa chata, cara! — zombou Gold. Eu prefiro mangás, pelo menos você tem desenhos lá.

— Por Arceus. Um absurdo desses, vindo de você, não deveria me surpreender tanto... — respondeu Eusine, incrédulo.

— Por que você não gosta da internet? — perguntou Kris.

— Como é que se confia em uma tela em que você pode digitar o que quiser, navegar por onde quiser, com a certeza de que ninguém está vendo? Não gosto disso. Os livros ao menos eu posso pesquisar os temas que eu quiser sem que ninguém fique sabendo.

— Exceto a bibliotecária — disse Gold em tom debochado.

— Já viu alguma bibliotecária contar o que os leitores leem?

Gold pareceu refletir por um instante.

— Você tem um ponto.

— Eu sei — disse Eusine da maneira convencida de sempre.

 

Apesar das brigas, Eusine e Gold costumavam se dar bem. Nos dias que se seguiram, os garotos e a própria Crystal conversavam sobre Pokémon e opinavam sobre como eles poderiam melhorar suas equipes, seja em seus integrantes, estratégias ou movesets que poderiam desenvolver.

Eusine não tinha interesse em batalhas de Ginásio, o que fazia Gold não vê-lo como rival — apesar de às vezes achar que Crystal estava afim do menino, mas devia ser coisa de sua cabeça —, afinal, o que Eusine teria de melhor do que ele? Olhou para o colega conversando com Krys sobre Suicune pela décima vez aquele dia. A resposta era: nada.

Eusine assistia as batalhas de Gold e Crystal no Ginásio de Goldenrod. O líder era poderoso, massacrava o time de Gold usando seu Tauros. Tanto o rapaz quanto Crystal foram derrotados vezes o bastante para que passassem a ir à biblioteca junto de Eusine para buscar livros de pesquisa sobre aquele Pokémon para elaborarem novas estratégias.

 

Na sétima tentativa, a insígnia de Goldenrod fora conquistada.

 

A parceria durou até a chegada em Ecruteak, o destino almejado por Eusine onde as lendas da cidade contavam sobre Raikou, Entei e Suicune e sua origem.

Ali conheceu um jovem de sua idade nascido em Ecruteak chamado Morty. Assim como Eusine almejava, ele também estudava a respeito das mitologias que envolviam as torres. Mesmo tão novo Morty já exercia autoridade na região por ser neto do atual líder de ginásio fantasma da cidade, e por isso apresentou a Eusine tudo que sabia sobre a torre mitológica.

 

— Dizem que sou clarividente. Eu o vi em meus sonhos, Eusine... sinto que você irá conseguir encontrar o que procura e que isso terá um papel fundamental na vida de muitas pessoas... — disse o rapaz de forma séria.

— Você tem certeza disso?! — exclamou Eusine, segurando nas mãos de Morty.

— O futuro toma muitas formas, mas certos acontecimentos são imutáveis independentes das consequências... Eu também vi que um Pokémon magnífico aparecerá por entre as nuvens do céu no final de um arco-íris para um treinador poderoso... e eu irei dedicar a minha vida para que eu me torne esse treinador.

 

Anos se passaram, e as palavras de Morty jamais saíram da cabeça de Eusine.

 

O homem olhou a sua volta. Viu o Professor Elm finalizar a pesquisa que levara anos desenvolvendo junto com seu amigo. Ethan, Forrest, Chase, Elaine e Sunny analisavam a tela de um dos computadores de Elm que exibia um símbolo piscante no mapa de Johto que representava a localização de Raikou — e que no momento se encontrava exatamente nas proximidades de New Bark.

 


— Você tinha razão, Morty... Você tinha toda razão... — Eusine cochichou para si próprio.

— Eu só tenho uma dúvida — comentou Elm olhando para o homem após ler a última linha da pesquisa. — Por que Raikou está aqui e por que raios justamente aqui?

— É essa a resposta que eu também procuro, professor. Raikou é uma criatura mística, um ser descrito nas lendas antigas de Johto. Séculos atrás, ele fugiu dos humanos para sua própria segurança, e por obra do destino encontra-se muito mais perto do que jamais esteve.

 

Ethan coçou o queixo enquanto processava em sua cabeça todas as informações que vinha recebendo.

 

— Como nós poderemos chegar até esse bicho? Ele é um Pokémon lendário... Forrest leu a lenda pra mim e pra Amy uma vez e nela dizia que até a origem desses Pokémon deu fim a seca da cidade de Azalea.

— Essa informação não procede — comentou Eusine de forma séria. — De acordo com meus estudos, a torre pegou fogo há cento e cinquenta anos e há provas que a seca em Azalea aconteceu cerca de uns duzentos anos antes. Períodos históricos costumam se confundir, mas uma coisa não teve nada a ver com a outra.

— Talvez não tinha, até agora — disse Forrest de supetão, olhando para a janela.

 

Todos os presentes olharam para o garoto em sinal de surpresa.

 

— O que quer dizer? — questionou Eusine.

— Raikou é um Pokémon lendário do tipo Elétrico... Essa tempestade acompanhada por uma nuvem de raios não me pareceu nada discreta para uma criatura que há anos vem fugindo das garras de seus captores. E se encararmos isso como um sinal? Ele está chamando a atenção de algo... ou alguém.

 

Eusine encarou Forrest por breves segundos.

 

— É uma boa teoria... Devo realmente confessar, é uma tese incrível.

 

O homem virou-se para Ethan.

 

— Você tem uma PokéDex, não tem?

— Tenho. Por quê?

— Pode me emprestá-la por um momento?

 

Ethan assentiu com a cabeça e pôs a mão dentro do bolso do shorts, de onde tirou o aparelho rubro que carregava fielmente por toda parte.

 

Eusine recolheu o equipamento e dirigiu-se até um dos computadores do laboratório. Conectou uma das pontas do cabo USB na CPU e a outra ponta mais fina em um dos conectores da PokéDex. Abriu o aparelho, iniciou-o e baixou para dentro dele uma série de arquivos.

 

— Aqui está. Eu adicionei as informações de Raikou, Entei e Suicune. Cheque por favor.

 

O garoto abriu sua PokéDex e desceu por entre os arquivos de Pokémon que já havia registrado. No fim da lista, três novas descrições se encontravam presentes. Ethan usou os botões para selecionar a primeira delas.

 

— Raikou, o Pokémon Trovão — começou a ler, chamando a atenção dos demais. — Um Pokémon que corre rugindo em um som que ressona como um trovão. As nuvens de chuva que atrai disparam tempestades de raio incessantes. Dizem que se originou a partir de um raio...

— Fui eu que escrevi essas descrições, baseado em minhas pesquisas. — explicou Eusine. — Você também poderá ver na PokéDex os padrões de locomoção que esses Pokémon têm, logo, poderá calcular com precisão a localização deles.

— Se tratando de Pokémon lendários, acredito que toda e qualquer informação é importante — comentou Elm.

 

Pôde-se ouvir o ribombar de um trovão que ressonava em uma enorme potência. O chão vibrou. Aquele trovão não era apenas um fenômeno meteorológico comum.

 

— É ele — confirmou Eusine de forma séria, quase em um sussurro temeroso. — Preparem-se.

 

Ethan, Forrest e Sunny se olharam receosos. Por mais que fossem treinadores experientes, ninguém sabia o que poderia esperar de uma luta contra uma criatura lendária.

 

— Eu treino Pokémon que são imunes aos golpes do tipo Elétrico. Rhydon, Graveler e Steelix podem enfrentá-lo sem problemas — disse Forrest aos dois.

— Bem, o Sand ficou com a mamãe... Mas acho que Gligar e Quagsire podem ajudar também, sem falar na ajuda que Faísca pode dar — respondeu Ethan. — Posso pegá-los, professor?

— Claro, Ethan. Vou prepará-los pra você — disse Elm. — E quanto aos seus, Sunny?

— Tenho um Electabuzz que pode ajudar — respondeu a jovem, recebendo um aceno assertivo do professor.

— E quanto à gente? — perguntou Elaine.

— Vocês dois vão ficar por aqui — respondeu Forrest de maneira séria. — Vai ser perigoso lá fora e não poderemos correr o risco de ninguém se machucar.

— Nós não somos crianças! Nós também somos treinadores e podemos contribuir com os nossos Pokémon! — exclamou a menina exaltando a voz.

— Não, Elaine. Forrest tem razão — disse Ethan com firmeza. — Além do mais, nós vamos precisar de alguém pra nos dizer a localização do Raikou com base nesse mapa. Vocês devem ficar para proteger o pessoal do laboratório caso alguma coisa saia de controle e a gente não chegue a tempo.

 

Pela primeira vez em algum tempo, Chase recolheu o Dunsparce que carregava no colo para a PokéBola. Pegou seu Pikachu, que adorava pendurar-se em sua cabeça, e o abraçou buscando certo tipo de segurança.

 

— Se é assim que a gente pode ajudar... Tudo bem por mim.

 

Elaine o olhou de cara fechada.

 

— Mas, Ni! Seria melhor se a gente...

— Não é fácil lidar com um Pokémon lendário, Ni. Você mais do que ninguém deveria saber disso.

 

Elaine engoliu em seco. Respirou fundo e, apesar de contrariada — e odiava ser contrariada —, resolveu não dar continuidade à discussão. O clima já não estava dos mais favoráveis.

 

— Tá bem. Façam como quiserem.

 

Eusine, que não havia se manifestado na discussão, apenas assentiu com a cabeça.

 

— Muito bem, chegou a hora de agirmos.

 

***

 

Ethan sentia um intenso frio na barriga, mas não sabia se era pelo nervosismo de estar indo de encontro a um Pokémon lendário poderoso ou se era por causa da alta velocidade que Eusine dirigia, já a quase 120km/h em direção a uma intensa nuvem negra que era tão densa que impossibilitava a vista das montanhas que cercavam a cidade de New Bark.

Não havia curiosos nas ruas. Os raios e trovões eram ameaçadores o suficiente para prender os moradores dentro de suas casas. Não se via sinal nem de humanos e nem de Pokémon que se recusavam a enfrentar a fúria da natureza.

Ethan olhava incansavelmente para a PokéDex na página de Raikou, mas a localização não se atualizava. Havia uma grande interferência no sinal e o aparelho simplesmente não funcionava.

 


— Droga... Está fora de área, não temos como monitorar a localização do Raikou — Ethan apertava os botões na esperança inútil de tentar alguma conexão, porém sem sucesso.

— Ligue pro Professor Elm, peça pra que ele nos auxilie. Eu nunca confiei nesse negócio de internet, sempre deixa a gente na mão quando se precisa dela — reclamou Eusine.

 

Gotas de chuva começaram a molhar o pára-brisa do carro. A chuva começou a cair tão repentinamente quanto havia parado mais cedo. Ethan discou o telefone de Elm no menu do PokéGear e logo foi atendido:

 

Laboratório Pokémon do Elm. Elm falando.

— Professor, estamos sem referência de GPS. Qual é a atual localização de Raikou?

Baseado nas coordenadas via satélite, ele está a oeste da sua localização atual.

—Seguindo pra lá. Mantenha-nos informados, por favor.

Deixe comigo.

 

A chuva apertou, ficando cada vez mais intensa a cada metro que o carro avançava. A ventania fazia as folhas nas árvores balançarem com violência. Sunny olhou apreensiva para o lado de fora. Se Sunny fosse um Pokémon e tivesse orelhas como as de um Pikachu, elas estariam completamente eriçadas.

— Tudo bem que a descrição da PokéDex diz que Raikou atrai tempestades de raio... mas isso não é um pouco demais?

— Sabe que Pokémon também dizem ter o poder de mudar o clima? Dragonair. — Forrest parecia o menos assustado com aquela tempestade.

— Tem um Dragonair lá fora?! — exclamou Ethan, olhando para o amigo no banco de trás e quase tendo o pescoço cortado pelo cinto de segurança.

— A extensão dessa tempestade é muito maior do que um simples Dragonair poderia gerar. Só se ele estivesse em uma horda, e dragões são criaturas solitárias. Acredite quando eu digo que Raikou é poderoso — comentou Eusine sem tirar os olhos da direção.

 

Ethan voltou a olhar para as nuvens negras que cobriam o céu. Os raios caíam por toda parte, atingindo em cheio as imensas montanhas que separava as cidadelas do interior das metrópoles no centro do continente.

O carro prosseguia veloz. A terra subia, a luz dos faróis do carro rasgavam a poeira e brigavam com a escuridão para ver quem era o verdadeiro soberano. Os queixos bateram quando a estrada da trilha pela qual Eusine dirigia se mostrou esburacada.

 

Um rugido estridente rasgou a noite e o barulho da chuva. Um forte brilho tomou conta dos arredores e Eusine pisou bruscamente no freio, o que fez o carro deslizar na terra e a rodar ao redor do próprio eixo. Dentro do carro, Ethan, Forrest e Sunny seguravam as alças do teto do veículo com força e agarravam as mochilas no colo enquanto os cintos de segurança os travavam no banco em alguns segundos que pareceram horas.

O carro estabilizou, mas tudo ainda girava. Ethan nem percebeu quando Eusine abriu a porta e saiu para o lado de fora, abrindo agilmente o porta-malas, sem ligar para a chuva que caía e ensopava sua roupa. Retirou uma maleta que mais se assemelhava a um cubo com alças e tornou a fechar o porta-malas do carro, voltando a andar com pressa pela trilha que levava ao topo da montanha à frente.

 

— Ethan, o ovo! Veja se está tudo bem com ele! — gritou Forrest para o amigo.

 

A cabeça do garoto girava e seu coração batia na garganta. Ethan tentou abrir o zíper da mochila e, com cuidado, retirou a incubadora portátil com o ovo que havia ganhado do Professor Elm. Por sorte, ele permanecia inteiro. Não havia sequer um arranhão no vidro para alívio mútuo. Ethan voltou a guardar a incubadora dentro da mochila e repousou-a no banco em segurança antes de fechar as portas. Sunny aproveitou para pegar alguma coisa dentro de sua mochila e o guardou no bolso da camiseta.

 

As portas do carro se abriram e os adolescentes desceram. O vento gélido castigava suas peles que começavam a ficar encharcadas da chuva que caía. Os raios e trovões pareciam rugidos assustadores. Estavam próximos da fonte que os produzia.

 

— Tudo bem, pra onde a gente vai agora? — Ethan olhava para os lados com as mãos na cintura tentando enxergar alguma coisa por entre a escuridão da noite.

— Só tem um caminho possível — respondeu Forrest, apontando à frente por onde a grama molhada se abria entre o caminho de terra que agora estava transformado em lamaçal pela chuva.

— Tá de brincadeira, né? — questionou Ethan virando-se para o amigo com uma expressão incrédula.

— Foi pra lá que o Eusine foi. E aparentemente, é onde Raikou deve estar também.

— O que foi aquilo que o Eusine tirou do porta-malas? — perguntou Sunny.

— Ele tirou alguma coisa do porta-malas? — Ethan perguntou em cima da pergunta.

— Assim que ele saiu do carro. Acho que você estava meio tonto — respondeu Forrest, rindo.

 

Outro trovão fez o chão tremer e os pelos do corpo se arrepiarem por inteiro. Por um instante um clarão incendiou a clareira como um claro aviso de que a natureza em sua fúria não deveria ser subestimada.

 

Ethan olhou para a tela do PokéGear. Estava sem sinal algum.

 

— Estamos sozinhos — avisou o garoto.

— Não estamos — corrigiu Forrest. — Temos nossos Pokémon.

— E pensando bem... Temos a nós mesmos. Estamos juntos — completou Sunny.

— Nós, sozinhos, contra um Pokémon lendário capaz de fritar a gente? Então a gente tá ferrado — disse Ethan de forma séria.

 

Os garotos se entreolharam antes de respirar fundo e correr seguindo a trilha à frente.

 

A lama pelo caminho dificultava ainda mais a travessia, fazendo o trio ora escorregar, ora afundar e causar em Ethan um misto de ódio e tristeza. Suas roupas estavam molhadas e sujas, e não fazia nem quarenta minutos que ele havia saído de casa com elas inteiramente limpas. Forrest mais se preocupava em ajudar Sunny em uma maneira quase extrema de cavalheirismo — apesar da garota não dizer absolutamente nada e apenas aceitar a ajuda do rapaz — do que em dar efetiva atenção para Ethan e suas reclamações.

As palavras lhe escaparam quando se deparou com a criatura com a qual já havia se encontrado há alguns meses no Lago dos Magikarp, mas nunca havia prestado atenção no quanto aquele Pokémon era enorme, medindo quase dois metros de altura, sem falar na largura.

Eusine estava diante do Pokémon lendário com um olhar furioso. Entre os dois havia uma maleta aberta de onde uma estrutura metálica se estendia para o lado de fora, segurando um cristal roxo no centro do mecanismo que brilhava intensamente. Os garotos correram até ele e o Pokémon recuou cauteloso, começando a circular o perímetro pronto para atacar. Ethan sentiu um frio no estômago, sentindo a mão com a PokéBola tremer.

 

— Calma Ethan. Não faça movimentos bruscos — Forrest sussurrou com cautela para o amigo.

 

Eusine virou-se e logo reconheceu os garotos há metros de distância.

 

— Eu achei que vocês não vinham! É hora do show começar — exclamou o homem.

 

Raikou disparou de seu corpo um raio elétrico na direção dos garotos que se esquivaram se jogando para lados distintos. Ethan foi o primeiro a atirar sua PokéBola e convocar Tyranitar para um duelo de feras. Comandante rugiu para Raikou, mas a criatura elétrica não se intimidou. Abriu a boca e rugiu com mais força com uma potência sonora que balançou o chão e quase o rachou no meio. Trovões ribombaram com tamanha violência que por um momento, os músculos de Ethan e companhia formigaram, como se estivessem sendo eletrocutados. Tyranitar, pela primeira vez, sentiu que estava diante de um oponente de poder maior que o seu.

 

Forrest sacou uma PokéBola do bolso de sua calça e apertou o botão da cápsula, arremessando-a para cima. Materializando-se no ar, Rhydon afundou alguns centímetros na lama quando seu corpo pesado atingiu o solo.

 

— Um Pokémon do tipo Terra sendo usado na chuva? Eu achei que você fosse um treinador mais experiente... — comentou Eusine de forma irônica.

— Você não conheceu nosso treinamento de perto — respondeu Forrest de forma séria.

— Sunny, ajude o Eusine a proteger a máquina. Deixa o Raikou com a gente — pediu Ethan à menina sem tirar os olhos de Raikou.

— Certo. Cherry, agora é com a gente!

Sunny invocou seu Pokémon apertando o botão central da PokéBola. Nidorino se colocou pronto para o combate e, após um breve comando de sua treinadora, correu em direção à Eusine. Raikou observou a movimentação e rapidamente usou um golpe elétrico na direção de Imperador. Rhydon correu e jogou-se na frente do ataque, recebendo-o e o anulando. Sua armadura absorveu a eletricidade e não pareceu sentir nada.

 

Nidorino passou por debaixo das pernas de Rhydon e continuou correndo em direção a Eusine que desta vez tentava se aproximar do dispositivo com o cristal reluzente. Quando o Pokémon aproximou-se de Eusine, o homem tentou afastá-lo usando uma de suas mãos.

 

— Agora não! Eu preciso desse cristal!

 

Eusine tentou alcançar a alça da maleta. Raikou virou-se para o homem e preparou mais um poderoso ataque elétrico.

 

— Puta merda, que cara idiota! — exclamou Ethan, sem compreender o quanto aquela máquina significava para Eusine. Era o trabalho de sua vida.

O rapaz saiu correndo em um gesto de impulso e Sunny o seguiu, acompanhada por seu Nidorino.

— Ethan, Sunny, voltem pra cá! — exclamou Forrest em um segundo de distração.

 

Raikou disparou um poderoso golpe elétrico e então tudo pareceu estar em câmera lenta. Sunny paralisou e fechou os olhos. Ethan estava a apenas alguns passos de Eusine que ele sabia que o impacto seria inevitável.

 

Nidorino saiu correndo e passou por Ethan, correndo em direção à Sunny.

 

No segundo seguinte, Ethan viu Imperador empurrar Sunny de forma truculenta, jogando seu corpo em direção a ela. O golpe de Raikou foi disparado com uma intensidade elétrica tão grande que todas as luzes em um raio de New Bark até Cherrygrove se apagaram. A colisão só não foi maior porque parte da eletricidade local foi desviada em direção à Rhydon, concentrada em seu chifre.

 

Raikou realçou seu lado mais selvagem ao se dar conta de que seus oponentes continuavam inteiros após seu ataque mais forte. Como qualquer fera, partiu em direção da presa mais fácil com os dentes a mostra.

Sunny foi prensada debaixo das pernas de Raikou, tentando livrar-se do peso dele protegendo seu corpo miúdo com os braços estendidos, mas a criatura tinha a força e violência necessária para esmagá-la e abocanhá-la se quisesse. Nidorino outra vez correu para protegê-la, sentindo sua ligação com aquela treinadora aflorar. Com duas fortes patadas acertou o rosto de Raikou que sentiu o rosto arranhado por suas garras venenosas, deixando uma cicatriz profunda na altura dos olhos até a base do focinho.

Raikou abocanhou o torço de Imperador e o chacoalhou violentamente, atirando-o longe. Concentrado em apenas um de seus oponentes, Tyranitar acertou-lhe uma segunda pancada pela direita que o atordoou e fez deslizar pela lama, manchando sua pelagem amarelada com lama e sujeira.


— Cherry, não! — berrou Sunny, que ao invés de escapar correu para socorrer o companheiro mais importante de sua vida.


A garota ajoelhou-se ao lado do Nidorino e tocou suas feridas. Eram mais graves do que gostaria de admitir. Ethan e Eusine brigavam e discutiam alto sobre uma máquina idiota enquanto seu Pokémon padecia lentamente em sua frente.


— Por favor, não faça isso comigo... — murmurou Sunny. — Nós acabamos de nos reencontrar. Não me deixe sozinha outra vez.

 

O Nidorino respirava com dificuldade. O toque dela o acalmava.

Gostava de ser tratado como Imperador, conhecer o mundo, lutar ao lado de Ethan e intimidar seus adversários com imponência.

Mas amava ser Cherry.

Tinha uma forte lembrança de deitar-se ao lado dela e confortá-la enquanto dormia, ouvir sua voz doce e protegê-la quando ainda era pequena.

 

O Nidorino levantou a cabeça com dificuldade e cutucou com o chifre a mochila revirada da garota. Sunny deu-se conta de que ele apontava direto para a Pedra da Lua dada por Ethan, e soube que se não a usasse agora talvez nunca mais tivesse outra chance.


O corpo de Nidorino brilhou. Cherry foi ficando maior e mais largo, suas patas se dividiram em braços e patas, transformando-o em um ser bípede. O chifre no topo de sua cabeça cresceu e se tornou mais afiado, suas mandíbulas tornaram-se definidas e suas presas se mostraram mais perigosas. Nidoking urrou e Sunny olhou para o Pokémon espantada.


— Ele evoluiu...! — exclamou Ethan perplexo, distraindo-se de sua briga com Eusine por um minuto.

— Você quase morreu por minha causa! Ficou louco? — berrou ele, trazendo Ethan de volta para a realidade.

— De nada, Eusine — respondeu com ironia. — Você que é maluco de trocar sua vida por causa desse... cristal idiota!

— É um cristal catalisador. Ele vai me ajudar a entender o padrão de comportamento do Raikou baseado nos golpes elétricos dele. É importante que nada aconteça com tamanha preciosidade!

 

Raikou rugiu com fúria, impaciente e exausto devido ao Discharge. Eusine soube que era hora de encerrar as atividades, fechou a maleta e correu junto a Ethan para onde estava Forrest.

 

— Pára-Raios*. Raikou com certeza não vai atingir a gente com força total enquanto esse grandão estiver por perto — comentou Forrest.

— Isso está saindo do controle. Eu consegui o que queria. É hora de irmos antes que mais pessoas e Pokémon sejam envolvidos — disse Eusine de maneira quase pragmática.

— Mas deve haver um motivo para o Raikou ainda não ter saído dessa região — falou Forrest. — Insisto na teoria de que ele está tentando chamar a atenção de alguma coisa!

— Mas... quem, ou o quê? — comentou Ethan.

— E o mais importante, por quê? — complementou Eusine.

 

Forrest lembrou-se de um dos ensinamentos mais preciosos de Bruno durante seu treinamento. “Nem tudo se resolve com força bruta”, dissera seu tio na ocasião. “Tente ouvi-los, tente escutá-los. Muitas tragédias históricas poderiam ter sido evitadas se houvesse um momento de conversa.” Para uma montanha de músculos daquele tamanho especializada em treinar os Pokémon lutadores mais poderosos dizer algo assim, então o conselho devia ter um significado.

 

Talvez fosse hora de parar de avançar com frenesi e apenas enfurecer mais e mais o Pokémon selvagem. Forrest compartilhou um olhar breve com seu Rhydon, intocado pelos raios, mas farto da chuva torrencial que castigava sua armadura rochosa. O treinador assentiu e caminhou devagar em direção ao Pokémon lendário. Raikou rugiu tão alto que os relâmpagos rasgaram o céu, tal qual a própria criatura que encarava os oponentes estava pronta para atacar a qualquer momento sem poupar poder.

 

— Raikou, por favor, nos ouça! Não queremos fazer mal a você! — gritou Forrest para o Pokémon Lendário que tentava repeli-los, cada vez mais acuado.

 

O Pokémon de Forrest urrou. Rhydon e Raikou se encaravam, a fera lendária sabia que seus ataques seriam inúteis. Raios e trovões guerreavam no céu escuro por entre as nuvens espessas. Raikou encarou Forrest por alguns segundos e Rhydon colocou-se entre a criatura e o treinador, mostrando uma postura protetiva.

 

Um forte vento soprado do norte fez com que Eusine subitamente olhasse à sua direita.


Saltando por entre as colinas, um majestoso Pokémon azul apareceu perante os presentes. Por um instante, encarou Ethan fixamente nos olhos. Logo em seguida olhou para Raikou, que o encarou e fez uma mesura. Suicune parou no cume de uma colina e uivou. Os dois cães então se viraram e partiram um para cada direção.

 

— Suicune... — suspirou Eusine maravilhado.

 

O Pokémon lendário desapareceu quase tão rápido quanto apareceu. Eusine tentou correr atrás de Suicune, de repente foi como se Raikou não tivesse mais importância alguma, mas o Pokémon sumiu com o vento.

 

Rhydon virou-se então para Forrest e o garoto fechou os olhos, concentrando-se para ouvi-lo. As nuvens espessas começaram a se dissipar, cessando a chuva e silenciando os raios. Sunny acariciava o rosto de seu Nidoking que resistira aos ferimentos, mas precisava ser logo levado a um Centro Pokémon.


Por um breve instante, Ethan os encarou e sentiu-se incomodado com alguma coisa.

 

— Se você não tivesse me dado aquela Pedra da Lua, talvez ele não tivesse resistido — Sunny falou baixinho. — Obrigada por cuidar do Cherry até o último minuto.

 

Ethan desviou o olhar meio constrangido. Não era exatamente aquilo que o incomodava, mas também não era o momento para pensar sobre.


Forrest chamou a atenção de seus amigos. Ainda era possível enxergar nuvens densas dissipando-se na encosta da montanha, o que provavelmente denunciava a rota que Raikou tomaria.

 

— Algo está prestes a acontecer em Ecruteak — Forrest alertou-lhes com seriedade. — Acredito que Raikou estava tentando invocar Suicune para avisar isso.

— Foi o Rhydon quem te disse isso? — questionou Eusine, recebendo um aceno positivo de Forrest. — Impressionante...

— Mas é em Ecruteak onde a Amy está... — comentou Ethan.

— Eu não acho que seja coincidência — pontuou Eusine. — Muitas coisas esquisitas acontecem quando vocês três estão juntos.

— Então nós realmente precisamos apertar o passo — comentou o moreno, retornando seus Pokémon para as PokéBolas. — Algo enorme está pra acontecer. É muito provável que a Amy esteja sabendo de alguma coisa...

— E se a Amy está sabendo de algo, não vai nos contar — disse Ethan.

— Ela não — replicou Forrest —, mas talvez eu saiba de alguém que possa ajudar.

 

Eusine e Sunny se entreolharam sem saber o que dizer.


O tempo passava rapidamente. O encontro com Raikou foi apenas uma das peças de um quebra-cabeça complicado que ia se revelando como uma série de destinos cruzados feito uma teia emaranhada que logo envolveria cada um deles. Aos poucos, o cerco se fechava.

 

 

 

TO BE CONTINUED...

 

 

*Pára-Raios se refere à habilidade Lightning Rod.


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