Capítulo 27



A manhã no Centro Pokémon de Ecruteak estava bastante aconchegante. Ethan, Amy e Forrest estavam no refeitório tomando café. Forrest parecia visivelmente chateado.

Ethan acabara de contar para o amigo os eventos da noite anterior.

— Poxa vida, queria eu ter participado disso... — Lamentou o moreno.
— Tirando o fato de que eu quase morri de susto treze vezes, caí de uma altura monstruosa correndo o risco de partir minha coluna em milhares de pedacinhos e quase morri devorado por três seres envoltos por uma luz demoníaca... Foi até legal. — Comentou Ethan devorando grandes pedaços de pão.

Amy mantinha sua feição séria e irritada. Blue, o Gastly, estava próximo do ombro da garota, que o acariciava no queixo com a ponta do dedo.

— Desde que você pegou essa bola de gás ambulante e desde que chegamos nessa cidade que você não dá um sorriso. Acho que o espírito dessa coisa sugou a sua alma. — Disse Ethan olhando para a amiga.

Aquelas palavras foram o estopim.

Amy ergueu-se da mesa de forma violenta. Seus cabelos sempre arrumados agora estavam embaralhados, cobrindo seu rosto enfurecido. Sua respiração estava ofegante e seus punhos, fechados.

— A única causa, razão e circunstância de eu estar assim é porque você é um idiota, garoto.

A passos largos, a garota se retirou do local. Forrest, de boca aberta, ficou olhando o vazio que segundos antes era preenchido por Amy e levantou-se da mesa quando a ficha caiu.

— Você não vem comigo atrás dela? — Perguntou o moreno olhando para Ethan que continuava a mastigar seus pedaços de pão de forma vagarosa, como se fizesse questão de que seus dentes triturassem cada pedaço do alimento da forma mais dolorosa possível.

— Os incomodados que se mudem. — Disse o garoto de forma seca.

Forrest, sem dizer mais nem uma palavra, deu as costas e seguiu por onde Amy havia saído.

A estadia em Ecruteak não estava sendo das melhores. Amy andava estressada, Ethan perdia a paciência com quem era grosso com ele sem motivo e Forrest ficava em cima do muro tentando impedir que os amigos discutissem. A situação ficava cada vez mais insustentável.

A garota e seu Gastly azul permaneciam em silêncio, parados alguns metros a frente da entrada do Centro Pokémon. Encarando a linda paisagem da cidade, pensamentos atormentavam a mente da garota. Ela não sabia o que fazer.

Ela ouviu passos aproximando-se. Ao olhar para trás, viu Forrest encarando-a com um olhar sério. Mas não havia ódio ou rancor no olhar do moreno. Era um olhar sereno, terno. Um olhar que fez os nós na cabeça de Amy se desamarrarem e fez seus joelhos cederem. Bastou apenas um olhar para que todo peso em seus ombros desaparecessem imediatamente e fizesse seus joelhos tocarem o chão. Um olhar para que as lágrimas encontrassem de volta o caminho dos olhos azuis e todo sentimento remoído fosse expelido em forma de choro todo de uma vez.

Há muito tempo Amy não chorava. Tanto tempo que ela até mesmo havia se esquecido de que podia chorar.

Forrest ajoelhou-se de frente à amiga que chorava como uma criança que havia se perdido de seus pais e se permitiu abraça-la. Abraço que nunca havia dado. Abraço que aconchegou a cabeça de Amy de uma forma inédita em sua vida tão jovem. Os dois se permitiram chorar ao mesmo tempo.

Ethan assistia a cena ao longe. Não intrometeu-se de forma alguma. Dentro de si, apenas um sentimento esquisito. Seu coração queria libertar-se do peito, saindo pela boca. Sua garganta estava seca como areia. Seu estômago embrulhava-se como se quisesse abrir passagem entre outros órgãos.

O garoto fechou o punho e voltou para o Centro Pokémon, sem olhar para trás.

***

Aproximava-se do meio-dia quando os nervos se acalmaram. Amy e Forrest haviam retornado para o Centro Pokémon e se dirigiram ao quarto onde estavam hospedados. Ethan estava sentado em sua cama, encarando suas seis PokéBolas e com seus pensamentos aflorando em sua mente. O garoto ergueu o olhar para os amigos e levantou-se imediatamente. Ele caminhou até Amy e apontou o indicador para o rosto da garota.

— Eu desafio você.

Amy deu um passo para trás, surpresa.

— Me... Desafia?
— Sim. Eu te aguardo lá embaixo. — Ethan recolheu suas PokéBolas, pegou sua mochila e retirou-se do quarto. Amy e Forrest se entreolharam sem entender nada.

***

No campo de batalhas existente atrás do Centro Pokémon, Ethan aguardava Amy com Sandshrew, Larvitar e Butterfree a postos. A garota caminhava devagar em direção ao seu lado, não desgrudando nem por um segundo seu olhar de Ethan.

— Espero que você saiba o que está fazendo. Não adianta chorar depois.

Ethan, pela primeira vez no dia, sorriu para a amiga.

— Eu não vou chorar.

Amy arrumou seu chapéu para ter uma melhor visão do campo de batalha. Blue, seu Gastly azul se materializou ao lado da garota. Ela ergueu o braço para frente e deu sinal para que aquele Pokémon tomasse o campo para si.

— Larvitar, Sandstorm!

O pequeno Pokémon ergueu seus braços e instantaneamente o céu começou a mudar de cor. Nuvens densas de poeira começaram a se formar e a ficar mais próximas do chão. Uma tempestade de areia se formou e se espalhou por todo o campo de batalha. Forrest precisou proteger seus olhos.

Gastly não pareceu sentir nada. Apenas ficou flutuando no ar. Aquele ataque não surtia efeito em seu corpo gasoso, pois não tinha massa para ser atingida.

Amy sorriu de forma irônica.

— Já começou errado. Hypnosis!

As íris nos olhos de Blue desapareceram. Ondas telecinéticas atingiram Larvitar que nada pode fazer a não ser deixar-se ser dominado por uma forte onda de sono, que o fez bater os joelhos no chão e encolher-se em uma bola, dormindo profundamente.

Ethan sorriu. Retornando Larvitar de volta para a PokéBola, permitiu que Sandshrew entrasse em campo.  O Pokémon caminhou vagarosamente e colocou-se na frente de Ethan com toda a confiança do mundo.

Amy cruzou os braços e encarou Ethan de forma séria.

— Você sabe muito bem que Gastly não pode ser atingido por golpes físicos.
— E você sabe muito bem que eu odeio quando as pessoas me dizem o que fazer. Sand, Sand-Attack!

A tempestade de areia causada pelo Sandstorm ainda estava em campo. Sandshrew era mais ágil quando esse efeito estava em campo de batalha, auxiliando-o a atingir Gastly rapidamente. A areia jogada pelo ataque de Sandshrew entrou no olho de Blue, cegando-o temporariamente.

— Blue, Hypnosis! — Gritou Amy.
— Sand, Rollout!

Blue até tentou, mas não conseguiu executar o ataque. A dor em seus olhos era grande e o incomodava. Sandshrew, aproveitando que o oponente havia baixado sua guarda, rolou ao redor do próprio eixo e, com velocidade, o atingiu certeiro. Ainda que Gastly não tivesse massa, o próprio não havia conseguido ocultar-se em seu gás venenoso, seu grande truque.

Ethan sorriu.  Retornando Sandshrew, viu em Amy uma feição surpresa. Foi a vez de Butterfree.

Confusion! — Exclamou o garoto.

A borboleta disparou com velocidade. Ainda que a tempestade de areia fizesse-a perder o equilíbrio no bater das asas, ela concentrou-se e disparou ondas invisíveis de seus olhos, atingindo Gastly que veio ao chão.

— Blue! — Exclamou Amy.

O Gastly conseguiu erguer-se novamente e encarou Butterfree com um olhar maligno.

Ethan e Amy trocaram olhares fulminantes. O garoto tinha o controle da batalha e Amy havia feito algo imperdoável: Ela tinha subestimado seu oponente.

Mas ninguém ali estava preparado para o que vinha a seguir.

— Eu desisto da batalha. — Disse ele em voz alta. Ele queria ter certeza que aquelas palavras saíram da forma mais clara possível de sua boca.

Amy e Forrest o encararam assustados.

— Ethan...? Por quê? — Perguntou o moreno.
— Eu já consegui o que queria. Muito obrigado pela batalha, Amy. Você me ajudou muito. — O garoto retornou Butterfree e sorriu. Sorria como nunca. Era como se ele mesmo tivesse vencido a grande batalha de sua vida. Um enorme sentimento de satisfação pulsava junto ao seu coração e ele não poderia estar mais contente consigo mesmo.

Ethan se dirigiu até Forrest e o encarou com firmeza.

— Obrigado por ter julgado a batalha.

Encarando os grandes olhos azuis de Amy, Ethan entrou de volta para o Centro Pokémon, certificando-se de deixar seus Pokémon sob os cuidados de Joy antes de subir de volta para o quarto.

***

A estadia em Ecruteak havia deixado os amigos diferentes. Não se sabia se era o clima da cidade, se era consequência do evento na Torre Queimada ou se simplesmente um desgaste natural na convivência dos três. O fato era que os três estavam muito estranhos uns com os outros.

A grande esperança, porém, era o desafio de Ginásio de Ethan. Foi quando os três conversaram decentemente no quarto do Centro Pokémon sobre estratégias e Pokémon, mas Ethan recusava-se a dizer qual estratégia usaria contra Morty. Suas únicas palavras sobre esse tema foram “eu hoje vou fazer a melhor batalha de todas!”.

Aproximava-se das três da tarde quando o trio desceu na recepção, juntos, para irem até o Ginásio da Cidade. Enquanto Forrest tirava dúvidas sobre o caminho até o Ginásio, Ethan fazia mudanças na Equipe com o professor Elm. O garoto recebera uma PokéBola enquanto enviava Larvitar até o laboratório.

Novamente com a posse de seus Pokémon, agora tratados e alimentados, Ethan se certificou de levar algumas Berries na mochila. Amy se questionara em silêncio sobre aquela atitude do amigo, visto que ele nunca antes havia feito tal coisa em suas outras batalhas de Ginásio, mas ela nada comentou. Afinal, aquilo podia significar uma súbita melhora no comportamento e um visível amadurecimento de Ethan, que começava a pensar mais antes de agir. Ela estava feliz com aquilo.

Ethan reservara uma última Berry. Ele não havia colocado na mochila. De um dos bolsos, retirou uma espécie de correntinha e, no lugar do pingente, prendeu a fruta. Liberou Sandshrew da PokéBola e estendeu o item.

— Nós vamos batalhar pela nossa quarta insígnia. Se você estiver em apuros, não hesite em usar. É um presente por tudo o que você fez por mim até aqui.

Sandshrew sorriu. Aproximou-se de seu treinador e permitiu que Ethan colocasse a correntinha em seu pescoço.

Com Forrest guiando o grupo, os três saíram do Centro Pokémon. A caminhada até o Ginásio foi rápida, ele ficava apenas algumas quadras de distância.

Os telhados eram de cor acinzentada e a estrutura era de madeira. Em uma típica arquitetura ancestral, o Ginásio da Cidade de Ecruteak parecia tão antigo quanto os prédios e casas da própria cidade. Se não houvesse uma placa nos grandes jardins de pedra indicando que aquilo era um Ginásio Oficial da Liga Pokémon, com certeza os desafiantes passariam batido. Do lado de fora, já se via que o lugar era grande. Parecia ter três andares ou mais e uma escada de pedra guiava os visitantes até a grande porta de madeira rústica tão dura quanto carvalho. Em relevo, desenhos de Pokémon e seres humanos em uma representação do que poderia ser facilmente Ecruteak em tempos passados, pois se via a Torre de Bronze e a Torre do Sino lado a lado, com criaturas que lembravam grandes pássaros alados sobrevoando o topo.

Ethan cruzou as portas e surpreendeu-se. Um frio súbito percorreu sua espinha e pareceu congelar seus órgãos. Sua respiração ficou pesada e um fraco cheiro de mofo chegou até suas narinas.

As luzes acenderam-se de uma vez. O garoto pode ver as paredes de cascalho que se sustentavam sozinhas, apenas com seu próprio peso como um grande quebra-cabeças, mas não conseguia ver o teto do Ginásio. Havia uma neblina muito densa no local que encobria qualquer coisa a dois metros de altura do chão.
  
— Os Pokémon fantasmas gostam de locais nessas condições. Algum problema pra você, Ethan? — A voz de Morty surgiu no campo de batalha. Ao olharem para a direita, Ethan, Amy e Forrest viram o Líder na arquibancada, de braços cruzados, como se ele já estivesse esperando sua chegada.
— Não... Nenhum... Atchim! — Respondeu o garoto espirrando.
— Muito bem. Eu, oficialmente nomeado no cargo de Líder do Ginásio da Cidade de Ecruteak, aceito seu desafio. Contra mim, você poderá usar dois Pokémon e eu também assim farei. Você concorda?
— Perfeito! — Respondeu Ethan enérgico.

Amy e Forrest dirigiram-se para a arquibancada e Ethan e Morty tomaram seus lugares no campo de batalha.

— Vamos começar. Meu primeiro Pokémon... Vai, Misdreavus! — Morty lançou uma PokéBola.

Um Pokémon roxo saiu da capsula. Tinha olhos esbugalhados amarelados e pupilas vermelhas. Sorria maliciosamente. Tinha uma espécie de colar com pérolas vermelhas ao redor do pescoço e flutuava levemente pelo campo de batalha.



Ethan pegou sua PokéAgenda e apontou para o Pokémon de Morty.

“Misdreavus, o Pokémon Grito. Adora pregar peças nas pessoas. Adora morder e arrancar o cabelo delas por trás só para ver suas reações chocadas”.
— Para esse Pokémon... Eu te escolho, Wobbuffet!

Wobbuffet saiu da PokéBola.  Batendo continência para o seu treinador, pareceu estar disposto a batalhar.

— Certo, Misdreavus! Prenda-o no campo de batalha! Mean Look! — Começou Morty.

Misdreavus encarou Wobbuffet e de seus olhos saiu um raio vermelho que o envolveu por alguns segundos.

Mean Look? — Perguntou Ethan.
— Wobbuffet não pode ser retirado do campo de batalhas de volta para a PokéBola até ser derrotado. — Informou Morty.
Droga... O que eu vou fazer? — Pensou o garoto sério.
— E então, Ethan? Vai agir ou vai desistir? — Perguntou Morty.
— Vou jogar com a mesma moeda... Vai, Wobbuffet, Destiny Bond!

Uma aura rósea saiu do corpo de Wobbuffet e envolveu Misdreavus.

— Você criou uma armadilha me fazendo manter Wobbuffet até o final da batalha. Retribui o favor e com Destiny Bond, caso derrote Wobbuffet, Misdreavus também cai nocauteada junto. — Sorriu Ethan.
— Inteligente... Eu realmente nunca vi ninguém usar um Wobbuffet assim... Geralmente os treinadores evitam capturar os Wobbuffet por causa de seu treinamento complicado e por ele aprender poucos golpes. Mas você me surpreendeu. Mas permita-me terminar essa brincadeira. Misdreavus, use o Shadow Ball!

Misdreavus criou uma bola negra na frente de sua boca e a atirou em direção a Wobbuffet.

— Às vezes, o melhor ataque é a defesa. Rebata com Mirror Coat!

Wobbuffet criou um escudo ao redor de seu corpo absorvendo o ataque de Misdreavus. Logo depois, o Pokémon de Ethan pareceu segurar a respiração e encheu seu peito. Wobbuffet liberou o ataque mandando-o de volta, atingindo o oponente em cheio.

Da arquibancada, Amy e Forrest assistiam atônitos aquela batalha.

— Ethan está usando a cabeça... — Murmurou Amy.
Mirror Coat devolve o ataque duas vezes mais poderoso. E Misdreavus tem fraqueza ao tipo Fantasma... Um golpe duas vezes mais efetivo do que um ataque normal. — Comentou Forrest.

Morty encarava o desafiante com um brilho nos olhos.

— Vamos lá, Misdreavus. Confuse Ray!

Ondas psíquicas saíram de Misdreavus e foram enviadas em direção à Wobbuffet. O Pokémon de Ethan começou a ficar tonto e a girar confuso pelo campo.

— Wobbuffet! — Exclamou o garoto.
— Acabe com isso, Misdreavus! Psybeam!

Um segundo raio púrpuro foi disparado por Misdreavus e atingiu Wobbuffet, que caiu nocauteado.

Misdreavus girou no ar e instantaneamente caiu nocauteada também.

— Resta um. — Sorriu Morty enquanto retornava Misdreavus.

Ethan encarou o oponente e deixou uma gota de suor escorrer de sua testa.

— Vai, Sandshrew! — Chamou Ethan lançando o seu Pokémon para fora da PokéBola.
— Vai, Gengar! — Morty lançou seu último Pokémon na arena.
— Sandshrew, Rollout! — Começou Ethan.
— Vai, Gengar! Use Sucker Punch!

Gengar disparou na frente em uma velocidade impressionante e desferiu um soco em Sandshrew que caiu no chão.

— Sandshrew, corra pelo campo! Rollout! — Exclamava Ethan eufórico.

O Pokémon de Ethan virou uma bola e começou a girar. Rapidamente percorria pelo campo de batalha confundindo Gengar, que permanecia concentrado esperando uma ordem de seu treinador.

— Vai, Gengar! Shadow Ball agora! — Gritou Morty.

Gengar começou a disparar bolas negras ao redor do campo e Sandshrew conseguia desviar correndo com Rollout.

O Pokémon de Ethan chegou por trás. Gengar foi atingido e Sandshrew passou em alta velocidade, parando na frente de Ethan e encarando seu oponente caído.

— Gengar, Hypnosis!

Gengar colocou as duas patas na frente de seu corpo e encarou Sandshrew fixamente com seu olhar assustador. Ondas psíquicas foram emitidas e o Pokémon de Ethan sentiu as pernas bambearem. Uma súbita tontura tomou conta de seu corpo e o fez cair no chão em sono profundo.

— Sand! — Exclamou Ethan.
Dream Eater! — Disse Morty.

Gengar começou a desaparecer, entrando no chão. Uma sombra negra seguiu em direção ao adormecido Sandshrew que nada pode fazer para se defender.

Os sonhos dominaram o subconsciente do Pokémon de Ethan.

***

Sandshrew estava sozinho em um grande jardim florido. A grama verde em que pisava era a mais fofa de todas as gramas do mundo. Estava um dia lindo. O sol brilhava, o vento soprava, mas não havia a presença nem de seu treinador, nem de Amy ou Forrest.

De repente, um chamado. Uma voz conhecida. Sandshrew se virou e viu Quilava correndo em sua direção com um sorriso que ia de um canto a outro. Sandshrew sentiu-se aliviado por ter alguém conhecido naquele momento insano. Onde estavam todos? Cadê seu mestre?

Sand tentou correr em direção ao companheiro. Mas, quanto mais ele corria, mais longe parece que ficava de Quilava.

Uma risada maligna foi ouvida. O sol que brilhara forte de repente ofuscou-se. Nuvens escuras de tempestade tomaram conta daquele céu, trazendo consigo raios e trovões. Sandshrew e Quilava pararam e olharam para cima. O chão partiu-se em dois quando um poderoso raio o atingiu, jogando cada Pokémon para lados opostos.

Um Gengar gigante apareceu por entre as nuvens e se materializou na terra. Soltou um urro tão forte que o próprio céu temeu aquele Pokémon.

Sand e Quilava começaram a atacar, mas Gengar parecia se fortalecer sugando os golpes para dentro de si. Pegou Quilava pelo cangote e o devorou, dando um olhar tão cruel que congelou a alma de Sandshrew.

O Pokémon de Ethan sentiu-se acuado.

Resista, Sandshrew! Eu sei que você consegue! — A voz de seu mestre, Ethan, ecoava em sua cabeça.

Sandshrew sentia o medo lhe segurar como se fosse um golpe Constrict, impedindo-o de enfrentar o seu oponente.

Sand, eu acredito em você! — A voz de Ethan continuava a ecoar.

Sandshrew soltou um berro. Sua sombra ganhou vida.

Libertando-se do corpo, a sombra cresceu e foi ficando do tamanho de Gengar e transformou-se em um Sandshrew maior, com garras maiores e mais afiadas e com espinhos saindo das costas.

A Sombra transformou-se em um Sandslash e confrontou Gengar de forma corajosa. Ao ver sua sombra lhe dando proteção e a voz de Ethan o incentivando, Sandshrew sentiu-se mais poderoso. Seu coração, outrora dominado pelo medo, emanava uma esperança enorme dentro do Pokémon. Sandshrew soltou um raio de luz de seu corpo e fez Gengar evaporar.

***

Fora do mundo dos sonhos de Sandshrew, no Ginásio, Gengar foi arremessado do chão. Havia sido expulso de dentro de Sandshrew, que levantava do chão exausto e cansado.

— Impossível! — Exclamou Morty surpreso.
— Incrível... Sandshrew conseguiu expulsar Gengar do seu subconsciente... — Disse Amy da arquibancada.
— Fantasmas se alimentam do medo das criaturas... Seu único ponto fraco é a coragem. — Disse Forrest.

Sandshrew, exausto, olhou para a Oran Berry pendurada em seu pescoço. Ele a pegou e devorou a fruta numa mordida só. Após alguns segundos, Sand demostrou mais disposição. Havia recuperado um pouco de sua energia que havia sido sugada pelo Dream Eater de Gengar.

Morty sorriu. Aquela batalha havia deixado ele extasiado.

— Recuperar a energia de Sandshrew com frutas Oran? Esperto... Mas ele não vai durar muito. Gengar, Shadow Ball!

Gengar materializou entre suas patas uma bola negra e disparou em direção à Sandshrew.

— Evasiva e depois use o Swift!

Sandshrew saltou e esquivou da bola negra arremessada por Gengar, que acabou atingindo a parede. Em seguida, o Pokémon lançou várias estrelas douradas que atingiram Gengar, mas não surtiram efeito.

— Ataques do tipo Normal não funcionam em Gengar. Shadow Ball de novo! — Exclamou Morty.
Dig! — Retrucou Ethan.

Gengar disparou novamente uma esfera negra das patas. Sandshrew cavou um buraco e se escondeu nele. O ataque de Gengar atingiu a parede.

— Gengar, Shadow Ball no buraco!

Gengar lançou a esfera negra por onde Sandshrew havia cavado. Ouviu-se uma explosão e uma fumaça negra saiu do chão.

— Check-mate. — Sorriu Morty.
— Agora, Sandshrew! — Gritou Ethan.

Sandshrew surgiu por trás de Gengar. O Pokémon de Ethan girou no ar e atingiu as costas do oponente com Rollout.

Gengar veio ao chão nocauteado.

— Conseguimos! — Exclamou Ethan correndo para abraçar Sandshrew.
— Retorne, Gengar, você foi fantástico...  — Disse Morty retornando seu Pokémon.

Amy e Forrest desceram correndo da arquibancada.

— Parabéns, Ethan! Essa batalha foi incrível! — Exclamou Forrest.
Você foi incrível! — Cumprimentou Amy abraçando-o e o deixando vermelho de vergonha. Forrest riu.
— Ethan, seus amigos têm razão. Sua batalha foi fantástica. Meus parabéns. — Morty estendeu a mão. Dentro dela, havia uma insígnia em formato redondo, azul com duas pequenas fendas brancas no centro. — Aqui está a Insígnia da Névoa, a prova da sua vitória no Ginásio de Ecruteak.


Ethan, com um sorriso, pegou a Insígnia das mãos do líder e a estendeu para o céu.

— Conseguimos... Nossa quarta insígnia! — Comemorou o garoto.
— Você é um baita treinador. Conseguiu bolar estratégias incríveis... Se você quiser uma indicação, siga para o litoral. O ginásio da Cidade de Olivine, além da Rota 38, pode ser uma boa experiência pra você.

Amy pareceu se encantar.

— “Litoral”?! Não vejo a hora de pegar um bronze!

Forrest sorriu.

— Acho que estamos precisando de um descanso mesmo.

***

O sinal de recuperação do Centro Pokémon anunciava que Sandshrew e Wobbuffet estavam em perfeitas condições de saúde.

— Seus Pokémon estão ótimos, Ethan. — Sorriu Joy.
— Obrigado, Enfermeira. — Agradeceu Ethan.
— O que vamos fazer agora? — Perguntou Amy.
— Vamos seguindo. Acho que é legal a gente chegar logo em Olivine pra curtir a praia. — Disse Ethan.
— Por mim, tudo bem. Mas vamos passar no PokéMart pra abastecer nossos estoques de itens primeiro. Eles estão quase acabando.
— Tá de boa. Deixem só eu enviar Wobbuffet de volta pro laboratório. Ele foi bem útil nessa batalha, mas eu preciso deixar espaços vagos na equipe, né? — Comentou Ethan.

Amy e Forrest sorriram.

— Tá começando a ficar esperto. — Disse Amy.
— Vamos nessa então. — Emendou Forrest.


Ethan ganhou sua quarta insígnia da Liga Pokémon e se prepara para seguir viagem com Amy e Forrest. No Centro Pokémon, os garotos nem perceberam o barulho das hélices do helicóptero da Equipe Rocket, que chegava naquele instante na cidade. O plano mais audacioso da organização iria ser iniciado agora.



TO BE CONTINUED...





Notas do Autor (Interlúdio + Capítulo 26)





Voltamos!

Depois de um mês afastados, Ethan, Amy e Forrest retornam em sua jornada. Dessa vez, junto com a Equiope Rocket  - que por sua vez, também tinha aparecido lá no Capítulo 01 (acho que eles adoram começos). Acho que segundas temporadas tendem a ser bem diferentes de primeiras. A história já começou com um teor mais sério que se perpetuará até Novembro, quando terminaremos essa nova fase.

Continuando a falar da história em si, eu agradeço imensamente a três pessoas: Furion, Canas e Sigert. O primeiro, é um leitor da Aliança que entrou em contato comigo e deu suas opiniões a respeito da história. Tais opiniões foram fundamentais para que eu desenvolvesse melhor a trama e até reformulasse algumas coisas.Canas e Sigert já são conhecidos pelo grande público da Aliança e o auxilio deles durante esse processo foi fundamental. De verdade, um MUITO OBRIGADO! O feedback de vocês, leitores, sempre me ajudam a melhorar todos os aspectos da história. São vocês que fazem o AeJ ser o que é. =]

Sobre essa segunda temporada:

> Ethan lutará contra Morty no próximo capítulo;
> Pokémon Chronicles: Episódio R fará a estreia no blog. Em uma parceria com Star-Chan (sempre ela), você ficará por dentro de toda a origem da Equipe Rocket, o por que de seus objetivos e a trajetória de seus líderes... Estreia em breve!
> Eusine e Suicune finalmente fizeram sua estreia;
> Preparem os feels;

É muito bom estar de volta com a programação normal. =]

PS: O Aventuras em Kanto estreou! Acompanhe essa magnifica história e tente pegar todas as referências e ligações com o AeJ! Clique aqui para acessar.

Nos vemos na semana que vem, na mesma quinta-feira de sempre!

See ya!




Capítulo 26





Reza a lenda que há setecentos anos na Cidade de Ecruteak, duas grandes torres foram construídas pelos moradores para representar a amizade e união dos humanos e dos Pokémon. Essas torres foram chamadas de Torre de Bronze, que representava o Despertar e Torre do Sino, que representava o Adormecer.

Certa vez, duas grandes aves apossaram-se das torres e fizeram seus poleiros no topo delas: Lugia, o Guardião dos Mares, habitou a Torre de Bronze e Ho-Oh, o Guardião dos Céus, habitou a Torre do Sino. No entanto, há cento e cinquenta anos, um raio caiu na Torre de Bronze, fazendo-a pegar fogo por três dias e três noites.

 Uma chuva repentina, que a lenda diz ter relação com a que acabou com a seca da Cidade de Azalea que os Slowpoke findaram, apagou o fogo da torre. Três Pokémon morreram na tragédia. Lugia, o Guardião da Torre de Bronze, incendiada e destruída, migrou para os mares da Região de Johto e Ho-Oh, antes de desaparecer também do topo de sua torre, devolveu a vida aos três Pokémon, que tornaram-se feras lendárias que até hoje circundam Johto e que poucos olhos humanos tiveram o privilégio de ver.

Essa história sempre foi motivo de orgulho para os cidadãos da Cidade de Ecruteak. Ela compartilhava os mistérios que até hoje rondavam a região.

Mas, para todos ali, aquela história não era apenas uma lenda. Os três Pokémon estavam vivos em algum lugar, e aquilo era combustível para viajantes curiosos e pesquisadores visitarem a cidade.

Ethan, Amy e Forrest estavam hospedados em um dos quartos do Centro Pokémon. Já era do conhecimento deles que Ecruteak abrigava um Ginásio do tipo Fantasma, o que acabava causando um frio na espinha de Ethan. Não que ele tivesse medo, claro, mas desde que eles chegaram na cidade, coisas estranhas andavam acontecendo.

Ele via reflexos de fantasmas nos espelhos dos corredores do Centro Pokémon.
Ele ouvia vozes em sua cabeça.
Ele sentia um frio anormal no corpo quando lá fora o sol brilhava tão forte que até mesmo Amy reclamava do calor enquanto tentava se esconder na aba de seu chapéu.

E o pior é que só o garoto parecia perceber isso.

Amy e Forrest sempre diziam que era nervosismo, ansiedade, cansaço... Afinal de contas, fantasmas não existiam.

Mas Ethan estava convicto de que alguma coisa tinha de errado. E ninguém garantia para ele de que o Líder do Ginásio era, de fato, um humano.

— E se for um alienígena? E se ele tomar minha alma? E se eu não voltar vivo de lá? — Perguntava o garoto pela milésima vez toda vez que seus amigos questionavam-no sobre as estratégias que ele utilizaria na batalha pela quarta insígnia.
— Ethan, relaxa, cara. Não é porque tem uma lenda envolvendo mortes e destruição nessa cidade que ela atrai coisas ruins. — Dizia Forrest que, por mais que tentasse disfarçar, não conseguia evitar rir da expressão de pânico de seu amigo.
— Fantasmas não existem. É só uma coisa que algum idiota inventou para as pessoas não entrarem em propriedades privadas. Até porque, todo mundo ignora a placa de “ENTRADA PROIBIDA”, né? — Disse Amy com a expressão mais irônica do mundo.

Ethan encarou a garota.

— “Fantasmas não existem”? Como você me explica ser treinadora de uma bola de gás flutuante que vira e mexe vive desaparecendo? — Perguntou o garoto referindo-se à Blue, o Gastly da garota.
— Eu não sou bióloga. Não é porque encontrei com o Pokémon que criou tudo que eu automaticamente sei como ele fez cada Pokémon. — Respondeu Amy, cortando o assunto.

Ethan levantou-se da cama.

— Vou caminhar. Acho que a brisa vai me fazer pensar numa estratégia... — E se retirou do quarto.

Amy e Forrest permaneceram entretidos com seus afazeres: A garota com o notebook e o rapaz lendo um livro.

A cidade era calma. Diferente da metrópole de Goldenrod, as avenidas não eram congestionadas e as pessoas não andavam apressadas. Seria uma boa opção de moradia. Sua arquitetura era a mais diferente entre todas as cidades já visitadas até então, mantinham os traços feudais definidos há milhares de anos pelos ancestrais do povo de Johto.

Ancestralidade que era vista também nos trajes dos habitantes da cidade.

Grande parte dos cidadãos vestia quimonos. Isso dava um contraste para com os visitantes, que vestiam roupas comuns. Fazia parte da cultura daquela cidade, o que fazia com que ela fosse muito atrativa. Todos lidavam muito bem com as diferenças, e isso era um charme que sempre fizera parte do cotidiano.

Ethan caminhava pelas ruas tranquilamente. Ele sorria para as pessoas que respondiam com simpatia. As ideias fluíam na cabeça do garoto de forma natural. O ambiente da cidade trazia uma paz muito grande para o garoto, que apreciava o momento.

A paz e tranquilidade foram interrompidas por um berro. Um berro que fez Pokémon voarem das copas das árvores próximas e fez todos pararem para ver uma figura de estatura alta com olhos azul-cristais e cabelos loiro-escuros, vestindo uma capa branca presa no pescoço que usava uma espécie de terno roxo engomadinho com sapatos e luvas brancas apontando para ele.

— F...F...FANTASMA!!! — Berrou o homem, com uma expressão aterrorizada.

Ethan mudou sua expressão. Um misto de terror e medo tomou conta do rosto do rapaz, que começou a procurar alguma forma de vida sobrenatural aos arredores.

— Gold... Depois de todo esse tempo... Você voltou pra me assombrar?! — Dizia o homem apontando para Ethan.

O garoto se virou e encarou o dono daquela voz. Sua expressão mudou de pânico para surpresa. Seu estômago embrulhou e então um flashback começou a passar pela sua cabeça.

*** ~~~ ***

Um grupo de três adolescentes seguia em direção de Ethan e Amy. Um deles vestia um casaco laranja, shorts amarelos, olhos dourados e um boné idêntico ao de Ethan, no mesmo estilo. A garota que o acompanhava tinha seus cabelos azuis-esverdeados amarrados em marias-chiquinhas que eram cobertos por uma touca amarela. Usava uma camiseta rosa com um pingente que suspendia uma PokéGear antiquada e um casaquinho rosa por cima para complementar. Suas canelas finas eram cobertas por um short legging amarelo, que parecia bastante confortável. O último rapaz, por fim, usava uma capa acinzentada como um super-herói. Vestia uma camisa surrada azul com a estampa de uma PokéBola e calças jeans. Seus grandes cabelos amarronzados estavam penteados para trás. Estava com os braços cruzados e emburrado.

— Eu odeio quando vocês me chamam de mentiroso! — Exclamou o menino zangado.
— A culpa não é nossa se você insiste nessa coisa do Suicune. — Retrucou o garoto de olhos dourados.
— Gold! Zin! Eu já falei pra vocês não ficarem brigando assim! — Exclamou a garota num tom chateado.
— Ele que começou com aquela história de novo, Kris. Eu não tenho culpa! — Gold, o garoto dos olhos dourados, se defendeu cruzando os braços e franzindo o cenho, parecendo sem paciência.
— O Suicune existe sim! Eu vou captura-lo e eu vou jogar na cara de vocês!
— Tá, tá, Eusine. Faça isso e prove também que unicórnios existem. — Provocou Gold.”
*** ~~~ ***

Aquele garoto de vinte e cinco anos atrás estava ali, na frente de Ethan. Bem maior, é claro, mas com o mesmo olhar azul-cristal.  Ethan não fazia a menor ideia de como reagir naquele momento. Ele não sabia sequer se Eusine lembrava do encontro do passado. Mas o garoto não podia negar — ele havia sido reconhecido, de alguma maneira.




Eusine sacou uma PokéBola.

— Eu não vou deixar essa cidade me assustar. Eu vou encontrá-lo e nenhuma miragem vai me impedir. Drowzee, Confusion!

Um Pokémon bípede com olhos cansados, um nariz longo acima de sua boca e orelhas triangulares surgiu. A metade superior de seu corpo de era amarelo e a metade inferior era marrom. Uma linha ondulada separava as duas metades. Ele tinha uma barriga redonda e pernas curtas. Haviam três dedos em cada uma das suas mãos.






Drowzee encarou Ethan e começou a mexer os braços de uma forma hipnotizante. Uma enxaqueca fortíssima surgiu em Ethan de repente, fazendo o garoto apertar a cabeça com as mãos e cair de joelhos. Seu cérebro pulsava tanto que parecia que iria explodir a qualquer momento.

— Gengar, Shadow Ball!

Uma bola negra surgiu de algum lugar e atingiu o rosto de Drowzee em alta velocidade. O Pokémon perdeu o equilíbrio e caiu ao chão, deixando de atacar Ethan. A enxaqueca do garoto passou imediatamente.

— Eusine! Você enlouqueceu?! O que diabos passou pela sua cabeça pra você atacar alguém?! — Um homem loiro, com um cachecol e uma bandana roxa, blusa de lã preta com mangas em uma tonalidade clara de roxo, calças brancas e tênis aproximava-se de Ethan acompanhado de um Pokémon roxo-escuro com um corpo arredondado. Ele tinha olhos vermelhos e uma boca larga que exibia um sorriso sinistro. Vários espinhos cobriam suas costas e terminavam próximos às suas grandes orelhas pontiagudas. Seus braços e pernas eram curtos com três dedos em ambas as suas mãos e pés.






— Tome cuidado, Morty! Eu não sei no que esse fantasma pode se transformar! — Exclamou Eusine.

Morty encarou Eusine com uma expressão séria.

— Ele não é um fantasma. É um humano.

Eusine mudou sua expressão assustada para uma de surpresa. O rapaz deu um passo para trás.

— Um... Humano...? Mas não pode ser... Você é idêntico a ele...

Morty estendeu a mão para Ethan, auxiliando-o a levantar do chão.

— Você está bem, garoto? — Perguntou Morty, preocupado.
— Estou sim. Muito obrigado. — Agradeceu o garoto. — Meu nome é Ethan.
— Eu me chamo Morty. É um prazer. — Sorriu o rapaz de forma simpática.

Eusine aproximou-se de Drowzee.

— Desculpe, garoto. Pisei na bola de novo...

Ethan pegou sua PokéDex e apontou para o Pokémon de Eusine.

“Drowzee, um Pokémon Hipnose. Se você tiver um sonho bom, mas não conseguir se lembrar dele, provavelmente um Drowzee o devorou. Ele se lembra de todos os sonhos que comeu. Raramente come os sonhos de adultos, porque os das crianças são muito mais saborosos.”

E depois, apontou para o Pokémon de Morty.

“Gengar, um Pokémon Sombra. Evolui do Haunter e é a última forma evoluída de Gastly. Ele rouba o calor do seu entorno. Se você se sentir um frio repentino, é certo que um Gengar apareceu. Para roubar a vida de seu alvo, ele desliza para dentro da sombra da presa e silenciosamente espera por uma oportunidade.”

Ethan encarou os dois Pokémon com uma expressão aterrorizada.

— Sinistro... — Suspirou o garoto.
— Você quer que eu pague sua estadia no Centro Pokémon? Acho que depois disso tudo, você merece um descanso. — Disse Morty.
— Eu já estou hospedado, obrigado. Eu sou um treinador Pokémon, a hospedagem é de graça, não é? — Questionou o garoto.
— Treinador...? Então quer dizer que você está atrás de Insígnias? — Perguntou o rapaz.
— Sim. Por quê?
— Porque eu sou o líder do Ginásio dessa cidade. — Sorriu Morty.

Ethan esboçou uma reação de surpresa.

— Quê?! Você não é um fantasma!

Morty riu como criança.

— Não, não sou. Não sei porque as pessoas tendem a pensar isso.
— Morty, por favor, batalhe comigo! Eu te desafio por uma batalha pela insígnia! — Exclamou o garoto.
— Eu aceito seu desafio, Ethan. Mas eu não posso agora. — Disse Morty.
— Por quê?
— Eu e Eusine estamos investigando as ruínas da Torre Queimada.
— Você já ouviu falar na lenda, não é? — Perguntou Eusine, manifestando-se pela primeira vez desde que Morty apareceu.

Ethan pareceu refletir por uns segundos.

— A lenda da cidade? Aquela história das torres e tudo o mais? Ouvi alguma coisa a respeito lá no Centro Pokémon...
— Exatamente. Dizem que o raio que incendiou a torre, o fogo que a consumiu e a água que a apagou tem uma relação com esses Pokémon ressuscitados por Ho-Oh. — Disse Morty.
— E quem são esses Pokémon? — Perguntou o garoto.
— Raikou, Entei e Suicune. — Respondeu Eusine. — Meu avô me contava histórias sobre Suicune e eu estou aqui procurando por ele. Parece que ele está dentro da Torre Queimada, então quero dar uma olhada.

Ethan se mostrou interessado naquela conversa.

— Vocês me deixariam ir junto? Adoraria conhecer esses Pokémon da lenda! — Exclamou o garoto.

Eusine deu uma risadinha sínica.

— Tolinho. Como se fôssemos irresponsáveis demais pra levar um garoto pra um local destruído e que pode ruir a qualquer momento.

Ethan fez uma cara emburrada, cruzando os braços em conjunto.

— Eu não sou criança! Sei cuidar de mim muito bem sozinho!

Morty sorriu.

— Desculpa, Ethan, mas não dá mesmo.  Mas se você quiser batalhar contra mim, podemos nos ver amanhã de manhã na frente do Ginásio.

O garoto bufou.

— Tá, tá, tanto faz. — E deu as costas, seguindo em direção ao Centro Pokémon.

Eusine fechou a cara.

— Que garoto ignorante!

Morty sorriu.

— Vocês têm bem mais em comum do que imaginam. — E saiu andando.
— Ei! O que quer dizer com isso? Tá me comparando com um pivetinho? Ei, Morty! Eu não terminei de falar com você, volta aqui! — Eusine saiu correndo atrás do colega.

***


A Torre do Sino podia ser vista de qualquer ponto da cidade, incluindo da janela do quarto no Centro Pokémon onde Ethan, Amy e Forrest estavam hospedados. O garoto estava encarando aquela construção já há muito tempo, desde que voltara do encontro com Morty e Eusine e nem percebia o tempo passando. Muitas coisas passavam em sua mente. Não havia comentado sobre o estranho encontro com os dois rapazes com seus amigos e nem pretendia. Ele queria resolver tudo sozinho dessa vez.

— Você tem certeza mesmo de que está tudo bem, cara? — A voz de Forrest despertou Ethan de seu transe.
— Quê? Ah. Tô sim. Estou só pensando na batalha de Ginásio. — Respondeu o garoto.
— Ethan, fica tranquilo. Eu sei que você vai se sair bem. — Disse Amy, sorrindo.

O garoto suspirou.

— Sempre dá esse nervosismo antes de uma batalha de Ginásio... Espero me acostumar algum dia.

Forrest levantou-se da cama.

— Vamos esfriar essa cabeça. O que você acha da gente ir comer? Já é quase noite e é bom irmos jantar.
— Podem ir na frente. Eu já vou indo. — Disse o garoto.

Amy e Forrest surpreenderam-se com a resposta. Desde que começaram a viajar juntos, Ethan nunca deixou de acompanhar os amigos, até mesmo para fazer coisas simples. Sem sombra de dúvidas, havia alguma coisa acontecendo.

Não questionando, porém, os garotos saíram do quarto e deixaram Ethan sozinho.

“Torre Queimada, né...? Eu vou ver o que tem de tão importante assim naquele pedaço de coisa velha, custe o que custar.”, pensava Ethan.

As luzes começaram a piscar. As janelas abriram e um forte vento invadiu o quarto, bagunçando tudo o que tocava. O garoto entrou em desespero e saiu correndo pela porta.

Blue, o Gastly de Amy, tornou-se visível pelo quarto, dando boas risadas silenciosas.

***

Já era quase meia-noite. A respiração pesada de Amy e Forrest ecoava pelo quarto. Ethan não tinha pregado os olhos, estava concentrado repassando o plano mentalmente.

Quando tinha certeza de que não seria ouvido, levantou-se cuidadosamente de sua cama, colocou seus tênis, seu boné, pegou sua mochila e lentamente saiu do quarto. O Centro Pokémon estava silencioso e Ethan, pela primeira vez, não sentiu presença alguma ali. Talvez, até mesmo os fantasmas estivessem dormindo aquela noite. Estava perfeito.

Ethan aproximava-se do corredor da recepção quando percebeu que as únicas luzes acesas eram a do corredor de entrada. Ao olhar furtivamente, o garoto percebeu que a Enfermeira Joy mexia no computador.

Era óbvio que, se aquilo era um hospital, havia plantões de madrugada. Afinal, nunca se sabia quando um Pokémon ferido iria aparecer.

E esse era um detalhe que Ethan esqueceu-se de lembrar.

Pensando rápido, o garoto sacou uma PokéBola. Com a cara mais relaxada que conseguiu fazer, cruzou o corredor, assustando a jovem moça que cuidava dos Pokémon.

— Oh! Não esperava ver alguém acordado a essa hora da noite. Tem algo que eu possa fazer por você, jovem rapaz? — Perguntou Joy com o sorriso convidativo de sempre.
— Ah, não, obrigado. Eu não consegui dormir e resolvi então ir treinar um pouco. Eu tenho uma batalha de Ginásio muito importante amanhã cedo. — Disse o garoto em um tom de voz visivelmente nervoso. Ethan não sabia mentir.

Joy, no entanto, pareceu não notar.

— Ah, sim. Tudo bem então. Vejo você depois. Cuide-se!

Ethan passou pelas portas do Centro Pokémon e a suave brisa noturna logo tocou seu rosto. Ele estava livre.

O garoto então olhou para trás e fixou seu alvo no horizonte. Podia ver o topo da Torre do Sino e correu em direção a ela.

Amy observava o garoto correndo da janela do quarto. Acompanhada de Blue, seu Gastly, não fez o menor movimento. O Gastly Azul desaparecera no ar e a garota fechou os punhos.

***

A enorme Torre do Sino saudava Ethan com sua majestosa altura. O garoto aproximava-se cada vez mais do enorme edifício, mas ele não era seu alvo. Virando à esquerda e seguindo no sentido oposto, logo viu os destroços do que um dia deve ter sido uma torre tão majestosa quanto sua irmã. De intacto, apenas sua base. Tinha só até o primeiro andar, com as paredes chamuscadas, como cicatriz do feroz ataque milenar da natureza.

Ethan removeu duas PokéBolas da mochila. Quilava e Flaaffy, levemente sonolentos, atenderam o chamado de seu treinador e posicionaram-se mais próximo para ouvir melhor suas ordens.

— Temos algo bem legal pra descobrir essa noite e eu conto com a ajuda de vocês. Vamos nessa? — Perguntou o garoto, recebendo um aceno afirmativo da cabeça de seus Pokémon.

O garoto se dirigiu até a entrada da antiga torre, percebendo que as portas estavam lacradas, por motivos óbvios. Percorrendo o perímetro, Ethan logo descobriu um buraco na parte de trás do prédio que servia de entrada para o desconhecido que havia ali dentro. O garoto respirou fundo, engoliu em seco e adentrou dentro do breu do local.

O cheiro de queimado ainda predominava ali dentro. Era como se a torre tivesse sido condenada a se lembrar daquele dia fatídico. Quilava e Flaaffy iluminaram o local com seus poderes e Ethan percebeu que o local estava bastante destruído. Pedaços enormes de madeira estavam amontoados de qualquer maneira no chão, a estrutura do telhado estava fragilmente pendurada e o piso de madeira era cruzado de uma ponta a outra com rachaduras monstruosas.

Um arrepio percorreu a coluna do garoto, que desejou ter a presença de Amy e Forrest para lhe auxiliar.

Mas ele não ia voltar atrás.

Então, assim que tomou coragem, começou a caminhar. O peso de seus pés fazia o chão ranger de forma alta e aguda, por todos os lados. Ethan tentava desviar dos obstáculos enquanto fazia de tudo para abafar os enormes ruídos que produzia involuntariamente.

O garoto continuou caminhando com cuidado sendo seguido por seus Pokémon. Ethan ouvia vozes, mas não conseguia compreender o que elas diziam. Eram como gritos de lamentos que vinham de todos os lados. Ele andava apreensivo, buscando se equilibrar o máximo possível nos entulhos.

Havia muitos Pokémon que habitavam aquele local. Ele não era frequentado por humanos, por isso, era o local perfeito para as criaturas viverem em paz. Com certeza, aquele som esquisito deveria estar sendo produzido por algum deles. Mas enquanto Ethan não reconhecia a fonte de tal chamado, o medo dominava sua mente. Ele até mesmo tentou usar a PokéDex para ver se o aparelho reconhecia Pokémon pelo som, mas aquela era uma tecnologia que não havia sido desenvolvida ainda.

Após caminhar aleatoriamente pelos corredores macabros da torre, Ethan viu luzes de lanterna bem próximas de onde ele estava. Vozes falavam um português claro e concentravam-se em pontos próximos às paredes. Ethan aproximou-se devagar para xeretar, reconhecendo assim Morty e Eusine tirando fotos das paredes.

— Eu sei que eles devem estar por aqui... Não podemos desistir de procurar. — Disse Eusine, analisando as paredes.
— Eu acho esse local fascinante. É incrível como os detalhes do incêndio foram preservados de forma perfeita! Os Pokémon fantasmas daqui com certeza fizeram um bom trabalho em preservar! — Exclamou Morty.

Gengar que estava próximo de seu treinador sentiu uma presença. Ao olhar para os lados, viu a sombra de Ethan e seus Pokémon projetada no chão e ficou invisível.

O garoto continuava observando em silêncio quando o Pokémon de Morty surgiu em sua frente em uma sombra gigante que parecia que iria devorá-lo. Ele soltou um berro e saiu correndo desembestado sem ver aonde ia.

Eusine e Morty se viraram e soltaram uma exclamação alta ao ver Ethan correndo em suas direções.

— Mas o que...?! — Soltou Eusine.

O garoto tropeçou em um pedaço enorme de madeira e caiu por cima de Eusine. Ao tocarem no chão, ele rachou e cedeu, fazendo todos ali serem lançados para o subterrâneo, caindo com velocidade.

A altura era relativamente grande. Demorou poucos segundos para que ambos tocassem o chão. Outro tempo passou até que eles recobrassem os sentidos.

— Flaaffy! Quilava! Cadê vocês?! — Chamou Ethan.

O som de algo se movendo foi ouvido. Ethan olhou para trás e viu Morty embaixo de grandes pedaços de entulho queimado e correu para ajuda-lo. O garoto reuniu toda a força que conseguia para remover grandes pedaços de caibros das costas do rapaz.

— Você está bem? — Perguntou o garoto, estendendo a mão para que Morty pudesse levantar-se.
— Estou sim, obrigado. Onde está Eusine?
— Eu não sei... Meus Pokémon sumiram também...
— Eu posso ajudar. Gengar, por favor.

O Gengar de Morty prontamente transpassou o piso. Segundos depois, surgiu metros adiante em cima de um montinho de entulho queimado. Os dois imediatamente correram pra lá.

Ao perceber a presença humana aproximando-se, Flaaffy emanou uma luz de sua cauda e um clarão tomou conta do lugar, facilitando sua localização. Ethan e Morty ajudaram a Pokémon à ser retirada dos escombros. Quilava estava próximo da companheira, debaixo de um grande toco de madeira. Ao auxiliar seus Pokémon, Ethan ouviu um grande e sonoro “Ai!” vindo de algum lugar do chão.

Ao olhar para baixo, viu o corpo de Eusine estirado. O garoto tentou levantar o rapaz, mas Eusine deu um tapa nas mãos de Ethan.

— Me solte! A culpa é sua por eu estar nessa situação!

Ethan fechou a cara.

— Seu ingrato! Eu tava tentando te ajudar a levantar!
— Você nem deveria estar aqui pra começo de conversa!

Morty tentou apaziguar a briga.

— Cavalheiros, por favor, vamos ser civilizados, em respeito aos Pokémon que vivem aqui...

Os dois o ignoraram começaram a bater boca. As vozes macabras da Torre Queimada pareciam se incomodar com o tumulto. Elas foram ficando cada vez mais fortes e altas, paralisando Ethan e Eusine imediatamente.

Uma aura brilhante tomou conta daquele lugar. Envolto numa luz hipnotizante, um corpo felino ergueu-se por debaixo do entulho, mostrando sua total soberania. 





Nem em seus sonhos mais loucos, Eusine vira um semblante tão maravilhoso. Ethan estava de boca aberta. De tão impressionado, nem pareceu ligar para o filete de saliva que escorrera.

Aquele ser encarou os humanos que o prestigiavam. Olhou para uma das paredes desgastadas do prédio e deu um rugido poderoso. Um raio de luz saiu de seu corpo e fez um enorme buraco, tão grande que até a lua prateada podia ser vista de dentro do local. O ser deu um salto tão grande que saiu do local sem pegar outro impulso.

Eusine e Ethan se encararam.

— O que foi isso...? — Perguntou o garoto.
— Eu tenho quase certeza de que foi um dos Pokémon lendários da Torre. — Disse Morty vagarosamente.
— Será que era o Suicune...? — Questionou-se Eusine.

Ethan caminhou cautelosamente até o local de onde aquela aura havia surgido. Havia um buraco no chão. Mas o garoto não conseguiu ver o que havia embaixo.

Blue, o Gastly de Amy, materializara-se em sua frente. De cara fechada, fazia Ethan caminhar lentamente para trás, em um movimento inconsciente de tentar fazer o fantasma manter distância.

— Um Gastly Shiny! — Exclamou Morty.

Blue continuava a seguir ameaçadoramente para cima de Ethan.

— O-O que você quer?! A Amy está por aqui?!
— Esse Gastly é seu? — Perguntou Morty.
— Não, é de uma amiga... Eu nem sei o que ele tá fazendo aqui...
— Acho que... Ele tá evitando que você faça besteira. — Brincou Morty.

Eusine se dirigiu até o buraco no chão e soltou uma exclamação.

— Suicune!

Morty correu para o lado do amigo. Ethan até tentou fazer o mesmo, mas Blue insistia em não dar passagem para o garoto.

— Mas que coisa! Por que você não deixa eu ir ver também?! — Dizia o garoto com raiva, não obtendo resposta alguma do Pokémon, que continuava a encará-lo. — Quilava! Flaaffy! Façam alguma coisa!

Os dois Pokémon estavam sentados ao lado de seu treinador. Ao olharem para Blue e comunicarem-se brevemente, levantaram-se e também se posicionaram na frente de Ethan.

— Até vocês estão contra mim?! Qual é a de vocês? Mas que porcaria! — Ethan então cedeu e deu-se por vencido.

Eusine sacou uma PokéBola. Mirando no chão do andar inferior, liberou seu Pokémon.

— Alakazam, Psychic!

Alakazam tinha estrutura humanoide e um grande bigode. Ele levitava Eusine Morty com um par de colheres de prata. Uma aura esbranquiçada contornou os corpos dos dois, pousando-os com segurança no andar inferior.




— “Alakazam, um Pokémon Psíquico. Fechar os seus olhos aguça todos os seus outros sentidos. Isto lhe permite usar suas habilidades aos seus extremos. Suas células cerebrais multiplicam-se continuamente até que ele morra. Como resultado, ele se lembra de tudo que vive desde o momento em que nasce”. — Informou a PokéAgenda de Ethan.

Eusine e Morty depararam-se com uma energia morna que emanava daquele lugar estranho. As paredes, diferente do resto do prédio, não estavam com cicatrizes feitas pelo fogo de milhares de anos atrás. Na verdade, aquelas paredes estavam tão limpas que aquele andar parecia ter sido construído ou reformado recentemente.

Aquela sala estaria completamente vazia se não fossem as ruínas de um altar, aparentemente há muito destruído — e que era a única coisa que destoava daquele ambiente. Uma parte dele estava totalmente quebrada — pedras do que aparentava ser mármore estava aos pedaços no chão. Próximo dos destroços, duas estátuas de criaturas permaneciam de guarda na frente do altar. A estátua da esquerda estava em posição soberana. Era um Pokémon quadrúpede e com marcas em forma de diamante em seu corpo. Tinha uma juba e duas caudas brancas majestosas que pareciam ondular no ar. Tinha um focinho comprido e um cristal hexagonal grande em sua testa. A da direita era um quadrúpede enorme com um porte leonino. De seu pescoço corria e uma longa nuvem cinza que formava uma juba ao longo de toda a extensão de seu corpo. Tinha grandes placas cinzas e pontudas e faixas pretas em suas pernas. Uma placa cinza cobria o focinho e se assemelhava a um bigode.






Eusine encarou estático aquelas duas estátuas majestosas. Pareciam vivas de alguma forma, de tão reais que eram. Não podia ser um produto feito por mãos humanas. Ele correu em direção à estátua da esquerda e até mesmo Morty foi pego de surpresa com a súbita reação do colega.

— Eusine, não! — Gritou.

O rapaz agarrou a estátua de Suicune.

Os olhos da criatura brilharam. Um raio de luz tomou conta de seu corpo e Eusine fora arremessado para longe. Um rugido poderoso preencheu o lugar e tomou conta dos ouvidos de todos. A estátua começou a se mover lentamente enquanto a estátua ao seu lado também começou a emanar uma pálida luz que brilhava fortemente.

Os dois saltaram para o andar de cima. Rápidos como um raio, passaram por Ethan, deixando o garoto extasiado. O ser iluminado de Suicune fez um profundo contato visual com o garoto antes de se sair pelo enorme buraco na parede, feito minutos antes por outro ser de luz, que agora sabia-se ser Raikou.
Alakazam ajudou Eusine e Morty a voltarem para o segundo andar. O elegante rapaz, agora com a roupa toda empoeirada, correu atrás das criaturas que agora desapareciam na noite.

— Suicune, não fuja! —Dizia Eusine aos quatro ventos, não recebendo nenhum tipo de resposta.

Apenas a brisa noturna soprava em seu rosto.

— Eu quase o peguei... — Disse o rapaz lamentando-se.
— Cara, que experiência incrível! — Exclamou Ethan sorridente.

Morty se dirigiu a Ethan com uma expressão zangada.

— Você não tinha nada que estar aqui.

Ethan ficou apreensivo.

— M... Me desculpa...?

Eusine aproximou-se novamente da dupla.

— Como eu havia dito, se não fosse por você, essa confusão não teria acontecido. — Disse o rapaz com seu ar metido.

Morty deu um tapa na nuca de Eusine, que perdeu o equilíbrio com o impacto.

— Você também tem culpa! Que história foi essa de agarrar o Suicune?! — Bradou Morty.

Enquanto o Líder de Ginásio dava lição de moral nos dois, a madrugada seguia seu ritmo. Ethan voltou para o Centro Pokémon e entrou no quarto. Quase morreu do coração ao ver Amy sentada na cama esperando o rapaz de braços cruzados e cara fechada.

— Só o fato de você voltar vivo significa que Blue fez um bom trabalho. — Disse a garota de forma ríspida.

Ethan engoliu em seco.

— E por que você mandou ele me seguir?
— Porque você é idiota e saiu de madrugada em direção à Torre Queimada sem a gente. Espero que isso não se repita.

Ethan ergueu as sobrancelhas, surpreso.

— Ué...

A garota cruzou o quarto e deitou-se em sua cama. Blue materializou-se no ar e retornou sozinho para sua PokéBola, que estava no criado-mudo ao lado da cama de Amy.

Forrest continuava dormindo, sem perceber o que acontecia no mundo real.

Após os eventos ocorridos na Torre Queimada e o despertar dos três Pokémon Lendários da Região de Johto — Raikou, Entei e Suicune — com sua fuga posterior, Ethan se prepara psicologicamente para sua quarta batalha de Ginásio que acontecerá logo dali a algumas horas. Enquanto o dia não amanhece, o garoto tentará ter uma boa noite de sono, isso é, se ele conseguir dormir. O terror de imaginar a possibilidade de ser enforcado por Amy durante a noite era maior do que seu medo de fantasmas.



TO BE CONTINUED...








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