Capítulo 71

 



A porta entreaberta fez Elaine ter a certeza de que seu pai estava ali. A menina respirou fundo tentando guardar o maior volume de ar que pudesse aguentar em seus pequenos pulmões e abriu a porta devagar, tentando passar despercebida. Por sorte era pequena, logo seu pai não a veria passando na ponta dos pés em direção ao outro lado da cozinha onde a porta para a sala de estar separava a criança do seu maior objetivo. A sorte estava do seu lado; a panela de pressão no fogo soltava vapor e a válvula da tampa chiava em alto e bom som enquanto seu pai, sentado em uma das seis cadeiras dispostas, tamborilava os dedos em cima da mesa de jantar, coberta pela delicada toalha estampada com desenhos de triângulos vermelhos e azuis que muito se assemelhavam às marcas no corpo de um Togepi, se mantendo concentrado em sua PokéAgenda que, ao invés de exibir informações sobre Pokémon, refletia o rosto inconformado do rapaz, assim como as grandes olheiras que entregavam que ele não dormia direito há alguns dias. Após apertar trocentas vezes o botão de ativação, o diagnóstico: Pifou.

A menina segurou firme a PokéBola vazia que escondia em suas costas e seguiu seu caminho tentando fazer o menor barulho possível. Alcançou o próximo cômodo sem maiores problemas, o que a fez suspirar aliviada. Ficou na ponta dos pés para poder girar a maçaneta da porta da sala e a puxou devagar para que as dobradiças não fizessem barulho — a panela de pressão no fogo cobria os ruídos. Sabia que na rua não havia quase ninguém, agradecendo aos céus pela janela do seu quarto ter vista para a vizinhança.

 

O plano de Elaine era evidente: capturar seu primeiro Pokémon. Simples assim.

O problema era que seus pais achavam que ela era muito nova para isso.

Mas, dane-se o que seus pais achavam. Agora que estava do lado de fora, poderia fazer o que quisesse. O primeiro passo havia sido dado.

 

— “Tchururu, esse meu jeito de viver, tchururu, ninguém nunca foi iguaaaaal...” — a menina, feliz, começou a cantarolar baixinho após dar o primeiro passo para fora de casa.

 

Os ventos que sopravam a oeste balançavam suavemente os cabelos da criança.A excitação tomava conta dela, a expectativa lhe causava arrepios e a indecisão de saber por onde começar a procurar um Pokémon a consumia. Ela podia ir até o cais que cravava o fim — ou seria o começo? — da região de Johto e procurar na Rota 27; com certeza haveria muitas opções fáceis para se obter por ali.Ou talvez ela pudesse ir até um pouco além da saída de New Bark e adentrar na Rota 29. Havia ninhos de Pidgey nas árvores e, com sorte, poderia até mesmo capturar algum Sentret. Ledyba estava fora de cogitação, mas até obter um valeria pelo esforço de não voltar para casa sem um Pokémon para chamar de seu.

 

A menina saiu correndo em disparada pelas ruas estreitas de calçadas largas da cidade em direção à Rota 29. Passou como um foguete em frente do bonito Mercadinho do Alcides, onde anos antes era um bar bastante popular na cidade.Mas, após a morte do antigo dono, o filho assumiu e construiu um novo estabelecimento no lugar.

 

A PokéBola em suas mãos parecia o maior tesouro do mundo. A criança estaria disposta a protegê-la de qualquer coisa até encontrar o parceiro ideal que não demorou para aparecer. Por entre os galhos das árvores que cercavam as ruas, um Pokémon macaco de coloração roxa ia pulando com auxílio da mão que havia na ponta de sua cauda que o ajudava a manter o equilíbrio. Seus olhos redondos procuravam alguma Nanab Berry madura e suculenta, mas seu olhar cruzou com os olhos curiosos da criança e logo reparou na cápsula bicolor em suas mãos. O Aipom deu um sorriso sapeca e acelerou a passada entre os galhos.

 

— Ei! Espera aí! — A criança saiu correndo em direção ao bosque, olhando para o topo das árvores para não deixar perder o Pokémon de vista.

 

Acontece que, olhando para cima, ela não podia notar os perigos que havia pelo chão. Um buraco escondido por entre a grama a fez tropeçar e gritar de dor quando sentiu o pé torcer, a levando imediatamente para o chão. O corte no joelho não foi profundo e ardia menos do que a dor que ela sentia com o calcanhar latejando. Ao olhar para o tênis, viu que o pé direito estava inchado, parecendo um pedaço de pão. Enquanto a menina tentava desamarrar o cadarço para tentar aliviar a dor e segurava o choro, o Aipom ria e desaparecia por entre a copa das árvores.

 

O choro de dor de uma menina próximo ao bosque de uma cidade pequena do interior era o evento catalisador das atenções de quem quer que fosse morador dali. E aquele choro em específico era conhecido o bastante de uma certa pessoa que, por sorte ou por azar, passava ali próximo com as compras de mercado em uma das mãos enquanto levava uma outra criança na outra.

 

— NICOLE!

 

A menina olhou para trás e reconheceu a dona da voz daquele grito. Os olhos azuis ainda faiscavam quando era contrariada, os cabelos castanhos ainda se mantinham rebeldes e a franja nunca se mantinha no lugar, apesar de viverem escondidos embaixo dos chapéus que a mulher ainda costumava usar em algumas ocasiões. O grande casaco verde que a protegia do vento que sopravaera maior que ela — mas ainda assim ficava muito melhor nela do que em seu marido, o verdadeiro dono da peça. Ela segurava com força as alças das sacolas plásticas verdes cheias de mantimentos. Havia um garoto que segurava a barra da calçalegging azul da mulher, e este também olhava surpreso para a menina — que, coincidentemente, era sua irmã.

 

Amanda Green largou as sacolas no chão, pegou o garotinho que a acompanhava no colo e correu na direção de sua filha, que abriu um berreiro por alívio e por saber que a sua situação tinha se complicado.Bastante.

 

...

 

Ethan Heart tentava se apegar ao breve sentimento de felicidade que sentiu ao ver sua PokéDex voltar a funcionar para não deixar transparecer a preocupação enquanto se aproximavado Centro Pokémon de Cherrygrove. Como não sabia dirigir, chamou um Flying Taxi. A cabine, guiada por cinco Noctowl, rapidamente fez o trajeto entre New Bark e a cidade e costumava ser uma mão na roda em muitas ocasiões — como naquele momento.

O rapaz subiu apressado pelas escadas que davam acesso à área do hospital que tratava dos seres humanos. Entrou em um dos quartos com pressa, ainda a tempo de ver o céu laranja que anunciava o sol se pondo, dando lugar à noite. Sua esposa fechou as cortinas e sua visão fora interrompida, sendo substituída pelos eventos que aconteciam ali.

 

Seu filho estava sentado em uma das cadeiras do quarto olhando preocupado para a irmã que estava em uma maca olhando deprimida para o pé engessado. Nos joelhos e cotovelos, algumas ataduras para conter pequenos sangramentos dos arranhados. A mulher adulta, sua esposa, virou-se para ele com a raiva estampada em seu rosto; os olhos semicerrados, as sobrancelhas franzidas, o maxilar duro... Todos os sinais que seu esposo já conhecia e que o fazia tremer da cabeça aos pés.

 

— O que foi que aconteceu? — perguntou Ethan, aproximando-se da filha.

 

Amy massageou a ponte do nariz com uma mão e, com a outra, apertou a cintura, se contendo para não esganar o rapaz à sua frente.

 

— Ethan, você tinha um trabalho: Olhar a sua filha e não deixar o feijão queimar. Eu saí de casa por quinze minutos com o Nicolas para ir ao mercado eacabo encontrando sua filha com o pé torcido e com uma PokéBola nas mãos longe da supervisão do pai — ela parecia estar se controlando ao máximo para não gritar.

 

A menina se encolheu. Queria ser um Sandshrew e se esconder num buraco no chão. Apesar de sentir seu pai olhando para ela, ele não se manifestou.

 

— E-eu me distraí com a PokéDex... Me desculpe.

— Pedir desculpas é fácil, e se acontecesse alguma mais séria, suas desculpas iam servir pra quê?

— Calma, meu bem, eu só--

— Não me venha falar de calma, Ethan. Esse é o seu problema, você é muito calmo — Amy respirou fundo antes de continuar. —Da próxima vez vai ser o quê? Seu Typhlosion vai botar fogo no pomar do vizinho de novo?

— Como se o Quagsire não tivesse resolvido em cinco segundos...

— A questão não é essa! — a mulher alterou o tom de voz.

— E o que você quer que eu responda, então? — Perguntou o homem com a voz firme.

 

Houve um silêncio repentino entre os dois. As crianças os encaravam com os olhos arregalados, assustadas. Ethan e Amanda respiraram fundo e tentaram manter a calma.

 

— Você tem razão — disse Ethan. — Eu vacilei. Me perdoa.

 

Lágrimas vieram ao rosto da moça. Ela levou as duas mãos à face e as secou, as impedindo de cair. Ela não era de fraquejar.

 

— Tá tudo bem, foi só um susto. Me desculpa também, fiquei preocupada e... Enfim, eu não devia ter descontado em você. — Amanda se aproximou do rapaz e abaixou o tom de voz, certificando-se que apenas seu marido poderia ouvir, complementando: — Aliás, eu devia sim, mas aqui não é o lugar. Em casa, a gente conversa.

 

Ethan tremeu. Nunca vinha coisa boa quando sua esposa mencionava aquilo.

 

— E aliás... Você desligou a panela com o feijão antes de sair de casa, né?

 

...

 

Era possível ver da janela do Flying Taxi a fumaça preta que saía do telhado da residência onde Amanda Green morava com a sua família. As sirenes dos bombeiros e da polícia da cidade de New Bark eram audíveis do alto, dava pra ver os vizinhos se aglomerando na frente da casa, sendo afastados pelos oficiais e seus Growlithe enquanto a água dos Squirtle e Wartortle controlavam o princípio de incêndio que ocorrera ali.

 

Quando a cabine do Flying Taxi pousou a poucos metros dali a Oficial Jenny aproximou-se do casal que vinha correndo com as duas crianças na direção oposta.

 

— Senhor e senhora Heart, já está tudo sob controle, mas vocês não podem ficar aqui. Houve uma explosão na cozinha e...

— Sim. Meu excelentíssimo marido deixou a panela de pressão no fogo, ela explodiu e agora, além de uma criança manca, nós temos um prejuízo milionário e uma casa destruída — disse Amy olhando para a movimentação em frente ao endereço.

— É tudo minha culpa... É tudo minha culpa... — falava Nicole para si mesma sendo dominada por um choro intenso.

 

Um bipe tomou conta de sua cabeça. E então outro bipe. E aos poucos, foi possível perceber que esses bipes eram contínuos e que vinham do fundo da cabeça de Elaine, logo tomando conta do ambiente.

Ela abriu os olhos e viu as paredes brancas do quarto do hospital.Havia mais outras duas camas no quarto em que ela estava, mas não tinha outros pacientes. O lençol que a cobria era branco, assim como os que jaziam nas outras duas camas vazias. As lágrimas que ainda rolavam pelo seu rosto eram a materialização daquele sonho que, na verdade, ela lembrava ser uma memória antiga. E ao olhar para os curativos que tinham nela, lembrou-se do que havia acontecido no bosque e, em seguida, da figura misteriosa com a cabeça de monitor que a atacou sem motivos. Mas aquilo não teria acontecido se ela não fosse tão teimosa. A culpa era sempre dela.

 

Seus pensamentos foram desviados quando notou uma Chansey entrando pela porta do quarto. Sorrindo de forma simpática, aproximou-se da cama de Elaine e soltou uma exclamação feliz por vê-la acordada e consciente, mas reparou que a menina havia chorado. Tirou da bolsa o ovo que carregava e estendeu à garota que hesitou por um momento. O Pokémon gentilmente depositou o ovo na cama, em cima do colo de Elaine e a incentivou a pegá-lo.

O ovo estava quente, mas não ao ponto de queimar sua mão. Apesar de firme, a menina sentiu que ele não estava com a casca dura como um ovo normal, parecia até que estava cozido. Elaine instintivamente o cheirou e colocou a ponta da língua na casca. Estava salgado. Deu uma mordida e estava uma delícia!Assim que o engoliu, sentiu uma sensação de felicidade tomar conta de seu corpo de dentro para fora. Não conseguiu segurar uma risada e entregou-se completamente àquele sentimento.

 

Joy, a enfermeira local, entrou no quarto com uma prancheta na mão e deu um sorriso ao ver a cena.

 

— Chansey é um Pokémon muito gentil que costuma entregar os ovos que carrega para pessoas e Pokémon que estão machucados. Como você está se sentindo?

— Obrigada — respondeu a menina. — Me sinto bem melhor.

— Você tem visitas.

— Eu? Quem?

 

Joy foi até a porta do quarto e acenou para alguém. Instantes depois, o rosto de Chase apareceu e Elaine notou que o garoto trazia hematomas nos braços e, assim como ela, curativos na bochecha e na canela esquerda.

 

— Ni! O que foi que aconteceu? — perguntou a menina em um misto de surpresa e temor. — Onde você se machucou?

— Sou eu quem te faz essa pergunta! O que aconteceu?

 

A conversa dos dois foi interrompida quando um homem ruivo com uma máscara dominó que cobria seus olhos entrou no quarto acompanhado de um Pokémon — seu Xatu. Elaine ficou tensa, mas seu irmão, por outro lado, sorriu.

 

— Essa é a minha irmã, Will. Você tinha razão, ela está bem! Então o Takara está bem também!

 

De forma elegante, o ruivo se aproximou da cama e curvou-se para cumprimentar a menina.

 

— É um prazer conhecê-la, senhorita. Esperava que minhas visões estivessem erradas e que eu pudesse conhecê-los em outro momento, mas infelizmente a mão do destino sabe ser traiçoeira quando quer. Vocês dois saberiam confirmar isso melhor do que qualquer um.

 

Por mais que não pudesse ver suas pupilas, Elaine sentia que o rapaz diante dela podia ler sua alma, dada a forma intensa com que ele a encarava.

 

— O-o que quer dizer? — perguntou ela.

— Eu sei que vocês não são dessa linha do tempo.

 

Chase e Elaine se olharam e arregalaram as sobrancelhas.

 

— Você lê mentes? — questionou Chase, recebendo um aceno negativo de Will.

— Mas como você--

— Eu sou treinador de Pokémon do tipo Psíquico — adiantou-se Will cortando a pergunta de Elaine. — Meu Xatu possui a habilidade de usar um golpe chamado Future Sight — Visão do Futuro. Através da telepatia, pude descobrir que algo não estava certo, alguma coisa no universo estava em desequilíbrio, muitas tragédias acontecendo em diversos lugares... Precisava colocar as ideias no lugar. Estava em Saffron quando alguém como eu disse que a visão que eu tive iria se esclarecer como um cristal.

 

— Alguém como você? — perguntou ela.

— Místicos. Pessoas que tem habilidades psíquicas. E por causa disso eu sei que vocês não são daqui e talvez por isso que os dois tenham sido atacados por aquele ser misterioso.

 

Chase encarou sua irmã.

 

— Foi aquela pessoa com a cabeça de monitor de computador que atacou você, Ni?

— Como sabe que ele usava um monitor de computador na cabeça?

— Porque ele me atacou também... E fez o Takara desaparecer.

 

Elaine ficou em choque. Seu coração acelerou e sua respiração começou a ficar ofegante. Chase tentou acalmar a irmã.

 

— Calma, Ni... O senhor Will disse que ele está bem. Mas precisamos saber o que aconteceu com você pra que a gente possa ir atrás e dar um jeito de trazê-lo de volta!

— Eu me lembro que ele apareceu do nada e começou a disparar uns raios dos dedos... Ele tinha um Pokémon que entrava dentro do relógio dele e aparecia na tela do monitor. Eu achei que eu estava sonhando...

— Foi a mesma coisa comigo. Eu ainda não entendi como que pode existir alguém assim.

— É como se não fosse desse mundo.

— E não é — disse Will. — Pelo menos ele não é dessa linha do tempo.

— Assim como a gente? — perguntou Chase.

— Exatamente.

— Mas por que será que ele está atrás de nós? — quis saber Elaine.

— Eu acho que é para apagar vocês.

— Apagar? Tipo, literalmente? — perguntou Chase.

— Eu sinto muito... — disse Elaine ficando cabisbaixa. — A culpa é minha.

— O que quer dizer com isso? — questionou Will.

— Se eu não tivesse parado pra ver aquele santuário na Floresta Ilex, a gente não tinha sido trazido pra cá... É tudo culpa minha.

 

Chase fechou a cara e olhou sério para sua irmã.

 

— Você não tem culpa de nada! O que aconteceu foi porque teve de acontecer. Agora a gente precisa dar um jeito de voltar pra casa e isso só vai dar certo se estivermos juntos.

— Eu tive um sonho hoje — Elaine interrompeu seu irmão. — Foi mais uma lembrança daquele dia que eu queria capturar um Pokémon pra mim e tudo deu errado... Você lembra?

 

O menino mudou sua expressão. A tristeza tomou conta de sua feição e o garoto cruzou os braços, agarrando as mangas da camiseta, como o fazia quando se incomodava com algo.

 

— Foi por minha culpa. Se eu não tivesse ido tentar capturar um Pokémon sozinha, eles não teriam brigado.

— Mas você lembra o que aconteceu depois, não é?

 

Elaine desviou o olhar e ficou reflexiva por um instante. As lembranças tomaram conta de sua mente como um rio que tranquilamente caminhava até o mar.

 

— A casa ficou fedendo a gás e a feijão queimado por um mês, papai e mamãe gastaram um dinheirão pra reformar a cozinha destruída e a vovó quase foi presa por tentativa de assassinato quando voltou de viagem e descobriu o que aconteceu — respondeu Elaine contando nos dedos.

— Ela tentou matar o papai. Foi engraçado — riu o irmão. — Mas é uma das histórias mais engraçadas que o papai conta no Natal. Então eu acho que no final das contas, tudo deu certo. Nunca mais a mamãe e a vovó deixaram o pai chegar perto de um fogão de novo, o que pra gente é uma vitória. Você lembra das gororobas que ele fazia, né?

 

Os dois caíram na risada. Will não pode evitar de abrir um sorriso também.

 

— Águas passadas não movem moinhos. Coisas ruins acontecem o tempo todo, pequena Nicole. Mas lembre-se de que você sempre terá o apoio daqueles que ama para superarem juntos todas as fases ruins que enfrentar.

 

O Pokémon do mágico desviou a atenção da conversa. Xatu adotou uma postura ereta, as pupilas em seus olhos deram espaço para um brilho branco. Will sabia que seu Pokémon estava tendo uma Visão do Futuro.

 

As portas do Centro Pokémon se abriram. Ethan caminhou pelo saguão de entrada acompanhado de Falkner, Whitney e Bugsy. O quarteto se dirigiu até o balcão de informações onde a Enfermeira Joy se encontrava.

 

— Bom dia. Eu vim visitar uma paciente de vocês, ela se chama Elaine — disse Ethan.

— Me desculpe, mas o limite de visitas por paciente é só de duas pessoas.

 

Ethan olhou para os Líderes de Ginásio. Falkner cruzou os braços e manteve uma expressão séria. Bugsy, com as duas mãos nos bolsos dos shorts verdes, estava distraído olhando interessado para uma teia de Spinarak no teto. Whitney olhava para o garoto com as mãos na cintura e a cara fechada. Escolher quem dos três iria acompanhá-lo não seria tarefa fácil.

Joy, no entanto, pareceu ler a mente do rapaz.

 

— Acho que você não entendeu. A paciente em questão já está com suas duas visitas no quarto.

— Provavelmente, os dois visitantes são os pais — comentou Whitney. — Pelo menos ainda existem pais de verdade nesse país que cuidam dos seus filhos.

— Isso foi muito específico. Tá tudo bem? — perguntou Bugsy. Com um aceno de mão, Whitney respondeu “deixa disso”.

— Mas é que nós somos amigos, viajamos juntos. Eu gostaria muito de poder saber se ela está bem... — Ethan tentou argumentar.

— Ela está. Terá alta em breve, caso vocês queiram esperar — a enfermeira não parecia disposta a dar brecha, mesmo lidando com três funcionários da Liga Pokémon.

— E o Chase? Tem um garoto da mesma idade que ela aqui, não tem? — perguntou Ethan.

 

Joy abriu o computador e procurou a lista de pacientes. O nome de Chase não constava.

 

— Ué. E cadê ele, então? — perguntou o rapaz.

 

Passos apressados ecoaram pelo saguão do Centro Pokémon. Claro que aquela figura bizarra chamou a atenção de todos, nem tanto pelo macacão verde que Whitney imediatamente achou cafona, mas muito pelo fato de haver um monitor de computador em sua cabeça — Ethan mal disfarçou sua empolgação quando reparou naquela pessoa.

 

— Esse é simplesmente O MELHOR COSPLAY que eu já vi na minha vida!

 

O garoto correu em direção à figura que tentou desviar. Foi aí que percebeu que a pessoa mancava e que trazia ferimentos no corpo pelos rasgos e estragos no macacão que vestia. Aquele desconhecido parecia ter tomado uma surra muito séria.

 

— Cara, você está bem? Precisa de ajuda? — perguntou o garoto em um tom preocupado.

 

A figura misteriosa simplesmente passou por ele e o ignorou, passando pela porta ao lado do balcão e seguindo em direção à área do Centro Pokémon que dava para os leitos dos pacientes, um corredor que não era tão longo, com poucos quartos disponíveis, mas dividido em dois andares, onde embaixo os Pokémon eram tratados e, no andar superior, os pacientes humanos descansavam.

 

— Ei, com licença, você não pode ir pra essa área sem autorização ou acompanhante — disse Joy para a figura misteriosa, que não respondeu.

 

Chansey saiu de trás do balcão e apressou o passo em direção ao ser esquisitão com monitor na cabeça, colocando-se diante delecom seus bracinhos erguidos e, com a cara fechada, impedindo sua passagem pelo corredor.O Pokémon podia ver o reflexo do seu rosto através do monitor desligado, sem saber qual era a feição humana que estava escondida por trás da tela.

 

O ser misterioso encostou em Chansey e descarregou um forte choque elétrico, a fazendo cair no chão paralisada. Com um grito, Joy correu para socorrer o Pokémon enquanto a pessoa fantasiada avançava pelo corredor em direção à escada que dava para o andar superior, onde os leitos para pacientes humanos estavam localizados. De alguma maneira, parecia que quem quer que estivesse vestindo aquele monitor de computador como máscara sabia exatamente quem ou o que estava procurando.

 

Ethan, juntamente com Bugsy, Whitney e Falkner, correram para auxiliar a enfermeira e seu Pokémon. Whitney sacou uma PokéBola e apertou seu botão central de onde saiu sua Miltank.

 

— Meu Pokémon pode ajudar a Chansey com o Milk Drink. Rápido, vão atrás desse maluco antes que ele machuque os Pokémon ou as pessoas que estão aqui! — disse a Líder em tom de urgência para os garotos.

 

O trio avançou pela área restrita do Centro Pokémon com suas PokéBolas em mãos e passos apressados em direção ao segundo andar do prédio. As escadas eram apertadas, Ethan, Falkner e Bugsy quase tropeçavam uns nos outros e só não caíram porque seguravam no corrimão.

No andar de cima, as paredes eram brancas, assim como os batentes e as portas dos quartos, que por sinal estavam em grande parte abertas. No rodapé do corredor haviam longas listras pretas incompletas, falhas, como se alguém que tivesse trajando botas de borracha tivesse andado por ali se apoiando nas paredes enquanto cambaleava — teoria que se comprovou quando os três treinadores localizaram a pessoa fantasiada saindo de um dos quartos logo a frente.

 

O ser misterioso voltou a entrar no quarto que havia acabado de sair. Enquanto corriam, o trio percebeu que dentro de cada quarto, as camas estavam reviradas, lençóis no chão, monitores destruídos. Algumas pessoas ainda de dentro do quarto olhavam para o corredor com expressões de pânico.

Quando alcançaram o quarto pelo qual a figura havia entrado, não havia saída. Uma cortina cobria uma janela de tamanho médio — o suficiente para entrar uma generosa luz solar que iluminava tudo e doses satisfatórias da brisa que soprava do lado de fora —, mas não o bastante para um ser humano adulto, como parecia ser o caso do ser misterioso, passar.

 

O quarto não havia sido destruído, talvez por falta de oportunidade, mas parecia que tinha sido usado recentemente. Os lençóis em cima da cama estavam bagunçados, havia uma bandeja com medicamentos em um criado-mudo ao lado da cama e, bem aos pés do móvel, um boné caído. A peça logo chamou a atenção de Ethan que teve a impressão de já ter visto aquele boné antes.

 

— Em nome da Polícia de Violet, você está preso! — anunciou Falkner. — Você não tem por onde escapar.

 

O ser fantasiado se colocou de costas e apontou o dedo indicador para a janelae disparou o seu Tri-Attack. A parede explodiu e Ethan e os dois Líderes de Ginásio que estavam com ele tentaram se proteger dos cacos de vidro misturado com pedaços de tijolo e alvenaria que se espalharam por todos os lados do quarto de hospital. Uma densa nuvem de fumaça se alastrou pelo ambientee um estampido foi ouvido.

 

— String Shot! — ouviu-se a voz de Bugsy.

 

Do meio da fumaça, uma aranha enorme de corpo escarlate se colocou na frente dos treinadores e disparou de suas presas um fino e quase invisível fio de teia que agarrou a cintura do ser misterioso segundos antes de pular pela janela. Enquanto caía, a figura tentou se livrar daquele material pegajoso de todo jeito. A teia, no entanto, impediu que caísse com violência no chão e saísse com algum membro quebrado. Um milagre.

 

De dentro do quarto destruído, Falkner alcançou o buraco explodido e olhou para a rua, vendo a figura fantasiada correr de forma desengonçada pela calçada, caçando espaço por entre a multidão que se aglomerava em frente ao Centro Pokémon, curiosa com a explosão de instantes antes. Ethan batia as duas mãos nas roupas tentando limpar a densa poeira que a impregnava.

 

— Droga, nós perdemos ele! Sabe-se lá onde é que ele vai se esconder... — comentou o Líder de Ginásio observando a rua. — Vou avisar na delegacia e disparar alerta máximo contra esse sujeito.

 

Falkner apertou o botão da PokéBola e de dentro da cápsula, um Pidgeotto surgiu abrindo suas belas asas e disparando veloz em direção ao céu, olhando para baixo e seguindo pelo ar o alvo com cabeça de monitor.

 

— Eu preciso trocar de roupas. Daqui a pouco eu começo a espir—ATCHIM! — o nariz de Ethan começou a escorrer e ele espirrava a cada vez que tentava limpar com a camisa suja de poeira.

— Não se preocupem — disse Bugsy. — Nós sabemos exatamente onde ele está indo.

 

Falkner olhou para o colega.

 

— Sabemos?

— Ariados conseguiu colar sua teia nele — disse o rapaz com um sorriso.

— E...?

— Os Ariados selvagens tem um comportamento interessante. Quando saem pra caçar e encontram sua presa, soltam teia nela e a liberta, assim, quando a vítima foge e volta pro seu ninho, Ariados consegue rastreá-lo e ao invés de predar um indivíduo só... Come vários de uma vez.

Falkner colocou as mãos no bolso e deu um sorriso.

 

— Assustadoramente interessante... Obrigado por nunca se deixar abater quando as pessoas dizem que os Pokémon Inseto são inúteis.

— Eu não ligo — respondeu Bugsy, devolvendo o sorriso. — A ignorância das pessoas não é algo que me abala. Eu acho que eu sou um bom Líder de Ginásio. Pelo menos eu sempre tento ensinar alguma coisa nova aos desafiantes. Faz parte do trabalho.

— Você é um excelente Líder de Ginásio, meu amigo — disse Falkner. — E eu fico muito feliz de sempre aprender com você.

 

Ethan espirrou novamente. Bugsy retornou Ariados para a PokéBola e, junto a Falkner, riu da alergia do menino. Com passos apressados, saíram do quarto destruído em direção ao térreo, com Ethan logo atrás espirrando loucamente. Ao voltarem para o corredor, voltaram a ver a Enfermeira Joy e Whitney com Miltank e Chansey, que parecia bem melhor.

 

— Que explosão foi aquela? — perguntou Joy.

— Eu não sei como ele fez... O mascarado simplesmente apontou para a janela e a explodiu, como se um raio tivesse saído do dedo indicador dele... — comentou Falkner. — Como está Chansey?

— Bem melhor... Acho que ela só precisa descansar um pouco. Eu já cuido disso. Por favor, encontrem aquela pessoa, não a deixem fazer mal a mais ninguém... — pediu Joy olhando para o trio.

— Estamos indo atrás dele. E pode ter certeza de que ele não vai escapar — disse Bugsy com firmeza. — Vamos seguir por terra e o Pidgeotto do Falkner está pelo ar.

 

Whitney se levantou e olhou para os rapazes.

 

— Eu vou com vocês.

 

Sacando uma segunda PokéBola, a garota liberou um Pokémon que, assim como Miltank, também era cor de rosa. Era grande em altura e seu corpo lembrava o formato de uma estrela, masnão de forma literal como o corpo de um Staryu. Possuía orelhas grandes e pontudas com pontas marrom-escuras e seus olhos pretos com rugas em ambos os lados olhavam o grupo de humanos em sua frente com determinação. Tinha um par de asas rosadas nas costas com três pontas cada e um tufo de pelos espiralado em sua testa.

 

— Clefable tem uma audição sensível e consegue captar qualquer coisa há metros de distância. Vamos cercar aquele idiota de macacão brega com a minha beleza, a fofura da Estelar e... A força bruta de vocês, eu acho — disse Whitney.

 

Joy levantou-se e correu até o balcão, onde se agachou e pegou alguns pacotes. Voltando depressa para o grupo, distribuiu os itens igualmente entre o quarteto.

 

— Essa remessa de Super Poções chegou ontem. Com certeza vocês vão precisar porque vai ser perigoso. É o que eu posso fazer pra ajudar por enquanto.

 

— Obrigado Enfer--ATCHIM! — tentou agradecer um Ethan de sinusite atacada.

 — Vamos pessoal, depressa! — exclamou Falkner enquanto corria até a porta do Centro Pokémon.

— Tome cuidado, por favor — pediu Bugsy à Joy antes de acompanhar o colega.

 

Whitney estendeu uma PokéBola para a enfermeira.

 

— Aqui. É a PokéBola da Miltank. Ela pode continuar ajudando na recuperação da Chansey com o Milk Drink e se aquele figurão aparecer, ela com certeza vai dar conta dando um Rollout nele.

 

Joy hesitou por um momento.

 

— Não precisa, senhorita Whitney, nós vamos ficar bem.

— Eu sei que sim. Por isso eu estou confiando o meu Pokémon mais precioso e poderoso da minha equipe, pra ter certeza.

 

Whitney sorriu e Miltank se colocou orgulhosa diante da treinadora e da enfermeira. Joy segurou uma lágrima e sorriu confiante.

 

— Certo! Boa sorte, vamos dar nosso melhor!

 

As portas automáticas do Centro Pokémon se fecharam imediatamente após os quatro passarem por ela na caçada pelo ser misterioso fantasiado.

 

***

 

O telefone tocou no apartamento. Umbreon e Houndoom ergueram as orelhas e deram passagem para a mulher de cabelos longos, ondulados e azul-prateados que com um suspiro de pesar, arrastou os pés até a escrivaninha e o tirou do gancho. Se a sorte estava ao seu lado, não seria mais um paparazzi querendo confirmar seu novo affair.

 

— Alô? — apesar de tudo, não conseguiu esconder a leve insatisfação de atender.

— Karen? É o Will.

— Não estou em casa — cortou a mulher.

— E eu liguei pra onde? Escuta, é uma emergência. Preciso de você.

 

A mulher gritou de susto quando Xatu apareceu no meio da sua sala de estar em um estalo. Umbreon e Houndoom prontamente se colocaram em posição de ataque e rosnaram para o Pokémon que não pareceu se importar. Prontamente se colocou na frente da mulher que o encarava com um olhar de pânico.

 

— Will... Por que é que o seu Pokémon se teletransportou pro meio do meu apartamento?! Como ele sabe onde eu moro?

— Ele vai te trazer onde eu estou agora. Por favor, não estaria pedindo se não fosse importante.

 

Ainda tremendo, Karen encerrou a ligação colocando o telefone de volta no gancho. Seu coração palpitava num misto de susto e ódio. Respirando fundo, a mulher cruzou a sala e pegou um casaco e duas PokéBolas que descansavam em cima da mesa. Retornou Umbreon e Houndoom para as cápsulas e as prendeu no cinto da calça branca que vestia. Caminhou até o Xatu que continuava parado como um totem no meio da sala e encostou em uma de suas asas, desaparecendo em um estalo abafado.

 

 

TO BE CONTINUED...



Capítulo 70



Chase se encontrava sentado no chão, com a cabeça apoiada nas palmas das mãos enquanto seus cotovelos eram apoiados nas coxas. Sua paciência estava se esgotando, permanecia sozinho no que já se pareciam horas desde que Ethan havia saído para ir atrás de Elaine, que não tinha voltado ainda da tarefa de ir buscar água fresca para preparar o jantar.


 — Que cabeçuda! Eu sabia que ela não tinha condição alguma de sair sozinha, ainda mais com aquele ovo! — comentou furioso com Takara, seu Pikachu, que por sua vez não parecia estar realmente interessado na conversa por estar atento ao que acontecia nos arredores. O céu, que antes ostentava um tom de laranja-avermelhado graças ao sol que aos poucos se escondia por trás das montanhas ao longe, dava boas vindas à noite que ia chegando.


O garoto pegou da mochila um casaco esportivo ao perceber o vento que soprava. Olhou o acampamento que havia montado e percebeu a diferença que fazia não estar com sua irmã e com Ethan, afinal os colchonetes estavam prontos, a fogueira consumia as madeiras, mas não havia como cozinhar nada sem os materiais que Elaine ficou de conseguir.


 — É, então eu vou ter que ir adiantando o serviço. Se você quer uma coisa bem feita, faça você mesmo. Vamos lá, Takara.


 O garoto levantou-se, pegou a mochila e arrumou a alça lateral alinhada ao peitoral antes de dar os primeiros passos em direção ao bosque por onde sua irmã se dirigiu mais cedo. Conforme a tarde ia caindo, alguns Pokémon iam desaparecendo por entre as tocas construídas escondidas por entre os capins enquanto outros, como os Caterpie, iam escalando vagarosamente os troncos das grossas árvores e se escondiam nos galhos por entre as folhas no topo delas; alguns inclusive se penduravam usando suas teias de seda esperando a evolução para Metapod que ocorreria a qualquer momento. Já podia se ver também os Hoothoot se preparando para sair para caçar e logo menos, a Rota 31 seria preenchida pelos já conhecidos pios que cruzavam a noite e, algumas vezes, misturavam-se com pios dos Pidgey durante alguns minutos ao amanhecer permitindo que uma sinfonia fosse ouvida por todas as criaturas que passassem por ali.


Pelo menos quase todas as criaturas que, de alguma forma, estavam naquela floresta naquele momento produziam seus barulhos característicos — até mesmo Chase fazia ruídos enquanto seus pés caminhavam pelo solo carpetado de mato e folhas secas. As orelhas de Takara, como sempre, permaneciam eretas tentando captar qualquer sinal sonoro estranho.


 Mas ele observava sem fazer barulho. Por trás de uma das imensas árvores, metros à frente, misturado por entre o denso bosque, em uma parte engolida pela escuridão e trevas, nem sua respiração era ouvida. Na verdade, ele nem parecia respirar. Os Pokémon que se escondiam naquela parte do bosque também não conseguiam ver seu rosto, coberto com uma tela de computador. Parecia machucado; subestimara seu oponente em sua última batalha — aquilo não aconteceria novamente.


 A figura misteriosa lentamente se deslocou em direção ao garoto e seu Pikachu, agindo como uma sombra, sem ser notado. Seus passos sequer faziam barulho, era como caminhar sob uma colcha de algodão.

Quando Chase e Pikachu perceberam sua presença, já era tarde demais.


 O grito de horror cortou a noite e fez os Hoothoot das árvores próximas e das distantes voarem assustados para longe, evitando o choque elétrico disparado das bochechas de Takara, pego de surpresa. Nenhum deles olhou para trás para ver o que estava acontecendo. Algumas das colônias de Metapod que penduravam-se nos troncos e galhos, no entanto, tiveram sua atenção voltada para o garoto logo abaixo, que tremia dos pés a cabeça enquanto era encarado pela figura misteriosa que permanecia parada a sua frente.


 Chase colocou a mão no peito e sentiu o coração disparar, a respiração rápida e ofegante fez com que o garoto mal pudesse formular uma frase inteira. Faíscas escapavam das bochechas de Pikachu que encarava a misteriosa figura com o semblante sério.


 — Q-quem é você? — perguntou o menino. — Você quase me matou de susto, cara! Qual é o seu problema?


 É claro que Chase não obteve resposta. O ser misterioso o encarava sem dizer uma única palavra. O garoto conseguia observar o reflexo de seu rosto através da tela desligada na cabeça daquela criatura. Agora que estava perto, conseguia ver melhor os detalhes daquela pessoa, sentir o cheiro de ferrugem que ela emanava, como uma máquina antiga abandonada ao relento, encharcada com água e castigada pelo sol e pelo vento. O macacão verde e a blusa azul traziam chamuscados e rasgos que, apesar de grandes, não se era possível ver a pele por debaixo da roupa.


E aquilo, claramente, não era normal.


 O ser anônimo colocou o braço direito na frente do corpo e, com a mão esquerda, puxou a manga que cobria o relógio digital, digitando alguns comandos.


A tela ligou e o reflexo do rosto de Chase fora substituído pelo sorriso sádico do Porygon2. O garoto deu alguns passos para trás e encostou no largo tronco de uma das árvores gigantes daquele bosque.


 Quase como um sussurro horripilante, a voz robótica da criatura misteriosa saiu pelos falantes do monitor que usava como capacete.


 — Game. Over.


 O humanoide simulou uma pistola com o dedo indicador e apontou na direção de Chase. Usando o polegar como mira, a figura mecatrônica disparou um raio na direção do garoto que intuitivamente se abaixou e sentiu o ar quente passar rápido por cima de sua cabeça. Chase, no entanto, reparara que um clarão originado pela luz da lua apareceu em sua frente e sentiu um vazio onde poucos segundos antes apoiava suas costas, o que o fez cair para trás — a árvore simplesmente desaparecera.


 A figura misteriosa voltou a apontar o dedo na direção do garoto e se preparou para disparar outro raio. Das bochechas de Pikachu, faíscas fagulhavam de forma ameaçadora. Takara se pôs à frente de seu treinador e os pelos em suas costas estavam eriçados. Mesmo com todos os sinais, o humanoide não temeu, nem mesmo ao vê-lo mostrando as presas. Apontou o dedo indicador para o Pokémon e atirou.


Assim que foi atingido, Takara congelara. Em um piscar de olhos, seu corpo desintegrou-se bem na frente de Chase, sumindo no ar como mágica. O garoto arregalou os olhos completamente aterrorizado, olhando para o vazio de onde segundos antes estava seu Pokémon. Suas pernas paralisaram, não se mexeu nem mesmo ao ver o ser humanoide apontar o dedo indicador em sua direção. Mirando na cabeça do menino, a figura misteriosa se preparou para disparar uma última vez, mas se distraiu quando sentiu uma sombra passar voando sob sua cabeça.


 Havia dois olhos. Dois grandes olhos vermelhos que, sob a luz da lua, encaravam fixamente o alvo abaixo e que, como flechas, voaram velozes e praticamente em silêncio, planando no que pareciam ser duas longas asas brancas como a lua. Tal qual como surgiu, embicou em direção ao solo e com a sua aproximação, pôde-se reparar que os dois olhos faziam parte de um ser maior. As penas esverdeadas só não eram mais chamativas e belas que as cores fortes que adornavam as pontas de suas asas e partes de seu corpo, como a grande crista vermelha no topo de sua cabeça.




 O humanoide deu alguns passos para trás e tentou se esconder atrás de uma das árvores próximas, mas sentiu seu corpo travar.


 — Xatu, Psychic! — gritou uma voz na escuridão.


 O homem com a tela de monitor de computador na cabeça foi erguido do chão e arremessado com força para o interior do bosque. Chase ouviu passos que caminhavam em sua direção e ao olhar para trás, viu uma figura surgir das sombras enquanto Xatu pousava suavemente ao lado do rapaz que se aproximava e parou em uma posição de totem. O que mais chamou a atenção do menino foi a máscara dominó que a outra figura misteriosa vestia, que cobria seus olhos e dificultando a sua identificação. O fraque preto ornava com a gravata branca com babados em seu pescoço e com o terno rosa perfeitamente alinhado, o que lhe fazia irritantemente elegante e, até certo ponto, démodé. O sorriso em seus lábios trazia uma certa malícia. Porém, diferente do que Chase esperava, não era para ele que a segunda figura olhava.


 

— Senhoras e senhores, o grande show de mágica desta noite começará em instantes — anunciou o rapaz em voz alta, com toda pompa. — O primeiro grande ato de um grande artista é a entrada triunfal. O elemento surpresa. 


Por entre as árvores, um raio colorido surgiu em direção ao segundo homem mascarado, mas o Tri Attack bateu de forma seca na frente do rapaz como se houvesse uma parede invisível entre ele e a escuridão, ricocheteou no ar e transformou-se numa nuvem de fumaça. O homem de terno não se mexeu. Passou a mão na franja dos cabelos púrpuros e sorriu de forma maldosa para o nada.

 

— O segundo ato: O truque de mágica. Mr. Mime, por favor.


 Chase não havia percebido, mas havia outra criatura ali próxima a ele. Era um Pokémon que ele nunca havia visto antes, pelo menos não pessoalmente. Seu corpo pequeno, redondo e com esferas em tom de magenta que também da mesma cor de suas bochechas. Não havia nada em suas mãos, mas Mr. Mime caminhava olhando para frente e mexendo os braços como se estivesse fazendo malabarismos.

 


— Você está cada vez melhor — Will aplaudia. — Por favor, apresente as cartas aos nossos espectadores.


 Mr. Mime fingiu tirar do bolso um pacote em um formato quadricular. Aproximou-se do treinador mascarado e simulou abrir o tal caixinha e a entregou para o rapaz que o pegou e, em um estalar de dedos, fez aparecer um baralho em suas mãos. As embaralhou calmamente e não pareceu perceber quando o ser mecatrônico avançou em velocidade impressionante carregando consigo uma fúria enorme, batendo com violência na parede invisível que Mr. Mime havia construído instantes antes.


 O mascarado sorriu.


 — Parece que nosso público está bastante empolgado para participar do nosso espetáculo. Chegou a hora, escolha uma carta.


 O homem misterioso estendeu a mão com as cartas viradas para baixo na direção da figura mecatrônica. O ser com o monitor de computador na cabeça apontou o dedo para o rapaz e disparou mais um raio colorido. O oponente mascarado, como uma sombra, desviou do tiro. Uma segunda árvore fora atingida e um grande buraco abriu em seu tronco.


 Uma das cartas lentamente caiu ao chão e revelou-se o naipe nela presente.


 — Que surpresa! O naipe do Coringa... Se parece comigo. 


Xatu saiu da posição de totem e se colocou ao lado de Chase, ainda em choque sentado ao chão. Mr. Mime também se juntou, se posicionando do lado oposto do garoto.


 — O terceiro e último ato, o grand finale. Precisa ser sempre mais surpreendente que a abertura.


 O homem mascarado pegou uma PokéBola do bolso do fraque e apertou o botão central, iluminando o local por breves segundos quando o raio vermelho que saiu de dentro dela se transformou em um Pokémon alto com três cabeças e que se assemelhava a um coqueiro.



 — Agradeço a presença em nosso espetáculo. Não voltaremos para o bis, mas, deixaremos um gostinho do que estamos preparando para nossa próxima turnê itinerante. Exeggutor, Egg Bomb!


 Das folhas no topo das cabeças do Pokémon, sementes em formato de ovos caíram no chão e explodiram, levantando uma densa cortina de poeira e terra e arremessando a figura mecatrônica alguns metros para longe. Ao levantar novamente, a constatação de que os Pokémon que enfrentava, o ser mascarado e o menino que perseguia já não se encontravam mais ali — sumiram no ar como o Pikachu que ele próprio deletara da existência usando o Teleport de Xatu.


 Aquilo o deixou furioso. Porygon2, de dentro do monitor de computador, soltou um estridente som eletrônico. As frequências foram tão intensas que fizeram os auto-falantes queimaram, silenciando sua voz robótica.

 

***


 A Cidade de Violet era bastante pacata, o destino favorito de muitos que procuravam por paz e tranquilidade. Era onde muitos idosos passavam os últimos anos de sua vida e a cidade se orgulhava da imponente construção da Torre Brotinho e de seus monges que passavam o dia cuidando de seus Bellsprout e meditando. Tinha também uma geografia privilegiada: Saídas para as maiores cidades da região, sendo ponto de passagem obrigatória para todos aqueles que viajavam por Johto; afinal de contas, o Ginásio de Violet era uma ótima chance de treinar as habilidades de qualquer treinador Pokémon.


O povo de Violet também tinha orgulho de pertencer a ela. Talvez fosse por isso que, naquele momento, todas as expectativas estavam nos ombros de Falkner, o Líder do Ginásio local.  Já fazia quase um ano que havia herdado a função de seu pai e nesse tempo as suas responsabilidades só aumentavam. Claro que era um Líder competente — gostava de mostrar as vantagens que só os Pokémon do tipo Voador possuíam —, mas ele também se sentia responsável por cada pessoa, cada Pokémon, cada morador da cidade e sentia que, além de dar Insígnias para treinadores, seu dever era proteger aquelas pessoas.


 E era exatamente por isso que Falkner estava tão estressado aqueles dias. O tic-tac do relógio não amenizava o sentimento de expectativa e ansiedade do rapaz, apenas aumentava a sua irritação.


 — Você fica ainda mais gato quando faz essa cara séria, sabia?


 Whitney encarava Falkner enquanto mordiscava o lábio. Apoiava a cabeça nos dedos entrelaçados, que pressionavam um pouco mais os cotovelos da garota contra a grande mesa de vidro no centro da sala onde estavam. Ela era espaçosa, assim como era a construção do Ginásio de Violet, onde havia liberdade para os Pokémon voarem.Apesar da mesa, não havia muitos móveis fazendo decoração, mas uma janela panorâmica dava visão para a cidade, de onde era possível ver a Torre Brotinho e até mesmo as árvores do Parque Nacional ao longe.


 Falkner suspirou e fechou os olhos que segundos antes olhava para a paisagem. Afastou-se da janela e dirigiu-se à mesa, sentando-se de frente para Bugsy que, por sua vez, estava ao lado direito de Whitney. 


— É, parece que a reunião terá a participação de apenas nós três — comentou Bugsy, sem graça.


— Jasmine está supervisionando as obras de reconstrução do Farol Cintilante e Morty está investigando o paradeiro de Raikou, Entei e Suicune que estão à solta por aí. Não consegui contato com a Clair e Pryce se recusa a sair de casa de cadeira de rodas — numerou Falkner contando nos dedos. — Eu fiquei de receber a resposta do Chuck, mas até agora, nada.


 Um pio seguido de um bater de asas. Um Hoothoot adentrou a sala e pousou diante de Falkner, assustando Bugsy. A ave trazia um envelope pardo em seu bico e o entregou para o garoto de cabelos azuis, que gentilmente acariciou o topo da cabeça do Pokémon. Hoothoot bateu asas e novamente levantou voo, saindo por uma das janelas da sala. Falkner reconheceu a letra quase inteligível do remetente.


 — É do Chuck.


 O rapaz abriu o envelope e retirou uma carta de dentro dele.

  

Falkner,

 Não poderei comparecer à reunião. Eu realmente sinto muito, mas as coisas em Cianwood não estão em seus melhores dias. Percebo que as ondas estão mais ferozes e que o mar está muito mais bravio mesmo fora de noites de lua cheia. Neste momento, parto em direção às Ilhas dos Redemoinhos para verificar se tem alguma coisa lá que está influenciando tudo isso — tenho suspeitas desagradáveis. Desculpe por decepcioná-lo.

 O manterei informado. 

— Chuck.

  

— E o que isso quer dizer? — perguntou Whitney após algum tempo refletindo. — A ilha dele vai afundar?

— É mais sério do que isso. Tem alguém, ou alguma coisa, mexendo com o que não devia — respondeu Falkner.

— Isso explica muito... — comentou Bugsy baixinho em um tom de alerta.

— Explica o quê? — questionou Whitney assustada.

— Insetos são sensíveis ao meio em que vivem. Ando percebendo que os Pokémon insetos que moram na Floresta Ilex estão bastante agitados, mais do que o normal. Eu achei que fosse por causa da mudança da estação, muitos deles saindo da diapausa, que é quando seu metabolismo está mais lento, mas... Pode ser que tenha alguma coisa mexendo com o desenvolvimento deles.

— Por que você acha isso? — perguntou Falkner de forma séria.

 

Bugsy sacou uma PokéBola e apertou o botão da cápsula, liberando um Pokémon de dentro dela. Um Pokémon Joaninha voou alegremente pelo ambiente antes de pousar em frente ao seu treinador.

 


— Ledyba? O que tem de errado nele? — Falkner aproximava-se do Pokémon tentando ver seus detalhes.

— As antenas. Vê? Meus estudos indicam que há um diformismo entre machos e fêmeas, as antenas variam de tamanho entre os sexos, mas se vocês prestarem a atenção dá pra ver que as antenas desse Ledyba têm tamanhos diferentes...

— Então basicamente não tem como saber se é um joaninho ou uma joaninha? — Whitney riu da própria piada.

— É muito mais grave do que isso — Bugsy continuou sério. — Alguma coisa está interferindo na forma em que eles se desenvolvem e eu não sei o que é.

 

A fala de Bugsy foi interrompida pelo toque de um telefone que mostrou ser o PokéGear de Falkner. O rapaz pediu desculpas e logo tratou de atender o dispositivo.

 

A expressão de surpresa do Líder de Ginásio chamou a atenção dos colegas.

 

***

 

As paredes brancas não amenizavam a agonia que Ethan sentia enquanto balançava as pernas de forma impaciente. Ele não estava algemado, mas se sentia preso. O estreito corredor da delegacia causava uma sensação de claustrofobia, mas o garoto suava mais por preocupação com Elaine do que por incômodo com aquele lugar. Ele não sabia para onde haviam levado a menina, não sabia como estava o ovo Pokémon que viajava com ele e não sabia se Chase estava bem. Havia deixado parte de seus Pokémon com o menino, mas deixá-lo sozinho na beira da estrada não parecia, agora, ter sido uma ideia inteligente.

 

Quando um dos policiais se aproximou do Ethan, depois do que pareceram horas, o garoto não pareceu aliviado. Era só olhar para o rosto do oficial que podia-se saber que o garoto estava encrencado — era uma expressão de poucos amigos.

 

— Com licença, onde está a Elaine? — perguntou o garoto.

 

Mas o policial, apesar de continuar se aproximando, não respondeu sua pergunta.

 

— Venha comigo, por favor.

— Onde você vai me levar? Eu conheço os meus direitos! Eu quero um advogado!

 

Novamente Ethan foi ignorado, mas levantou-se quando o homem pegou pelo seu braço e praticamente o carregou, sem se importar com os protestos do rapaz. No fim do corredor havia uma porta que, ao cruzá-la, fez o rapaz soltar uma exclamação audível.

 

Falkner estava sentado na mesa de interrogatório enquanto Bugsy e Whitney aguardavam, em silêncio, encostados em paredes opostas. Já pareciam estar esperando o garoto e pareceram estar com certa urgência.

 

— Assim que eu fiquei sabendo que pegaram você, eu corri pra cá. Tinha que ver com meus próprios olhos.

— O que está acontecendo? O que vocês estão fazendo aqui? — questionava Ethan olhando para todos os presentes esperando alguma resposta.

 

Falkner esperou o policial que acompanhava o garoto se retirar da sala. O rapaz apontou para a cadeira que estava na outra ponta da mesa, de frente a ele. Ethan caminhou olhando de forma desconfiada para os três Líderes de Ginásio que o encaravam de volta em silêncio. Sentou na cadeira e estendeu os braços, colocando as mãos entrelaçadas em cima da mesa.

 

— Eu fiquei sabendo que você tinha sido detido pela polícia de Violet e eu confesso que eu demorei pra entender — começou Falkner. — Quando me contaram que pegaram um garoto destruindo uma área preservada e que ele era um treinador famoso, eu não acreditei.

— Falkner, eu não destruí nada! — exclamou Ethan.

— Você não pode provar, né? — Whitney cortou.

 

Ethan ergueu as sobrancelhas e abriu a boca para se defender, mas Bugsy interveio.

 

— Os Beedrill chegaram a atacar você enquanto você estava lá?

— Não! Quer dizer, eu acho que não... Elaine nocauteou alguns, mas eu só pensei em resgatá-la. Eu acho que eles estavam atacando algum oponente que estava batalhando com ela, mas...

— Então eu acredito que não foi você que tenha causado aquilo.

 

Falkner olhou para o colega.

 

— Os Beedrill têm uma tendência a serem violentos.

— Mas, como qualquer Pokémon selvagem, só atacam quando são incomodados. E são inteligentes o bastante para discernir entre um alvo e uma distração.

 

Houve um breve silêncio antes de Ethan o quebrar.

 

— E quanto à Elaine?

— A menina? Ela está bem. Estava em estado de choque, mas conseguimos acalmá-la. Ela já deu o depoimento dela a meus colegas investigadores.

 

O garoto ergueu o cenho.

 

— Faz meses desde que nos vimos pela última vez, quando lhe entreguei a Insígnia Zephyr — continuou Falkner. — Desde então, muitas coisas aconteceram. Coisas ruins.

— Lembra quando você esteve em Azalea e você acabou no Poço Slowpoke, sequestrado pela Equipe Rocket? — questionou Bugsy.

— Eu jamais poderia esquecer disso... — suspirou Ethan.

— Pois bem, eu confesso que havia achado estranho todo o ataque em Azalea... É uma cidade pacífica. Eu conheço cada rua, cada estrada, cada morador... Eu não me convenci de imediato que alguém poderia fazer mal aos Slowpoke que moram lá.

— Até que eu soube da notícia que a Equipe Rocket estava cortando as caudas dos Slowpoke para vender.

 

O tom de voz de Whitney era sério. De braços cruzados, a menina mantinha um semblante fechado, com cara de poucos amigos, muito diferente da moça mimada que Ethan havia enfrentado meses antes no Ginásio de Goldenrod.

 

— Quando aqueles cretinos invadiram e praticamente destruíram a torre da Rádio de Goldenrod, a cidade toda saiu no prejuízo. A Rádio de Lavander começou a retransmitir a programação pra toda área de Johto, mas perdemos patrocínio. Foi quando eu fui cobrar providências da Elite que eu percebi que não era só Goldenrod que estava sob ataque... Bugsy estava lá também, falando sobre o que aconteceu com os Slowpoke... Eles se fortaleceram debaixo do nosso nariz. A polícia encontrou vestígios dos capangas Rocket no subterrâneo da cidade e eu jamais vou me perdoar por não ter conseguido perceber antes... — Ethan se assustou ao ver Whitney socando a parede com força.

— Eles usavam o dinheiro da venda dos rabos de Slowpoke e se escondiam no subterrâneo de Goldenrod sem levantar suspeitas.  Agindo nas sombras, muito diferente da Equipe Rocket de três anos atrás... — comentou Bugsy.

 

Ethan parecia refletir sobre aquilo o que ouvia. Mas uma dúvida ainda pairava sob sua cabeça.

 

— Mas por que é que eu estou aqui?

— Porque você acompanhou de perto cada tragédia em que a Equipe Rocket teve participação — respondeu Falkner.

— Vocês não acham que eu tenho alguma coisa a ver com isso, né?

— Você tem, sim — disse o líder. — Não do jeito que imagina, mas tem.

 

O garoto levantou-se da cadeira de forma abrupta.

 

— O que você tá querendo dizer com isso? Você não acha que eu estou trabalhando pra eles, né?!

— Você se lembra da nossa batalha de Ginásio, quando você usou seu Cyndaquil? — Falkner, diferente de Ethan, não alterara seu tom de voz, permanecendo com a expressão séria. Apesar disso, o jeito firme com o qual havia se dirigido ao garoto o fez se calar.

 

Ethan respirou fundo antes de responder, tentando não se exaltar novamente.

 

— Como eu já te disse, eu lembro de cada detalhe daquela batalha. Foi minha primeira batalha importante... Foi quando eu ganhei minha primeira insígnia. Foi quando o Quilava evoluiu.

— Esse é o ponto.

 

Ethan olhou para Falkner com a mesma expressão que tinha desde que havia chegado ali — a velha expressão de dúvida. Whitney não pode deixar de soltar uma risadinha.

 

— O que você tem de bonito, você tem de burro. Sem ofensa.

 

Bugsy a julgou com o olhar, mas ela fingiu que não percebeu.

 

— Não foi só seu Pokémon que evoluiu naquela batalha, meu Pidgey também alcançou o seu segundo estágio evolutivo, Pidgeotto — continuou Falkner. — Mas algumas semanas depois eu comecei a perceber que ele estava tendo dificuldades de voo. Como uma ave de repente para de voar? Eu comecei então a tentar entender o motivo disso. As coisas só começaram a fazer sentido quando eu fiquei sabendo que havia aparecido um Gyarados vermelho no Lago dos Magikarp... Logo começaram a dizer que ele foi forçado a evoluir com as radiofrequências da Equipe Rocket e aí eu entendi tudo.

 

Uma mistura de sentimentos crescia dentro de Ethan ao ouvir o relato de Falkner. Tristeza e raiva tomavam conta de seu coração e o garoto apertava os punhos com força.

 

— Eu sinto muito mesmo... — disse por fim.

— Você se tornou um grande treinador, conseguiu derrotar a gente e nossos outros colegas e sabemos como você deve ter noção de como é ter a vida atrapalhada pelos Rockets — falou Bugsy de forma séria. — Nós estamos trabalhando para recuperar nossas cidades das consequências causadas por esses malditos e precisamos de você enquanto isso para impedir que eles voltem a tomar o poder e tornar a vida de todo mundo um inferno.

 

Houve uma hesitação que pairou no ar. Bugsy, Falkner e Whitney encaravam Ethan que não fazia contato visual, preferiu encarar a mesa à sua frente.

 

— Eu não vou conseguir fazer isso sozinho. É demais pra mim.

— Você não vai estar sozinho. Nós vamos ajudá-lo com o que precisar — garantiu Falkner.

— Antes de tomar qualquer decisão, eu realmente preciso ver como está a Elaine...

 

Ethan levantou de supetão.

 

— O Chase! Onde está o Chase? Eu o deixei na Rota 31, junto com meus Pokémon enquanto fui procurar a Elaine!

 

Falkner levantou-se da cadeira.

 

— Eu o levo até ele.

 

 

TO BE CONTINUED...








- Copyright © 2015 - 2022 Aventuras em Johto - Dento (Willian Teodoro) - Powered by Blogger - Designed by CanasOminous -